Caderno de Resumos: Simpósios de 21-30

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SIMPÓSIO 21 - ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA E A CONSTRUÇÃO DE SUBJETIVIDADES NO DISCURSO ESCOLAR

Coordenadores:
Sinval Martins de Sousa Filho – Universidade Federal de Goiás - sinvalfilho7@gmail.com
Cristina Batista de Araújo – Universidade Federal de Mato Grosso - cristina.baraujo@uol.com.br

RESUMOS APROVADOS

1.
Título do trabalho: DISCURSO E SUBJETIVIDADE: A ESCRITA DO ALUNO UNIVERSITÁRIO
Autor(es): Nilsa Brito Ribeiro - Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará
nilsa@ufpa.br
nilsa@unifesspa.edu.br
Resumo: Este trabalho tem como objetivo analisar representações que alunos universitários constroem de sua escrita em resposta a demandas acadêmicas. Tomamos como material de análise relatos de duas turmas de um curso de Letras, produzidos em dois momentos da formação: no terceiro semestre do curso, durante a disciplina Leitura e Produção Textual, e no último semestre do curso, momento em que os relatos foram devolvidos aos alunos para que tecessem considerações sobre o que escreveram, considerando em suas reflexões, não apenas a escrita em si, mas também os modos como em seus relatos são representadas as práticas de escrita demandadas pela universidade, os modos como respondiam a estas demandas, as soluções encontradas para possíveis dificuldades enfrentadas no trabalho com a escrita. Em nossas análises, detivemo-nos às contrapalavras dos alunos, procurando depreender dos discursos e metadiscursos sentidos da relação do sujeito com a sua experiência de escritura, sem desvinculá-la de práticas discursivas da escrita que regulam o que escrever e como escrever, no domínio universitário. As análises apontam para sentidos que dialogam com valores e crenças da sociedade em geral, a respeito da escrita, e, em particular, com práticas discursivas da escola básica, de modo que esta fornece bases para a apreensão de novos regimes de verdade sobre a escrita perfilada na prática discursiva universitária. Por outro lado, da relação e inscrição do aluno no discurso universitário, sobressaem em seus relatos diferentes maneiras de ‘caças desautorizadas’; recorrências múltiplas a diferentes modos de constituição de autoria.
Email: nilsa@ufpa.br
Palavras-chave: Discurso; Subjetividade; Escrita; Universidade
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BRITTO, L. P. L. de . Implicações éticas e políticas no ensino e na promoção da leitura. Leitura: Teoria e Prática. Campinas, SP: ALB, v. 20, nº 39, p. 16-30, 2002.
CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: RJ: Vozes, 1994.
FIAD, R. S. A escrita na universidade. Revista da ABRALIN, v. eletrônico, n. especial, p. 357-369, 2011.
FOUCAULT, M. O que é um autor? s.l: Editora Passagens, 1969.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1971.
GERALDI, J. W. A aula como acontecimento. Pedro e João Editores. São Carlos, 2010.
GERALDI, J. W. Alfabetizações cotidianas. In: GARCIA, R. L e ZACCUR, E. (orgs.). Cotidiano e diferentes saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2006, p. 59-721.
LARROSA, J. O ensaio e a escrita acadêmica. Educação e Realidade. n. 28, v. 2, 28 jul-dez, 2003, p. 101-115.
MACHADO, A. M. N. Do modelo ao estilo: possibilidade de autoria em textos acadêmico-científicos. In: CALIL, E. (org.). Trilhas da escrita: autoria, leitura e ensino, 2007, p. 171-207.
ORLANDI, E. P. Discurso e Leitura. Campinas, S.P: Cortez/ Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996.
PÉCORA, A. Problemas de redação. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
RAMA, A . A cidade das Letras. São Paulo: Brasiliense, 1984.

2.
Título do trabalho: SABERES E PRÁTICAS NA FORMAÇÃO DOCENTE
Autor(es): Cláudio Luiz Abreu Fonseca (UFMT) clafonseca@hotmail.com
Cristina Batista de Araújo (UFMT) cristina.baraujo@uol.com.br
Resumo: A inserção de disciplinas nos currículos de Letras, além de ampliar as perspectivas de abordagem da linguagem, tendo em vista as suas manifestações concretas (BAKHTIN, 1992), é uma tentativa de atender à perspectiva sociointeracionista de linguagem que delineia a seleção e a forma como se devem trabalhar os conteúdos previstos nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (BRASIL, 1998). A reformulação de projetos político-pedagógicos dos cursos de Letras (BRASIL, 2002) tem inserido novas disciplinas em estudos da linguagem. Em vista disso, é necessário que se pergunte: Que discursos sobre a ciência da linguagem são privilegiados nos novos projetos político-pedagógicos em detrimento de outros? Que consequências a inserção de novas disciplinas podem trazer para as políticas científico-educacionais que orientam a formação do professor de língua portuguesa? Essas questões nos indicam a pertinência de se refletir sobre o momento de crise ou transição de paradigma(s) em estudos linguísticos e sua implicação na formação do professor de língua portuguesa. Para atender à demanda de sua época, a sociedade procura alinhar sujeitos do universo escolar e discursos que a ele fazem referência. Considerando que a linguagem constrói subjetividades, especialmente, durante a trajetória acadêmica, propõe-se refletir sobre a formação do professor de língua portuguesa, uma vez que os sujeitos são constitutivos entre si e, ao mesmo tempo, integram o discurso da história. Assim, é de fundamental importância articular o olhar objetivo e o olhar estético, a fim de se possibilitar a integração de saberes da vida concreta e do mundo teórico; da ética e da responsabilidade.
Email: clafonseca@hotmail.com
Email: cristina.baraujo@uol.com.br
Palavras-chave: Subjetivação. Ato responsável. Formação docente.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M e VOLOCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992.
BRASIL. Introdução aos Parâmetros curriculares nacionais. MEC, 1998a.
BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa, 5ª a 8ª séries. MEC, 1998b.
BRASIL. Diretrizes nacionais para a educação básica. BRASIL. MEC, 2002.

3.
Título do trabalho: Sujeitos-professores e a língua escrita: história, memória e implicações para os seus fazeres pedagógicos, identidades profissionais e processos de subjetivação
Autor(es): Filomena Elaine Paiva Assolini
Resumo: Apresentamos resultados de pesquisa, concluída, que investigou a relação que sujeitos-professores de língua portuguesa estabeleceram com a língua escrita, ao longo dos cursos de graduação por eles realizados. Buscamos compreender as consequências e reverberações dessas relações para suas atuais práticas pedagógicas escolares e construção de identidades profissionais. O aparato teórico-metodológico foi constituído pela Análise de Discurso de Matriz Francesa e contribuições advindas de estudiosos das Ciências da Educação. Compõem o corpus depoimentos escritos de trinta professores, a respeito de suas relações com a língua escrita e, também, sobre suas práticas pedagógicas escolares, no ensino fundamental. Observações de aulas ministradas por esses mesmos professores integram também o corpus. As análises discursivas realizadas indicam que: a) a memória discursiva sobre as relações com a escrita não se apaga, mas continua a reverberar no discurso do sujeito, afetando o processo de construção de sua identidade e subjetividade; b) sujeitos-professores cujas relações com a escrita foram marcadas por afetos positivos preocupam-se em oferecer aos estudantes pelos quais são responsáveis condições favoráveis de produção para que se posicionem como intérpretes; c) sujeitos-professores cujas relações com a escrita foram marcadas por vínculos e associações negativas inscrevem-se, sobretudo, em formações discursivas nas quais predominam as características do discurso pedagógico escolar autoritário; d) a problemática língua materna e língua nacional deve ser observada pelos cursos licenciatura, responsáveis pela formação de professores; e) é importante que esses cursos pensem a escrita articulada entre o linguístico, o histórico, o social, o ideológico, entendendo-a como prática cultural, espaço simbólico, lugar de interpretação e de subjetivação, a fim de contribuir para melhor
formação profissional do professor.
Email: elainefdoc@ffclrp.usp.br
Palavras-chave: Sujeito, língua portuguesa, escrita, discurso pedagógico escolar
Bibliografia básica:
ORLANDI E.P. A linguagem e seu funcionamento. 3ed. 1997. Campinas: Pontes Editores.
ORLANDI, E. P. Língua e Conhecimento linguístico: para uma história das ideias no Brasil. 2ed. Cortez, 2013.
PAYER, M.O. Memória da língua: imigração e nacionalidade. São Paulo: Ed. Escuta, 2006.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995.
PÊCHEUX, Michel. O papel da memória. In: ACHARD, P. (org.). O papel da memória. Campinas: UNICAMP, 1999.

4.
Título do trabalho: A CONSTRUÇÃO DE SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE DO ALUNO-LEITOR NUMA SEQUÊNCIA DIDÁTICA DO GÊNERO POEMA.
Autor(es): Cássia Rodrigues dos Santos - Faculdade de Letras – UFG cassiarodrigues25@hotmail.com
Resumo: Neste trabalho, objetiva-se verificar como se dá a formação de leitores a partir do ensino do gênero poema em uma sequência didática que contempla as habilidades e competências de leitura previstas na matriz de referência do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).
Trata-se de um estudo de natureza qualitativa-descritiva com uma proposta metodológica para o Ensino fundamental. No desenvolvimento do estudo, pretende-se responder as seguintes questões: i) De que modo o professor pode trabalhar com o ensino do gênero poema de maneira a despertar no aluno o interesse pela leitura?; e ii) É possível formar leitores a partir do desenvolvimento de determinadas habilidades e competências? Para a elaboração da proposta, parte-se uma sequência didática do “Caderno Educacional/SEDUC-GO” centrada no trabalho com o gênero poema e nos módulos da sequência que propõem atividades para o desenvolvimento de determinadas habilidades e competências de leitura. As bases teóricas são estudos sobre o tema gêneros discursivos-textuais de Mikhail Bakhtin, as teorizações sobre sequência didática de Dolz, Noverraz e Schnenwly e os modos de leitura previstos na matriz de referência com apontamentos de Lino de Macêdo. As conclusões, a partir da abordagem descritiva, sugerem que o ensino, que se propõe com base na teoria de gênero discursivo, em muitos aspectos não considera os sujeitos que operam o texto; o aluno-leitor.
Email: cassiarodrigues25@hotmail.com
Palavras-chave: Palavras-chave: Gênero textual; sequência didática; habilidades e competências; aluno-leitor.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
PROVA BRASIL. Disponível em . Acesso em: 22 de out. de 2014.
SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado das Letras, 2004.
MACEDO, L. Competências e Habilidades: Elementos para uma reflexão pedagógica. Disponível em . Acesso em 15 de out. de 2014.

5.
Título do trabalho: Representações e experiências de ensino e aprendizagem de língua portuguesa: contribuições para a inserção social de povos indígenas
Autor(es): Mariney Pereira Conceição - Universidade de Brasília marineydf@gmail.com
Resumo: Este estudo de natureza qualitativa tem como objetivo analisar as relações entre representações e experiências de aprendizagem de indígenas aprendendo português no contexto escolar na região centro-oeste do Brasil. A maioria das pesquisas sobre representações aborda o assunto de uma maneira geral, deixando uma lacuna no que se refere a contextos mais específicos, envolvendo aprendizes que representem diferentes culturas e línguas. Este estudo de caso teve como participantes indígenas da tribo Ualapiti, tendo os seguintes instrumentos sido utilizados para a coleta de dados: narrativa oral, questionário aberto e entrevista semi-estruturada. As seguintes representações foram identificadas: o extenso vocabulário da língua portuguesa dificulta a aprendizagem, falar e ouvir é mais importante do que ler e escrever e a língua portuguesa é necessária para a comunicação entre índios e brancos, entre outras. Entre as experiências relatadas destacam-se: o contato com a língua desde a infância auxilia a aprendizagem; a língua portuguesa interfere na aprendizagem da língua indígena pelas crianças nativas, e o ensino de português em escolas cujo público-alvo são indígenas não é muito bom. Os resultados da análise indicam que as representações e experiências dos participantes estão interligadas entre si, gerando um ciclo em que experiências influenciam a formação de representações que, por sua vez, influenciam o processo de aprendizagem da língua portuguesa pelos participantes. O estudo apresenta importantes contribuições para a pesquisa em relação às representações de povos indígenas. Esperamos que a realização desta pesquisa possa contribuir para os estudos na área de ensino e aprendizagem da língua portuguesa, e, em uma perspectiva mais ampla, nos auxilie, como educadores, na tarefa de conduzir os aprendizes indígenas a uma maior inserção social no Brasil.
Email: marineydf@gmail.com
Palavras-chave: língua portuguesa; ensino e aprendizagem; representações sociais; povos indígenas
Bibliografia básica:
AZEVEDO, Aline S. A sala de aula de língua estrangeira como fórum de discussão sobre as identidades de raça: compartilhando uma experiência intervencionista. In: FERREIRA, Aparecida de Jesus (Org.). Identidades sociais de raça, etnia, gênero e sexualidade: práticas pedagógicas em sala de aula de línguas e formação de professores/as. Campinas: Pontes, 2012, p. 51-76.
BARCELOS, A. M. F. & COELHO, H. S. H.. Emoções, reflexões e (trans)form(ações) de alunos, professores e formadores de professores de línguas. São Paulo: Pontes, 2010.
BREEN, M.P. Navigating the discourse: on what is learned in the language classroom. In: RENANDYA, W. A. & JACOBS, G. M. (Ed.). Learners and Language Learning, Singapore: Seameo Regional Language Centre, 1998: 115-144.
COPE, Bill; KALANTZIS, Mary (orgs.). Language education and multiliteracies. In: MAY, S.; HORNBERGER, N. H. (Orgs.). Enciclopedia of language and education: springer science, v. 1: Language policy and political issues in education, 2008. p.195-211.
MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Identidades fragmentadas: a construção discursiva de raça, gêneros e sexualidade em sala de aula. São Paulo: Mercado de Letras, 2002.

6.
Título do trabalho: A avaliação enquanto um dispositivo de subjetivação: a prova de redação do ENEM em questão.
Autor(es): Luciana Kuchenbecker Araújo - Universidade Federal de Goiás - E-mail: lubecker32@hotmail.com.
Sinval Martins de Sousa Filho –- sinvalfilho7@gmail.com
Resumo: Neste trabalho, propomos uma reflexão sobre a proposta de Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que elege o gênero dissertativo-argumentativo como referência para avaliação de competências dos sujeitos egressos da educação básica, sua repercussão e efeitos na constituição de formas de viver, isto é, nos processos de subjetivação dos candidatos às vagas das universidades brasileiras, as quais passaram a selecionar seus alunos mediante os resultados do ENEM. Trata-se de um estudo de natureza qualitativa-descritiva cuja proposta metodológica converge à análise dos documentos oficiais que regulamentam as propostas de ensino de LP no país, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (2006), bem como das provas de Ciências Humanas e suas tecnologias, da proposta de Redação e dos critérios de avaliação estabelecidos na Matriz de Referências do ENEM/2014. Através deste estudo, pretende-se responder aos seguintes questionamentos: i) Quais efeitos essa avaliação produz nos processos de subjetivação dos candidatos ao ENEM? ii) De que forma a escolha do texto dissertativo-argumentativo atua no campo de relações de forças e como esses campos se relacionam aos processos de subjetivação? iii) Ao se vincular ao ENEM, como o ensino de LP atua nos processos de subjetivação? Elegemos como referencial teórico os estudos de Foucault (2006) sobre subjetivação e as reflexões sobre a teoria dos gêneros discursivos-textuais de Bakhtin (2003; 2006), Bazerman (2006; 2009), Bronckart (2003) e Geraldi (1993). As conclusões sugerem que a escolha do gênero dissertativo-argumentativo como instrumento de avaliação pressupõe que o ensino de LP deva ser direcionado à subjetivação dos candidatos a partir de uma concepção de homem e linguagem que se ancora nos estudos tradicionais da disciplina Língua Portuguesa e, com isso, não se centra no desenvolvimento das habilidades indispensáveis às práticas discursivas sociais e ao exercício da cidadania.
Email: lubecker32@hotmail.com
Palavras-chave: Ensino; avaliação; ENEM; processo de subjetivação; gêneros discursivos-textuais.
Bibliografia básica:
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003a.
______. Marxismo e filosofia da linguagem. 8 ed. São Paulo: Hucitec, 1997.
BAZERMAN, Charles. Gêneros textuais, tipificação e interação. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2006.

7.
Título do trabalho: A PRODUÇÃO DE HISTÓRIAS DE VIDA NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DA LÍNGUA MATERNA: (RE)CONSTRUINDO SUBJETIVIDADES NO ESPAÇO ESCOLAR
Autor(es): Fábio José dos Santos - Instituto Federal de Alagoas - IFAL; santosfabiojose@hotmail.com
Resumo: Nos textos legais, nas discussões em âmbito escolar e também nos estudos contemporâneos na área da linguística aplicada e da linguística textual, tem-se difundido com frequência a necessidade da abordagem dos gêneros discursivos em sala de aula, sobretudo porque se considera que as práticas de linguagem se dão a partir de situações reais de produção e recepção de textos que inscrevem o sujeito na vida social para realizar ações concretas e marcar sua subjetividade através de seu discurso. Inserido na linha de pesquisa gêneros textuais e ensino, este trabalho tem como objetivo refletir sobre as contribuições teórico-pedagógicas do trabalho com as histórias de vida no processo de construção e reconstrução das identidades dos sujeitos no ensino-aprendizagem de língua portuguesa. A pesquisa é de base qualitativo-interpretativa e analisa dados obtidos a partir de histórias de vida produzidas por alunos do ensino Médio de uma instituição pública federal durante as aulas da disciplina Língua Portuguesa. Em nosso referencial teórico, dialogam saberes sobre gêneros discursivos e ensino (Marcuschi), compreensão acerca dos processos identitários (Hall e Moita-Lopes) e noção de dialogismo (Bakhtin). A análise dos textos dos alunos evidencia que as histórias de vida produzidas em sala de aula permitem a seus autores (re)significar, a partir do recurso da memória e do juízo crítico, as histórias individuais revisitadas, colocando-os em processo de escuta de si mesmos diante do(s) outros(s) com quem dialogam no discurso. Nesse processo, as subjetividades emergem discursivamente e vêm carregadas das marcas pessoais que se expressam, entre outros, nos gestos estilísticos, nas filiações ideológicas, nos silêncios e nos valores realçados ou rejeitados.
Email: santosfabiojose@hotmail.com
Palavras-chave: Histórias de vida. Identidades. Subjetividade.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução feita a partir do francês por Maria Ermantina Galvão G. Pereira; revisão da tradução por Marina Appenzeller. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Brasília: 1999.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomás Tadeu da Silva, Guaraciara Lopes Louro. 8 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola, 2008.
MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Identidades fragmentadas: a construção discursiva de raça, gênero e sexualidade em sala de aula. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2002.

8.
Título do trabalho: DOCUMENTAÇÃO DE PRÁTICAS DE ENSINO DE PORTUGUÊS NA CONTEMPORANEIDADE: O PROFESSOR EM FOCO
Autor(es): Wilton Divino da SILVA JUNIOR (Universidade Federal de Goiás. wiltonufg@gmail.com
Marco Aurélio Tomaz CARDOSO (Universidade Federal de Goiás. marcotomaz.letras@gmail.com
Resumo: Esta pesquisa se propõem a documentar as práticas contemporâneas de ensino de português vigentes nas escolas públicas de Goiânia (Goiás/Brasil). Este registro conta com a aplicação de um questionário aos professores de português de mais de 120 escolas públicas do município, buscando expor as diversas possibilidades de práticas escolares para o ensino de português. O questionário subdivide-se em 4 partes: 1. Informações gerais sobre a escola e a atuação do professor; 2. Prática pedagógica – uso de materiais didáticos e livros literários; 3. Prática pedagógica – conteúdos trabalhados, didática e método; e, por fim, 4. Procedimentos avaliativos. Considera-se para esta pesquisa alguns pressupostos atuais acerca da instituição escolar, como a visada historiográfica em Sibília (2012) que encara a crise da instituição escolar como uma distoante relação das subjetividades contemporâneas e os antiquados (e, portanto, ineficazes) procedimentos escolares de construção de sujeitos; já o casal Geraldi (2011) reafirma a crise do ensino, partindo de uma crítica acerca dos procedimentos avaliativos que resultam na aprovação ou reprovação do aluno produzindo exclusão em ambos os casos, ou culpabilizando exclusivamente o sujeito aluno, ou criando a ilusória correspondência entre certificação e aprendizagem. Práticas didático-pedagógicas obsoletas no interior da escola geram inúmeros problemas no processo de ensino-aprendizagem, a exemplo do que ocorre no ensino de português. Torna-se quase um consenso entre alunos de todas as séries da educação básica, o enunciado: “Eu não sei português”. Como é possível que um falante nativo de língua portuguesa não saiba a própria língua? O ensino descontextualizado da língua, que privilegia a memorização de regras impostas por uma gramática normativa do português padrão, a valoração de um ensino de literatura, cuja base é historiográfica, práticas de leitura instauradas pela repetição exaustiva da “boa” leitura realizada pelo professor, práticas de escrita sem funcionalidade sócio-comunicacional concreta (a não ser a de produzir um texto que será corrigido pelo professor e pontuado como vistas a uma aprovação), são estas as condições do processo de ensino-aprendizagem de português que possibilitaram a emergência do enunciado “Eu não sei português”. A escolarização excessiva das atividades de leitura e produção de textos, o ensino descontextualizado da metalinguagem através de exercícios mecânicos de reconhecimento categórico em fragmentos linguísticos, assim como a gramaticalização dos gêneros do discurso em sala de aula, após a disseminação da teoria bakhtiniana via Parametros curriculares Nacionais de língua portuguesa desde 1996, geraram uma situação calamitosa de descaso e total desinteresse pelo aprendizado.
Email: wiltonufg@gmail.com
Palavras-chave: ensino de português; sujeito professor; gêneros do discurso
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail. “Os gêneros do discurso”. In: ______. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. pp. 261-306.
BAKHTIN, M. (VOLOCHINOV). Marxismo e filosofia da linguagem. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 1995.
BRASIL. Orientações Curriculares para o Ensino Médio. I Vol. 1: Linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília: MEC/SEB, 2006.
BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa -3° e 4° ciclos. Brasília, 1997.
GERALDI, J.W. Portos de passagem. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
GERALDI, J. W. A aula como acontecimento. Portugal: Tipave, Indústrias gráficas de Aveiro. 2004.
SIBÍLIA, Paula. Redes o paredes? – la escuela em tempos de dispersión. Buenos Aires: Tinta Fresca, 2012.
SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.). O Sujeito da educação: estudos foucaultianos. Petrópoli, RJ: Vozes, 1994.

9.
Título do trabalho: “SER PROFESSOR” OU “TORNAR-SE PROFESSOR” DE LÍNGUA PORTUGUESA: EXPERIÊNCIAS NO PIBIB/UERN
Autor(es): Ana Maria de Carvalho - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte-UERN - carvalhoana1@hotmail.com
Maria do Socorro da Silva Batista - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte-UERN msbatista-@hotmail.com
Resumo: É um dos focos de discussões acadêmicas a ideia de que a formação oferecida pela maioria das licenciaturas não atende à complexidade e dinamicidade da docência. Com base nessa problemática, faz-se necessário refletir sobre a relevância de iniciativas que proporcionem a imersão dos licenciandos no âmbito escolar, considerando, porém, a sala de aula como lócus de aprendizagem e construção de saberes para a docência. Dentre essas iniciativas, está o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência - PIBID, desenvolvido pelo Ministério da Educação e Cultura - MEC e gerenciado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, com o objetivo de elevar a qualidade da formação inicial de professores nos cursos de licenciatura; criado, portanto, com o propósito de inserir os licenciandos no cotidiano de escolas da rede pública, oportunizando-lhes a participação em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter inovador e interdisciplinar, de modo a buscarem a superação de problemas identificados no processo de ensino-aprendizagem. Programa como esse se inscreve como força potencializadora nos modos de subjetivação de licenciandos, favorecendo, assim, a criação de sujeitos mais competentes para atuarem no magistério. Nesses termos, este trabalho intenta analisar a questão do “Ser Professor” ou “Tornar-se Professor” a partir de depoimentos de bolsistas pertencentes aos subprojetos de Língua Portuguesa do PIBID, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, retirado de um questionário aplicado através do google docs. Esta pesquisa, a qual se filia a uma linha discursiva, respalda-se teoricamente nos estudos de Foucault (1995), para quem o sujeito é produzido nas relações de força presentes nos planos do poder/saber. Também tomamos como base os estudos de Tardif (2010), Pimenta (1999) e Nóvoa (1999), que defendem a formação docente a partir de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal.
Email: carvalhoana1@hotmail.com
Palavras-chave: Práticas discursivas; modos de subjetivação; formação docente; PIBID.
Bibliografia básica:
FOUCAULT, Michel. 1995. O sujeito e o poder. In.: RABINOW, Paul e DREYFUS, Hubert. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Tradução de Vera Porto Carrero. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p. 231- 249.
FOUCAULT, Michel. 2010. A ordem do discurso: aula inaugural do Collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 20 ed. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola.
NÓVOA, António (Org.). 1999. Profissão professor. Porto: Porto Editora.
PIMENTA, Selma Garrido (Org.). 1999. Saberes pedagógicos e atividade docente. São
Paulo: Cortez.
TARDIF, Maurice. 2010. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes.

10.
Título do trabalho: As contribuições da sequência didática para a constituição do aluno como sujeito autor em produções textuais
Autor(es): Valéria Schmid Queiroz (Universidade Federal de Minas Gerais e University of North Carolina at Charlotte, valsqueiroz@gmail.com).
Resumo: Uma questão pertinente de ser trabalhada no ensino de produções textuais é a da autoria. Isto é, é papel da escola propiciar aos alunos a propriedade de aprender a se posicionar nas situações discursivas, assumindo-se, na medida do possível, como socialmente responsável pelos seus próprios enunciados. Portanto, temos como objetivo analisar a constituição do sujeito autor na produção de gêneros de base opinativa em textos de alunos das séries finais do Ensino Médio, buscando perceber como o aluno expressa sua subjetividade nas suas produções textuais, e, ao mesmo tempo, verificar a eficácia da sequência didática aplicada em sala para a coleta dos textos, conforme proposta por Schnewly & Dolz(2004), entendendo-a como um modelo de grande valia para auxiliar o professor no trabalho com o texto de um ponto de vista socio-discursivo, uma vez que incentiva o protagonismo do aluno como leitor e sujeito autor. Tomando como fundamentação teórica, especialmente, Bakhtin(2000), Schnewly & Dolz(2004), Possenti(1993) e Antunes(2003), analisamos um corpus constituído por textos coletados em turmas de escolas da rede pública brasileira. Por fim, como reflexão para um desenvolvimento ainda mais amplo desse trabalho, procuramos discutir a questão da subjetividade e do protagonismo também no ensino de língua estrangeira, buscando contribuir com o professor de Português para Falantes de Outras Línguas (PFOL) e para a constituição de um aluno de LE ou L2 que saiba se posicionar como sujeito ideológico na sua produção discursiva.
Email: valsqueiroz@gmail.com
Palavras-chave: Subjetividade; sujeito autor; sequência didática; gênero artigo de opinião.
Bibliografia básica:
ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola editorial, 2003.
BAKHTIN, Mikhail. A Estética da Criação Verbal. (tradução feita a partir do francês por Maria Ermantina Galvão), 3ª ed. São Paulo: Marins Fontes, [1979] 2000.
__________. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. / (V. N, Volochínov). (traduzido por Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira),14ª ed. São Paulo: Hucitec, [1929] 2010.
DOLZ , Joaquim. e SCHNEUWLY, Bernard. Gêneros e progressão em expressão oral e escrita. Elementos para reflexões sobre uma experiência suíça (francófona). In: Gêneros Orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras; 2004.
POSSENTI, Sírio. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

11.
Título do trabalho: Sujeito e Sentido: sobre o traço da escrita e os processos de subjetivação
Autor(es): Renata Chrystina Bianchi de Barros - PPGCL, Universidade do Vale do Sapucaí - renatabiabarros@gmail.com
Resumo: O presente estudo foi desenvolvido sob os fundamentos teóricos e analíticos da Análise de Discurso tal como formulada na França, por Pêcheux, e no Brasil, por Orlandi. Ora denominado “sujeito e sentido: sobre o traço da escrita e os processos de subjetivação”, a pesquisa objetivou a ampliação do debate acerca dos modos de subjetivação no espaço simbólico da escola, tomando a infância como recorte político e histórico para se pensar o ensino da escrita da língua, voltando-se para os anos iniciais do ensino fundamental formal. Para que os desdobramentos desse estudo, foram eleitos dois documentos governamentais que apresentam diretrizes e práticas para o interior da educação infantil: a resolução nº5, de 17 de dezembro de 2009, que institui diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil; e o Manual de orientação pedagógica “brinquedos e brincadeiras de creches”, ambos desenvolvidos pelo Ministério da Educação no Brasil. A opção por analisar um recorte de cada um desses documentos se deu por ter observado que a prática pedagógica orientada nesses documentos está inicialmente voltada à preparação do corpo, de modo que a escola, com suas práticas e entornos teóricos balizados por fundamentos integralizadores do sujeito, passa a instaurar uma condição de produção para o ensino da escrita voltado para a pedagogização do corpo em torno da adequação de movimentos preparatórios das vias perceptivo-cognitivas, esvaziados de sentidos. Opondo-se a essa situação, essa pesquisa apontou para as atividades de escrita como uma possibilidade de ser compreendida pela noção de corporalidade e de corpo-sentido, de modo que o traçar a letra passa a ser significado enquanto gesto discursivo, e não como efeito de um movimento corporal. Enquanto gesto, dele e sobre ele emanam sentidos, e marca uma posição para o sujeito existir.
Email: renatabiabarros@gmail.com
Palavras-chave: Língua; Linguagem; Sujeito; Sentido; Escola.
Bibliografia básica:
ORLANDI, E.P. Por uma teoria discursiva da resistência do sujeito. In: ORLANDI, E.P. Discurso em Análise: sujeito, sentido, ideologia. Campinas: Pontes, 2012. pp.213-234.
ORLANDI, E.P. . Relações de sentidos e relações sociais: escola e cidade. In: _____. Cidade dos sentidos. Campinas: Pontes, 2004. pp.149-156.
PECHÊUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. Eni P. Orlandi. 2ed. Campinas: Pontes, 1997.
SILVA, M.V.da. Espaços Urbanos – Espaços da Escrita. In: Escrita, escritura, cidade (I). Escritos 5. Campinas: LABEURB-NUDECRI-UNICAMP, 1999. pp.23-30.

12.
Título do trabalho: O cuidado de si na educação: em questão o caso Isadora Faber
Autor(es): Cristhiane Gomes dos Santos - Universidade Federal de Goiás cristhianeg@hotmail.com
Resumo: Neste trabalho, propomos uma reflexão sobre o cuidado de si na educação a partir da observação dos discursos produzidos pela estudante Isadora Faber, criadora da fanpage “Diário de Classe – A verdade”, uma prática de escrita na contramão das práticas regulares da disciplina Língua Portuguesa, na escola. Consideramos, como Foucault, que o cuidado de si é uma forma de o sujeito se constituir numa prática reflexiva consigo mesmo. Assim, Isadora Faber, através do uso de técnicas de si, exerce uma prática de subjetivação diferenciada neste universo e consegue produzir um discurso de resistência, demonstrando que é preciso primeiro governar a si próprio, nesse caso, corroborando com a construção de um processo de subjetivação na esfera escolar. Trata-se de um estudo de natureza qualitativo-descritiva cuja proposta metodológica consiste na análise discursiva de um recorte de postagens feitas por Isadora Faber no primeiro ano de funcionamento da fanpage. Através deste estudo, pretende-se responder aos seguintes questionamentos: i) Como o cuidado de si possibilita a emergência de um discurso de resistência? ii) De que modo o cuidado de si, observado na estudante Isadora Faber, alcançou outras pessoas e como possibilitou um processo de subjetivação? iii) As técnicas de si podem amenizar a ação do poder disciplinar sobre os corpos individuais? Elegemos como referencial teórico os estudos de Foucault sobre o cuidado de si e o processo de subjetivação. As conclusões sugerem que o cuidado de si na educação pressupõe a possibilidade de uma investida contra o poder e também a construção de subjetividades no contexto escolar, neste caso, mediadas pelas redes sociais, tomando a escola e a sala de aula como referências pertencentes aos princípios do cuidado de si.
Email: cristhianeg@hotmail.com
Palavras-chave: Isadora Faber. Cuidado de si. Resistência. Processo de subjetivação. Escola.
Bibliografia básica:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 3: O cuidado de si. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1985.
______. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, Hubert; RABINOW, Paul. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Tradução de Vera Porto Carrero. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
______. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

13.
Título do trabalho: Literatura no Ensino Médio: produção de identidades, institucionalidades ou subjetividades?
Autor(es): George Luiz França (francalgeorge@gmail.com; franca.george@ufsc.br)
Resumo: Os estudos de literatura, como componente curricular obrigatório incluído no Ensino Médio brasileiro, parecem ressentir-se do diagnóstico com que o Foucault dos anos 70, tendo se distanciado de seus estudos em que havia certo primado da intransitividade do discurso, diagnosticava em na entrevista intitulada "Literatura, loucura, sociedade" (no Brasil, incluída no volume I dos "Ditos e escritos"): "Visto que a literatura foi recuperada pelo sistema, com uma função social normativa, a subversão pela literatura tornou-se um puro fantasma, ou mesmo um álibi. A linguagem só pode ser reformada por uma revolução social, por uma reforma fora da linguagem." Partindo das aporias do trabalho com literatura na escola, as quais se enfrentam a partir da própria concepção institucional de que a literatura pode ser um saber mensurável - e de que sua interpretação pode estar nas contingências alternativas de uma avaliação nacional como o Exame Nacional do Ensino Médio, por exemplo -, este trabalho pretende explorar possibilidades de liberação de sentidos e produção de novas subjetividades a partir da leitura de literatura com estudantes do Ensino Médio. Nesse sentido, proponho uma releitura de documentos oficiais sobre a literatura como componente curricular à luz de um pensamento que a radique em seus próprios paradoxos, como a pós-estruturalista, para, a partir deles, propor práticas que nos permitam o afastamento ou questionamento de noções como autonomia e identidade nacional, que são sustentáculos de uma visão institucionalizadora do discurso artístico na escola.
Email: francalgeorge@gmail.com
Palavras-chave: Literatura; Subjetividade; Currículo; Ensino Médio; Brasil
Bibliografia básica:
BRASIL. Orientações curriculares para o Ensino Médio: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Disponível em:http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/book_volume_01_internet.pdf
FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos I. Rio de Janeiro:Forense Universitária, 1999.
______. Ditos e escritos III. Org. Manoel Barros da Motta. 2. ed. Rio de Janeiro:Forense Universitária, 2009.
MACHADO, Roberto. Foucault, a literatura e a filosofia. RJ: Zahar, 2005.

14.
Título do trabalho: Subjetividade e formação do leitor: o problema da ausência da leitura literária nos livros didáticos do ciclo 1 do Ensino Fundamental
Autor(es): Sheila Oliveira Lima - Universidade Estadual de Londrina sheilalima@uel.br
Resumo: A formação do leitor exige processos de subjetivação. Não há possibilidade de enlaçar o sujeito à prática leitora sem que seja tocada sua memória afetiva, tramada a partir dos muitos discursos que a constituem, vários deles tensionados pela linguagem poética. Logo, compreende-se que a leitura significativa apenas se efetiva quando é permitido ao leitor atuar por meio da subjetividade, fazendo verter do texto lido o encontro de si com outras possibilidades discursivas. Nesse sentido, a presença do texto literário desde os primeiros anos do ensino fundamental torna-se fulcral, na medida em que se trata de campo privilegiado para o reposisionamento subjetivo pela apropriação dos letramentos de prestígio. Entretanto, boa parte da ação escolar que objetiva a formação de leitores parece desconsiderar a vinculação entre subjetividade e leitura e, consequentemente, a relevância da leitura literária em seu espaço. Tal concepção conduz à aplicação de atividades centradas na apropriação de operações que habilitam a criança a esquadrinhar os textos sem comprometê-la efetivamente com a leitura em seu potencial formativo. Submetem, portanto, os sujeitos à condição de leitores funcionais, imobilizando posições discursivas construídas historicamente. Essas constatações resultam de pesquisa focada nas propostas de leitura veiculadas pelos livros didáticos (LD) de língua portuguesa do ciclo 1 do Ensino Fundamental. Após a análise dos dois primeiros volumes de dez coleções aprovadas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), observou-se que as atividades relativas ao texto literário desconsideram a necessária vinculação entre subjetividade e leitura, operando, em geral um tratamento estruturalista ou simplesmente voltado para o reforço de discursos de caráter doutrinário, em que a subjetividade não é autorizada. Tendo em vista que o LD é importante objeto difusor de discursos, a pesquisa alerta para a necessidade de rever os fundamentos das abordagens concernentes à formação do leitor, sobretudo no momento inaugural de sua jornada.
Email: sheilalima@uel.br
Palavras-chave: leitura; literatura; subjetividade; livro didático
Bibliografia básica:
BELINTANE, Claudemir; LIMA, Sheila Oliveira. A polifonia dos textos orais na infância e as matrizes linguageiras da leitura. In: DEL RÉ, Alessandra; FERNANDES, Silvia Dinucci. A linguagem da criança: sentido, corpo e discurso. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2008, p. 117- 134
CÂNDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CÂNDIDO, A. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995, p. 223-263.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: uma aula inaugural no College de France, pronuciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler – em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2001.
LIMA, Sheila Oliveira. Leitura e oralidade: as inscrições do desejo no percurso de formação do leitor. São Paulo, SP: s.n., 2006. (tese)
MAINGUENEAU, Dominique. Discurso literário. Tradução de Adail Sobral. São Paulo: Contexto, 2006.
MARCUSCHI, Luís Antônio. Exercícios de compreensão ou de copiação nos manuais de ensino de língua. In: Em aberto, ano 16, n.69, jan/mar. 1996, p. 64-82.
PETIT, Michele. A arte de ler ou como resistir à adversidade. Tradução de Arthur Bueno e Camila Boldrini. São Paulo: 34, 2009.
________. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. Tradução de Celina Olga de Souza. São Paulo: 34, 2009.
PINHEIRO, José Helder. Abordagem do poema: roteiro de um desencontro. In: DIONÍSIO, Ângela Paiva e BEZERRA, Maria Auxiliadora. O livro didático de português: múltiplos olhares. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005,p. 62-74.
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2010.

15.
Título do trabalho: A língua portuguesa nos modos de subjetivação escolar do povo Akwén-Xerente (Jê)
Autor(es): Sinval Martins de Sousa Filho - Universidade Federal de Goiás - sinvalfilho7@gmail.com
Resumo: objetivo analisar discursivamente como os Akwén-Xerente estabelece modos de se subjetivar quando usam a língua portuguesa na escola, ou seja, pretendo discutir como se dão os processos linguístico-discursivos de subjetivação dos sujeitos escolares e como tais imperativos são expressos nas práticas realizadas em sala de aula, em documentos, parâmetros, políticas educacionais e outros que dizem respeito à educação escolar indígena, particularmente os documentos que dizem respeito aos Xerente (Braggio e Sousa Filho, 2006 e Sousa Filho, 2011). O aporte teórico para o desenvolvimento do estudo respalda-se nos estudos de Foucault (1995), para quem o sujeito é produzido nas relações de força presentes nos planos do poder e do saber, e de Bakhtin (2000), para quem as práticas discursivas regulam as vidas dos sujeitos sociais e estes refletem e refratam aquelas. Trata-se de um estudo de natureza qualitativa-descritiva cuja proposta metodológica converge à análise dos documentos oficiais que regulamentam as propostas de educação escolar indígena no país e as minhas observações etnográficas das práticas pedagógicas dos Xerente. Os resultados apontam para a construção de elementos de subjetivação elaborados nas práticas discursivas da escola indígena e da escola não indígena, as quais fornecem bases para a apreensão de novos regimes de verdade sobre o sujeito e seus modos de agir socialmente.
Email: sinvalfilho7@gmail.com
Palavras-chave: Akwén-Xerente (Jê); subjetivação escolar; ensino de português.
Bibliografia básica:
BRAGGIO. S. L. B. e SOUSA FILHO, M. S. Questionamentos diante do desafio da inclusão dos povos indígenas no atual cenário: os Xerente. Em: Signótica, v. 18, n. 2. Goiânia: UFG, 2006, 215 – 230.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FOUCAULT, Michel. 1995. O sujeito e o poder. In.: RABINOW, Paul e DREYFUS, Hubert. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Tradução de Vera Porto Carrero. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p. 231- 249.
FOUCAULT, Michel. 2010. A ordem do discurso: aula inaugural do Collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 20 ed. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola.
SOUSA FILHO, Sinval M. de. Educação Akwén-Xerente (Jê): seus saberes e práticas frente aos modelos brasileiros de escolarização. Itabaiana: Gepiadde, Ano 5, Volume 10 | jul-dez de 2011. p. 190 – 207.

16.
Título do trabalho: Constituição de subjetividades no discurso e no letramento escolar
Autor(es): Paulo Roberto Almeida - Universidade Estadual de Londrina-PR - pralmeida@uel.br
Ana Lúcia de Campos Almeida - Universidade Estadual de Londrina-PR - analucpos@uel.br
Resumo: É por meio da linguagem que o indivíduo assegura-se não só de seu conhecimento de mundo e dos outros como também de si mesmo. É pela linguagem que lê e constrói o mundo, por meio do prisma social concreto. Na dimensão sujeito/lingua(gem)/mundo e no processo de constituição/construção de subjetividades,entendemos que os sujeitos se constituem dialogicamente pelo discurso ao interagir com as palavras alheias replicando com suas contrapalavras . E no letramento do domínio discursivo escolar os sujeitos entram em contato com o universo das palavras literárias – vozes polifônicas a impregnar o processo discursivo de constituição sociohistórica e cultural, e produzem enunciados em que materializam sua forma de ver/interpretar a realidade social. Constroem e se constroem na linguagem: ao manipular com e sobre a linguagem, sujeitos “trabalhadores” constroem um discurso e imprimem sua marca individual a um já-dito; completam-se/constituem-se nas falas do
outro, mas ao completarem-se/constituírem-se nas falas do outro, completam e constituem o outro através de suas falas; constroem posições que os “diferenciam” e os singularizam interdiscursiva e intradiscursivamente; constituem-se subjetivamente.Tomando como referência teórica os conceitos de letramento e a perspectiva de um sujeito “trabalhador”, norteada por uma pesquisa de cunho qualitativo, o presente trabalho tem como objetivo i) refletir sobre o processo de construção de narrativas de vida produzidas por alunos de graduação do curso de Letras, na área de formação de professores: suas histórias no contato com o mundo da escrita, ou seja, suas histórias de letramento; ii) indiciar nessas histórias os modos de um dizer, as táticas no trabalho de dizer o mundo por meio da linguagem. Nessa relação sujeito/lingua(gem), nosso olhar estará voltado para a manifestação de subjetividades de sujeitos e suas implicações na construção de posições de poder
vinculadas à sua apropriação de letramentos de prestígio.
Email: pralmeida@uel.br
Palavras-chave: letramentos; ensino; formação de professores; subjetividade
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fonte, 1992 (original de 1953).
CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1990.
POSSENTI, S. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
POSSENTI, S. et al. Discurso do outro: lá onde o sujeito trabalha. In: Alfa, São Paulo,
42:113-131, 1998.
STREET, B. Os novos estudos sobre o letramento: histórico e perspectivas. In: MARINHO, M. e CARVALHO, G.T. (Orgs). Cultura, Escrita e Letramento. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2010.

17.
Título do trabalho: A língua portuguesa em Moçambique: práticas discursivas, pedagógicas e formação de professores
Autor(es): David António (UP/UEM-CAPES/GEDUEM-CNPq, davidantoniosixpene@yahoo.com.br)
Resumo: O Português em Moçambique é a segunda língua para maior parte da população; coexiste com outras línguas nacionais e foi adotada como oficial, de ensino e de formação. Dadas as condições de emergência e de existência enunciativas, o dispositivo do pacto de segurança faz mover a sociedade daquele país, no exercício da biopolítica (FOUCAULT, 1999), cujo funcionamento institui condutas e possibilita a construção de subjetividades nas práticas pedagógicas. Sob tal regime de verdade, concebe-se tal língua oficial como uma das tecnologias de governamentalidade, possibilitando a criação de uma posição do sujeito que vigia e cuida do outro. Tais práticas pedagógicas fundam-se no Português europeu (norma prescritiva), criando possibilidade de confronto e de contradições no ensino e na formação com o Português falado em Moçambique (norma objetiva) (MONTEAGUDO, 2011). Sob a perspectiva da análise do discurso da linha foucaultiana e da linguística, o estudo cinge-se em realizar uma avaliação diagnóstica que possa estabelecer as relações conflituosas inscritas nas estruturas basilares do ensino da língua oficial, recorrendo à formação das modalidades enunciativas e dos campos de estabilização e de utilização. O mesmo vai contribuir para melhorar a qualidade de ensino e de formação de professores de Português, baseando-se numa prática discursiva e pedagógica responsiva à situação linguística do país. O corpus constitui-se de discursos de formandos e formadores em sala de aula e de dispositivos orientadores do ensino e formação de professores. Os resultados parciais da pesquisa apontam a existência de uma prática discursiva na qual o sujeito se estabelece numa pedagogia de variação, homogeneizando as práticas pedagógicas do ensino do Português como primeira e como segunda língua.
Email: davidantoniosixpene@yahoo.com.br
Palavras-chave: Português europeu/Moçambique; ensino e formação de professores de Português; práticas discursivas; práticas pedagógicas
Bibliografia básica:
FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros: curso no Cullège de France (1982-1983) / Michel Foucault; tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
______________. A Arqueologia do saber. 7ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2008.
______________. A História da Sexualidade I: Vontade do Saber. 13ª Edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999.
LOPES, Armando. Jorge. A Batalha das Línguas: Perspectivas sobre Linguística Aplicada em Moçambique. Maputo: Imprensa Universitária, UEM, 2004.
MONTEAGUDO, Henriques. "Variação e Norma Linguística: subsídios para uma revisão". In: LAGARES & BAGNO (Orgs). Políticas da Norma e Conflitos Linguísticos. São Paulo: Parábola Editorial, 2011, p. 15-48.

18.
Título do trabalho: A VIOLÊNCIA NA ESCOLA: A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO E AS RELAÇÕES INTERDISCURVAS EM COMENTÁRIOS VIRTUAIS
Autor(es): Francicleide Liberato Santos (UEPB) franliberato.prof@outlook.com
Orientador: Aloísio de Medeiros Dantas (UFCG) alodanta@yahoo.com.br
Resumo: O fenômeno da violência na escola não é algo recente, porém, com o passar do tempo, tornou-se algo cada vez mais recorrente no cenário educacional, transformando-se em um problema social preocupante que diverge opiniões em busca de soluções. A maioria dos estudos que versam sobre esta temática busca analisar como os alunos, os professores, a equipe administrativa, entre outros membros da comunidade escolar, veem este fato e os efeitos causados pelo mesmo. Nesse direcionamento, constatamos ainda que outra parcela da sociedade, que não se encontra diretamente entre os muros da escola, também se posicionam e demonstram como estes atos os desestabilizam enquanto sujeitos inseridos em uma prática social. É em torno desses últimos posicionamentos que desenvolvemos esta pesquisa. Escolhemos para a nossa análise os sujeitos que são impelidos virtualmente por notícias que expõem situações de agressões verbais e físicas verificados na escola contra profissionais
que atuam neste ambiente. Ao direcionarmos nosso olhar analítico em torno dos comentários, constatou-se que os internautas recorriam constantemente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estabelecendo com este uma relação interdiscursiva que garantia a produção e manutenção de determinados efeitos de sentido. É por meio do funcionamento discursivo das materialidades veiculadas na mídia virtual que se empreende uma análise de cunho discursiva, a fim de identificar por meio dos ditos, dos não-ditos, da (inter)discursividade presentes no fio discursivo as relações interdiscursivas entre os comentários de sujeitos leitores e o Estatuto da Criança e do Adolescente. O processo de identificação destas relações nos permitirá ainda analisar a posição-sujeito presente nos comentários dos internautas e em que Formação Discursiva apoia-se esta posição-sujeito. A partir destes apontamentos, nossa pesquisa ancora-se nos fundamentos teóricos-metodológicos da Análise de Discurso de vertente francesa, que tem como pioneiro Michel Pêcheux, e nos permite analisar os acontecimentos linguísticos em sua relação com a exterioridade. Em função deste campo teórico mobilizamos alguns conceitos basilares, a saber: sujeito, formação ideológica, formação discursiva, pré-construído, discurso transverso, inter e intradiscursividade que nos permitiram analisar os comentários dos internautas como um objeto empírico, capaz de revelar filiações ideológicas que representação o lugar discursivo destes sujeitos, as posições assumidas por eles em relação ao acontecimento discursivo violência em contexto educacional. A partir dos nossos gestos interpretativos, verificamos que as filiações ideológicas dos sujeitos internautas marcam a posição-sujeito ocupada por estes enquanto sujeitos inscritos em determinadas Formações Discursivas. As Formações Discursivas apontam para uma representação dos jovens como descaracterizados da proteção a estes reservada, os revestindo do caráter de marginal, criminosos que devem ser punidos.
Email: franliberato.prof@outlook.com
Palavras-chave:
Discurso. Sujeito. Estatuto da Criança e do Adolescente. Relações Interdiscursivas.
Bibliografia básica: Professora substituta da Universidade Estadual da Paraíba, Campus VI, Monteiro, PB. Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba ( UEPB - 2010), especialização em Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Materna pela Universidade Federal de Campina Grande ( UFCG - 2011) e mestrado pelo Programa de Pós- Graduação em Linguagem e Ensino da UFCG (2014). Trabalha com questões voltadas para Análise de Discurso de base francesa, atuando principalmente com os seguintes temas: concepções e práticas de produção de texto escrito, identidade (s) e discursos de resistência.

19.
Título do trabalho: O ensino escolar do português na França: momento histórico, políticas linguísticas e formação identitária do sujeito-aluno
Autor(es): Ingrid Bueno Peruchi - Université Paris Ouest Nanterre La Défense - França.
i.peruchi@gmail.com ou ibuenope@i-paris10.fr
Resumo: Partindo de uma perspectiva e de um referencial teórico próprio à Análise do Discurso de linha francesa, esta comunicação terá por objetivo relacionar a situação do ensino escolar do português na França no seu contexto das décadas de 1970-1980 com o contexto atual, a fim de compreender os efeitos das diferentes políticas educativas e discursos pedagógicos na constituição dos sujeitos implicados na prática pedagógica, ou seja, os alunos de português. De fato, se o primeiro momento desse ensino, nas décadas citadas, foi marcado por políticas linguísticas, por diretivas de ensino e por um discurso pedagógico que visavam à manutenção da então chamada « língua de origem », a fim sobretudo de promover a língua e os valores da nação portuguesa permitindo assim ao filho de imigrante o retorno ao seu país, a situação atual do ensino escolar do português indica, contrariamente às declaradas políticas em favor do plurilinguismo, um recuo na oferta e na valorização política e social dessa língua, num momento histórico que é, paradoxalmente, marcado por um retorno do movimento migratório português ao país, que alcança números semelhantes ao movimento dos anos 1960-1970. Porém, se aquele momento era marcado, na França, pela política de forte crescimento e do pleno emprego, os dias atuais vivem a austeridade, os cortes orçamentários e o consequente reforço de antigos sectarismos e movimentos xenófobos. Se o primeiro contexto contribuiu à formação de identidades marcadas pelo comunitarismo, visto que o retorno dessas populações não se efetivou, buscaremos, a partir das análises do discurso das políticas linguísticas e dos discursos didático e pedagógicos, entender de que forma o contexto atual abre espaço a uma formação identitária do sujeito-aluno ainda mais complexa.
Email: i.peruchi@gmail.com
Palavras-chave: ensino de português, língua de origem, migração e identidade
Bibliografia básica:
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FOUCAULT, Michel., L'Ordre du Discours. Leçon inaugurale au Collège de France, prononcée le 2 décembre de 1970. Paris: Gallimard, 1981.
HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais, org. Liv Sovik, trad. Adelaide La Guardia Rezende. Belo Horizonte, UFMG / Brasília, Representações da UNESCO no Brasil, 2003.
LAZARIDIS, Marie. « La scolarisation des enfants de migrants : entre intégration républicaine et mesures spécifiques ». VEI Enjeux, n°125, juin 2001, p. 198-208.
MELMAN, Charles. « C’est inadmissible », La Célibataire – revue de psychanalyse, Les incidences subjectives de l’immigration, n°12, vol.1. Paris : EDK, printemps 2006, p.5-8.
ORLANDI, Eni P. Análise do Discurso: princípios & procedimentos. ed. 6°. São Paulo: Pontes, 2005.
PERUCHI, I. B. « La politique plurilingue française et la place du portugais : quels statuts, quels arguments, quelles réalités pour la construction d’un imaginaire sur la langue ?”, Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n. 7, 2010 [En ligne] : www.pluralpluriel.org
PERUCHI, Ingrid B. Entre migration et plurilinguisme : la place du Brésil et de sa culture dans l’enseignement du portugais en France. Tese de doutorado defendida na Université Paris Ouest Nanterre La Défense em 13/12/2010 e realizada em cotutela com a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

20.
Título do trabalho: Práticas de leitura literária e interações verbais na Educação Infantil: construindo Subjetividades
Autor(es): Cristiene Galvão (FaE/UFMG) cristieneleite@outlook.com
Fernanda Rohlfs (FaE/UFMG) frp810@gmail.com
Mônica Correia Baptista (FaE/UFMG) monicacb@fae. ufmg.br
Vanessa Neves (FaE/UFMG) vfaneves@gmail.com
Resumo: A atuação docente possibilita a criação de um espaço potencial para o compartilhamento de significados que marca o compromisso ético e político da Educação. O diálogo revela-se, então, como uma forma de ligação entre a linguagem e a vida, construindo uma arena em que se confrontam diferentes valores e visões de mundo. Nessa perspectiva dialógica, crianças e adultos são produtores de textos e, portanto, reflexos subjetivos de um mundo objetivo que tentam compreender e se apropriar. O objetivo deste texto é analisar duas situações de aprendizagem registradas durante observações feitas no contexto da pesquisa-ação Letramento literário na educação infantil (FAPEMIG/CAPES) que, por sua vez, se filia à linha de pesquisa Educação e Linguagem da Faculdade de Educação da UFMG. A partir da concepção bakhtiniana de linguagem como elemento fundante na construção dos sujeitos, da concepção dialética entre pensamento e linguagem de Vigotski e das ideias de Benjamin sobre o caráter metafísico da palavra, buscamos refletir sobre as interações verbais que ocorrem entre professoras e crianças e analisar como essas interações se materializam em práticas que acolhem ou não as percepções, os sentidos e as interpretações que as crianças vão construindo a respeito da realidade. A metodologia utilizada é a da observação e de registro da prática por meio de gravações em vídeos, anotações e fotografias. A partir desses registros, o grupo de pesquisadores planeja reunião com os professores e, a partir da técnica de auto-confrontação, discutem e analisam aspectos a serem aprofundados e desafios a serem superados. Em ambas as situações analisadas, ocorridas em classes de crianças de quatro e cinco anos, as respectivas professoras leem livros de literatura. Na primeira delas, grande parte do tempo é destinada ao controle do comportamento das crianças e o texto literário é utilizado para transmitir conteúdos
tipicamente escolares. Na segunda situação, considerada uma prática dialógica, ler se torna uma atividade chave para resolver um problema proposto pela professora e cuja solução requer a participação do grupo. A partir da análise dessas duas práticas de letramento literário, concluímos que: a) o letramento, por ser uma prática social, requer situações nas quais a leitura e a escrita sejam empregadas como elementos repletos de significados para o grupo; b) para que efetivamente integre a vida do grupo, o letramento, na educação infantil, deve se respaldar na noção de que as crianças são participantes ativos de uma cultura própria que, ao mesmo tempo, se articula a processos culturais de outros grupos etários; c) o processo educativo possui uma natureza social, linguística e comunicativa que exige que o professor exerça o papel de guia na construção de significados que as crianças vão elaborando em um contexto complexo de atividades e discurso; d) o processo pelo qual a criança constrói sua subjetividade está intrinsecamente ligado à sua integração progressiva na comunicação verbal, pois à medida que essa integração se realiza, sua identidade é formada.
Email: cristieneleite@outlook.com
Palavras-chave: letramento literário - educação infantil - dialogismo – mediação - subjetividade
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e fisiologia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2012.
BENJAMIN, Walter. Sobre arte, técnica, linguagem e política. Lisboa, Antropos: Relógio d’Água Editores, 1992.
BRASIL. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÂO/CÂMARA DE EDUCAÇÃO BÁSICA (1998). Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília.
GOUVEA, Maria Cristina Soares. A criança e a linguagem: entre palavras e coisas. In: PAIVA, Aparecida et al (orgs.). Literatura: saberes em movimento. Belo Horizonte; Autêntica, 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
UNESCO/BRASIL (2002). Índice de Desenvolvimento Infantil, Relatório 2001. Disponível em: www.unicef.brasil.com.br. Acesso em: julho de 2013.
VIGOTSKI, Lev S. Imaginação e criação na infância: ensaio pedagógico:livro para professores. São Paulo: Ática, 2009.
________________. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

21.
Título do trabalho: Ensino de Leitura: o que pensa o professor? Discurso e prática em um estudo de caso nas escolas participantes do “Projeto Ler e Educar”, em Florianópolis – SC.
Autor(es): Meirielle Tainara de Souza (Universidade Federal de Santa Catarina - PPGLIN – meiri.letras@gmail.com)
Resumo: Pensando nos discursos que perpassam o universo escolar no que tange a formação dos sujeitos que frequentam e compõem as escolas, esta exposição tem por objetivo contribuir para com o simpósio aqui proposto, apresentando análises feitas a partir dos discursos dos professores participantes do Projeto “Ler & Educar: formação continuada de professores da rede pública de Santa Catarina”, proferidos em resposta à pesquisa sobre leitura e ensino proposta em seis escolas estaduais localizadas na cidade de Florianópolis – SC - Brasil. Os discursos em questão foram recolhidos a partir de reuniões quinzenais nas escolas participantes durante o ano letivo de 2014. As entrevistas semiestruturadas foram constituintes da segunda etapa da proposta de formação continuada fomentada pelo Projeto, que é desenvolvido em rede (UNESC, UFFS e UFSC) por meio do Programa Observatório da Educação (edital 049/2012/CAPES/INEP). A primeira etapa realizada no ano letivo de 2013
constituiu-se na inserção da equipe nas escolas participantes com visitas periódicas e análise dos documentos oficiais das mesmas, inclusive dos planos de ensino dos professores. O Projeto “Ler e Educar” visa investigar e discutir as práticas leitoras em dezoito escolas de educação básica que apresentam baixo IDEB e atendem comunidades de alta vulnerabilidade social, em três municípios do Estado de Santa Catarina: Florianópolis, Criciúma e Chapecó, pensando leitura a partir da concepção psicolinguística. As entrevistas com os professores tiveram como foco as concepções sobre leitura, ensino e aprendizagem, tendo em vista que estes sujeitos que ensinam estão também sob formação permanente. Os resultados preliminares apontam para uma mudança sutil em parte dos discursos ao longo dos encontros, a partir das intervenções da equipe nas escolas, revelando uma expansão de consciência do papel de professor em sala de aula.
Email: meiri.letras@gmail.com
Palavras-chave: ensino de leitura; papel do professor; discurso escolar; políticas públicas.
Bibliografia básica:
ALLIENDE, Felipe.; CONDEMARIN, Mabel. A leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Porto Alegre-RS: Artmed, 2005.
BARETTA, Luciane/ FINGER-KRATOCHVIL, Claudia/ SILVEIRA, Rosane. A percepção do leitor- professor em formação e seu desempenho em leitura. In: VENTURINI, Maria Cleci, BIAZI, Terezinha Diniz e OLIVEIRA, Sheila Elias de (orgs.). O professor no Brasil: dizeres contemporâneos. Guarapuava-PR: Editora da Unicentro, 2012.
IKLEIMAN, Angela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas-SP: Pontes, 2009.
SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Porto Alegre-RS: Editora Artmed, 1998.
SOUZA, A. C.; GARCIA, W. A. da C. A produção de sentidos e o leitor: os caminhos da memória. Florianópolis-SC: NUP/CED, 2012.

22.
Título do trabalho: ENSINO, ESCRITA E AUTORIA: A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO-AUTOR NO CONTEXTO ESCOLAR
Autor(es): CLEIDE CALHEIROS DA SILVA - INSTITUTO FEDERAL DE ALAGOAS (IFAL) cleidecalheiross@hotmail.com
ANTONIO CESAR DA SILVA - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE ALAGOAS (UNEAL)
ancesil16@gmail.com
Resumo: Este artigo tem o objetivo de discutir o entendimento do que seja autoria nos textos escolares dos alunos do ensino fundamental de escolas públicas do Estado de Alagoas. A compreensão da forma como um aluno se torna autor daquilo que escreve no ambiente escolarizado é fator preponderante para o desenvolvimento de sua competência discursiva. A conquista dessa competência se apresenta como fator indispensável dentro do processo de ensino e aprendizagem. E a aquisição dela se dá em diversos níveis, desde a constituição do aluno como leitor ao trabalho interdisciplinar entre as mais diversas disciplinas escolares. Trazer, portanto, não somente a ação pedagógica para o centro do debate, como também a formação do professor é determinante para que os processos educativos no que diz respeito à difusão de boas práticas de produção textual dentro da escola estejam sempre presentes e em constante vitalização, a fim de que os alunos se constituam como autores. Mais do que em qualquer outra época é importante que se faça hoje uma discussão teórico-reflexiva a respeito das noções de escrita, autor e autoria a fim de refletir sobre as probabilidades de se trabalhar com a escrita autoral e a construção do sujeito-autor no ambiente escolarizado. Para tanto, as obras de Michel Foucault, Mikhail Bakhtin, Roland Barthes e Roger Chartier dão forma à discussão entre escrita, autor(ia) e ensino, que constrói a noção de autoria e sujeito-autor proposta neste trabalho. Nesta pesquisa, o diálogo com duas produções de textos selecionadas para esta discussão ilustra como a questão da escrita, na escola, manifesta uma experiência singular de um sujeito que se faz autor exatamente ao passar por ela, deixando-se abarcar e ser abarcado pela experiência do escrever.
Email: cleidecalheiross@hotmail.com
Palavras-chave: PALAVRAS-CHAVE: ENSINO. ESCRITA. AUTORIA. SUJEITO-AUTOR. ESCOLA.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Estética da criação Verbal. (Tradução feita a partir do francês por Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997)
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 6. Ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
BARTHES, Roland. O rumor da língua. 5.ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
CHARTIER, Roger (orgs). Práticas de leitura: Estação Liberdade, 2009.
FOUCAULT, M. O que é um autor? Trad. António Fernandes Cascais e Eduardo Cordeiro. 3 ed. Portugal: Veja, 1992.

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SIMPÓSIO 22 – QUESTÕES SEMÂNTICO-SINTÁTICAS NA PESQUISA E NO ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Coordenadores:
Darcilia Simões - Universidade Estadual do Rio de Janeiro - darcilia.simoes@pq.cnpq.br
Paulo Osório - Universidade da Beira Interior - pjtrso@ubi.pt

RESUMOS APROVADOS

1.
Autor(es): Afrânio da Silva GARCIA - UERJ/SELEPROT/BRASIL
afraniogarcia@gmail.com
ffp.uerj@gmail.com
Título do Trabalho: Lost in translation: relativismo linguístico
Escolhemos o título Lost in Translation: Relativismo Linguístico para enfatizar um dos piores problemas da tradução: o relativismo linguístico, no qual palavras aparentemente sinônimas entre duas línguas apresentam nuances distintas, discrepâncias de valor ou especificidades de emprego. Ferdinand de Saussure foi o primeiro a esboçar aquilo que viria a ser chamado de relativismo linguístico, na sua dicotomia entre significado e valor, através do exemplo das palavras mutton, do inglês, e mouton, do francês, que, apesar de terem o mesmo significado, não têm o mesmo valor. Embora ambas signifiquem ovelha, têm um valor bastante diferente, já que mouton pode referir-se tanto à ovelha viva quanto a ovelha morta, enquanto mutton refere-se apenas à ovelha morta, havendo a palavra sheep para a ovelha viva. Benjamin Whorf e Edward Sapir propuseram a teoria do relativismo linguístico, em que cada língua tem uma forma relativa de perceber, discriminar e organizar os dados da realidade objetiva, através de palavras e expressões próprias e, num certo sentido, intraduzíveis. Pretendemos discutir essa diferenciação semântica, de valor ou emprego de palavras sinônimas no português, no inglês e no francês, e os problemas de tradução decorrentes.

2.
Autor(es): Aira Suzana Ribeiro Martins Colégio Pedro II / SELEPROT/ Brasil
airamartins@uol.com.br
Título do Trabalho: O léxico e a leitura de textos literários no ensino fundamental
É imprescindível que o jovem leitor seja apresentado aos textos consagrados da literatura nacional e universal. Embora haja no mercado interessantes releituras de clássicos da literatura, defendemos a ideia de que o leitor iniciante conheça o texto original sempre que possível. Atualmente, há, no mercado editorial, publicações que lançam mão de um cuidadoso projeto gráfico. O trabalho com a imagem, com as cores e com a diagramação torna o texto mais acessível ao leitor inexperiente. Nota-se, também, que essas edições conservam a linguagem original. Essa proposta, no entanto, esbarra em um problema: o léxico. Sabemos que o desconhecimento do vocabulário empregado no texto, muitas vezes escrito no século retrasado, representa um obstáculo para a leitura e entendimento da obra. Nesse sentido, pretendemos apresentar resultados de atividades de leitura de textos literários e estudo do léxico desenvolvidos em turmas do Ensino Fundamental. A realização desse projeto de leitura foi feito com base na teoria semiótica de Peirce (1975). Utilizamos obras que seguem a mesma linha de pesquisa, como Santaella (2001) e Simões (2009). Lançamos mão, ainda, de obras específicas sobre léxico de pesquisadores como Antunes (2009) e (2012) e Ilari (2001). Publicações referentes à questão da leitura também foram utilizadas para a realização do projeto e do trabalho escrito. As pesquisas sobre o assunto foram feitas em obras de autores como Cossom (2014) e Colomer (2003).

3.
Autor(es): Marcia Cristina ROMERO-LOPES UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP)
marcia-romero@uol.com.br
Título do Trabalho: Cenas enunciativas ou usos idiomáticos? Identidade e variação semânticas dos verbos COMER E QUEBRAR EM PB.
Fundamentado na Teoria das Operações Enunciativas (CULIOLI, 1990; CULIOLI, NORMAND, 2005; DE VOGÜÉ, FRANCKEL, PAILLARD, 2011) e inserido em uma pesquisa mais ampla direcionada à compreensão da identidade semântica de lexemas verbais no português brasileiro (PB) (apoio FAPESP 2013/07572-0), este trabalho propõe-se a analisar o funcionamento sintático-semântico específico a dois verbos ‒ COMER e QUEBRAR ‒ e o modo como esse funcionamento sustenta o processo de construção da significação dos enunciados por eles elaborados. Por meio da reconstituição de formas de regularidade semântica que lhes são próprias e que tendem a ser ocultadas pela extrema polissemia que caracteriza os lexemas verbais em seus diferentes usos, temos como objetivos específicos, em primeiro lugar, discutir o modo como se estabelece a organização de sua variação semântica em discurso a partir das formas de regularidade entrevistas, em segundo, mostrar como essa organização permite explicar usos considerados idiomáticos, comumente deixados de lado nas descrições de natureza sintático-semânticas. Como exemplo, analisaremos, entre outros usos tidos como idiomáticos, O pau quebrou na Câmara de Vereadores! e O pau comeu na Câmera de Vereadores!, em que os verbos COMER e QUEBRAR tornam-se semanticamente próximos e evocam um contexto de brigas ou disputas violentas, mostrando de que modo os mecanismos linguísticos da natureza semântica próprios aos verbos explicam essas construções e impõem restrições enunciativas não quaisquer (cf. a possibilidade de se dizer, no referido contexto, Quebrou o maior pau!, mas não Comeu o maior pau!, ou de se dizer O pau comeu solto!, mas não O pau quebrou solto!). O estudo tem na prática de elaboração de glosas seu fundamento analítico (FRANCKEL, 2011). Operação sustentada pela atividade epilinguística constitutiva da linguagem, a glosa estabelece-se pela manipulação controlada do material empírico, que expõe circunstâncias e restrições referentes ao emprego dos verbos em articulação com seus contextos de inserção.

4.
Autor(es): Ana Lúcia Poltronieri Martins
IFF/ SELEPROT / Brasil
anapoltronieri@hotmail.com
Título do Trabalho: Aspectos semânticos, sintáticos e discursivos da antonomásia do nome próprio
De acordo com as gramáticas tradicionais da língua portuguesa, denomina-se derivação imprópria ou conversão o fenômeno de passagem de nome próprio a comum e vice-versa. Muitos estudiosos da linguagem preferem chamar essa passagem de conversão subcategorial ou transubcategorização, a fim de marcar que a relação se dá entre duas subcategorias, ou subclasses, que pertencem a uma classe maior, a dos substantivos. Aliado a isso, na maioria das vezes, eles não evidenciam os traços formais que possibilitam essa passagem, pois já aparecem com a mudança de subclasse, como "damasco" e "quixote" (CUNHA; CINTRA, 2008). Diante desse quadro, é necessário explicitar os elementos que formam a estrutura interna da antonomásia discursiva do nome próprio, isto é, os determinantes e os modificadores, periféricos que ficam ao redor do núcleo referencial do sintagma nominal. Chamaremos determinantes os “ocupantes da porção do SN que precede o seu núcleo” (AZEREDO, 2000), isto é, ocorrem à esquerda do núcleo nominal, como os artigos definidos e indefinidos, os pronomes adjetivos, os quantificadores definidos (os numerais) e indefinidos (pronomes indefinidos) e modificadores os periféricos que ocorrem geralmente à direita, a posição canônica, ou não marcada. Os principais modificadores do núcleo nominal na língua portuguesa são os adjetivos, as locuções adjetivas e as sentenças relativas. O objetivo do trabalho é chamar a atenção para o processo de referenciação que os determinantes e os modificadores que formam a estrutura semântico-sintática da antonomásia do nome próprio revelam no processamento discursivo (NASCIMENTO; OLIVEIRA, 2004).

5.
Autor(es): Ana Larissa Adorno Marciotto
Oliveira Barbara Malveira Orfano UFMG, UFSJ - adornomarciotto@gmail.com / bmalveira@yahoo.com.br /
Título do Trabalho: Nominalizações deverbais em textos acadêmicos de português brasileiro: implicações para a descrição linguística e para o ensino
A nominalização é geralmente descrita como um processo morfológico em que uma raiz não nominal é convertida em nome. Como os nomes deverbais podem apresentar propriedades ligadas à natureza predicativa de suas bases (Lopes, 1996; Rodrigues, 2008; Grimshaw, 1990), este estudo investiga as nominalizações deverbais mais frequentes em textos acadêmicos, produzidos em português brasileiro (PB), e sua estrutura argumental. Os dados foram coletados e analisados por meio de instrumentos de corpora, tais como listas de palavras mais frequentes e lista de colocados. Com respeito à indicação explícita dos argumentos dos deverbais, os resultados apontam para o fato de que esse fenômeno está ligado ao fluxo entre informação nova e dada (Santana, 2006). Os resultados encontrados permitem também refinar o entendimento sobre as relações sintático-semânticas dos deverbais em textos acadêmicos, bem como chamam a atenção para a necessidade de criar uma nova centralidade no ensino de português acadêmico, baseada na observação de dados de língua em uso. Além disso, os efeitos pragmáticos do uso de deverbais com argumentos expressos, ou não expressos, precisa ser entendido do ponto de vista pragmático, relativo às demandas comunicativas decorrentes do domínio acadêmico. Esse entendimento tem impacto relevante para o ensino de português acadêmico, principalmente para estrangeiros.

6.
Autor(es): Maria Aparecida Cardoso Santos - UERJ – FSB / SELEPROT / BRASIL
aparecida.cardoso@yahoo.it
Título do Trabalho: Revisão textual e construção do sentido: um olhar sobre o papel do revisor de textos O pr
esente trabalho propõe uma breve reflexão, à luz da teoria da comunicação e da linguística textual, sobre as atribuições e a importância do revisor de textos acadêmicos. Considerando que o texto acadêmico possui especificidades para a sua elaboração e que há ainda escassez de literatura sobre o tema, torna-se fundamental trazer para a cena da produção textual este tipo de texto bem como o trabalho do revisor. Neste sentido, partimos de alguns princípios oriundos da teoria da comunicação e da linguística textual – além de nossa própria experiência profissional - como ponto de referência para a análise do tema. Norteamo-nos pelos seguintes princípios básicos, quais sejam: quem escreve pretende comunicar algo a alguém; o texto deve ser claro, coeso e coerente; o revisor do texto deve ser suficientemente lúcido para distinguir que trabalha com o texto dos outros, mas não escreve o texto dos outros, ou seja, ele é revisor e não coautor. Para ilustrar a análise, apresentamos exemplificações constituídas por fragmentos de artigos publicados em duas revistas acadêmicas produzidas por unidades da Universidade do Estado do Rio de Janeiro no sentido de apresentar uma pequena amostra dos problemas com os quais nos deparamos diariamente com o escopo de oferecer uma pequena contribuição tanto aos que escrevem e aos que revisam textos quanto aos que se debruçam sobre os estudos da linguística textual e da teoria da comunicação.

7.
Autor(es): Carmem Praxedes - UERJ/SELEPROT/BRASIL
clpraxedes@yahoo.it
Título do Trabalho: Tempo e lugar em italiano e português brasileiro – reflexões sintático-semânticas No âmbito da Semiótica Aplicada, a presente análise é uma revisão do ensaio Estudo Contrastivo entre a Análise Sintática Portuguesa e a Análise Lógica do Italiano no Período Simples (PRAXEDES et ali: 2005), disponível em http://www.filologia.org.br/ixcnlf/15/11.htm . Naquele momento, constatamos que os estudantes de graduação em Português-Italiano da UERJ se sentiam mais motivados quando a análise sintática da proposição simples – a análise lógica do Italiano – era realizada em contraste com a do Português do Brasil. E isso se justificava por duas razões correlatas: 1- a baixa proficiência em Italiano; 2- a necessidade de partir do sistema da língua materna – LM - para compreender a língua estrangeira – LE. Considerando tratar-se de um estudo de caso carente de material autêntico no par de línguas Português e Italiano, decidimos lançar mão da abordagem contrastiva, conforme Pierini (2005), para organizarmos um corpus em que se contemplasse: 1- duas línguas a serem analisadas sincronicamente; 2- a importância das culturas subjacentes nas estruturas linguísticas em análise. Urge lembrar que o próprio Robert Lado, em Introdução à Linguística Aplicada, valorizou as reflexões sobre a cultura e suas implicações para a aprendizagem de uma LE. Adotamos para a análise final dos resultados a fundamentação teórica de conceptus (Rastier: 1991) e a produção da visão de mundo (Pais: 1993). Diante dessas escolhas preliminares, selecionamos a música La Solitudine, de Renato Russo, a fim de desenvolvermos a análise sintática, o que fizemos exaustivamente na dinâmica da sala de aula, em pelo menos, 10 turmas. Das aulas, trabalhos, provas e discussões recorrentes, pudemos constatar que a maior dificuldade de compreensão ocorria, em nível semântico, com implicações semasiológicas e também onomasiológicas (no nível onomasiológico), essas últimas quando na explicação o docente tinha de buscar soluções de modo a expressar através de palavras, gestos ou imagens, um conceito em italiano, para o qual não existia uma definição em Português do Brasil que o expressasse plenamente. Posteriormente, organizamos um modelo preliminar contrastivo que poderá ser adotado em outras análises. Destacamos também que apesar da precisão terminológica da análise Italiana, se aproximada a do Português do Brasil, quando temos de identificar o complemento de lugar figurado, o de tempo determinado ou o continuado há uma série de informações as quais necessitamos organizar para o entendimento da visão de mundo do italiano pelos estudantes brasileiros.

8.
Autor(es): Claudio Artur O. Rei - UNESA / SELEPROT / BRASIL
arturrei@uol.com.br
Título do Trabalho: Eurico, O Presbítero & "Janela Lateral": um diálogo casual?
A Estilística não existe para impor normas sobre como deve ser o discurso, isso compete às Retóricas, que dizem, por exemplo, o que é concisão, como obtê-la e que efeitos dela tirar, principalmente na argumentação (Plebe; Emanuele). Mas a Estilística não é normativa, não estabelece se a concisão é desejável no discurso, apenas analisa-lhe determinados usos. É preciso avaliar a normatividade de forma consequente, pois ela não é, em essência, ruim ou boa. Que existe uma variação, no tempo e no espaço, no que tange à vida de uma língua, isso é inegável, e é sempre difícil estabelecer qual é o “grau zero da escrita”: é a norma culta, a científica ou a popular? Levar em conta, como o faz Jean Cohen (1974), ou seja, considerar o discurso científico como “norma”, contrapondo-se ao discurso literário como “desvio”? Seria, no nosso ponto de vista, incorrer numa impropriedade classificatória, pois se confrontam, entre si, dois discursos que são de naturezas distintas, cada qual possuindo caracteres e escopos próprios, uma vez que a linguagem literária não se afirma em oposição à linguagem normal, mas é uma sobreposição de linguagens em que manifestam estruturas complexas. Apoiados na Teoria da Iconicidade Verbal (Simões), podemos mostrar aos alunos, por exemplo, como a linguagem poética é constituída por uma estrutura complexa, pois acrescenta ao discurso linguístico um significado novo, surpreendente. Além disso, o signo linguístico não tem, como na língua comum, um caráter convencional e arbitrário, mas sua essência é a “iconicidade”, a capacidade de estabelecer não apenas uma configuração entre significante e significado, mas de semantizar triadicamente os elementos do sistema semiótico natural, pois apresenta polivalência (D’Onofrio). O poético apresenta-se como um feixe de possibilidades significativas, instaurando um processo de semiose ilimitada, pois encerra no seu núcleo sêmico a coocorrência de dois polos de uma oposição.

9.
Autor(es): Darcilia Marindir Pinto Simões / Maria Teresa Gonçalves Pereira - UERJ / SELEPROT / BRASIL
darcilia.simoes@pq.cnpq.br
mtgpereira@yahoo.com.br
Título do Trabalho: As relações sintáticas na obra de Lygia Bojunga: o fato linguístico-expressivo como motivação para o ensino de língua materna A presente comunicação baseia-se em pesquisa filiada à linha de pesquisa “Ensino de língua portuguesa: história, políticas, sentido social, metodologia e pesquisa”. A meta da investigação é aperfeiçoar a prática de ensino dessa língua com a exploração do texto literário, considerado exemplo significativo da concretização dos fenômenos linguístico-expressivos que o constituem, atribuindo-lhe os sentidos que o singularizam. Elegemos obras de Lygia Bojunga, escritora conceituada internacionalmente, como corpus para tais demonstrações. Objetivamos recortar fatos de ordem sintática que contribuem para a expressividade que emana dos textos, conferindo-lhe vigor, sutileza, humor e capturando o leitor com os elementos criativos da narrativa. A metodologia é a mediação adequada do professor conduzindo o aluno ao ritual iniciático da percepção de que, no caso, a sintaxe extrapola conceitos e regras em favor da expressividade. A base teórica é a estilística, com ideias de CRESSOT, 1980; GUIRAUD, 1970; MARTINS, 1997; MELO, 1976 e MONTEIRO, 2005, etc. . Orientamos a discussão dos recursos que moldam, estruturam, articulam e transformam a língua em objeto artístico. A utilização competente das relações sintáticas por Lygia Bojunga resulta em texto literário de qualidade, com um sabor que atende aos paladares mais exigentes, sem perder a coloquialidade que o caracteriza. O projeto em desenvolvimento visa a demonstrar que a língua literária reflete a cultura de um país, inserindo o indivíduo na sociedade a que pertence e construindo o percurso sócio-histórico e cultural indispensável à plena cidadania. Como se trata de um projeto em desenvolvimento, os resultados preliminares serão demonstrados no exemplário levado à comunicação.

10.
Autor(es): Cristina Felipeto - UFAL / BRASIL
crisfelipeto@hotmail.fr
Título do Trabalho: Práticas de escrita colaborativa realizadas por alunos do ensino fundamental: focalizando as reflexões sintático-semânticas através das rasuras orais
Alcançar o domínio da escrita envolve a articulação de inúmeros fatores, tais como didáticos, linguísticos, cognitivos, sociais, e sua consolidação só ocorre a partir de prática constante aliada a boas situações de aprendizagem. A escrita colaborativa pode ser uma dessas práticas pedagógicas bem sucedidas. Felipeto e Marques (2014, no prelo) puderam mostrar que, escrevendo em díades, os alunos escrevem textos mais longos com um número significativamente menor de erros ortográficos. O número de rasuras aumenta, o que parece estar ligado ao crescimento exponencial da capacidade reflexiva quando se escreve a dois. A escrita colaborativa em sala de aula é uma situação didática que coloca dois alunos em uma situação dialográfica (dialogando para escrever). Trata-se de construir um texto em colaboração através do diálogo, da negociação, a partir das proposições feitas por cada um. Este trabalho analisa a incidência de rasuras orais (Calil & Felipeto, 2014; Felipeto, 2013; Calil, 2012) com comentários dirigidos à sintaxe e à semântica quando dois alunos recém-alfabetizados combinam e escrevem um único texto. A partir do desenvolvimento do projeto didático "Contos do como e do por que" em uma escola particular da cidade de Maceió-AL, entre abril e junho de 2012, os alunos (corpus C e I) produziram dez "contos de origem" inventados. Todo o processo foi filmado e posteriormente transcrito, o que nos permite um ponto de vista privilegiado sobre o processo de produção escrita. A análise dos dados nos permitirá confrontar nossa hipótese, a de que há uma maior incidência de rasuras orais com comentários direcionados à semântica, já que o projeto desenvolvido na escola propiciou aos alunos uma boa situação didática. Para isto, dois campos sustentam teoricamente nossa reflexão: a Genética textual (Grésillon, 1994; Biasi, 2011) e a Didática da escrita (Bouchard e Mondada, 2005; Gaulmyn, Bouchard e Rabatel, 2001, dentre outros).

11.
Autor(es): Edson Domingos Fagundes - UTFPR / BRASIL
edsondfagundes@utfpr.edu.br
Título do Trabalho: Concordância nominal de número com nomes próprios compostos
A regra de concordância nominal (CN) de número constitui um caso de mudança em curso no português do Brasil (PB): conforme os trabalhos que seguem os estudos pioneiros de Scherre (1976, 1988), a marca -s de concordância aparece nos elementos do SN (sintagma nominal) que se encontram mais à esquerda do núcleo (as menina bonita). No entanto, levantamento de dados da CN nos dados do VARSUL Paraná evidenciaram ocorrências que, aparentemente, contradizem essa regra: essas academia militares; com moradores de conjunto habitacionais. A partir desses dados verificamos que há situações em que aparece um outro tipo de CN: trata-se dos nomes fantasia de alguns estabelecimentos comerciais, como Casas Pernambucanas, Casas Bahia, Móveis Capão Raso, Móveis Danúbio. Na publicidade apresentada por essas instituições, flagramos o seguinte: "Não adianta bater, eu não deixo você entrar, é lá na Pernambucanas que eu vou comprar"; "Estamos aqui na Casas Bahia"; "Por isso que a Danúbio faz tudo"; "As condições do Móveis Capão Raso do Pinheirinho estão realmente de arrasar". Vai-se discutir em que medida essa aparente não concordância (i) ou não transgride a regra geral de CN, (ii) ou instaura um caso de exceção a essa mesma regra.

12.
Autor(es): Eleone Ferraz de Assis - UEG / PUC-GO/ SELEPROT / BRASIL
leo.seleprot@gmail.com
Título do Trabalho: A busca pelo sentido em um texto incongruente
Esta comunicação dedica-se a compreender a tessitura textual dos fenômenos insólitos no romance A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, com base na associação entre a Teoria da Iconicidade Verbal e a Linguística de Córpus . Centra-se, especificamente, nas marcas linguísticas que representam ideias ou conduzem o intérprete à percepção de que o insólito é construído no texto por meio itens léxicos que constituem pistas icônicas. Merecem especial interesse, sobretudo, os substantivos, que, por serem palavras com alta iconicidade, participam da construção/representação de fenômenos insólitos e criam, por meio da trilha léxica, o itinerário de leitura para o texto-córpus. Para que os resultados sejam significativos, análise apoia-se nos recursos digitais da Linguística de Córpus (SARDINHA, 2004; 2009), que possibilitaram realizar uma pesquisa baseada em um córpus. A utilização da Linguística de Córpus permite levantar, quantificar e tabular os signos que corroboram com a compreensão da incongruência e da iconicidade lexical dos fenômenos insólitos em um texto literário, identificando os substantivos-nódulos e seus colocados, para avaliá-los quanto à incompatibilidade das escolhas lexicais realizadas pelo autor em relação às estruturas lexicogramaticais da Língua Portuguesa. A análise demonstra que a incongruência e a iconicidade lexical são identificadas a partir da seleção vocabular obtida pelo processamento digital e pelo confronto com o Córpus do Português. A análise comprova que os substantivos, como categorias linguísticas caracterizáveis semanticamente, têm a função designatória ou de nomeação na arquitetura de um texto em que se manifesta o insólito. Revela também que a incongruência lexical constitui-se em uma chave para a construção do ilógico, do mágico.

13.
Autor(es): Fátima Bispo - CEFET-RJ / BRASIL
fatimabis@gmail.com
Título do Trabalho: Seleção lexical neológica nas redes sociais: uma proposta para o ensino da língua
Sabendo-se que o discurso é um objeto histórico-social; uma produção social propagadora de sentidos entre interlocutores, de relações de força e poder, esta pesquisa visa a analisar aspectos sintáticos, semânticos e discursivos presentes em redes sociais, através de criações neológicas postadas pelos seus usuários. Ressaltar-se-á, nessa análise, que a neologia não configura um “processo de formação de palavras”, mas um evento natural de que dispõem as línguas para a entrada de novos itens. Assim, os léxicos das línguas dispõem basicamente de três mecanismos distintos para incorporar novas palavras: a construção de novas palavras, recorrendo-se a regras da própria língua; a atribuição de novos significados a palavras já existentes e a importação de palavras de outras línguas. Observa-se que o primeiro mecanismo apresenta variações ainda pouco estudadas no cotidiano escolar, no qual, geralmente, são privilegiados os processos de prefixação, sufixação e composição. Objetiva-se, portanto, mostrar que os usuários das redes sociais revelam, em seus discursos, uma competência linguística ao criarem palavras. Considerando-se que as redes sociais são uma forma inegavelmente atraente para os jovens, esta pesquisa propõe - como ponto de partida para se estudar em sala de aula o tema formação de palavras - uma análise de aspectos semânticos, sintáticos e morfológicos do discurso dos usuários das redes sociais. Dessa forma, acredita-se que tal corpus de estudo provocará nos educandos em questão uma identificação imediata, já que possibilitará que esses se coloquem como sujeitos da língua que falam e estudam. A metodologia deste trabalho consistirá na recolha dos neologismos de um site de relacionamento muito difundido na atualidade, o www.faceboook.com, o qual será definido através de um “corpus de exclusão” constituído por um conjunto de dicionários gerais recentes da língua portuguesa.

14.
Autor(es): Flavio García UERJ / BRASIL
flavgarc@gmail.com
Título do Trabalho: Discursos contra-hegemônicos em a Varanda do Frangipani, de Mia Couto: apropriações de estratégias de construção narrativa em favor do real animismo africano
O escritor moçambicano Mia Couto, em A varanda do Frangipani (1996, primeira edição), apresenta um “mundo possível” cujo espaço em que se desenrolam as ações narradas corresponde à velha fortaleza de São Nicolau. A fortaleza houvera sido um importante entreposto do período colonial. Ainda nos séculos XVII e XVIII, com o declínio do imperialismo ultramarino português, acabara desprovida de suas funções. Após a independência de Moçambique, em 25 de julho de 1975, e passada a Guerra de Desestabilização, que para alguns vai da independência até 1991 e, para outros, de 1977 até 1992, teria sido transformada em asilo para idosos. Durante os embates civis que assolaram o país, a velha fortificação servira de depósito de armas para um dos grupos que duelaram entre si em busca da hegemonia pelo poder local. É nesse cenário, de difícil acesso, pois um dos lados corresponde a penhascos escalpados, e outro a praia de areias minadas, que se desenrola a história centrada nos sucessos do xipoco Ermelindo Mucanca – indivíduo sem distinção na vida quotidiana do lugar, que fora sepultado sem receber os rituais necessários à cultura da terra –, revivido no corpo do inspetor Izidine Naíta – um nativo retornado depois de mais de vinte anos fora, a serviço do Estado, que vai ao asilo para investigar a misteriosa morte de Vasto Excelêncio, diretor assassinado –, por intervenção do halakavuma – ser mítico-mágico que promove contatos entre os mundos dos vivos e o dos mortos, habita o fundo da terra e convivia com Mucanga, semelhante a animal de estimação, nas raízes da frangipaneira. Recorrendo a estratégias de construção narrativa – protocolos da ficção – comuns a literaturas da América Latina – Novo Mundo, contorno de ex-colônias ibéricas –, o autor africano constrói um discurso contra-hegemônico inscrevível no que se possa nomear como vertente apropriada do Real Animismo Africano.

15.
Autor(es): Gessilene Silveira Kanthack - UESC / BRASIL - gskanthack@yahoo.com.br
Título do Trabalho: Advérbios em –mente na língua portuguesa: análise de propriedades sintático-semânticas
No intuito de ampliar os estudos de descrição que contemplam a categoria “advérbios” da língua portuguesa, objetivamos, com este trabalho, analisar propriedades sintático-semânticas que envolvem, particularmente, advérbios terminados em –mente. Para tanto, utilizamos, como corpus, textos veiculados pela Revista VEJA (entrevistas das páginas amarelas e reportagens de Capa), de onde coletamos estruturas sintáticas contendo esse tipo de advérbio. Na investigação, analisamos o posicionamento (se o advérbio figura num âmbito inferior à sentença ou se num âmbito igual ou superior à sentença) e a sua função semântica (se atua como modificador ou não), tendo como referências autores como Ilari et al (1990), Castilho e Castilho (1992), Neves (2000), Ilari (2007) e Castilho (2010), que já apresentaram importantes descrições sobre os advérbios na língua portuguesa. Comprovamos que o advérbio em –mente apresenta comportamento diversificado, tanto em termos sintáticos quanto semânticos, apontando, assim, a necessidade de se revisar e ampliar o tratamento dado ao advérbio no contexto escolar.

16.
Autor(es): Kall Anne Amorim e Eduardo Calil -UFAL / BRASIL
kallanneamorim@gmail.com
eduardocalil@me.com
Título do Trabalho: A gênese de discurso direto em manuscritos escolares: estudo comparativo entre duas díades de alunas recém-alfabetizadas
Reportar o discurso do outro é um dos fenômenos relacionados às formas de heterogeneidade mostrada propostas por Authier-Revuz. Muitos estudos se dedicam a compreender suas manifestações em diversos gêneros textuais, identificando suas características em textos publicados. Porém, poucos estudos dedicam-se a analisar seu processo de construção em manuscritos escolares. Este trabalho tem por objetivo discutir como escreventes novatos constroem o discurso direto (DD) de personagens em histórias inventadas. Partindo da Genética Textual e da Linguística Enunciativa, analisaremos a gênese de DD em narrativas ficcionais inventadas e escritas por duas díades de alunas (6 a 8 anos). Uma díade de uma escola particular da cidade de São Paulo (D1) e outra da cidade de Maceió (D2). Queremos responder como os DD são inventados por estas alunas, desde sua primeira enunciação oral, ocorrida durante o momento em que conversam sobre o que vão escrever até o momento em que o DD é inscrito na folha de papel. Para isso, consideramos um conjunto de 8 processos de escritura (4 de cada díade), registrado em vídeo, e seus respectivos manuscritos. Inicialmente, identificamos e descrevemos as marcas sintáticas, lexicais, semânticas e tipográficas do DD registrados nos manuscritos. Posteriormente, verificamos nos registros fílmicos, o que as alunas combinaram antes de inscreverem estes DD na folha de papel. Na D1 foram identificadas 23 DD nos manuscritos escolares e 114 DD construções enunciativas relacionadas aos DD dos personagens. Com frequência significativamente menor, os manuscritos da D2 apresentam apenas 4 ocorrências de DD em todos os 8 manuscritos e 12 formulações de DD nos respectivos processos. Apesar desta diferença entre uma díade e outra, a gênese destes DD nos processos filmados são semelhantes. Em ambas as díades, as ocorrências orais dos DD são acompanhadas por marcas entonacionais e gestuais que enriquecem o modo como os personagens falam. Nos manuscritos de ambas as díades, os DD, apesar de em números diferentes, apresentam estruturas linguísticas semelhantes, com o uso de tipos, tempos verbais e marcas de pontuação equivalentes sintaticamente e semanticamente. Por fim, nossos resultados sugerem que a construção do DD nestes manuscritos e processos de escritura está relacionada aos conteúdos de ensino recebidos (em geral, relacionados ao sistema de pontuação) e ao universo letrado (histórias em quadrinhos, contos de fatos e de origem, livros didáticos) que entorna estas alunas.

17.
Autor(es): Claudio Artur O. Rei / Luanda Silva de Araújo UNESA/BRASIL
arturrei@uol.com.br ; araujo.luanda@gmail.com
Título do Trabalho: O trajeto dadaísta: da poesia à prosa: um projeto de produção textual
O movimento artístico conhecido como Dadaísmo surge com a clara intenção de destruir todos os sistemas e códigos estabelecidos no mundo da arte. Trata-se, portanto, de um movimento antipoético, antiartístico, antiliterário, visto que questiona até a existência da arte, da poesia e da literatura. O dadaísmo é uma ideologia total, usada na forma de viver e como a absoluta rejeição de todo e qualquer tipo de tradição ou esquema anterior. É contra a beleza eterna, contra as leis da lógica, contra a eternidade dos princípios,
contra a imobilidade do pensamento e contra o universal. Os adeptos deste movimento promovem uma mudança, a espontaneidade, a liberdade da pessoa, o imediato, o aleatório, a contradição, defendem o caos perante a ordem e a imperfeição frente à perfeição. E, a partir dessa conceituação, os alunos produzem um texto poético dadaísta e o reescrevem em prosa, apresentando, assim, a capacidade de expandir ideias e léxico nessas duas modalidades de composição.

18.
Autor(es): Marianne Akerberg - Centro de Enseñanza de Lenguas Extranjeras / Universidad Nacional Autónoma de México
maraker@hotmail.com / marianne@unam.mx
Título do Trabalho: Alguns problemas específicos na aquisição do português por falantes de línguas próximas.
A finalidade desta comunicação é mostrar resultados de pesquisas que indicam áreas de difícil aquisição por alunos hispanofalantes que aprendem português na Universidad Nacional Autónoma de México. Na área da fonética e fonologia a dificuldade é de perceber auditivamente e produzir alguns sons (sibilantes, chiantes, vogais nasais e orais), um problema acrescentado pelo sistema ortográfico. Também há problemas com a entoação e o ritmo. Os tempos e aspectos verbais apresentam dificuldades, sobretudo com formas aparentemente similares, mas com usos diferentes, como no caso do pretérito perfeito simples e composto. O léxico oferece não só falsos cognatos, mas também mecanismos diferentes de formação de palavras que provocam dificuldades. Há discussão dos fatores causantes das dificuldades e se oferecem propostas para superá-las.

19.
Autor(es): Sayonara Abrantes de Oliveira Uchoa
IFPB / Fundação Osvaldo Cruz - UFPB
sayonara_abrantes@hotmail.com
Título do Trabalho: Estímulos à construção de padrões cognitivos voltados ao desenvolvimento de habilidades de leitura por meio de fenômenos de significação em textos de humor
A expansão do acesso ao conhecimento por meio da tecnologia e a rapidez com que as informações transitam fez acentuar um novo conflito na escola, vivenciado pelas dificuldades de aprendizagem demonstradas pelos alunos do Ensino Médio. É notório, ainda, que grande parte deste quadro deve-se a inabilidade dos alunos com relação à leitura, ou seja, os alunos têm acesso aos textos, mas são incapazes de mergulhar nas malhas da significação. Partimos, pois, de duas hipóteses iniciais: primeiro, de que é fundamental ao aluno o desenvolvimento de habilidades de leitura que são essenciais à aprendizagem significativa, uma vez que o desenvolvimento nas diferentes áreas do conhecimento é perpassado pelo ato de ler; segundo, que esses padrões somente são desenvolvidos, eficazmente, quando o leitor desenvolve padrões cognitivos de compreensão do nível lexical, construído na relação entre forma e função, como mecanismo linguístico responsável pela elaboração do sentido textual. Ancorando-nos numa percepção de leitura enquanto processo interativo, buscamos no gênero tirinhas e nos fenômenos de significação mobilizados para a construção do humor situações para o desenvolvimento das habilidades mencionadas. Nosso objetivo neste trabalho é apresentar resultados de pesquisa de mestrado, cujo corpus é constituído através de pesquisa-ação em turmas do 3º ano do Ensino Médio. São dimensionados os resultados relativos a uma das categorias de análise desenvolvidas, cujo foco reside nos fenômenos geradores de ambiguidade, na interface semântico-sintática, e como as tirinhas de humor o dimensionam gerando situações significativas para que o aluno desenvolva suas próprias estratégias de leitura. Como base teórica da pesquisa, são discutidos aspectos conceituais acerca da leitura, gênero, humor e a ambiguidade. A discussão do recorte do corpus aponta para possibilidades didáticas relevantes ao desenvolvimento de habilidades de leitura, por meio da mobilização de fenômenos de significação, proporcionada pelos mecanismos de construção do humor no gênero tirinha.

20.
Autor(es): Taisir Mahmudo Karim UNEMAT
taisirkarim@hotmail.com
Título do Trabalho: Mato Grosso: de descrição a nome - um percurso enunciativo
A análise que propomos neste trabalho se insere no campo de estudos dos sentidos na/da linguagem, os quais procuram caracterizar os modos constitutivos das relações designativas das expressões/nomes no funcionamento de linguagem. O estudo apresenta uma reflexão Semântico-Enunciativa da expressão/nome Mato Grosso. Especificamente, analisamos a construção da estrutura morfossintática e o funcionamento semântico-enunciativo da expressão/nome. Como materialidade linguística, tomamos alguns fragmentos enunciativos que trazem a expressão/nome Mato Grosso publicados em diferentes épocas, considerando assim, a unidade de sentido que se dá a partir da temporalidade do acontecimento e da integração textual enquanto unidade. Desse modo, mostramos em nossas análises o procedimento semântico que desloca o sentido descritivo da expressão e, com o qual, faz emergir outro sentido à expressão, com o deslocamento, a expressão descritiva passa a significar um nome, o nome da região (Capitania das Minas do Mato Grosso) ainda no período do Brasil Colônia, primeira metade do século XVIII. Tomamos como fundamento teórico os construtos da Semântica do Acontecimento.

21.
Autor(es): Tania Maria Nunes de Lima Camara / Lília Alves Britto UERJ
taniamnlc@gmail.com lilia.britto25@gmail.com
Título do Trabalho: O paralelismo sintático na produção de textos acadêmicos
O conhecimento sintático da Língua Portuguesa pelo falante nativo deve ultrapassar, e muito, o uso adequado das nomenclaturas para a classificação de termos sintáticos e de orações que compõem períodos. Ainda que tal conhecimento seja necessário e, por isso mesmo, não deva ser desconsiderado, a prática docente que se restrinja à mera etiquetagem não permite ao aluno dos diferentes níveis de ensino perceber o papel significativo que o domínio da sintaxe da língua materna proporciona à leitura e à escrita. Tanto o professor da Educação Básica quanto o do Ensino Superior testemunham, cotidianamente, as dificuldades que os alunos enfrentam no contato, por exemplo, com textos acadêmicos. Os problemas geralmente decorrem do desconhecimento que manifestam em aspectos relativos à sintaxe, o que acaba por acarretar sérias dificuldades em relação à estruturação dos enunciados que produzem. O presente trabalho constitui uma pesquisa em desenvolvimento que tem como foco a quebra de paralelismo sintático nos textos acadêmicos produzidos por graduandos do Curso de Letras, especialmente nos gêneros resenha e resumo. Ainda que estudos relativos ao processo sintático da coordenação tenham feito parte da vivência escolar desses alunos, durante sete ou oito anos, mostra-se evidente o fato de desconhecerem que somente é possível coordenar termos ou orações de estrutura gramatical idêntica. Pressupõe-se que uma prática docente apoiada exclusivamente na frase para desenvolvimento de estudos das estruturas sintáticas pode apresentar-se como determinante do problema pesquisado. Desse modo, entre as estratégias possíveis para minimizar ou solucionar tal dificuldade, destaca-se a necessidade de ocupar o texto o lugar de origem e de fim no ensino da Língua Portuguesa, conforme se busca estabelecer na pesquisa em andamento. Constituirão o suporte teórico, entre outros estudiosos, Antunes (2005), Azeredo (2008), Bechara (2009), Castilho (2010), Mateus et alii (2003) e Garcia (2006).

22.
Autor(es): Marta Rodrigues
COLÉGIO PEDRO II
profmarta2509@gmail.com
Título do Trabalho: A linguagem inovadora de "Recordação do escrivão Isaías Caminha", de Lima Barreto, pelo viés do jornal
Muito se discute a respeito da função da leitura de textos literários no contexto escolar, tanto como forma de humanização quanto como formação de repertório cultural. Esse processo se reveste, muitas vezes, de uma série de percalços. Algumas das razões de afastamento do leitor/aluno diz respeito, por exemplo, à diversidade linguística, à descontextualização, à falta de identificação com o conteúdo narrado. No entanto, efetuando uma contextualização adequada e conseguindo fazer da leitura uma reflexão sobre o mundo atual e suas demandas, o afastamento se transforma em aproximação, e a leitura ecoa não só como algo obrigatório, mas também como possibilidade de construção crítica da realidade.
Constatei esse fato ao longo dos anos, especialmente ao trabalhar com o Ensino Médio, quando efetivamente os clássicos se tornam "leituras obrigatórias". Nos romances machadianos, por exemplo, a relação contextual, quando relacionada à contemporaneidade, faz com que o leitor reflita sobre questões político-sociaIs que até hoje não se resolveram. A visão do homem e da humanidade presente na poesia de Augusto dos Anjos potencializa-se no mundo contemporâneo, das disputas constantes, da competição incessante.
Ao trabalhar com o romance "Recordações do escrivão Isaías Caminha", do escritor pré-modernista Lima Barreto, em turmas de 3ª série do Ensino Médio, do Colégio Pedro II, a partir da influência do jornal na construção das verdades sociais no romance, e de sua forte influência para a remodelação da linguagem literária, em comparação à influência midiática nos dias de hoje, essa aproximação se tornou ainda mais evidente. O trabalho em questão é, desse modo, uma reflexão a respeito dessa leitura, desenvolvida em sala de aula, enfatizando as semelhanças e as diferenças lexicais, e a contemporaneidade da linguagem utilizada por Lima Barreto, que lhe conferiu um viés contemporâneo.

23.
Autor(es): Maria João Marçalo (mjm@uevora.pt)
João Muteteca Nauege (nauegejoaonauege@yahoo.com.br)
Universidade de Évora, Portugal
Título do Trabalho: Aspetos do uso do conjuntivo no Português de Angola
Angola adotou o português como língua oficial, desde que se tornou independente em 1975. A nova constituição da República de Angola (2010), no seu artigo 19º sobre Línguas, postula que: “A língua oficial da República de Angola é o português”, p.9.
Apesar de o português ser a língua que mais avança e mais utilizada em todo o país, e em todas as instituições de ensino, há 39 anos, de forma consciente e não imposta pela antiga potência dominadora (Portugal) na altura, não há muitos estudos sistemáticos para a descrição e normatização do português de Angola.
Com este trabalho sobre aspetos do uso do conjuntivo no português de Angola, pretende-se verificar:
O uso do modo conjuntivo no português de Angola face à norma padrão europeia;
Se as línguas bantu de Angola influenciam no uso conjuntivo e indicativo nos falantes do português de Angola.
Apercebemo-nos que a literatura concernente ao estudo de modos verbais no português de Angola é escassa, encontramos apenas algumas obras que estudam e descrevem o português de Angola em relação às propostas de metodologias para o seu ensino. Assim, ressalta-se o estudo “sobre a semântica do tempo presente em português europeu e português de Angola” de Dala (2013) voltado para o aspeto; apoiar-nos-emos de outros estudos de carris mais geral sobre o modo conjuntivo, com realce para Marques (1995) “sobre o valor dos modos do conjuntivo e indicativo em português”, Pimpão (1999) “variação no presente do modo subjuntivo: uma abordagem discursivo-pragmática”, Marques (2001) “o modo conjuntivo e a expressão de tempo em frases completivas”, Rodriguês (2003) “cortesia linguística uma competência discursivo-textual (formas verbais corteses e descorteses em português”, Vieira (2007) “alternância no uso dos modos indicativo e subjuntivo em orações subordinadas substantivas: uma comparação entre o português do Brasil e o francês do Canadá”, Justino (2011) “a distribuição e a expressão gramatical do futuro do conjuntivo no português de Moçambique”, Bento (2013) “aquisição de português língua não materna- o conjuntivo na interlíngua de falantes nativos de neerlandês”.
Abordar o uso do conjuntivo no português de Angola é um desafio novo que assumimos face à parca bibliografia sobre o tema neste contexto. Em relação às questões inerentes à norma e à variação linguísticas não tem sido um caminho escolhido por muitos, devido à complexidade e falta de consenso que as mesmas encerram, talvez, pelo facto de a linguística priorizar a descrição e não estudos prescritivos de acordo com a opinião de Martinet (1991:10):
(…) No caso da linguística, importa especialmente insistir no carácter científico e não prescritivo do estudo: como o objecto desta ciência constitui uma actividade humana, é grande a tentação de abandonar o domínio da observação imparcial para recomendar determinado comportamento, de deixar de notar o que realmente se diz para passar a recomendar o que deve dizer-se. A dificuldade de distinguir a linguística científica da gramática normativa lembra a de extrair da moral uma autêntica ciência dos costumes (…).
Apesar do latente afastamento de abordagens normativas ou prescritivas nos estudos linguísticos a outra componente variacionista, ultimamente, tem sido de eleição para muitas abordagens que depois, curiosamente, contactam com a normativa.
Palavras-chave: Norma (s),Variação, modo e modalidade, conjuntivo, indicativo

24.
Autor(es): Darcilia Simões
(UERJ-SELEPROT/AILP)
Título do Trabalho: MAS ERA ISSO QUE EU QUERIA DIZER!
RESUMO: É frequente o descontentamento discente quando da avaliação de sua produção textual, ora por expressar-se numa variedade inadequada ao gênero do texto, ora por não conseguir desenvolver uma ideia. Essa dificuldade manifesta, em princípio, dois problemas: (1) não domínio dos fatores lexicogramaticais que orientam a produção dos enunciados; (2) domínio lexical restrito. Na perspectiva da linguística sistêmico-funcional (LSF), discutem-se os enunciados segundo sua organização lexicogramatical, indicando inadequações de base sintático-semântica. Na ótica da teoria da iconicidade verbal (TIV), busca-se identificar nos enunciados signos que gerem ambiguidade, contradição, entre outros fenômenos que prejudiquem a interpretabilidade dos textos. Ambas as teorias eleitas consideram a potencialidade do sistema linguístico e as escolhas dos enunciadores como objetos semióticos, ou seja, fatores com que ser realiza a semiose (produção de significação). Portanto, a elaboração de enunciados deve considerar: (1) no âmbito da LSF, a articulação entre tema, recorte sócio-histórico e seleção lexical e (2) na perspectiva da TIV, o potencial orientador ou desorientador dos signos em relação à manutenção temática e à progressão textual.
PALAVRAS-CHAVE: Seleção Lexical. Lexicogramática. Iconicidade.
REFERÊNCIAS
Halliday, M. A. (2004). An Introduction to Functional. Revised by Matthiessen M. I. M. [1st ed. 1985] (3 ed.). London: Edward Arnold.
Simões, D. (agosto de 2007 ). Projeto de texto e iconicidade: uma reflexão sobre a eficácia comunicativa. CASA. Cadernos de Semiótica Aplicada. Vol. 5.n.1, pp. 1-14.
Simões, D. (2007). Iconicidade e Verossimilhança. Semiótica aplicada ao texto. Rio de Janeiro: Dialogarts.
Simões, D. (2009). Iconicidade Verbal: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: Dialogarts.
Simões, D. (2010). Contribuições para desenvolvimento do domínio lexical. Acta Semiotica et Linguistica - Vol. 15 – Ano 34 – N° 2, pp. 101-116.

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↑ índice

SIMPÓSIO 23 – ABORDAGEM CONSTRUCIONAL DA GRAMÁTICA E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA

Coordenadores:
Maria Angélica Furtado da Cunha - Universidade Federal do Rio Grande do Norte N/CNPq - angefurtado@gmail.com
Mariangela Rios de Oliveira - Universidade Federal Fluminense/CNPq/Faperj - mariangela.rios@terra.com.br

RESUMOS APROVADOS

1.
Título do Trabalho: A Construção Resultativa e as circunstâncias de Halliday – compatibilidade teórica?
Autor(es): Wellington Vieira Mendes (UERN)
João Bosco Figueiredo Gomes (UERN)
Maria das Dores Nogueira Mendes (UFC)
Resumo: Neste trabalho, propomo-nos discutir o pareamento (forma e função) designado como Construção Resultativa (CR), a partir de leituras de Fillmore (1985), Goldberg (1995), Kay e Fillmore (1999), Goldberg e Jackendoff (2004). O pareamento forma-função, condição de realização/análise das construções, é objeto também apontado por Halliday (1985), em sua gramática sistêmico-funcional, em que o Sistema de Transitividade (e seus componentes) configura as realizações lexicogramaticais a partir de sistemas que operam escolhas. A ancoragem das duas propostas no mesmo porto decorre da hipótese de que a CR se atualiza em português brasileiro pela realização de Circunstâncias. Tendo isso em conta, a discussão aqui proposta atentará para três aspectos: (i) as relações de significado em português brasileiro, que comportam a ideia de que “X faz Y tornar-se Z”; (ii) o modo como a relação “Y tornado Z” (objeto mudado de estado) é codificado nas orações de português brasileiro; uma aproximação possível entre o Sistema de Transitividade e o arcabouço da Gramática de Construções (GC). Para dar conta dessa tarefa, utilizamos o pacote computacional WordSmith Tools (SCOTT, 2008) e, de modo mais específico, a ferramenta Concord, a fim de localizar no corpus Discurso & Gramática ocorrências que permitissem atentar para os aspectos indicados há pouco. A análise empreendida nas amostras de língua em uso permite-nos afirmar que a realização sintático-semântica da CR é possível em língua portuguesa pelas Circunstâncias de Modo, o que demonstra as aproximações teórico-metodológicas compartilhadas pelos estudiosos funcionalistas. Para o Sistema de Transitividade resta a contribuição de que as Circunstâncias realizadas na lexicogramática, com significado resultativo, têm ocorrência, até a observação deste estudo, apenas nos processos materiais. Pela mesma via, a CR em língua portuguesa se realiza
prototipicamente pelas Circunstâncias de Modo, cumprindo papel específico no discurso.

2.
Título do Trabalho: A construcionalização de LocV: uma abordagem funcional centrada no uso
Autor(es): Rossana Alves Rocha (INES)
Resumo: Esta pesquisa insere-se no projeto "Construcionalização e mudança construcional em expressões verbais compostas por pronomes locativos no português" (Oliveira, 2014) e investiga padrões de uso do subesquema Locativo Verbo (doravante LocV) por meio de instanciações de microconstruções como “aí vem” e “aí está” no banco de dados do site Corpus do Português. Embasados na orientação teórica de Bybee (2010), Traugott (2008), Traugott e Dasher (2005), Traugott e Trousdale (2013), Diewald (2002), Croft (2001), entre outros, partimos das seguintes hipóteses: (i) construções verbais em torno de locativos são, em contextos específicos, instanciações do subesquema LocV, uma unidade de sentido e forma que atua como elemento de conexão sintática ou textual; (ii) contextos atípicos e críticos motivam, via neoanálise e analogização, mudança linguística gradual; (iii) microconstruções envolvem redução e aumento de dependência (GR) e expansão de frequência de uso como elementos de conexão (GE), resultantes de processos de gramaticalização que são complementares; (iv) membros exemplares da classe das instanciações da construção LocV atuam como base para o surgimento e para a fixação de novos padrões de uso. Assumindo que fatores de ordem pragmática e cognitiva interagem para a criação das microconstruções, analisamos suas propriedades semântico-sintáticas e discursivo-pragmáticas, via modelo top down, quando o sistema linguístico é afetado descendentemente, promovendo assim o surgimento dessas expressões e, via bottom up, quando a fixação de seus usos afeta o sistema, ampliando sua representação. Em virtude do que foi mencionado, esse estudo visa a contribuir para o maior conhecimento dos aspectos funcionais envolvidos no uso das “construções com locativos” em língua portuguesa e, em âmbito maior, para a investigação dos mecanismos que marcam o processo de gramaticalização de construções, na interface mais recente dos estudos funcionalistas e cognitivistas.

3.
Título do Trabalho: Abordagem construcional e ensino de transitividade
Autor(es): Maria Angélica Furtado da Cunha (UFRN/CNPq)
Resumo: A transitividade tem sido tradicionalmente tratada como uma propriedade lexical dos verbos, classificados como transitivos ou intransitivos. No entanto, a própria Gramática Tradicional admite que a linha de demarcação entre esses tipos de verbo nem sempre é rigorosa. Neste trabalho, examino a rede construcional formada pelo conjunto de manifestações diversificadas da construção transitiva e as propriedades que aproximam ou distanciam essas orações do exemplar prototípico. Nesse sentido, investigo se os diferentes eventos codificados por orações transitivas são resultado de polissemia construcional, em que as orações que se distanciam da cena transitiva prototípica herdam seus significados do sentido central da construção transitiva. A análise está orientada pelos pressupostos teórico-metodológicos da Linguística Funcional Centrada no Uso, conjugada à Gramática de Construções. Os dados empíricos são provenientes de narrativas, descrições, relatos de procedimento e relatos de opinião, produzidos por estudantes do ensino médio e universitários, coletados do Corpus Discurso & Gramática. Este estudo apresenta uma proposta de trabalho com interface entre sintaxe e semântica em sala de aula, com base no conceito de construção. Por um lado, o tratamento de diferentes padrões oracionais que instanciam a construção transitiva permite capturar o fato de que a própria construção tem significado, servindo como um esquema que reúne o que é comum a um conjunto de verbos. Por outro lado, o uso do mesmo padrão sintático com diferentes verbos resulta em economia linguística, reduzindo o custo do processamento cognitivo.

4.
Título do Trabalho: Análise funcional-cognitiva do gerúndio no Português Brasileiro em textos argumentativos produzidos por alunos do Ensino Básico de uma escola pública do DF-Brasil
Autor(es): Maria Cristina Morais de Carvalho (SEDF/UnB)
Resumo: Este trabalho faz parte do meu projeto de doutorado, em que analiso os usos do gerúndio como elemento de organização e progressão textual no Português Brasileiro (PB) em gêneros argumentativos. Essa análise e descrição partirão dos pressupostos da Linguística Centrada no Uso (Usage-based linguistics) ou Funcional-Cognitiva (LANGACKER, 1987; FAUCONNIER & TURNER, 2002; GOLDBERG, 1995, 2006; GIVÓN, 2001; HOPPER & TRAUGOT, 2003; TRAUGOTT & DASHER, 2005 e HEINE & KUTEVA, 2007). Além disso, utilizarei também os estudos da gramaticalização para explicar a diversidade de usos linguísticos (HEINE et al, 1991; HOPPER & TRAUGOTT, 2003). Essas áreas relacionam-se intrinsecamente por considerarem o uso, a interação social e a cognição dos falantes para analisar as diferenças e as mudanças linguísticas. Assim, nesta comunicação, apresentarei os resultados preliminares acerca dos usos do gerúndio em textos orais e escritos produzidos pelos meus alunos do nono ano de uma escola pública da Ceilândia-DF; esses dados serão coletados por mim a partir da pesquisa-ação (TRIPP, 2005). O aparato metodológico analítico será a pesquisa qualitativa (SOUSA, 2006) e os instrumentos de coleta desses dados, associado à pesquisa-ação, serão as Sequências Didáticas conforme a proposta de Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) para os estudantes produzirem textos de natureza argumentativa. Dessa maneira, creio que a proposta de analisar os usos do gerúndio no PB sob o viés da Linguística Centrada no Uso e dos estudos sobre gramaticalização contribuirá com a descrição do PB e também terá um impacto social entre todos os participantes da pesquisa – eu e os meus alunos – por provocar rupturas no quadro das práticas pedagógicas tradicionais e o baixo índice de letramentos entre a comunidade pesquisada.

5.
Título do Trabalho: Categorias gramaticais em sala de aula: a flutuação adjetivo-advérbio
Autor(es): Edvaldo Balduino Bispo (UFRN)
Resumo: Discuto, neste trabalho, questões relativas à flutuação categorial entre adjetivo e advérbio. Considero, em particular, o caso dos advérbios qualitativos, que correspondem à classificação tradicional advérbio de modo. Dois objetivos básicos orientam esta discussão: (i) analisar usos de adjetivos e advérbios em contextos críticos, ou melhor, de fluidez categorial e (ii) apresentar proposta de abordagem dessas categorias em sala de aula da Educação Básica, tomando por base uma visão escalar, contínua, gradiente. O aparato teórico em que fundamento o trabalho é o da Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU), tal como caracterizada por Furtado da Cunha et al (2013). Assumo com Traugott (2004) a visão de gramática como a estruturação de aspectos comunicativos e cognitivos da linguagem. Assim, a gramática exibe padrões funcionais mais regulares e formas alternativas em processo de mudança motivada por fatores cognitivo-interacionais. Além disso, considero os documentos que parametrizam o ensino de Língua Portuguesa no Brasil, os PCN – para o nível fundamental – (BRASIL, 1998) e as Orientações Curriculares Nacionais (OCN) – para o nível médio (BRASIL, 2006). O material empírico utilizado para fins de análise representa diferentes situações de uso da língua e provém de fontes diversas, as quais incluem textos impressos de revistas e de sites da internet, além do corpus Discurso & Gramática (D&G Natal, FURTADO DA CUNHA, 1998; D&G Niterói, VOTRE; OLIVEIRA, 2014) e do Banco Conversacional de Natal (FURTADO DA CUNHA, 2011).

6.
Título do Trabalho: Construção gramatical e princípio idiomático
Autor(es): Mariangela Rios de Oliveira (UFF/CNPq/Faperj)
Resumo: Fundamentados na linguística funcional centrada no uso, investigamos duas macroconstruções instanciadas em textos do português contemporâneo. Trata-se: a) da construção conectora textual, formada por pronome locativo e verbo (locCONTV), como em daí vem ou aí está; b) da construção marcadora discursiva, formada por verbo e pronome locativo (VMARCloc), como em vá lá ou espera aí. Em abordagem qualitativa e quantitativa, levantamos, descrevemos e analisamos o uso dessas expressões gramaticais, em termos do processamento textual para o qual concorrem. No caso de locCONTV, defendemos que se trata de um arranjo que funciona no plano da coesão textual, como conector de relações lógicas ou mais subjetivas, na condição de introdutor de tópico, articulador de contraexpectativa ou operador argumentativo; nesse tipo de padrão funcional, consideramos que locCONTV atua no plano das relações sintático-textuais, uma vez que concorre para a articulação de porções maiores do texto. Já em termos da construção VMARCloc, sua articulação se processa em nível mais amplo, dado que funciona na marcação discursivo-pragmática, atuando na veiculação de sentidos intersubjetivos, como o de injunção ou consentimento; a VMARCloc não se vincula semântico-sintaticamente ao contexto em que se insere, uma vez que seu nível de atuação é mais abrangente. Consideramos que ambas as macroconstruções, resultam de processo de gramaticalização de estruturas verbais transitivas do português – uma mais antiga na língua, a locCONTV, que remonta à ordenação pré-verbal dos locativos, representativa do uso mais frequente até o século XIX; e outra de formação mais recente, a VMARCloc, que é fruto de mudança gramatical do padrão mais regular da ordenação dos locativos no português contemporâneo, que é pós-verbal. Ao lado de formações transitivas prototípicas, constituídas por verbo e complemento locativo, temos em uso
na língua a instanciação de duas macroconstruções, oriundas dessas formações referidas, que cumprem relevantes funções de ordem textual-discursiva.

7.
Título do Trabalho: Coordenação aditiva x Correlação aditiva - uma visão funcional centrada no uso
Autor(es): Ivo da Costa do Rosário (UFF)
Resumo: Segundo Hopper & Traugott (1997), "todas as línguas têm dispositivos para interligar as cláusulas no que chamamos de períodos complexos". Esses mecanismos de ligação intersentencial diferem radicalmente de uma língua para outra, desde construções justapostas razoavelmente independentes até construções retóricas dependentes e complexas. Os autores propõem a existência de três pontos de aglomeração: a parataxe, a hipotaxe e a subordinação. Esses três processos expressam um crescendum de integração, e, certamente, envolvem entre um ponto e outro variadas estratégias de integração clausal. Quanto à correlação, verificamos asserções esparsas na literatura linguística, o que de per si já justificaria um estudo mais aprofundado sobre o assunto. Segundo Rosário (2012), a correlação pode ser definida como uma “construção sintática prototipicamente composta por duas partes interdependentes e relacionadas entre si, encabeçadas por correlatores, de tal sorte que a enunciação de uma (prótase) prepara a enunciação de outra (apódose)”. Como exemplo, destacamos o seguinte: “Ele não só fez tudo o que foi combinado como também foi além”. Esse processo é normalmente preterido pelos gramáticos e por outros estudiosos. Por essa razão, intentamos analisá-lo à luz da Linguística Funcional Centrada no Uso. Aplicamos o instrumental teórico adotado ao corpus, que é formado por discursos políticos, fortemente argumentativos, extraídos do site da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, no ano de 2009. A análise implementada permitirá uma tipologização das correlatas aditivas em micro, meso e macroconstruções (cf. TRAUGOTT, 2010). Nossos resultados apontam para um uso bastante especializado das construções correlatas, inseridas em contextos com alta carga de argumentatividade. Nosso objetivo, em síntese, é descrever e analisar essas construções, buscando suas especificidades e peculiaridades, distinguindo a coordenação aditiva da correlata aditiva, como processos distintos.

8.
Título do Trabalho: De predicado transitivo circunstancial a marcador discursivo: mudanças construcionais e construcionalização da construção VLocMD
Autor(es): Ana Cláudia Machado Teixeira (UFF/CNPq)
Resumo: Este trabalho investiga a construcionalização dos marcadores discursivos da construção VLocMD, tais como: vem cá, está aí, vê lá. Busca-se demonstrar que, ao longo de uma trajetória no tempo, a combinação do elemento verbal com o locativo torna-se mais integrada, instituindo um elo de correspondência simbólica que possibilita a distribuição das diferentes instanciações em distintos padrões de uso. Examina-se a relação entre os tipos de contextos e os micropassos da mudança e a atuação dos mecanismos que levam à construcionalização. A hipótese é de que a construção parte de contextos de frame espacial em que o verbo integra categoria lexical e o pronome locativo atua como advérbio, ainda no nível do predicado. Em uma trajetória de abstratização, os elementos tornam-se amalgamados, motivados por inferências sugeridas, forjadas em ambientes interacionais específicos. Dessa forma, passam a articular um terceiro e distinto sentido em instanciações que cumprem função de marcar a presença mais explícita do falante na expressão de suas crenças e valores. A pesquisa embasa-se na Linguística Funcional Centrada no Uso na qual se compatibiliza as vertentes funcionalista e cognitivista, postulando que os usos linguísticos são modelos convencionalizados, construídos a partir da inter-relação linguagem, cognição e ambiente sócio-histórico. O corpus selecionado compreende os séculos XIII a XX, retirados do site “corpusdoportugues.org”. A análise focaliza os contextos fontes, atípicos, críticos e de isolamento, em que se percebe a atuação de (inter)subjetificação, pensamento analógico, “parsing”, ativação espalhada, levando à neonálises e analogização e, por conseguinte, à convencionalização de padrões de uso. Os resultados parciais demonstram que tais instanciações formam esquemas mentais situados contextualmente, o que implica menor esforço cognitivo e maior efetividade nas práticas comunicativas, assim como apontam para “vem cá” como um type específico funcionando como exemplar da hierarquia construcional VLocMD. Esse exemplar, por sua vez, motiva novas instanciações compostas por verbos de base locativa e perceptiva constituindo macrofunções que se particularizam em microconstruções.

9.
Título do Trabalho: Marcadores discursivos interruptivo-argumentativos no português brasileiro e no português europeu: uma abordagem construcionalista
Autor(es): Flávia Saboya da Luz Rosa
Resumo: A investigação de marcadores discursivos formados por sintagmas verbais ou nominais - classificados como suspensivos - e pronomes locativos é realizada na perspectiva da abordagem construcionalista, baseada na inter-relação entre a orientação funcionalista e as contribuições do cognitivismo. O estudo aponta níveis de gramaticalidade representados, de acordo com Diewald (2002, 2006), em contextos fonte, atípico, crítico e isolado, isto é, originalmente referentes ao mundo bio-psíquico-social e que, por transferência de domínio, passam a exercer função discursiva, de nível pragmático. A transferência do domínio fonte ao domínio alvo é entendida, segundo Traugott e Dasher (2005), como resultado de relações metonímicas e extensões metafóricas. Concorrem para a identificação dos níveis de gramaticalidade a contemplação da redução fonológica dos termos analisados e os subprincípios da divergência e da estratificação (HOPPER, 1991). As estratégias de subjetificação e de intersubjetificação, no âmbito das inferências sugeridas (Traugott e Dasher, 2005), contribuem para a articulação das expressões estudadas. Os arranjos que atuam em nível mais pragmático, no domínio discursivo, são considerados construções, nos termos de Traugott e Trousdale (2013), pareamentos de forma e significado. Assim, os marcadores discursivos são entendidos como microconstruções instanciadas por esquemas mais abstratos: mesoconstruções e macroconstruções. Admitimos, a partir dos postulados de Bybee (2010), que a construção espera aí, por ser mais frequente e convencionalizada no uso linguístico, serve de base analógica para a formação de novos usos, como as construções espera lá, calma aí, entre outras. Consideramos na análise dos dados, os gêneros textuais, assim como as sequências tipológicas em que as expressões se apresentam. Os arranjos lexicais pertencem a sequências injuntivas, ao passo que os gramaticais estão contidos em sequências, sobretudo, argumentativas. Tal articulação se dá em razão do sentido mais abstratizado desses fragmentos, em consonância com o processo de metaforização por que passam as expressões. As construções gramaticais atuam como unidades sintático-semânticas, articulando marcação discursiva interruptivo-argumentativa.

10.
Título do Trabalho: Mudança gramatical e construcionalização do conector “daí que”: abordagem funcional centrada no uso
Autor(es): Ana Beatriz Arena (UFF)
Resumo: O estabelecimento de relações lógico-argumentativas é não só um processo cognitivo subjacente à elaboração do conhecimento e, como tal, pertinente à condição humana, como também uma ação, codificada linguisticamente por meio de diferentes formas. Uma delas é a expressão “daí que”, objeto deste estudo, que, por meio de mudanças construcionais diacrônicas, assume sincronicamente o estatuto de conector lógico-argumentativo. Seguimos os pressupostos teóricos da Linguística Funcional Centrada no Uso, nos termos, principalmente, de Elizabeth Traugott, além de princípios da perspectiva cognitivista no que tange à Gramática de Construções, com foco nos estudos de William Croft. Entendem-se construções como expressões complexas, constituindo estruturas relativamente fixas. No caso em estudo, à contração da preposição “de” com o locativo “aí”, soma-se a conjunção subordinativa integrante “que”, formando um todo sintático-semântico de valor conclusivo. A análise diacrônica, que remonta ao século XVII, aponta para instanciações de, pelo menos, dois grupos de esquemas linguísticos possivelmente participantes na formação do conector “daí que”: 1) “daí Vcog que” e 2) “Vcog daí que”. Sincronicamente, verificamos que, após passar por sucessivas neoanálises (Traugott, 2012), “daí que” é empregado como conector lógico-argumentativo a partir do final da primeira metade do século XX, apresentando perda de fronteira e de composicionalidade entre seus componentes, pareando forma e sentido: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquele” (Trecho de discurso proferido por Paulo Freire em 1981). Com este estudo, objetivamos investigar a origem do operador “daí que”, consultando textos escritos de diferentes gêneros e tipologias textuais dos períodos moderno e contemporâneo da língua portuguesa. Por meio do levantamento das frequências type e token (Bybee, 2003), objetivamos, ainda, verificar a produtividade da expressão sob investigação e reconhecer padrões de uso determinantes na sua fixação como conector conclusivo.

11.
Título do Trabalho: Multifuncionalidade das construções com a “aquele”: uma contribuição ao ensino de português
Autor(es): José Romerito Silva (UFRN)
Resumo: Aquele tem sido tradicionalmente considerado, por gramáticos e por linguistas, como um pronome demonstrativo cuja função é servir, basicamente, como mostrador dêitico ou como elemento anafórico. Entretanto, observamos usos desse elemento, em diversos contextos, que escapam a essa dupla categorização. Ademais, diferentemente das descrições convencionais, levamos em conta o fato de aquele inserir-se em um ambiente sintático-semântico mais amplo. Nesse sentido, aquele compõe, com outros constituintes adjacentes, um todo de forma e função, configurando uma construção complexa. Ainda outra questão referente a esse item tem a ver com seu deslizamento semântico e ambiguidade categorial verificados em determinadas ocorrências. Sendo assim, neste trabalho, examinamos os usos de aquele em variadas construções, considerando suas múltiplas especificidades formais e funcionais. Como material de análise, utilizamos textos de diferentes gêneros discursivos nas
modalidades falada e escrita. Os textos são provenientes do Corpus Discurso e Gramática em suas variadas seções, do Banco Conversacional de Natal, de jornais, revistas, livros e sites diversos, na tentativa de capturar a máxima variedade possível de usos com aquele. O suporte teórico-metodológico adotado é a Linguística Funcional Centrada no Uso, que incorpora em seus estudos contribuições da Gramática de Construções. Por meio desse estudo, pretendemos oferecer alguma contribuição ao ensino de português para além da descrição identificada nos livros didáticos, os quais, via de regra, limitam-se a reproduzir o tratamento apresentado nas gramáticas.

12.
Título do Trabalho: O elemento “então” no texto discente: uma marca da oralidade na escrita escolar
Autor(es): Patrícia Gomes de Oliveira (UFRRJ)
Resumo: A pesquisa tem como objetivo analisar o uso do vocábulo então em textos de alunos do ensino fundamental. O interesse pelo estudo desse elemento linguístico surgiu em função da alta frequência de aparição deste termo nos eventos de escrita dos discentes, presentes em contextos linguísticos distintos e em diferentes gêneros discursivos. Para tanto, torna-se imprescindível observar os casos influenciados pela prática oral dos alunos nas atividades de produção textual, nas quais são evidentes a utilização de palavras com função semelhante a de uma conjunção, neste caso, o então. Não obstante, cabe ressaltar que as orações apresentadas podem apresentar este elemento iniciando as orações absolutas ou estabelecendo uma relação de tempo, conclusão, entre outros casos no interior do texto, que, quando não adequados, denotam uma descaracterização do texto como unidade de sentido, sobretudo, porque fere os princípios de coesão e de coerência. Além disso, será destacada a trajetória desse vocábulo no decorrer do tempo, a fim de que o processo de mudança no uso desse elemento seja melhor compreendido. Consequentemente, pretende-se desenvolver nos estudantes, uma consciência mais efetiva e atuante nos eventos de escrita.
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SIMPÓSIO 24 - LITERATURA, HISTÓRIA E IMAGINÁRIO DO BRASIL COLONIAL: ESCRITAS E REPRESENTAÇÕES

Coordenadores:
Pedro Carlos Louzada Fonseca – Universidade Federal de Goiás – pfonseca@globo.com
Márcia Maria de Melo Araújo – Universidade Estadual de Goiás – marcimelo@gmail.com

RESUMOS APROVADOS

1
Autora: Aldinida Medeiros (aldinidamedeiros@gmail.com)
Universidade Estadual da Paraíba
Título do trabalho: O Brasil colonial na escrita de Luzilá Ferreira Gonçalves: uma leitura de Os rios turvos
Resumo: Literatura e História compõem o romance Os Rios Turvos (1993), da autoria de Luzilá Gonçalves Ferreira, que remonta ao Brasil colonial para trazer ao leitor imagens de uma tempo e suas representações. O enredo vai além de uma ficção sobre a vida do escritor da Prosopopeia, Bento Teixeira, pois é também uma narrativa – no feminino – sobre Filipa Raposa, uma mulher que não ficou nos registros historiográficos como protagonista da sua própria vida. Esta comunicação, filiada à linha de pesquisa interfaces entre Literatura e História tem como objetivo uma leitura e analisa a representação desta figura forte, determinada, ousada (e por isso, assassinada pelo marido) que, mesmo à margem da História, deixou seu nome e sua marca de fogo – assim como a cor de seus cabelos – na vida do escritor épico e cristão novo, Bento Teixeira. Dentre outras coisas, paira sobre ela a acusação de tê-lo denunciado à Inquisição. Nosso trabalho se justifica dentro de uma pesquisa maior em desenvolvimentos que busca traçar uma cartografia da representação feminina no romance histórico contemporâneo, que desenvolveremos através da metodologia de leitura e análise do romance, com aplicação do substrato teórico sobre metaficção historiográfica, bem como aporte de teoria literária e História do Brasil colonial. Para tanto, trabalharemos com ensaios de Hutcheon (1991), Marinho (1999), Esteves (2010), Del Priory (2001), Perrot (2007), dentre outros, para concluirmos que a mulher foi, durante longo tempo, inclusive no período colonial, uma voz silenciada pelo patriarcalismo, resgatada agora nas representações feminina do romance histórico contemporâneo.

2
Autora: Alessandra F. Conde da Silva (afcs77@hotmail.com)
Universidade Federal do Pará/Universidade Federal de Goiás
Título do trabalho: Catálogo de imagens femininas da tradição judaico-cristã na “Continuação da história das coisas mais memoráveis acontecidas no Maranhão nos anos de 1613 e 1614” de Yves D’Évreux: sobredeterminações femininas e a conversão dos nativos
Resumo: No século XVII, o padre capuchinho Yves D’Évreux escreveu a obra “Continuação da história das coisas mais memoráveis acontecidas no Maranhão nos anos de 1613 e 1614”, decorrente da expedição promovida pelo Projeto França Equinocial, retratando as suas vivências em terras amazônicas, em meio a fauna e flora exuberantes e costumes indígenas peculiares. Seguindo uma prática escritural pautada nas auctoritates dos padres da patrística, D’Évreux apresenta um catálogo de imagens femininas da tradição judaico-cristã representativas de um arrazoado discursivo de sobredeterminações à mulher. Natureza e alma são feminizadas e tal personificação é tomada como recurso imagético-ideológico às argumentações sobre a conversão dos nativos. A reverberação de tal discurso e imagens alastra-se na tradição medieval de topoi antifemininos, utilizados ad nauseum por São Jerônimo e outros, a quem o capuchinho parece seguir os passos. Em D’Èvreux, há ligeiras recontextualizações, mas a estrutura exemplar permanece. Para a construção deste estudo, Howard Bloch, Georges Duby, Jacques Dalarum, Tzvetan Todorov e outros nos trarão amparo teórico.

3
Autores: Alessandro da Silva Leite (alessandrosl2000@yahoo.com.br)
USS; FADILESTE e UFES: Núcleo de Estudos Indiciários - História e Sociologia
Ana Maria de Carvalho Leite (a.carvalho.leite@hotmail.com)
FALE/UFMG
Título do trabalho: Relatos de viagem colonial, imaginário e representações sociais: exercícios de análise do discurso, indiciarismo e psicanálise
Resumo: Este trabalho visa demonstrar como as descrições, nos relatos de viagem, de práticas culturais e ações protagonizadas pelos nativos foram responsáveis pela construção de sua representação, no imaginário e no simbólico colonial, como categoria social perigosa, metaforizada no selvagem, no bárbaro, no invasor e no criminoso. Visa demonstrar, ainda, como o processo de representação social e imaginária dos nativos, operou para justificar o uso de dispositivos de poder para discipliná-los, por meio de medidas autoritárias, que visavam ao seu extermínio simbólico e real, pela catequese, aldeamento e escravização, e pela Guerra Justa de 1808 a 1831. O trabalho, hora proposto, constitui-se num exercício teórico-metodológico de análise do discurso, aplicada a relatos de viajantes europeus ao Brasil, entre os séculos XVII e XIX. Para tanto, segue as orientações metodológicas da genealogia-arqueologia (Foucault), combinadas com o indiciarismo (Ginzburg), a psicanálise (Lacan) e a representação social (Chartier) Assim, pela arqueologia, busca-se identificar as condições históricas de produção dos relatos, as formas e estruturas deste tipo de formação discursiva e como constroem seu sujeito/objeto, evocando-o para ocupar um lugar no texto, que determinará o seu lugar social. Com a genealogia, procura-se nos relatos referências aos elementos e dispositivos ideológicos que poderão contribuir para acionar práticas ou tecnologias de poder, visando disciplinar os sujeitos/objetos dos relatos. A psicanálise permite a análise do discurso racional – relatos - no sentido de identificar os sentimentos e fantasias (imaginário) inconscientes que também condicionam a operação dos homens no real e no simbólico como, por exemplo, por meio das representações sociais que constroem. No indiciarismo, os pesquisadores recolhem dos relatos os fios – indícios – com os quais, recorrendo tanto a critérios objetivos quanto à intuição, realizam a tessitura de uma narrativa interpretativa de determinada conjuntura.

4
Autor: Ciro Damke (cdamke@hotmail.com) - UNIOESTE
Título do trabalho: O Paese di Cuccagna e a Ilha da fantasia: a construção do imaginário popular dos imigrantes alemães e italianos
Resumo: Os imigrantes ao deixarem seus países de origem na Europa com destino ao Brasil e à América eram forçados, muitas vezes, pelas péssimas condições de vida em suas pátrias. Ao lado disto, vinham também embalados pelos sonhos da construção de um futuro melhor para si e para suas famílias. Estes sonhos, como parte do imaginário popular construído ao longo dos séculos, muitas vezes eram resultado de literatura de propaganda nem sempre verdadeira. O que era a Ilha da Fantasia (DAMKE e SAVEDRA, 2013: 182) dos imigrantes alemães e o Paese di Cuccagna (POZENATO, 2000: 11) ou o País das Maravilhas (ARENDT e PAVANI, 2006: 220) dos italianos? Com base em textos destes e de outros autores que abordam a história da imigração alemã e italiana ao Brasil, tentaremos desvendar alguns destes sonhos, que se tornaram realidade, ou não, na vida dos imigrantes. Em outras palavras, é objetivo deste trabalho, tentar descrever a estreita relação entre a literatura da época colonial
e pós-colonial, a história da imigração alemã e italiana ao Brasil e a contrução do imaginário popular dos imigrantes. E ainda, com base nesta relação, tentar entender melhor a contrução da identidade destes imigrantes e de seus descendentes, da qual faz parte a língua/cultura e o próprio imaginário popular.

5
Autor: Davi Lopes Pereira (dir.itumbiara@ueg.br) - Universidade Estadual de Goiás - Câmpus Itumbiara
Título do trabalho: Visão do paraíso no descobrimento, conquista e exploração do Brasil Colonial
Resumo: Por meio de leituras e estudos a respeito do discurso do gênero e de estratégias de engendramento da realidade, este tratabalho trata dos motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil em Visão do paraíso de Sérgio Buarque de Holanda. Com o objetivo de entender os motivos edênicos e os seus reflexos no descobrimento, conquista e exploração dos mundos novos, selecionou-se os capítulos 7 e 8 intitulados Paraíso perdido e Visão do paraíso, respectivamente, para mostrar o processo de elaboração de um mito, senão de um dos principais tropos que se fazem constantes no imaginário da cronística historiográfica dos descobrimentos e colonização do Brasil e da América de modo geral. Para Holanda (2000), a crença na existência do Éden foi motivo de sedução para os portugueses, durante a Idade Média e a era dos grandes descobrimentos marítimos, o que explica a reação que o contato com terras desconhecidas do ultramar provocou, principalmente pelo grande número de livros de devoção ou de recreio sobre o assunto. Da mesma forma descrições de viagens, reais e fictícias, como as de Mandeville, vão trazer o tema do Paraíso Terreal, representado no Oriente, segundo o livro de Gênesi, quase sempre envolto em um deslumbramento. O mesmo deslumbramento com que Colombo descrevia e pintava as suas Índias, seja por motivos que buscava em esquemas literários, seja baseado no que os poetas greco-romanos usavam para exaltar aquela época feliz, posta no começo dos tempos. Portanto, embasado em conceitos fundamentais como esse, o trabalho compromete-se em mostrar a ênfase atribuída à natureza na época do Renascimento como norma dos padrões estéticos, éticos e morais, do comportamento humano e de sua organização social e política e que a formação de tais mentalidades não é simplesmente imaginária, posto encontrar-se carregada de construções ideológicas, engendradas e verificadas na conquista da América.

6
Autor: Edilson Alves de Souza (edilson.ueg@hotmail.com)
Universidade Estadual de Goiás - Câmpus Campos Belos
Título do trabalho: Ressonâncias do bestiário medieval em História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil, de Pero Magalhães Gândavo
Resumo: As crônicas de viagem foram fortemente influenciadas pelo maravilhoso e o fantástico. Dentro da atmosfera fértil dos relatos de viagem alimentados pelos portentos e prodígios da medievalidade, tem-se a obra História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil, de Pero Magalhães Gândavo. Por meio da mentalidade cristã e da literatura, ao mesmo tempo em que se tenta aproximar o nativo da sacralidade mítica de uma visão paradisíaca do Novo Mundo, o conquistador se utiliza de noções que somam a religiosidade e o monstruoso, fazendo referência aos elementos do imaginário elucubrado dentro dos Bestiários. Estes descreviam, analógica e anagogicamente, criaturas bestiais reais e fabulosas, que influenciaram a produção cronística. Gândavo, em seu texto, conta-nos a história do monstro marinho Ipupiara que aparece na Vila de São Vicente. Tal criatura pode ser relacionada à serpente calcatriz, presente no Bestiário Toscano, o que desvela ecos do pensamento medieval bestiário. Destarte, nesse trabalho, tencionamos uma leitura de História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil, de Pero Magalhães Gândavo, evidenciando traços dessa tradição bestiária medieval.

7
Autores: Jackson da Silva Diniz (irinmage@gmail.com) - UFG
Júlio Roberto Monteiro Lima (lima_juliorm@hotmail.com) - UFG
Título do trabalho: A representação do colonizador em Gonçalves Dias
Resumo: Pretendemos aqui discutir como o colonizador aparece nos textos de Gonçalves Dias. Ou seja, como ele é representado na poesia e prosa do poeta. Para tanto, nos ocuparemos principalmente de suas poesias americanas e dos textos “Brazil e Occeania” e “O descobrimento do Brazil por Pedro Alvares Cabral foi devido a um mero acaso?”. Em vista de em todos esses documentos o índio normalmente ocupar lugar proeminente, esse estudo será também uma análise da relação de colonização que este sofreu por parte do europeu. Ensejamos, assim, contribuir para a compreensão da visão que nossos escritores românticos, num contexto de construção e afirmação da nacionalidade, tinham, ou procuravam expor, do colonizador europeu. Neste sentido, é importante observar até onde o ponto de vista de Gonçalves Dias é partilhado por outros escritores da época. Assim, também iremos o relacionar com outros textos do período.

8
Autor: João Batista de Morais Neto (joao.neto@ifrn.edu.br)
IFRN - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte
Título do trabalho: Padre Vieira: um olhar sobre a escravidão dos negros
Resumo: A escravidão dos negros, nos discursos da colonização, aparece como tema instigante em alguns autores. Na oratória barroca ele surge, por exemplo, na prosa dos sermões do Padre Antônio Vieira, que o desenvolve numa perspectiva muito particular. Considerando a leitura dessa produção, o trabalho ora apresentado vincula-se à linha de pesquisa Literatura e Estudos Culturais e tem a intenção de discutir o problema do posicionamento de Vieira em seus sermões que abordam esse tema. Entende-se que o interesse pela obra de Vieira, produção discursiva situada no período do Brasil Colônia, constitui objeto de relevância para a efetivação de uma pesquisa, na cena da contemporaneidade, a fim de que se possam efetuar novas leituras a respeito da sua produção textual, cujos sermões representam parte significativa de sua obra. Para isso, estudaremos o Sermão XX, o Sermão XIV do Rosário e o Sermão do Espírito Santo, os quais constituem modelos do discurso que desenvolve a questão enfocada pelo orador sacro, ao observar os negros em um contexto social que expõe a realidade escravocrata, a qual é compreendida por Vieira como uma possibilidade de salvação para os negros.

9
Autor: João Carlos Felix de Lima (jchilst@yahoo.com.br) ISCP - Instituto Superior de Ciências Policiais
Título do trabalho: A poesia de Gregório de Matos em João Adolfo Hansen: Artigo em reposição
Resumo: o artigo investiga os modos de ler o passado colonial brasileiro através da compreensão da obra de João Adolfo Hansen, especialmente no que tange a seu principal texto, A sátira e o engenho, publicado em 1989, como resultado de uma tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo. Considerando ser Hansen um dos maiores estudiosos do poeta Gregório de Matos, a investigação deverá incidir, também, sobre os principais adversários intelectuais do autor, e, ainda, em sua matriz pouco flexível em torno do conceito de Barroco, bem como na reorientação que o termo “literatura” acentua na conformação da leitura que Hansen faz dos séculos XVI, XVII e XVIII no Brasil. Importante considerar, aqui, a chave de nossa interpretação, pensada na obra de Pierre Bourdieu, na noção de Campo Literário, mas também na ideia de mudança estrutural da Esfera Pública, defendida por Jürgen Habermas. Tais tópicos presumem uma busca de apreensão de sentido no modo como foram recebidas as teorias de Hansen, e como elas repercutiram, no discurso universitário, no rumo das editorações de livros, em vista do caso Gregório de Matos e do padre Antonio Vieira, dentre outros autores da Colônia luso-brasileira.

10
Autora: Júnia Diniz Focas (junia.diniz@globo.com)
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) junia.diniz@globo.com
Título do trabalho: Inconfidência Mineira: o léxico de sua história
Resumo: O contexto histórico da Inconfidência Mineira, fracassado movimento por independência, ocorrido na época do Brasil Colônia, em Vila Rica, Minas Gerais, no final do século XVIII, será o tema da presente discussão. Objetiva-se empreender um estudo fundamentado nos processos retóricos e dialéticos, desvendando os sentidos do poder colonial e de como deles emergiu a fala de liberdade dos conspiradores. Desse quadro político, surgiu uma argumentação contraditória, ao mesmo tempo submissa e rebelde, na qual o discurso evasivo dos inconfidentes, na instância da repressão portuguesa, constituiu o réu condenado – Tiradentes. No embate discursivo, nasce o "Discurso da História", fruto do confronto de sentidos ideológicos no "Discurso na História", fundamentador da simbologia da independência e da identidade nacional. O reflexo dessas duas instâncias históricas encontra-se na transposição da denominação inicial de Conjuração Mineira para Inconfidência Mineira, repercutidas nos sentidos de conjuração e de inconfidência no contexto das devassas judiciais e na voz dos juízes portugueses ao proferirem a Sentença que condenou os réus inconfidentes. O campo interdisciplinar será o fundamento desse trabalho, ao associar a História e seus processos argumentativos, verificando como a linguagem também repercute os fatos que ocorrem em determinado contexto políticosocial. Assim, a construção da imagem ou representação da própria sociedade está presente nos discursos do Brasil Colônia que, vinculado institucionalmente à Metrópole portuguesa, se representa no próprio vínculo ideológico que é o lugar social da ideologia. O reflexo dessa representação é a linguagem, com as possibilidades de interpretação de mundo que revela e que desvenda. Ao focalizarmos a Inconfidência Mineira e suas realizações discursivas, analisamos um processo dialético nascido no núcleo político e econômico da Capitania de Minas Gerais.

11
Autora: Larissa de Oliveira Neves (larissadeoneves@gmail.com)
Unicamp
Título do trabalho: A brasilidade na obra de José de Anchieta: o Auto de São Lourenço
Resumo: Este trabalho apresenta uma reflexão sobre a obra teatral de José de Anchieta, focando na peça “O Auto de São Lourenço”, de modo a (re)pensar sua literatura como sendo a origem do teatro brasileiro. Teatro popular, oriundo das formas de dramaticidade da Idade Média, uma forma de representação sobretudo imagética, a obra do jesuíta alcançou, ainda que com objetivos didáticos e religiosos inquestionáveis, e uma visão etnocêntrica comum ao intelectual europeu de sua época, reunir os costumes dos povos que habitavam o Brasil no século XVI e que viriam a originar, com o correr do tempo, o povo brasileiro. A presente análise visa a demonstrar como o autor reuniu em suas peças, formal e tematicamente, as culturas indígena e portuguesa, criando, logo no começo do período colonial, uma literatura representativa do modo de vida daquelas pessoas. Além disso, cabe destacar o modo como aquela teatralidade festejada por índios e portugueses àquele tempo ainda se aproxima de diversas formas de representação brasileiras, seja populares, como os folguedos e festas tradicionais, seja intelectuais, a exemplo de espetáculos de grupos de teatro de rua ou a dramaturgia de um Ariano Suassuna.

12
Autor: Lucio Jose Dutra Lord (luciolord@hotmail.com)
Universidade do Estado do Mato Grosso
Título do trabalho: O papel dos textos legais e dos relatórios de viagem do período colonial sobre as representações sociais europeias
Resumo: O presente artigo analisa o papel desempenhado por documentos textuais elaborados durante o período colonial na constituição de uma representação social etnocêntrica do europeu em relação ao africano e ao índio-americano. Para tanto são estudados os textos das Ordenações do Reino e os relatórios de viagens produzidos por membros da igreja, representantes do Rei de Portugal e “cientistas” entre 1500 e 1808. Os documentos são aqui estudados como “objetos culturais”, tal como definidos por Anthony Giddens, ou seja, resultam do objetivo consciente do autor de definir uma compreensão sobre determinado tema. Mas, ao mesmo tempo, e como é característica dos objetos culturais, a compreensão dos seus significados também depende do “leitor” e do seu contexto. Assim, o estudo contextualiza as Ordenações do Reino que visavam controlar as relações econômicas e sociais do europeu com as novas terras e os novos povos, problematizando quais outras consequências os termos e as normas presentes nos textos de lei trouxeram à sociedade. Do mesmo modo, o estudo discute porque os relatórios, densamente descritivos do comportamento do negro e do índio, foram tão difundidos na Europa marcada pelo contato do europeu com as novas sociedades da África e América. Ao contextualizar, o estudo mostra que houve um contato entre as sociedades, extremamente tenso porque forçou o europeu a repensar seu lugar no mundo, encaminhando-se para o etnocentrismo e o discurso de civilização que foi contraposto à ideia do “homem natural” não civilizado. Deste modo, conclui o estudo, o papel desenvolvido pelas Ordenações do Reino e pelos relatórios foi o de fundamentar uma percepção sobre o exótico, o diferente e o natural que era enfatizado como inferior ao europeu. Mas este papel não compunha um objetivo autônomo dos seus autores, e sim dependeu do contexto da sociedade europeia que reelaborava naquele momento sua teoria social para compreender-se no mundo e com as outras sociedades.

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Autora: Márcia Maria de Melo Araújo (marcimelo@gmail.com)
Universidade Estadual de Goiás - Câmpus Pires do Rio
Título do trabalho: Influência do imaginário nos Diálogos das grandezas do Brasil de Ambrósio Fernandes Brandão
Resumo: Acerca do conhecimento das terras, da sua natureza e dos seus habitantes, vários cronistas, entre os quais Fernão Cardim, Frei Vicente do Salvador, Gabriel Soares de Sousa, Pero Magalhães Gandavo, escreveram, a partir dos seus pontos de vista ideológicos e imaginários, a respeito do Novo Mundo. Entretanto há que se avaliar que a conquista da América se garantiu principalmente em termos da construção de um discurso, em que aspectos do ideário do descobridor e do conquistador demonstraram-se tão eficientes quanto as suas próprias ações. Uma questão, que imediatamente ressalta sobre esse ideário, é o problema da alteridade da realidade étnica e antropológica dos gentios encontrados. A configuração dessa realidade seguia parâmetros alocêntricos, na medida em que, da América, foram registradas percepções e informações filtradas por uma mundividência europeia constituída por imagens idealizadas, nas quais a imaginação muitas vezes tendia para o ideológico e o político, perdendo o seu caráter de faculdade lúdica. Igualmente, ocorreu a experiência do conhecimento da tradicional orbis terrarum que, em princípio, orientou a visão europeia da América. Editado em 1741 e atribuído a Ambrósio Fernandes Brandão, os Diálogos das grandezas do Brasil, embora não apresentem marcas mais visíveis de consideração teológica, refletiam aquela mesma atitude da cultura bestiária de encontrar-se em estado de constante maravilhar-se frente à natureza e ao mundo, numa perspectiva de oposição ao ponto de vista do observador, que se vê sempre em um lugar privilegiado - na civilização. O objetivo deste trabalho é investigar, por meio do discurso presente nos Diálogos, a influência do imaginário que embasou o tratamento desse discurso, por meio dos termos teórico-práticos do método comparativista.

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Autora: Márcia Rejany Mendonça (marcia.r.mendonca@gmail.com)
UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Resumo:
Na literatura, ficção e realidade entrecruzam-se com aspectos individuais e coletivos, representando uma realidade permeada pelo imaginário. Este, diz Pesavento (1995: 10), “é, em si, elemento de transformação do real e de atribuição de sentido ao mundo”. Busca-se, neste texto, refletir acerca da realidade que surge desses entrecruzamentos, uma vez que evocam outra realidade, não presente, mas que dá sentido ao que chamamos de real. A esse respeito Ginzburg, (2001: 85), comenta: “por um lado, a “representação” faz as vezes da realidade representada e, portanto, evoca a ausência; por outro, torna visível a realidade representada e, portanto, sugere a presença. Mas a contraposição poderia ser facilmente invertida: no primeiro caso, a representação é presente, ainda que como sucedâneo; no segundo, ela acaba remetendo, por contraste, à realidade ausente que pretende representar”. Águas Atávicas, de Marcos Faustino, ao reconstruir o passado da vila de Sant’Anna através do diálogo entre literatura, história e imaginário, evoca a ausência e sugere a presença da realidade representada. Personagens e fatos históricos são transpostos para a narrativa juntamente com personagens sem relevância que vivem no interior do Brasil do século XIX. Crianças de porta de rua, prostitutas, guerrilheiras, soldados, escravos, italianos, uruguaios, portugueses, paraguaios, índios são retratados em um cotidiano aos poucos modificado em função da passagem dos soldados da Força Expedicionária Brasileira que estão a caminho de Laguna, com o propósito de combater os soldados paraguaios no conflito ocorrido no século XIX entre Brasil e Paraguai. Tudo é narrado a partir da perspectiva de Pereirinha desde quando ele é somente mais um dos meninos de porta de rua, depois soldado, cabo e, por fim, voluntário na Guerra. A representação da realidade que buscamos refletir neste texto surge através do olhar desse personagem que tece a história e o imaginário na construção da realidade.

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Autor: Marcio Roberto Pereira (marciorpereira@uol.com.br)
UNESP/Assis
Título do trabalho: José Veríssimo: da valorização etnológica à defesa estética na construção do cânone literário brasileiro
Resumo: José Veríssimo publica sua História da literatura brasileira (1916) estabelecendo uma ruptura com a crítica romântica ou com a interpretação cientificista de sua época, ao adotar um ecletismo teórico, que o faz desconfiar dos sistemas fechados e das classificações únicas, que conferiam à análise da literatura um caráter determinista. Da valorização etnológica ao sentimento nacionalista ou do cientificismo à defesa estética da construção do cânone literário, a trajetória de José Veríssimo é marcada por uma organicidade que gera o apuramento de seus critérios. Utilizando-se de sua experiência como leitor e do arcabouço teórico de críticos como Brandes, Taine, Lanson, Brunetière, entre muitos outros, Veríssimo delineia seu cânone a partir de duas coordenadas: a relação entre literatura e sociedade e a definição, ou afirmação, de seu objeto de estudo: a literatura brasileira. José Veríssimo inicia um processo de seleção em que a literatura nacional começa a ser compreendida em sua singularidade, num processo dialético, e não mais como um mero produto da sociedade. Assim sendo, o critico propunha uma seleção daquelas obras que representassem o desenvolvimento brasileiro, através de problemáticas universais e, ao mesmo tempo, nacionais. Este trabalho analisa as diversas abordagens de Gregório de Matos, propostas por José Veríssimo, a partir de três diretrizes: a relação entre crítica e leitura, demonstrando a organicidade da obra de Veríssimo e suas constantes revisões, a sincronia crítico-leitor do Barroco e, por fim, a análise da construção do cânone literário nacional, proposto pelo crítico, para a construção de uma tradição.

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Autora: Patricia de Freitas Camargo (patriciacamargo@tiscali.it)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
Título do trabalho: Linguagem e representação na História do Futuro do Padre Antônio Vieira
Resumo: Antônio Vieira é considerado um dos maiores autores da literatura em língua portuguesa. A quantidade surpreendente de escritos que produziu é proporcional à riqueza de temas que tratou de modo retoricamente exemplar.
No entanto, a apreciação positiva desse gigantesco legado não foi sempre unânime – e mesmo hoje não o é, sobretudo quando são considerados os diversos gêneros utilizados por Vieira. O confronto dos diferentes juízos e seus critérios revela que as principais divergências têm origem não no gosto, mas na própria concepção de linguagem que estrutura aqueles textos: se, por um lado, a língua portuguesa se faz reconhecer no primor dos textos, o mesmo não se pode dizer sobre sua linguagem. É essa descontinuidade que motiva o exame atento dos fundamentos da linguagem e da representação encontrados num texto particularmente problemático daquele conjunto: a História do Futuro. Seguindo os estudos pioneiros sobre as práticas de representação colonial de João Adolfo Hansen e Alcir Pécora, coloco sob exame o modo no qual Vieira articula os conceitos de palavra e de discurso em relação à sua concepção de história. Ele permite compreender um ordenamento de sentido de palavras e de eventos a partir de uma perspectiva temporal particular (a escatologia cristã) em uma construção essencialmente imagética: figuras e topoi discursivos, que ilustram uma concepção de tempo e uma prática de representação regulada que não esconde nem sua finalidade, nem seus pressupostos. Para além da superficialidade do estilo, os escritos de Antônio Vieira revelam todo um arcabouço conceitual que sustenta não apenas a agudeza de sua forma, como também uma concepção retórica e teológica da própria linguagem e da representação de um modo geral. Compreender essa arquitetura de sentido é o passo necessário a qualquer leitura que procure dar conta das obras de Vieira de uma perspectiva crítica.

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Autor: Pedro Carlos Louzada Fonseca (pfonseca@globo.com)
Universidade Federal de Goiás
Título do trabalho: O imaginário do feminino e a retórica da feminização no descobrimento da América e na colonização do Brasil
Resumo: O trabalho encontra-se filiado à linha de pesquisa dos estudos pós-colonialistas na perspectiva do discurso do gênero (gender discourse). Com base em achados teóricos e críticos pertinentes à postura feminista, o trabalho tem por objetivo examinar alguns aspectos da representação da imagem feminina e de seu processo retórico de feminização. Esses expedientes discursivos, além de seu propósito referencial, encontram-se ideariamente carregados ao se fazerem estrategicamente presentes no discurso dos primeiros textos da descoberta da América e da colonização do Brasil. Nesse tipo de engendramento colonialista mundonovista, pode ser verificado que o seu discurso figurativo e argumentativo sustenta a manipulação de uma forjada imagem da ameríndia que é construída de forma ideológica e simbólica. Tanto em momentos eufóricos quanto disfóricos dessa visão descobridora e colonialista, essa sobredeterminação discursiva da imagem da ameríndia, por antonomásia representando a imagem da própria América, torna-se sexualizada, na medida em que objetifica a inferioridade do outro sexual por conferir-lhe natureza e atributos bárbaros e bestializantes. Esse processo elaboradamente retórico visa preservar uma forma de domínio baseada numa espécie de política sociocultural e histórica de prerrogativas androcêntricas que, características da mentalidade fundadora da tradição civilizacional e cultural da Europa ocidental, se apresentam desde sempre autoinvestidas de qualidades e capacidades superiores.

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Autora: Poliana Queiroz Borges (polianaq19@gmail.com) - Universidade de Brasília
Título do trabalho: Paisagem sonora e paisagens íntimas em Desmundo
Resumo: O filme Desmundo (2002), de Alain Fresnot é uma livre adaptação do romance histórico homônimo de Ana Miranda, publicado em 1996, e que se enquadra no chamado cinema literário. A obra de Fresnot apresenta uma singularidade poético-musical ao trazer uma trilha sonora que faz ressaltar a distância dos relacionamentos afetivos entre as personagens. A narrativa se passa em um Brasil recentemente colonizado, onde se misturam a rudeza dos homens advindos do reino, desprovidos de títulos da nobreza e desbravadores, com índios escravizados e tribos em conflito. A presença da igreja católica é fortemente marcada através das questões político-sociais. Nessas condições extremamente hostis, desembarcam algumas jovens órfãs, vindas de Portugal, para servirem a esses homens brancos. Entre elas, está Oribela de Covilhã. É do ponto de vista dessa personagem que transcorre a narrativa cinematográfica em análise. O objetivo deste artigo é verificar como os elementos sonoros e musicais presentes na obra fílmica contribuem para reforçar o abismo cultural entre o Brasil colonial e a Europa, representado pela nova formação social em terras de desmundo. Esse objetivo será buscado, metodologicamente, por meio dos conceitos de paisagem sonora, cunhados pelo musicólogo Murray Schafer em diálogo com a ideia de ritmo como ordenamento temporal, de Mikhail Bakhtin. Considera-se a hipótese de que a sonoridade explorada por John Neschling, compositor que assina a trilha sonora, realça os contrastes e plasma uma imagem musical carregada de significações que acentuam as atmosferas das paisagens interiores e exteriores das personagens.

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Autora: Socorro de Fátima Pacífico Barbosa (socorrofpbarbosa@hotmail.com)
Universidade Federal da Paraíba- CNPq
Título do trabalho: A invenção do leitor na imprensa periódica jocosa de Portugal do século XVIII
Resumo: Os folhetos jocosos portugueses surgiram no século XVIII e a eles devemos a invenção, ou pelo menos a popularização do leitor como representação daquele que vai ler e consumir o que está escrito. Sempre considerados como suporte privilegiado da literatura, sobre os folhetos jocosos raramente se observam estudos sobre o seu papel como o primeiro veículo de certa imprensa periódica, que circulou no século XVIII e teve sua consagração no século XIX. Trata-se dos periódicos escritos para instruir e deleitar, que uniam as informações históricas, científicas e literárias, com gêneros menores como a anedota, as adivinhações e as charadas. Em Portugal, vendidos pelos cegos, a preços módicos, os folhetos de cordel contribuíram para a circulação de alguns gêneros em prosa relacionados ao mundo da informação. Entre estes, encontram-se as cartas, as relações noticiosas, os naufrágios e os milagres, cuja leitura foi identificada a um certo tipo de leitor, comumente tido como curioso e afeito a uma leitura ligeira, por distração. Este trabalho apresenta uma análise da representação de leitor nos folhetos de cordel que circularam em Portugal no século XVIII e XIX, notadamente aqueles escritos atribuídos ao Frei Lucas de Santa Catarina.

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Autora: Thaíse Araújo da Silva (thaise.araujo.silva@outlook.com)
Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Título do trabalho: Viva o povo brasileiro: diálogos entre literatura, ficção e história
Resumo: O trabalho se propõe a discutir a relação entre literatura e história no romance Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro, tendo como linha de pesquisa Literatura, Identidade e Representações identitárias. João Ubaldo Ribeiro representa através do enredo literário fatos sobre trezentos e trinta anos da História do Brasil, na tentativa de tecer reflexões e desmistificar episódios que marcaram o país. É a partir desse aspecto, que Viva o povo brasileiro possibilita estabelecer a inter-relação entre Literatura e História, já que a versão da ficção sobre episódios reais estabelece a verossimilhança entre os personagens e personalidades históricas, artifício que faz o leitor do texto literário identificar referenciais da realidade, pois a narrativa com que se depara apresenta a “reescrita” do passado dentro de um novo contexto. Nessa perspectiva, o romance se apropria de um discurso sobre outro discurso, o histórico. No entanto, vale ressaltar que a ficção diferentemente da história, não tem a pretensão de esclarecer verdades, ou explicar fatos relevantes, apenas dialoga criativamente com o passado. A narrativa literária contextualiza a trajetória das personagens que têm em comum os traços da negritude e os efeitos do regime escravista, além de expor transformações da vida do povo brasileiro. O romance, nesse sentido, é uma revisão sistemática de todos os discursos que excluem a cultura das classes populares e uma consequente reordenação deste universo a partir da ótica dos excluídos.

21
Autor(es): Valéria Maria Pena Ferreira (valeriapena@hotmail.com)
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri
Título do trabalho: Ensinar e mover: a oratória sacra na América Portuguesa
Resumo: Esta comunicação apresenta um estudo da oratória sacra na América Portuguesa, sob a perspectiva de uma poética cultural que prioriza o lugar do discurso letrado no entrecruzamento dos vários discursos que compõem uma dada episteme. Procuramos, assim, articular a prática discursiva dos sermões à organização de conjunto da sociedade de que ela fez parte. O trabalho de pesquisa desenvolvido realizou-se em duas direções: por um lado, procuramos definir a especificidade e as regras do gênero estudado, com o objetivo de expor a sua forma de construção e o seu funcionamento; por outro, confrontamos a parenética com os relatos de festas religiosas e de fúnebres espetáculos para tentar identificar o uso de procedimentos retóricos comuns, as especificidades narrativas dos relatos, bem como as funções representativa e avaliativa dos gêneros confrontados. Sendo assim, realizamos uma pesquisa de cunho historiográfico, em que o método consistiu na descrição das práticas que determinaram os sermões e os relatos de festas e de cerimônias fúnebres realizados na América Portuguesa.

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Autor(es): Vanessa Gomes Franca (francavg@hotmail.com)
Universidade Estadual de Goiás - Câmpus Campos Belos
Título do trabalho: Mantícora, Sereia e Serra: vestígios da tradição bestiária medieval em Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry, e A cosmografia universal, de André Thevet
Resumo: A tradição bestiária medieval influenciou, sobremaneira, o discurso cronístico, no que se refere às descrições dos espécimes animais encontrados na Terra Brasilis. Desse modo, vemos figurar nas crônicas de viagem uma ménagerie em que figuravam criaturas místicas, míticas, monstruosas, híbridas, exóticas e reais. Em nossa pesquisa, procuramos evidenciar vestígios do imaginário bestiário medieval presentes nas obras Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry, e A cosmografia universal, de André Thevet. Para exemplificarmos tais vestígios, selecionamos os exemplos da mantícora, da sereia e do peixe serra.

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SIMPÓSIO 25 – DEMONSTRAÇÃO DOS USOS, NORMAS E IDENTIDADES LINGUÍSTICAS LOCAIS

Coordenadores:
Sebastião Elias Milani - Universidade Federal de Goiás - sebaselias37@hotmail.com
Daniel Marra da Silva - Instituto Federal do Tocantins - delmarra2004@hotmail.com

RESUMOS APROVADOS

1.
Título do Trabalho: Fatos fonéticos e fonológicos constatados na pesquisa do Atlas Linguístico de Goiás- ALINGO
Sebastião Elias Milani - Universidade Federal de Goiás
Resumo: A execução da pesquisa para elaboração do ALINGO fez com que o grupo de entrevistadores percorresse todo o estado de Goiás. Entrevistou-se em 80 cidades, mesmo que o texto do ALINGO constasse de 50 pontos de coleta. Traçando linhas de uma extremidade a outra do estado de Goiás, tendo Goiânia como referência no centro, todas as fronteiras rodoviárias do estado são pontos de coleta e tiveram seus resultados incluídos na análise. Goiás tem fronteiras com seis estados, os quais pertencem a diferentes regiões do país e apresentam traços linguísticos característicos e diferentes entre si. Do estado de Minas Gerais, região Sudeste, recebeu a influência dos falares caipiras, muito caracterizado pela execução do /R/ pós-vocálico como retroflexo, mas também caracterizado pela execução dos morfemas de diminutivo apocopados. Ressalta-se que os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul receberam essas mesmas influências. Nas fronteiras dos estados do Pará e do Tocantins, estados da região Norte, cuja população tem uma formação até meados do século XX semelhante a de Goiás, com muitas influências indígenas e nordestinas, esses vindos com o manejo da criação do gado no século XIX, constatou-se a presença de glotalização na execução do /R/ pós-vocálico e da palatalização do /S/ pós-vocálico. Fatos semelhantes ocorrem nos falantes da fronteira com a Bahia, estado que pertence a região Nordeste, porém, a constante migração de baianos para o estado de Goiás faz presente a influência e o reforço desses traços naquela fronteira. Essas realizações de pós-vocálicos tm territórios claramente definidos, porém, em todas as cidades de fronteira, os traços não característicos daquela região se fazem presentes.
Palavras-chave: ALINGO - fronteiras linguísticas – fonética – fonologia – fala
Bibliografia básica:
AMARAL, A. O dialeto caipira: gramática, vocabulário. 4 ed. São Paulo: HUCITEC; Brasília: INL, 1981.
NASCENTES, A. Bases para a elaboração do Atlas Linguístico do Brasil. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Casa de Rui Barbosa, 1958.
PALACIN, L; MORAES, M. A. de S. História de Goiás. 5ª Ed. Goiânia/GO: Editora UFG/1989.
PINHEIRO, I. M. G & MILANI, S. E. “Possibilidades fonéticas do “o” ortográfico em Goiás”. Revista Sociodialeto, 2014, http://www.sociodialeto.com.br/edicoes/17/01062014013731.pdf.
SILVA NETO, S. da. Guia para estudos dialetológicos. 2.ª ed. melhorada e ampliada. Belém: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 1957.

2.
Título do Trabalho: “O cerrado é uma floresta de cabeça para baixo”: um estudo semântico-lexical da nomeação dos aspectos geográficos no nordeste goiano
Autores: Daniel Marra da Silva - Instituto Federal do Tocantins
Sebastião Elias Milani - Universidade Federal de Goiás
Resumo: Propõe-se no presente estudo demonstrar a ocorrência das lexias que compõem o grupo semântico-lexical aspectos geográficos, a partir dos dados do projeto Acervo Audiovisual da Língua Falada em Goiás. Enfocando o campo temático aspectos geográficos, selecionou-se alguns conceitos nomeados relativamente a essa temática: córrego/riacho/ribeirão/grota, mina/nascente/olho d’água, foz/barra/encontro, banzeiro/onda/maré/rebojo, serra/montanha/pico/pontal, morro/morrote/monte, mata/floresta/capão/macega, cerrado. A referência no título deste trabalho ao bioma Cerrado remete à questão nº 12 do questionário do Alingo: o nome da vegetação típica de Goiás. O cerrado é o segundo maior bioma brasileiro cuja abrangência cobre uma área de 2.045.064 km². O fato de a biomassa dessa vegetação estar abaixo da superfície foi observado pelo escritor Carmo Bernardes, que costumava dizer que “o cerrado é uma floresta de cabeça para baixo”. Para os objetivos deste estudo, os itens lexicais acima elencados foram analisados numa dimensão dialetal diatópica, considerando-se a região nordeste do estado de Goiás, fronteira com o estado da Bahia. Amparado nos referenciais teórico-metodológicos da Geolinguística, selecionou-se para este estudo nove pontos de onde foram coletados dados de 36 informantes, selecionados mediante os critérios de idade, sexo e escolaridade. Através desses dados, tornar-se-á possível conhecer a gama de possibilidades de nomeação de que os habitantes dessa região fazem uso para expressarem o mesmo conceito e chegarem ao mesmo referente.

Palavras-chave: Alingo, Léxico, Goiás
Bibliografia básica
CARDOSO, S. A. Geolinguística: tradição e modernidade. São Paulo: Parábola, 2010.
COUTINHO, L. M. Cerrado. Aspectos do Cerrado. Disponível em: http://eco.ib.usp.br/cerrado/index.htm Acesso: 11 de Nov. 2014.
COSERIU, E. Lições de Linguística Geral. Trad. Evanildo Bechara. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 2004 [1980].
RAMOS, C. M. A.; Bezerra, J. R. M.; ROCHA, M. F. S.; REIS, M. R. No céu do Maranhão, cruzam-se catirinas, tingas e pragas: um estudo semântico-lexical da fauna maranhense. In: CARDOSO, S. A. M.; MOTA, J. A.; PAIM, M. M. T (Orgs). Documentos 3: Projeto Atlas Linguístico do Brasil. Salvador: Vento Leste, 2012. p. 263-280.
PAUL, J. B. S. S. A recriação do universo goiano por Carmo Bernardes nos contos de A Ressureição de um Caçador de Gatos. 180 fl. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Estudos Românicos) – Universidade de Lisboa, Lisboa, 2008.

3.
Título do Trabalho: Traços identitários do falar do sul de Goiás
Autor(es): Isadora Massad Giani Pinheiro - Universidade Federal de Goiás / CNPq
Resumo: Tratar de identidade cultural nos dias de hoje é um trabalho árduo, visto que vivemos em um mundo o qual a globalização está em amplo crescimento, isso significa que as relações sociais estão mais facilitadas, assim como o contato com culturas diferentes. Esse tipo de contexto possibilita um abrandamento de identidade local, pois há influências vindas de várias partes, o que pode produzir uma miscelânea de costumes e de tradições. Para quem estuda, principalmente, as ciências humanas, está claro que a língua é parte indissociável da identidade cultural de uma comunidade, dessa forma é possível afirmar que a língua também é alterada dentro dessa perspectiva, porém nela ainda se mantêm traços característicos dessa identidade, independentemente da influência sofrida. A partir desse pressuposto, esta pesquisa identifica e analisa particularidades presentes no falar do sul de Goiás, que podem ser elementos identitários dessa variação em questão, tão pouco discutida e estudada dentro dos estudos linguísticos. Os fenômenos analisados são a oscilação entre oralização e nasalização, e também entre sonorização e ensurdecimento, além de observar comportamentos vocálicos peculiares, como as possibilidades fonéticas em posições átonas do “o” ortográfico. Os morfemas relacionados ao diminutivo foram analisados também sob o olhar morfológico, observando sua construção e o funcionamento do gênero em tais morfemas. Essa pesquisa adota a fundamentação teórico-metodológica básica do ALiB (Atlas Linguístico do Brasil), principalmente no que refere à coleta de dados, desde a construção do questionário (com perguntas fechadas), até a seleção dos informantes (procurando atender o maior número possível de perfis), métodos característicos da Geolinguística e da Dialetologia. Tais teorias também consolidam a análise dos dados, juntamente com a Tipologia Linguística. Para a contextualização e demais análises que saem do âmbito das ciências da linguagem, a pesquisa conta com contribuições da História, auxiliando na compreensão da fundação da região estudada.
Palavras-chave: Identidade Linguística, Dialetologia, Linguística descritiva
Bibliografia básica:
AMARAL, A. O dialeto caipira: gramática, vocabulário. 4 ed. São Paulo: HUCITEC; Brasília: INL, 1981.
BRANDÃO, S. F. A geografia linguística no Brasil. São Paulo: Ática, 1991.
CARDOSO, S.A. Geolinguística: tradição e modernidade. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.
FERREIRA C. S; CARDOSO, S. M. A dialetologia no Brasil. São Paulo: Contexto, 1994.
SILVA NETO, S. da. Guia para estudos dialetológicos. 2.ª ed. melhorada e ampliada. Belém: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 1957.

4.
Título do Trabalho:Práticas discursivas do terço católico da Folia de Santos Reis, de Jaraguá – Goiás
Autores: Ester Ferreira - Universidade de Brasília
Márcia Elizabeth Bortone - Universidade de Brasília
Resumo: Esta pesquisa sociolinguística, de cunho qualitativo e etnográfico, versa sobre os pontos convergentes e divergentes de aquisição e manifestação das práticas discursivas religiosas, considerando os aspectos e variações linguísticas, materializadas nas rezas do terço católico e ladainhas proferidas durante a folia de Santos Reis, em Jaraguá, Goiás, Brasil. São observadas também ocorrências das expressões latinas (latinório) nesses festejos e rituais religiosos. Realizou-se um estudo histórico-comparativo das manifestações discursivas dos doze grupos pesquisados e, posteriormente, o estudo comparativo entre os elementos linguísticos e as possíveis formas destes na origem latina. Outro fator observado constitui-se em mudanças ocorridas nas estruturas e significados das rezas e das ladainhas da versão latina ao português vernáculo falado pelos membros desses grupos. Nas análises dos dados, aplicou-se o método interpretativo de sentidos (Minayo,
2012), cujos procedimentos metodológicos são: categorização, inferência, descrição e interpretação. Os dados foram coletados em situações contextualizadas e diferentes durante os períodos de ocorrência dos festejos nos povoados, nas áreas rurais e na cidade de Jaraguá. Nos rituais da folia de Santos Reis, as rezas, as ladainhas e os cânticos proferidos nos momentos sagrados são aprendidos durante a realização do festejo, sendo, portanto, um forte legado cultural dos participantes, passado de geração em geração. As estratégias de manutenção da cultura e da fala são preservadas por meio da herança oral. Muitas vezes, os cânticos de petições e agradecimentos são improvisados. Em decorrência disso, muitos itens lexicais ligados a aspectos culturais e rituais religiosos vão desaparecendo na medida em que essas práticas vão sendo substituídas. As diferenças e semelhanças observadas nas práticas discursivas ora funcionam como mecanismos de
identificação ora de individualização dos grupos, dependendo do contexto, situação e interesses sociodiscursivos e estratégias sociointeracionais.
Palavras-chave: Folia de Santos Reis; Jaraguá-Goiás; Práticas discursivas; Terço católico.
Bibliografia básica:
BERNSTREIN, Basil. 1972. A sociolinguistic approach to socialization with some reference to educability. In: Gumperz, John Joseph; Hymes, Dell. (org.). Directions in sociolinguistics. New York: Holt, Rinehart and Winston. p.465-497.
BORTONE, Márcia Elizabeth. 1996. Comunicação interdialetal: um retrato de diversidades culturais. In: Magalhães, Maria Izabel (org.) As múltiplas faces da linguagem. Brasília: Editora da UnB.
GUMPERZ, John Joseph. 1988. Language and social identity: Studies in interational sociolinguistic. 2 ed. New York/Cambridge: University Press.
MINAYO, Maria Cecilia de Souza (org.). 2010. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 29 ed. Petrópolis/RJ: Vozes. (Coleção: Temas Sociais).
PESSOA, Jadir de Morais. 2007. Trilhando a diversidade cultural brasileira. In: Pessoa, J. de M.; Félix, M. As viagens dos Reis Magos. Goiânia: Editora da UCG. p. 155-240.

5.
Título do Trabalho: Léxico e cultura: um estudo a partir de um autor regional do sudeste do Pará
Autora: Eliane Pereira Machado Soares - Universidade Federal do Pará
Resumo: Este trabalho tem por objetivo discutir a relação entre língua e cultura numa cidade do interior do Estado do Pará, relacionando o léxico de um autor regional com a formação sócio-histórica e a construção da identidade na região, considerando que o léxico é o nível da língua que melhor manifesta a realidade sociocultural de um povo. Para tanto, apresentamos um corpus coletado na obra de um autor regional, João Brasil Monteiro, cujo trabalho tem caráter memorialístico, e que tem sido objeto de nossos estudos nos últimos 3 anos. Em suas obras a história da região é retratada a partir de sua experiência profissional, como navegante nos rios da região, e de seu olhar para fatos e eventos ocorridos na cidade, hoje centenária, ao longo de 80 anos. Seu texto traz uma série de termos e expressões que refletem a realidade física e social local, permitindo com isso o conhecimento de sua formação e dos elementos constitutivos de sua identidade ao longo
da história. Sendo assim, esperamos com este estudo dar uma contribuição não somente aos estudos linguísticos, como também para o conhecimento da história dessa parte da região amazônica.
Palavras-chave: Língua. Léxico. Cultura. Identidade.
Bibliografia básica:
ALVES, Ieda Maria. Neologismo: Criação Lexical. 2ª Ed. 1994.
AMARAL, Amadeu. O Dialeto Caipira. 4. ed. São Paulo, Hucitec, 1982.
ANDRADE, M. M. Lexicologia, terminologia: definições, finalidades, conceitos operacionais. In: OLIVEIRA, Ana Maria P. P.; IZQUERDO, A. N. (Org.) As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande, MS : Ed. UFMS, 1998, p. 189-198.
ARAGÃO, Maria do Socorro S. de . A Linguagem Regional Popular na Obra de José Lins do Rego. João Pessoa, FUNESC, 1990.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um Conceito Antropológico. 14 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

6.
Título do Trabalho: Diversidade e variação linguística em contextos mato-grossenses
Autora: Neusa Inês Philippsen - Universidade Estadual do Mato Grosso
Resumo: Este trabalho pretende mostrar a proposta de pesquisa que tem por objetivo refletir sobre a língua portuguesa e línguas minoritárias faladas em Mato Grosso/Brasil. A presente proposta fundamenta-se nos princípios da Geolinguística contemporânea (COSERIU, 1979/1982, NASCENTES, 1953/1958/1961, SANTOS, 2006/2012), visto que se tem dado ênfase tanto às variações linguísticas geográficas (diatópicas) quanto às implicações de natureza social (diastráticas). Para complementar os recortes teórico-metodológicos mobilizados nos estudos, fundamentalmente por se operar com variáveis socioculturais dos dados coletados, recorre-se, também, à interface com a Sociolinguística, mais especificamente ao modelo de análise linguística proposta pela Sociolinguística Variacionista (LABOV, 1966/1972/2008, TARALLO, 2007). Vale salientar que a instituição sede dos trabalhos é a Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT/Sinop. A pesquisa tem como propósito sintetizar resultados de pesquisa geo-sociolinguísticas em áreas geográficas mato-grossenses distintas, assim como em temáticas também distintas. Para tanto, elaborou-se um projeto piloto, intitulado Diversidade e variação linguística em Mato Grosso – DIVALIMT, que tem observado o comportamento linguístico regional, com uma atenção mais específica aos contatos de variedades, línguas minoritárias, crenças, atitudes linguísticas, incorporação de anglicismos e história do português em contexto de migração, especialmente de sulistas. Com relação aos principais campos de estudo dos subprojetos a serem explorados, destacam-se os vieses fonético/fonológico, morfossintático, pragmático e semântico-lexical, aos quais se pretende lançar olhar sobre marcas como “r” em início e final de sílabas, marcadores discursivos, sequenciais e interacionais, apreendidos na fala, e ainda outros elementos que permitam identificar o estado de variação linguística nas comunidades locais, que se apresentam ‘plurilinguísticas’ e multidialetais. Dentre os resultados já alcançados, destaca-se um banco de dados on-line, que traz a compilação de pesquisas realizadas no Estado de Mato Grosso, disponível para a comunidade científica e para a população desta região brasileira, propiciando a ampliação do conhecimento acerca da identidade linguística e sociocultural deste espaço geográfico.
Palavras-chave: Variação e diversidade linguística em Mato Grosso/Brasil; Banco de dados on-line; Identidades linguística e sociocultural.
Bibliografia básica:
COSERIU, E. Sincronia, diacronia e história: o problema da mudança linguística. Trad. Carlos Alberto da Fonseca e Mário Ferreira. São Paulo: Presença, 1979.
LABOV, W. Padrões sociolinguísticos. Trad. Marcos Bagno, Maria M. P. Scherre, Caroline R. Cardoso. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
NASCENTES, A. Bases para a elaboração do atlas linguístico do Brasil. I e II. Rio de Janeiro: MEC, Casa de Rui Barbosa, 1958-1961.
SANTOS, I. P. Proposta de análise do aspecto semântico-lexical em atlas linguísticos regionais brasileiros. In: CUNHA, C. de S. (org.). Estudos geo-sociolinguísticos. Rio de Janeiro: UFRJ, Pós-Graduação em Letras Vernáculas. 2006. p. 83-97.
TARALLO, F. A pesquisa sociolinguística. 8ª ed. São Paulo: Ática, 2007.

7.
Título do Trabalho: A (des)nasalização vocálica no português falado no Amazonas: um estudo experimental
Autora: Maria Sandra Campos - Universidade Federal do Amazonas
Resumo: Este estudo contextualiza-se no modelo de análise dos fonemas em laboratório, cujos resultados têm-se mostrado produtivos uma vez que avalia com mais precisão os fenômenos recorrentes na língua. Sua finalidade é pontuar contextos da desnasalização do português falado no interior do Amazonas. Há uma tendência geral à nasalidade no português falado em grande parte da região do Amazonas, por exemplo, f[õ]me, M[ã]naus, f[ã]mília, far[ĩ]nha, ou seja, o traço de nasalidade, quando a vogal está em contiguidade a fonemas nasais /m/, /n/, /nh/, é bastante forte. Entretanto, em determinadas localidades da região, o comportamento dessas vogais, em contiguidade a esses fonemas, ocorre, a exemplo do português falado no Sudeste brasileiro e no português europeu, como em f[ó]me, M[á]naus, f[á]mília, far[i]nha. Em recente pesquisa pelo médio e baixo Amazonas, com o Projeto DIALETOS AMAZÔNICOS – DESCRIÇÃO PARA A REVITALIZAÇÃO DA AUTOESTIMA RIBEIRINHA, o fenômeno foi registrado na fala dos moradores de diversas localidades (zona urbana e zona rural), caracterizando-se como uma variante regional evidente em algumas regiões no Estado. A fim de mensurar o grau de nasalização, será feita uma análise comparativa desses mesmos fragmentos, sob a égide da fonética experimental. A descrição examina os contornos fonológicos propensos a produzir a desnasalização ou a nasalização leve em análise através do programa PRAAT.
Palavras-chave: Nasalização. Variação. Fonética Experimental. Regionalismo.
Bibliografia básica:
ABAURRE, Bernadete; PAGOTTO, Emilio. Nasalização no português do Brasil. Gramática do Português Falado, v. 6, p. 495-522, 1996.
BISOL, Leda (Org.). Introdução aos estudos de fonologia do português brasileiro. 2ª ed., Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
CALLOU, Dinah; LEITE, Yonne. Iniciação à fonética e à fonologia. 2ª ed., Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
CÂMARA JR., Joaquim Matoso. Para o estudo da fonética portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Padrão, 1977.
MORAES, J. A.; WETZELS, W. L. Sobre a duração dos segmentos nasais e nasalização em português. Um exercício de fonologia experimental. Caderno de Estudos Lingüísticos. Campinas, n° 23, p. 153-166, jul.- dez. 1992 QUICOLI, A. Carlos. Harmony, lowering and nasalization in Brazilian Portuguese. Língua, Amsterdam, n° 80, p. 295-331, 1990.

8.
Título do Trabalho: A interculturalidade nas identidades linguísticas do Brasil
Autores: Marinalva da Silva Brito - Universidade Estadual de Roraima
Huarley Mateus do Vale - Universidade Estadual de Roraima
Resumo: Em se tratando dos estudos do uso da Língua Portuguesa, sua questão lexical, e as normas levadas em conta pelos meios de comunicação nos parece mais acirrada a questão dos empréstimos linguísticos, especialmente os estrangeirismos. Muito esforço se tem empreendido para tolhir os estrangeirismos da Língua Portuguesa no Brasil com o intuito de conservar a sua “pureza”, este esforço é oriundo de pessoas ou instituições que ainda não se aprofundaram nos estudos das ciências da linguagem. Muitos defendem a extinção dos estrangeirismos na Língua Portuguesa, contudo estão pautados numa preocupação inútil e sem fundamentos teóricos, para embasar essa prática. Mesmo que pareçam ter boa intenção e sinceridade patriota estão deveras equivocados em relação ao que defendem sobre a nossa língua. Eles não levam em consideração os estudos diacrônicos e muito menos sincrônicos da Língua Portuguesa, somente possuem uma restrita visão gramatiqueira do que é a linguagem. Fundamentados apenas em preconceitos linguísticos, querem, e tentam criar uma hegemonia linguista dentro da própria Língua Portuguesa, desconsiderando assim os diversos dialetos falados no Brasil. Buscam também proporcionar uma exclusão de todas as palavras que são de origem estrangeira com base em argumentos falhos e sem coerência. Ignorando totalmente a nossa diversidade linguística. Evidente que toda língua adota e adapta vocábulos de outras línguas como parte íntegra de seu processo de desenvolvimento. Sempre foi assim nas mais distintas culturas linguísticas. Os empréstimos se conformam à fonologia portuguesa e às suas regras de derivação. Os empréstimos também se adotam com restrições semânticas e às vezes com sensíveis mudanças de significado. Muito embora o empréstimo não represente uma inovação é um mecanismo importante. Apesar dessas questões fica evidente a relevância de tais empréstimos para dar conta da variação constante a que estamos expostos em termos de evolução da cultura miscigenada da língua e dos fatos linguísticos.
Palavras-chave: Língua Portuguesa, empréstimos linguísticos, estrangeirismos.
Bibliografia básica:
CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Princípios de Linguística Geral. 4. ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1974.
CARVALHO, Nelly. Empréstimos Linguísticos. São Paulo: Ática, 1989 (Série Princípios).
FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à Linguística I: Objetos Teóricos. São Paulo: Contexto, 2002.
FARACO, Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos: guerras em torno da língua. São Paulo: Parábola, 3ª ed. 2004. pág. 26.

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SIMPÓSIO 26 – ESTUDOS CRÍTICOS DO DISCURSO E GRAMÁTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL NO CONTEXTO DO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Coordenadores:
Denize Elena Garcia da Silva - Universidade de Brasília - denizelena@gmail.com
Leila Barbara - Pontíficia Universidade Católica de São Paulo - lbarbara@uol.com.br

RESUMOS APROVADOS

1.
M-LEARNING E O PROCESSO DE LETRAMENTO ACADÊMICO CRÍTICO
Adail Sebastião Rodrigues Júnior
(Universidade Federal de Ouro Preto, MG)
Resumo: Esta comunicação discute os primeiros resultados de uma pesquisa, vinculada ao LingTec-UFMG e ao SAL-Brasil, cujo objetivo é investigar o papel das tecnologias móveis para o processo de letramento acadêmico de uma mestranda na área de Letras. Para a execução da proposta, adotou-se a tecnologia de aplicativos móveis (smartphones e tablets), com características de interação instantânea, que complementam os encontros face-a-face em que o processo de orientação ocorre. A metodologia adotada fundamentou-se na pesquisa-ação (KEMMIS; McTAGGART, 2005) e na interação, esta ganhando um caráter de virtualidade (PAIVA; RODRIGUES-JÚNIOR, 2007, 2009), uma vez que um dos participantes é o próprio pesquisador, em diálogo (virtual) com sua aluna de mestrado acadêmico. Centrada na perspectiva longitudinal, por meio da qual o pesquisador realizou análises comparativas entre as interações via softwares móveis e as produções textuais feitas pela mestranda ao longo de dezoito meses, a pesquisa discutiu as seguintes perguntas: i) Que contribuições as interações virtuais oferecem para o processo de letramento acadêmico da mestranda? ii) Como são negociados os enquadres, esquemas de conhecimento e footings dos interlocutores por meio desses softwares móveis? iii) Que elementos semióticos essa prática social via tecnologias apresenta? iv) Que contribuições as interações virtuais propiciam ao produto final do processo de letramento acadêmico, nesse caso, a escrita da dissertação? Para a realização das análises, ficou clara a necessidade de lançar mão dos elementos interpessoais expressos na gramática funcional hallidayana (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014), em especial os adjuntos modais e os epítetos interpessoais, como base linguístico-discursiva das realizações atitudinais presentes na interação virtual entre orientador e mestranda. Os resultados apontam para os vários usos linguísticos que sinalizam atitudes avaliativas dos interlocutores, contribuindo para reflexões críticas (FAIRCLOUGH; WODAK, 2000) acerca das práticas sociais de letramento acadêmico de alunos de pós-graduação na área de Letras, desde seu embasamento até a produção da dissertação.

2.
POR TRÁS DO DISCURSO DOCENTE: A RELEVÂNCIA DO TABLET EDUCACIONAL NO CONTEXTO DE BRASÍLIA
Adriana Alves de Moura
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Sandra Rodrigues Sampaio Campêlo
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
RESUMO: Este trabalho resulta de um estudo de caso de natureza qualitativa (descritiva e interpretativa) que tem como objetivo abordar, a partir das práticas discursivas docentes, as percepções do professor quanto à relevância do tablet educacional em seu trabalho. Os dados são oriundos de uma pesquisa de mestrado que foram gerados por meio de entrevistas semiestruturadas. A Linguística Sistêmico-Funcional é a base teórico-metodológica principal utilizada para a análise da interioridade desses discursos, e se fundamenta pela utilização de ferramentas dos sistemas de transitividade e da metafunção interpessoal (HALLIDAY, 1994; HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2004). Nos processos de integração das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação no contexto educacional, os programas são implementados na tentativa de aproximar a realidade tecnológica às salas de aula. Destaque ao Programa Educação Digital do Governo Federal que visa à distribuição de
tablets aos professores da rede de ensino público. Mas algunsestudos de pesquisadores, como: Almeida (2011), Bernardo (2013), Moran (2005), Valente (2014) evidenciam a descontinuidade de programas; a falta de formações para professores que atendam às necessidades reais da comunidade escolar; eas mudanças nos processos de ensino e aprendizagem que ratificam as atitudes de resistência pela maioria dos professores. Os resultados preliminaresdeste estudo mostram que o professor reconhece a importância do tablet educacional para o âmbito escolar como forma de aproximação do seu alunado e como modo de inovação no modo de ensino-aprendizagem, mas evidencia ainda um distanciamento do docente na efetivação desse recurso em sua sala de aula.

3.
REPRESENTAÇÕES E IDENTIDADES DE PESSOAS IDOSAS EM SITUAÇÃO DE VULNARABILIDADE SOCIAL
Alley Candido Junior
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Resumo: Este trabalho tem por objetivo discutir as interfaces entre eventos de letramentos, identidades (re)construídas e representações sociais de pessoas idosas em situação de risco. No sentido de respaldar teórica e metodologicamente as discussões propostas neste estudo, recorremos às categorias da exterioridade da linguagem, sugeridas em Fairclough (2003), com ênfase nos significados identificacional e representacional. Tomamos como instrumento de análise (con)textual as metafunções propostas na Gramática da Experiência de Halliday & Matthiessen (2004), pois a intenção é a de investigar não só a exterioridade da linguagem (discurso), mas também sua interioridade (gramática). Destaca-se, ainda, que a análise de discurso crítica desenvolvida por Fairclough busca descrever, interpretar e investigar situações linguístico-discursivas opressoras, ao oferecer ferramentas teórico-metodológicas para mitigar ou, em situações propícias, eliminar os efeitosmaléficos resultantes de processos de assimetria de poder (Silva, 2013). Nesse sentido, ao balizar as práticas de letramento (Street, 1984), mediante processos de (auto)identificação e representação desses atores sociais, no contexto em que vivem, revigoram-se as potencialidades de emancipação e fortalecimento de suas identidades. Do ponto de vista metodológico, o estudo se insere nos moldes de uma pesquisa de natureza qualitativa (descritiva e interpretativa), com inspiração na etnografia crítica. Os dados ora apresentados são de natureza etnográfica, uma vez que são oriundos das histórias de vida contadas pelos idosos colaboradores dessa pesquisa. Os resultados preliminares sobre os processos de identificação e representação social de pessoas idosas em situação de pobreza permitem destacar lições de superação e, sobretudo, de perseverança de atores sociais que anseiam, desde a infância, o acesso à palavra escrita, ensinada nos bancos de uma escola.

4.
PERSPECTIVA COMPARATIVA CRÍTICA DE DISCURSOS DISCIPLINADORES EM INSTITUIÇÕES DO DISTRITO FEDERAL
Ana Cláudia Camargo Carvalho
(UnB - Universidade de Brasília)
Resumo: Esta proposta encontra-se relacionada a questões de identidade e poder, na perspectiva dos estudos críticos do discurso. O objetivo da pesquisa é realizar um estudo comparativo de práticas discursivas disciplinadoras, aplicadas, por um lado, a adolescentes da Unidade de Internação de Santa Maria no Distrito Federal (UISM) e, por outro, a estudantes do Colégio Militar de Brasília (CMB). A base teórica principal da investigação é a Análise de Discurso Crítica (ADC), na vertente proposta por Fairclough (2001, 2003), para quem linguagem e sociedade estão interconectadas dialeticamente. A ADC, enquanto proposta teórico-metodológica, associa-se à Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), teoria da linguagem desenvolvida por Halliday (1994) e ampliada em Halliday e Matthiessen (2004). No que tange à metodologia, trata-se de pesquisa qualitativa (descritiva e interpretativa) com instrumentos de geração de dados efetuados por meio de dois procedimentos de coleta
de duas naturezas: seleção de dados documentais e geração de dados de natureza etnográfica. O contexto de pesquisa envolve duas instituições oficiais que, embora se alinhem de modo paralelo, em termos de princípios de formação disciplinar, pedagógica, cívica e moral, bem como de inserção cultural e (re)integração total do cidadão ao meio social, distanciam-se em termos de práticas sociais. Desse modo, a UISM envolve práticas socioeducativas disciplinadoras, intercaladas de práticas pedagógicas, uma vez que existe para acolher adolescentes em conflito com a lei. Já o CMB envolve práticas de distribuição de saberes mediante educação integral. Os primeiros resultados da pesquisa sinalizam duas realidades muito diferentes, com práticas discursivas disciplinadoras próprias, ainda que ambas tenham como escopo principal a educação integral da juventude. Os primeiros estudos apontam que os excertos fazem parte do mesmo campo lexical, entretanto, divergem na
tessitura semântica no contexto em que são registrados, pois os rótulos da “cultura negativa” (Fairclough, 2003, p.23) tornam-se visíveis na comparação dos Regimentos.

5.
PLANO DE DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO E FACETAS DE PRÁTICAS SOCIAIS (RE)PRODUZIDAS
Carina Aparecida Lima de Souza
(Instituto Federal do Tocantins - Campus Palmas)
Resumo: Este trabalho propõe uma investigação sobre a constituição de trocas de significados, ligações sociais no texto de um Plano de Desenvolvimento Agrário (PDA), de 2007. É um texto institucional brasileiro, elaborado como um dos instrumentos utilizados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - representante do governo federal - para o desenvolvimento de projetos de assentamento, fazendo-se parte de políticas públicas relacionadas à Reforma Agrária. Destaca-se que a análise linguístico-discursiva desse texto pode relacionar o comportamento linguístico a certos papéis sociais. Para tanto, esse trabalho baseia-se nos pressupostos teórico-metodológicos da Linguística Sistêmico-Funcional (Halliday e Matthiessen, 2004) e da Análise de Discurso Crítica (Fairclough, 2003). Ao se considerar a oração como troca - metafunção interpessoal (Halliday e Matthiessen, 2004) -, observa-se que a gramática disponibiliza recursos para a interação
entre as pessoas através da língua. A parte da oração que desempenha a metafunção interpessoal é chamada Sistema de MODO. No PDA analisado, constata-se que os atores sociais interagem através da escolha de orações para a troca de informações. Por sua vez, a função semântica de uma oração na troca de informação é a proposição. No caso, ocorrem “prescrições” acerca de ‘ações’ a serem desenvolvidas através da implantação e execução do referido PDA. Os primeiros resultados sugerem que o enfoque analítico balizado no Sistema de MODO, além de permitir uma reflexão sobre os valores constituídos em políticas públicas, leva a discutir o funcionamento da sociedade brasileira em termos de concepção do governo federal sobre Reforma Agrária. Consequentemente, as escolhas linguísticas revelam certos modos de vida prescritos por esse modelo de reforma agrária às pessoas que passam a ter o ‘direito de uso’ de um lote em um projeto de assentamento.

6.
QUANDO OS DISCURSOS (IN) FORMAM REPRESENTAÇÕES IDENTITÁRIAS
Carmem Jená Machado Caetano
(UnB - Universidade de Brasília, DF)

Resumo: No mundo globalizado em que vivemos, há textos constituídos e construídos por hierarquias de discursos e relações de poder. Sabemos que nossa sociedade contemporânea é multifacetada e que as identidades se constroem como resultado de práticas discursivas que se contrapõem e também que se impõem a todos enquanto verdades a partir das quais somos instados a agir. As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declino, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, que até pouco tempo era reconhecido como um sujeito unificado. A assim chamada "crise de identidade" (Hall, 2009) é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e por fim abalando o quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. Por entendermos a importância de reflexões acerca do tema é que propomos com a apresentação
dessa comunicação, focar em problemas sociais relacionados à representação e à construção das identidades na prática social da saúde. A base teórica e metodológica que fundamenta nosso trabalho é a Análise de Discurso Crítica, conforme os estudos de Fairclough (2001, 2003), e a Linguística Sistêmico-Funcional, segundo a gramática de Halliday (2004). Assim, categorias de análise como a interdiscursividade e da transitividade serão discutidas nas análises textuais. Minha justificativa para este trabalho esta ancorada em minha preocupação com as relações que envolvem as práticas sociais do fazer médico que tem sido alvo de questionamentos por parte de muitos pesquisadores. A precarização social das instituições de saúde pública e a desmobilização social são frequentes em nosso país e são, por conseguinte, preocupações que têm motivado cientistas das mais diversas áreas.

7.
DA ESTETIZAÇÃO DA VIDA E DA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES: O FENÔMENO DA 'GOURMETIZAÇÃO'
Débora de Carvalho Figueiredo
(UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina)
Resumo: Na pós-modernidade, a economia passou a apresentar uma dimensão cultural, no sentido em que os bens e serviços, além de seu valor econômico e utilitário mais óbvio, agora possuem valor simbólico e comunicativo. Como o consumo pressupõe a manipulação ativa de signos, não devemos compreender esse fenômeno apenas como o consumo de bens materiais, mas basicamente como o consumo de signos ou símbolos gerados e disseminados pela mídia de massa, a publicidade, as marcas. Além disso, nas sociedades contemporâneas individualizadas e mercantilizadas, nos preocupamos cada vez mais com a performance, as aparências, a estetização da vida, e aprendemos a nos distinguir socialmente através dos consumos alimentar e o cultural. Dentro desse quadro de discursos de consumo e de estetização geral da vida, nesse trabalho discuto, a partir do arcabouço teórico-metodológico da Análise Crítica do Discurso, da Linguística Sistêmico-Funcional e dos Estudos Sociais, o
fenômeno da ‘gourmetização’, entendido pelo mercado como um recurso para transformar produtos (geralmente alimentícios) mundanos em algo mais luxuoso ou renovado, e vivenciado pelo consumidor como uma forma de localizar-se, em termos identitários, numa hierarquia de consumo e de classe social. Para tanto, analiso textos midiáticos brasileiros (jornalísticos e publicitários) que tematizam e recontextualizam o fenômeno da ‘gourmetização da vida’.

8.
O LETRAMENTO DE ADULTOS SOB A PERSPECTIVA DA ABORDAGEM MULTIMODAL DA MÍDIA E SUAS INFLUÊNCIAS
Elda Alves Oliveira Ivo
(UniCEUB - Centro Universitário de Brasília, DF)
Resumo: Sob a ótica da Análise de Discurso Crítica (ADC), do Letramento e da Multimodalidade, a pesquisa tem o objetivo de investigar novas perspectivas para o texto, no aspecto multifuncional da linguagem, por meio da análise de textos produzidos pelos alunos no contexto de letramento na empresa e a relação com os diferentes textos divulgados pela mídia acerca da empresa e sua atividade ligada à exploração de minério. Busca-se também refletir sobre as contribuições de uma abordagem multimodal e no repensar acerca do modelo de Letramento e das práticas habituais da produção textual, dos significados que estabelecem e sustentam as relações de interação e a contribuição desse arcabouço teórico para o entendimento do letramento. Os pressupostos teóricos estão respaldados nas teorias de Fairclough (1992, 2003, 2005 e 2006); Hasan (2012), Thompson (1995), Wodak (2003), Woodward (1997), van Leeuwen (1998) e Halliday (1994), entre outros.Destaca-se que as categorias sociológicas de van Leeuwen estão presentes, pois aliam um número distinto de sistemas linguísticos e concretizam a representação dos atores sociais por meio da construção de identidades sociais. O entrelaçamento do Letramento, da Multimodalidade e da ADC, diante da relevância temática, desvela que tais abordagens são ferramentas capazes de potencializar os sujeitos para essa leitura do mundo em todas as formas de representação, em qualquer contexto e para que o discurso seja considerado para além dessa estrutura social. Destaca-se ainda o fato de a pesquisa contribuir para a compreensão do mundo no contexto do letramento e das representações simbólicas e ideológicas imbricadas, como forma de promover a mudança social.

9.
AS CANDIDATURAS DE CENTRO-ESQUERDA RETRATADAS PELOS GRANDES JORNAIS BRASILEIROS E AS FORMAS INTERPESSOAIS EM DOMÍNIOS RETÓRICOS
Fábio Fernando Lima
(USP - Universidade de São Paulo)
Resumo: Nesta comunicação buscaremos apresentar os resultados de um estudo que se propõe a investigar e descrever as estruturas responsáveis pelo estabelecimento da função interpessoal e as intersecções destas com a persuasão no noticiário dos jornais brasileiros publicados no decorrer do século XX e início do XXI, estabelecendo, como recorte, as publicações relacionadas à temática das eleições e observando a manifestação de ideologias e a busca pelo estabelecimento de determinados consensos. Para a operacionalização dessa tarefa partimos dos estudos desenvolvidos no contexto da Análise de Discurso Crítica (ADC) e procuramos, paralelamente, apresentar um modelo capaz de amalgamar tais estudos à Retórica, visando a preencher uma lacuna existente, relacionada ao fato de se conceber, na ADC, a Retórica como a maneira mais eficiente de exercício de poder (cf. VAN DIJK, 1999) e, por outro lado, constatar-se a ausência de uma proposta teórica capaz de relacionar tais os estudos. Como pressuposto teórico, assumimos o modelo de análise crítica elaborado por Fairclough (2003) e buscamos aliá-lo à Nova Retórica de Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996). Considerando a adoção, por parte de Fairclough, no que se refere à orientação linguística de sua teoria, da Linguística Sistêmico-Funcional de Halliday (1985), detemo-nos nos aspectos interpessoais das notícias analisadas, os quais permitem antever as maneiras pelas quais o jornalista tanto atribui identidades sociais aos atores designados em seu texto quanto expressa seus posicionamentos e julgamentos, buscando influenciar e levar o leitor a assumir a mesma perspectiva. Incorporamos ainda a proposta de análise para a função interpessoal mais abrangente apresentada por Martin e White (2005). Os resultados vêm indicando tanto uma correlação estreita entre determinados recursos interpessoais e o emprego de certas estratégias argumentativas quanto a presença de uma
ideologia conservadora em uníssono em favor de uma posição política dita de direita, representada inclusive quando abordadas as candidaturas de centro-esquerda.

10.
LUTA POLÍTICA E ARTICULAÇÃO TEXTUAL: O MOVIMENTO NACIONAL DA POPULAÇÃO DE RUA NO BRASIL PELAS LENTES DA ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA
Gersiney Pablo Santos
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Viviane de Melo Resende
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Resumo: Ações coletivas por mudanças sociais exercem influência no mundo também por meio da linguagem, sendo por ela perpassadas e influenciadas. Nessa relação dialética de fluxo e transformação sociais se baseiam os estudos críticos orientados ao discurso. Mais especificamente, a perspectiva teórica da Análise de Discurso Crítica (ADC) entende questões sociais como questões discursivas e vice-versa (Fairclough, 2003, 2010; Ramalho e Resende, 2011). A ADC, por meio do escrutínio e da análise situada de textos, problematiza naturalizações ideológicas no sentido de pensar, desde a linguagem, direções possíveis para mudanças em práticas sociais que perpetuam desigualdades entre grupos sociais. No projeto de pesquisa de que este trabalho é parte, o aparato teórico-metodológico da ADC é posto em funcionamento para investigar uma faceta discursiva da situação de rua, um problema social gravíssimo e de contornos globais. O foco do projeto é a luta política realizada pelo Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) pela superação da situação de rua no Brasil. Pela via da ADC, entendemos que essa luta pode ser analisada como ação discursiva concretizada também em textos. Como parte de uma pesquisa mais ampla, este trabalho objetiva apresentar análise discursiva crítica de documento de mobilização produzido pelo MNPR, o qual elenca determinadas estratégias de ação para o enfrentamento da situação de rua no Brasil. Assim, baseando-nos na ADC (FAIRCLOUGH, 2003, 2010; RAMALHO & RESENDE, 2011), na Linguística Sistêmico-Funcional (HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2014; FUZER & CABRAL, 2014) e na teoria da representação de eventos e atores sociais (VAN LEEUWEN, 2009; PARDO ABRIL, 2013), apresentamos uma reflexão crítica acerca dos modos pelos quais a representação assume diferentes sentidos no texto do MNPR, uma construção discursiva de proposta protagonista e de resistência.

11.
REPRESENTAÇÕES DE MULHERES-MÃES PRESAS: DISCURSO E IDENTIDADE
Karina Mendes Nunes Viana
(IFG - Instituto Federal Goiano, Goiás)
Resumo: Este estudo investiga práticas discursivas conflitantes na constituição do que é expresso na legislação que orienta as ações institucionais e a realidade que vivencia a mulher-mãe presa, no sistema de encarceramento feminino brasileiro. Focalizo as relações de poder existentes entre o papel de agentes penitenciários e o da mulher-mãe com crianças atrás das grades que possuem implicações ideológicas na esfera discursiva e social. Trata-se de uma reflexão fundamentada nas representações desses atores sociais acerca das incongruências entre o que é expresso nos instrumentos legais e normativos que orientam as ações institucionais e a realidade que vivencia a mulher-mãe presa inseridos no contexto de ressocialização, por meio de percursos que incluem uma visão social, cultural, ideológica e discursiva do tema. Como pressupostos teóricos, destaco os pilares das representações sociais (Van Leeuwen, 1997, 2009) e, em especial, da Análise de Discurso Crítica (Fairclough, 1992, 2001, 2003; Chouliaraki & Fairclough, 1999; Halliday, 1975, 1985, entre outros), alguns estudos sobre identidade (Silva, 2000; Hall, 1992, Giddens,1991,2002, Rajagopalan, 2006, entre outros) e algumas reflexões acerca do poder e da ideologia como forma de dominação (M. Foucault, 1998, 2000; Thompson, 1995, entre outros). O estudo realizado é de cunho qualitativo, assentado nas bases da etnografia crítica e tem como objetivo central analisar a constituição das identidades e das práticas discursivas e sociais referentes à ressocialização de mulheres-mães em situação prisional, com vistas a contribuir para uma compatibilização da prática penitenciária com as leis ou os regulamentos disciplinadores da execução penal, as constituições e os documentos internacionais, em que se elencam os direitos da mulher-mãe presa.

12.
REPRESENTAÇÕES LINGUÍSTICO-DISCURSIVAS SOBRE DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE EM DOCUMENTOS OFICIAIS DO BRASIL
Kelly Cristina de Almeida Moreira
(SEE- Secretaria de Educação e Ensino/ UAB-UnB, DF)
Denize Elena Garcia da Silva
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar resultados de uma pesquisa de natureza qualitativa (descritiva e interpretativa) levada a cabo à luz da Análise de Discurso Crítica. Investigamos representações linguístico-discursivas em documentos oficiais, selecionados a partir de uma cadeia de gêneros discursivos de natureza jurídica, voltados para os direitos de crianças e adolescentes em situação de risco, sobretudo, o direito de inclusão educacional no Brasil. Para tanto, foram selecionadas duas leis brasileiras: a Lei 8.069/90, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e a Lei 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). O arcabouço teórico abarca a exterioridade da linguagem (discurso) nos moldes de Fairclough (2001; 2003), que propõe uma concepção de linguagem como prática social, bem como a interioridade do sistema linguístico, através da Linguística Sistêmico-Funcional, proposta por Halliday & Matthiessen (2004). Complementa esse embasamento
teórico-analítico o estudo sobre a representação dos atores sociais, desenvolvido por van Leeuwen (1997). Na análise documental, foram utilizadas duas ferramentas do programa computacional WordSmith Tools v. 5.0, desenvolvido por Scott (2010): a lista de palavras (wordlist) e o concordanciador (concordancer), o que permitiu fazer o levantamento dos vocábulos presentes nos documentos oficiais. Buscamos analisar, desde um ponto de vista crítico, aspectos linguístico-discursivos que marcam o contraste entre o par ‘inclusão versus exclusão’, sobretudo, no que concerne aos documentos balizadores do sistema educacional brasileiro (leis e decretos). Trata-se de uma pesquisa que, embora voltada para a meta da inclusão pela educação, necessitou buscar razões e consequências responsáveis pela ausência da coesão social, fenômeno que multiplica a exclusão social, cujo processo principia na exclusão educacional, em paralelo à econômica, da saúde, bem como de
todos os serviços do Estado em favor da cidadania daqueles que representam o futuro do país, ou seja, a adolescência a caminho da juventude.

13.
COMPARANDO RELAÇÕES LÓGICO SEMÂNTICAS EM ARTIGOS CIENTÍFICOS
Leila Barbara (PUC/SP- Pontifícia Universidade Católica)
Célia Maria Macedo de Macedo (UFPA - Universidade Federal do Pará)
Resumo: Esta comunicação relata resultados de uma pesquisa parte do Projeto SAL - Sistêmica através das Línguas - comparando alguns tipos de relação lógico-semântica de expansão que se estabelecem em complexos oracionais de um corpus de artigos científicos retirados de www.scielo.br. Enfoca a expansão do tipo extensão, criada com o uso de conjunções adversativas e conclusivas, e do tipo intensificação, criada com as conjunções concessivas e condicionais. Em trabalho anterior, estudando um conjunto de textos de 17 áreas da ciência, foi constatado que, em construções paratáticas, há uma preferência expressiva pelos conectivos ‘mas’ e ‘portanto’; em construções hipotáticas, por sua vez, predominam os conectivos ‘se’ e ‘embora’. Este trabalho compara as áreas entre si com o objetivo de verificar como ocorre a distribuição desses conectivos e de outros que têm a mesma função e que, no entanto, são pouco utilizados. Será usado como
apoio metodológico o instrumento computacional WordSmith Tools 5.0 (Scott 2008): a Lista de Palavras, fornecendo as palavras utilizadas em termos de frequência, e o Concordanciador, exibindo o contexto de ocorrência de cada realização.

14.
A VISÃO SISTÊMICO-FUNCIONAL DOS TEXTOS MIDIÁTICOS NA CONSTRUÇÃO DO E(LEITOR) BRASILEIRO
Luiza Hiroko Yamada Kuwae
(UniCEUB - Centro Universitário de Brasília)
Resumo: Busca-se discutir as transformações pelas quais a comunicação humana passou com o advento dos meios de comunicação, nas áreas de produção, da recepção e da transformação das informações linguísticas, com um olhar na imbricação do papel da linguagem com o aspecto político a fim de habilitar os usuários da linguagem a serem transformadores sociais. Assim, em um contexto de notícias diárias de escândalos políticos, tanto em nível nacional, como em nível internacional, os objetivos da pesquisa foram estudar tanto a dimensão dos papéis da mídia, da ideologia e dos processos hegemônicos, bem como as formas simbólicas das representações sociais dos agentes sociais políticos em textos midiáticos. Desde as bases sistêmico-funcionais da linguagem segundo Halliday (1994), o marco teórico utilizado foram a Teoria Social do Discurso (Chouliaraki, Fairclough; Fairclough), a Teoria Social do Escândalo e a Teoria Social da Mídia (ambas de Thompson). A metodologia foi a qualitativa em uma visão transdisciplinar. Quanto às categorias analíticas, utilizou-se a triangulação dos modos de operação da ideologia de John Thompson, com as categorias analíticas de representação dos atores sociais de Leeuwen e as categorias analíticas de Fairclough, Quanto ao corpus, é constituído de duas reportagens de revistas brasileiras. Pelas categorias sociológicas de van Leeuwen, conclui-se que os meios midiáticos divulgam valores por meio de avaliações de juízo de valor mediadas por escolhas lexicais que expressam conceitos avaliativos, em um processo de controle ideológico exercido por meio das representações sociais. Daí, a importância do uso da Análise de Discurso Crítica como forma de pesquisa social crítica: pode-se provocar mudanças sociais ao abastecer as pessoas com recursos que as possibilitem fazer escolhas no processo eleitoral a fim de se reduzir problemas sociais e melhorar a qualidade de vida do povo brasileiro.

15.
A REPRESENTAÇÃO CONCEITUAL DA IMAGEM EM ANÚNCIO
Maria Margarete Fernandes de Sousa
(UFC – Universidade Federal do Ceará)
Maria Cilânia de Sousa Caldas
(UFC - Universidade Federal do Ceará)
Este trabalho objetiva analisar a metafunção representacional (KRESS; VAN LEEUWEN), ou ideacional (HALLIDAY), em anúncios publicitários veiculados na internet para evidenciar como os participantes internos (pessoas, objetos ou lugares), de uma dada composição de imagem, interagem e que relações esses participantes estabelecem na imagem. A metafunção representacional é responsável por organizar visualmente os objetos e as experiências internas e externas dos indivíduos. Kress e van Leeuwen (2000) dividem esse processo em narrativo e conceitual. Nesta pesquisa focalizaremos apenas o conceitual, que se subdivide em classificacional, analítico e simbólico. As estruturas conceituais descrevem as pessoas, lugares ou coisas dos quais se falam, denominados de PR (participante representado), em termos de classe, estrutura, ou significação. O processo classificacional relata participantes que se apresentam em um grupo, definido por características comuns a todos os sujeitos classificados. Os processos conceituais analíticos relatam os participantes em uma estrutura de parte-todo. Nesse processo, são identificados dois participantes: um portador (representado como o todo) e diversos atributos possessivos (representados como as partes). E, por fim, temos o processo simbólico, como o último dos processos conceituais, que relata o que um participante significa ou é, sendo subdividido em dois grupos: atributivo e sugestivo. Nesse sentido, analisamos vinte anúncios selecionados de sites de compras coletivas (Peixe Urbano e Groupon) os quais apresentam os componentes conceituais mencionados, como hipotetizamos. Os textos dos anúncios revelam as categorias ou valores discursivos, tais como: taxonomias e atributos e as subclassificações. Em suma, enquanto na linguagem, a sintaxe estrutura-se pela ordem sequencial das palavras, nas imagens esta depende da relação espacial entre os elementos apresentados.

16.
A EXPERIÊNCIA DE MUNDO NO DISCURSO DE ADOLESCENTES SOBRE O LUGAR ONDE VIVEM: A METAFUNÇÃO IDEACIONAL
Miguel Ângelo Moreira
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Resumo: O propósito deste estudo é analisar quais as escolhas lexicais feitas por adolescentes em condição de risco para representarem o lugar onde vivem. O enfoque teórico é balizado pela triangulação entre a proposta de Fairclough (2001, 2003), associada à perspectiva da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) de Halliday (2004, 2014) e ao Sistema de Avaliatividade (SAv), desenvolvido por Martin e White (2005). O enlace teórico-metodológico entre essas três vertentes permitirá que a investigação de um fenômeno social não seja apenas descrita textualmente, mas também contribua para a sugestão de práticas sociais transformadoras. Nesse sentido, a abordagem fairclougheana voltada para a análise de discurso textualmente orientada constitui o percurso básico que me permite adentrar o mundo da experiência dos adolescentes, o qual se encontra materializado em textos (relatos de vida de adolescentes). A LSF e o SAv configuram instrumentos paralelos de análise (con)textual. Os dados empíricos, de natureza qualitativa e etnográfica, foram obtidos junto a uma escola da rede pública de ensino do Distrito Federal. Por se tratar de uma pesquisa realizada com pessoas em situação de menoridade, o projeto ora apresentado tem aprovação do Comitê de Ética da UnB, o que contribui para apoiar os procedimentos éticos assumidos. A investigação faz parte dos estudos desenvolvidos no Grupo Brasileiro de Estudos de Discurso, Pobreza e Identidades (DP-CNPq). Os resultados preliminares apontam para sentidos construídos pelos adolescentes que representam o lugar onde vivem. As escolhas lexicais, feitas por esses jovens, para definirem a experiência nas ruas, configuram a maneira como eles avaliam a própria realidade, o que nos permite adiantar o seguinte resultado: se as ruas são definidas como lugar de medo, insegurança e fragilidade para o convívio social e esses adolescentes estão inseridos nesse lugar, significa que a realidade da adolescência, sob a ótica dos próprios adolescentes, constitui uma condição de risco.

17.
A ORGANIZAÇÃO TEXTUAL-DISCURSIVA DAS NOTICIAS JORNALÍSTICAS EM TEXTOS MULTIMODAIS
Regina Célia Pagliuchi da Silveira
(PUC/SP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)
Deborah Gomes de Paula
(PUC/SP e UNIP- Universidade Paulista)
Resumo: Este trabalho se situa na área da Analise Crítica do Discurso com a vertente sócio cognitiva em interface com a Semiótica Social e tem por tema as contribuições dadas pela teoria dos contextos (Van Dijk, 2011) e as categorias “dado” e “novo” da Gramatica Sistêmico-Funcional (Halliday,1985). Entende-se que toda mudança social acarreta uma mudança no discurso; sendo assim, com as altas tecnologias houve o privilegio de textos multimodais. O problema consiste na produção/compreensão desses textos, pois a analise critica do discurso privilegiou os textos verbais. A semiótica social (Kress e Van Leeween, 1990) propõe-se a buscar resultados que propiciem o letramento de textos multimodais. Sendo assim, aparece a gramática das imagens que propõe as categorias sociedade e discurso para tratar de dado e novo, categorias propostas por Halliday em sua Gramatica sistêmico funcional. A pesquisa realizada tem por pressuposto que a categoria Cognição proposta por Van Dijk em inter-relação com as categorias Sociedade e Discurso podem trazer contribuições para o tratamento do dado e novo na relaçao do verbal com as imagens e cores. Tem-se por objetivo tratar da organização textual discursiva, considerando os diferentes contextos propostos por Van Dijk, com um enfoque cognitivo. O material de análise foi coletado em jornais e revistas impressas e as analises realizadas seguiram um método qualitativo. Os resultados obtidos são relativos a “dado” e “novo” e os diferentes contextos de natureza cognitiva. Os resultados apresentados são parciais e participam de uma pesquisa mais ampla relativa a construção do escândalo pelas noticias jornalisticas em textos multimodais. Os resultados indicam que: 1. As categorias “dado” e “novo”, contribuem para a produção compreensão dos textos multimodais na disposição espacial das imagens cores e expressões verbais, no eixo vertical, horizontal e central em relação a moldura; 2. O contexto de linguagem contribui para relacionar as imagens e cores explicitando implícitos culturais ou completando as áreas do indizível verbal; os contextos social discurso e cognitivo, contribuem para a associar forma de conhecimento do sabido com o novo. Conclui-se que as categorias Sociedade e Discurso estando em inter-relação com a categoria Cognição produz uma melhor compreensão dos processos de produção das noticias jornalísticas em textos multimodas.

18.
“SOU A CAPITÃO FULANA DE TAL”: A LINGUAGEM E AS REPRESENTAÇÕES DA MULHER MILITAR
Risalva Bernardino Neves
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Selma Lúcia de Moura Gonzales
(USP- Universidade do Estado de São Paulo)
Resumo: O discurso ocupa um lugar relevante dentro das práticas sociais, as quais estão eivadas de crenças e ideologias (CHOULIARAKI & FAIRCLOUGH, 1999, FAIRCLOUGH, 2003, 2008). É uma forma de ação, identificação e representação. Em um ambiente androcêntrico (BOURDIEU, 2002) por excelência, como é a instituição militar, instiga-nos investigar quais são as representações sobre as mulheres militares. Importa destacar que os postos militares (mais conhecidos como “patentes”) não apresentam marcação genérica para o feminino, assim, a mulher militar é denominada sargento, primeiro-tenente, capitão, major etc. Vale ressaltar que a linguagem, vista sob o prisma da ADC, não é somente ferramenta que reproduz as relações de poder assimétricas, mas, sobretudo, um recurso (ou uma arma) que pode questionar, deslegitimar tais relações ou até empoderar grupos sociais alijados (FAIRCLOUGH, 2003). Nessa perspectiva, esse trabalho tem por objetivo analisar, em documentos do Exército Brasileiro que se referem à presença feminina nesse ambiente, quais são as representações das mulheres militares. Para a análise situada de textos, utilizamos as ferramentas da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF). Os resultados preliminares apontam para discursos legitimadores do poder masculino.

19.
METÁFORAS IDEACIONAIS: UMA ESTRATÉGIA FUNCIONAL DISCURSIVA
Rosana Muniz Soares
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Resumo: O presente trabalho é concernente à linha de pesquisa Discurso, Representações Sociais e Textos. Busca-se realizar uma análise de discurso linguisticamente orientada, tal como proposto pela Análise de Discurso Crítica (Fairclough, 2001; 2003). Com o objetivo de identificar como é apresentada a proposta de governo da candidata eleita à Presidência da República do Brasil, nas eleições que foram realizadas em outubro de 2014, foram utilizados, na análise dos textos selecionados, pertinentes à referida proposta, os pressupostos teóricos metodológicos da Linguística Sistêmico-Funcional (Halliday e Mathiessen, 2004; 2014). A análise dos textos mostrou que há uma grande ocorrência de metáforas gramaticais, pertinentes ao sistema de transitividade, mais conhecidas como metáforas ideacionais, em termos de sua elaboração. Os dados revelaram que a metáfora ideacional, bastante recorrente nos textos, apresenta-se em sua maioria por meio de nominalizações, as quais, pelas escolhas lexicais, constroem uma escala de abstração que se desvincula das ocorrências sociais do mundo da vida. Outra constatação relevante da presença das metáforas ideacionais nesses textos é o fato de que elas cumprem o papel de escamotear os participantes das ações e, consequentemente, a sua agência.

20.
UMA ANÁLISE CRÍTICA E MULTIMODAL DO DISCURSO POLÍTICO-MIDIÁTICO DO PARLAMENTO BRASILEIRO
Rosane Queiroz Galvão
(UnB - Universidade de Brasília, DF)
Resumo: A análise linguístico-discursiva de texto produzido por órgão de comunicação da Câmara dos Deputados do Brasil pode representar seminal contribuição para os estudos no campo da Análise Crítica de Discurso. O presente trabalho, de caráter multidisciplinar, busca na Linguística Sistêmico-Funcional e nos preceitos da Teoria Semiótica Social da Multimodalidade os esteios teórico-metodológicos para a análise crítica discursiva de texto midiático político-institucional: uma capa do Jornal da Câmara publicado durante o período das manifestações populares havidas no Brasil a partir de 13 de junho de 2013, que tiveram repercussão mundial e imediata. Ao escrutinar os componentes da Gramática Sistêmico-Funcional, bem assim os da Gramática do Design Visual, relacionando-os a questões concernentes à ordem do discurso e gêneros textuais, o estudo aproxima justamente as dimensões contextuais e situacionais da linguagem à sua dimensão interna/gramatical,
as dimensões funcionais às formais/estruturais, para o desvelamento da representação dos atores sociais, das relações de poder, hegemonias e ideologias intrínsecas à produção, distribuição e consumo do texto midiático político-institucional. Enfim, a voz de um dos Poderes da República Federativa do Brasil, alvo direto e indireto das manifestações populares – inclusive o Parlamento foi o local físico onde se realizaram alguns daqueles atos cívicos –, ecoa os fenômenos novéis da democratização, da comodificação e da tecnologização do discurso.

21.
A BUSCA DE SI: EMOÇÕES, MEMÓRIAS, CONFLITOS E SENTIMENTOS DE JOVENS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE SOCIAL
Solange Maria de Barros
(UFMT - Universidade Federal de Mato Grosso)
Resumo: Este trabalho objetiva analisar as emoções, memórias, relacionamentos, conflitos internos e sentimentos de jovens e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Tem como embasamento teórico a filosofia do realismo crítico (BHASKAR, 1998; 2002;2012) e a análise crítica do discurso (FAIRCLOUGH, 2003). Conforme Bhaskar (1998), a sociedade fornece as condições necessárias para a ação intencional e a ação intencional é uma condição necessária para a sociedade. Ou seja, indivíduos devem não apenas produzir produtos sociais, mas realizar as condições de sua produção, reproduzindo ou transformando as estruturas que governam suas atividades de produção. O uso da linguagem (oral ou escrita) pode trazer mudança no nosso conhecimento, nossas crenças, etc. Fairclough (2003) assegura que textos podem iniciar guerras, bem como contribuir para mudar o mundo material, relações industriais, educação, e assim por diante. Os indivíduos produzem textos, sendo esses partes de eventos sociais que são moldadas por poderes causais das estruturas sociais. A maneira como enxergamos o mundo exterior envolve o modo como vamos agir sobre ele e, consequentemente, nosso comportamento em relação a essa realidade. Trata-se de uma pesquisa que propõe desvelar o que pensam e sentem os jovens e adolescentes que vivenciam/vivenciaram a violência. A coleta de dados foi realizada mediante diários e entrevistas narrativas, no Centro Sócioeducativo do Pomeri, em Cuiabá/MT, onde residem os jovens e adolescentes, privados de liberdade.

22.
Daniele de Oliveira
Título do trabalho: A imagem do ator social mídia corporativa construída no discurso da revista Caros Amigos
Autor(es): Daniele de Oliveira (Universidade de Brasília - UnB) Email: danieleoliveira@yahoo.com
Resumo: A proposta deste trabalho é investigar como é construída a imagem do ator social mídia corporativa no discurso da revista Caros Amigos a partir do escopo teórico da Análise Crítica do Discurso (FAIRCLOUGH, 2003) e da Linguística Sistêmico-Funcional (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). Dada a escassez de trabalhos que se debruçam sobre corpora provenientes de mídias alternativas (em oposição à mídia corporativa) julgamos pertinente e importante tal investigação, com a qual pretendemos ampliar os estudos do discurso midiático em geral. A análise da representação da mídia corporativa está ancorada no modelo proposto por Van Leeuwen (2008 [1997]) – a partir da Linguística Sistêmico-Funcional – que apresenta uma descrição sociossemântica detalhada das maneiras por meio das quais é possível representar um ator social em determinado discurso. Esse sistema parte de duas categorias gerais: a exclusão e a inclusão dos atores no discurso. Neste trabalho, focaremos na inclusão, tendo em vista nosso objetivo. Selecionamos como corpus deste trabalho, todos os editoriais da revista Caros Amigos desde a sua fundação em abril de 1997 até a edição de dezembro de 2013, o que perfaz um total de 201 textos. Observamos que o ator social mídia corporativa ocorre principalmente na posição de Ator em relação a Processos Materiais, ou seja, ressalta-se sua capacidade de agir em relação ao mundo nesse discurso, ainda que essas ações sejam, via de regra, alvos de avaliações negativas. Além disso, a mídia corporativa é fundamentalmente Categorizada, ou seja, representada a partir de suas funções, o que sugere uma suposta homogeneidade entre os meios de comunicação identificados como mídia corporativa pela revista Caros Amigos.
Palavras-chave: Discurso da mídia alternativa; editorial; mídia corporativa; representação.
Bibliografia
FAIRCLOUGH, Norman. Analysing discourse: textual analysis for social research. Routledge: London, 2003.
HALLIDAY, M. A. K.; MATTHIESSEN, C. M. I. M. An introduction to functional grammar. London: Hodder Education, 2004.

23.
Fernando Fidelix Nunes
Título do trabalho: A (des)construção do discurso de desvalorização da Linguística
Autor(es): Fernando Fidelix Nunes – SEEDF - Email: fidelix1@hotmail.com
Resumo: Com base no pressuposto de que os estudos críticos do discurso objetivam analisar os modos como as estruturas do discurso produzem, confirmam, legitimam, reproduzem ou desafiam as relações de poder e de dominação na sociedade (Van DIJK, 2012), este trabalho discutirá como foi estruturado o discurso de desvalorização da Linguística em um artigo de opinião escrito por Ferreira Gullar chamado “Da fala ao grunhido”, publicado pelo jornal Folha de S. Paulo em 25/03/2012. Por meio da análise do processo de intertextualidade (FAIRCLOUGH, 2003) e da metafunção interpessoal (HALLIDAY & MATHIESSEN, 2014) associada à representação dos atores sociais proposta por Van Leeuwen (1997), analisarei, partindo do sistema léxico-gramatical da língua portuguesa, de que maneira foram construídos os processos de indeterminação e categorização dos linguistas e daqueles que defendem o discurso favorável à variação linguística. Além de propor o debate sobre a representação dos linguistas e de seus pressupostos teóricos pela mídia, este trabalho debaterá estratégias para desconstruir esse discurso que prejudica substancialmente a difusão das reflexões da linguística para a sociedade. Os resultados preliminares indicam que o autor do texto utiliza o processo de intertextualidade para apresentar de forma distorcida o pensamento dos linguistas, anonimizados por meio da indeterminação, e caracteriza, empregando diversos modalizadores, aqueles que defendem a variação linguística como irracionais.
Palavras-chave: Linguística, representação social, discurso, léxico-gramática.
Bibliografia básica:
FAIRCLOUGH, Norman. Analysing discourse: textual analysis for social research. Londres and Nova York: Routledge, 2003.
HALLIDAY, M.; MATTHIESSEN, C. Introduction to Functional Grammar. 4. ed. London: Arnold, 2014.
Van DIJK, T. A. Discurso e Poder. 2ª ed. São Paulo: Contexto. 2012.
VAN LEEUWEN, Theo. A representação dos atores sociais. In: PEDRO, Emília Ribeiro.(Org.), p. 169-222. Análise Crítica do Discurso: uma perspectiva sociopolítica e funcional Lisboa: Caminho, 1997.
VAN LEEUWEN, Theo. Discourse and practice. New tools for critical discourse analysis. Oxford: University Press, 2008 [1997].

24.
Hudson Nogueira Santos (Submitted by user: IP 191.176.68.160)
Título do trabalho: O Ofício cordial: como a cordialidade em textos oficiais compromete o princípio da impessoalidade administrativa.
Autor: Hudson Nogueira Santos (Universidade de Brasília- UnB) Email: hudson.ns@gmail.com
Resumo: Trata esse trabalho da análise do princípio constitucional da impessoalidade na produção de textos oficiais na administração pública brasileira. As análises se dão por meio da gramática sistêmico-funcional de Halliday, em diálogo com a teoria crítico-discursiva de Norman Faiclough. Por meio do Sistema de Modo e da Avaliatividade observa-se que tanto a modalidade quanto a avaliação se conjugam para realizar a pessoalidade nos textos. Na busca da cordialidade, imagem que o produtor desses textos oficiais pretende imprimir no seu leitor, a impessoalidade fica comprometida. A escolha da léxico-gramatica revela o contexto de situação e de cultura que está presente no texto oficial. Assim, é possível descrever uma gramática de uso nos gêneros textuais oficiais. Tais gêneros foram colhidos durante a última legislatura (2010-2014), são pois 20 Ofícios do Congresso Nacional Brasileiro e 12 Avisos Ministeriais. Interessou aqui tratar dos papéis desempenhados pelos escritores nos gêneros de Ofícios e os papeis que eles atribuem aos seus leitores, por meio do Sistema de Avaliatividade. Esse sistema amplia os significados interpessoais através de três eixos, ao longo dos quais, o escritor se posiciona de forma intersubjetiva. Ele não apenas aborda como os escritores codificam na léxico-gramática suas próprias atitudes, mas também os meios pelos quais impelem seus leitores a assumirem posturas e posições quanto aos textos. Os resultados têm mostrado que, por vezes, as negociações nas relações interpessoais assumem características de cunho pessoal e informal, impelindo o destinatário, um agente político, a assumir uma resposta solidária ao seu interlocutor, mais por força da pessoalidade do que pela postura que se espera de um cargo político. Por fim, esta pesquisa quer contribuir para a educação e o desenvolvimento dos profissionais que trabalham na administração pública com a produção desses textos, formando uma cultura de profissionalização a qual gerará reflexos nos serviços prestados à sociedade.
Palavras-chave: Avaliatividade, Modalidade, Gênero, Impessoalidade, Administração Pública
Bibliografia básica:
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Organização do texto: Juarez de Oliveira. 4. Ed. São Paulo: Saraiva, 1990.
EGGINS, Suzanne. An Introduction to Systemic Functional Linguistic. London: Continuum, 2004.
HALLIDAY, M.A.K. An Introduction to Functional Grammar. London: Edward Arnold, 1994.
MARTIN, J.R.; WHITE, P.R.R. The Language of evaluation: appraisal in English. New York: Palgrave, 2005.
VIAN JR., O; SOUZA, A.A.; ALMEIDA, F.(org.). A linguagem da avaliação em língua portuguesa. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

25.
Luciane Cristina Eneas Lira
Título do trabalho: Publicidade infantil: uma análise discursiva da recepção
Autor(es): Luciane Cristina Eneas Lira (Instituto Federal de Brasília/ Universidade de Brasília, luciane.lira@ifb.edu.br)
Resumo: A publicidade infantil é um tema controverso que se tornou, nas últimas duas décadas, alvo de pesquisa, estudos e debates em diversas instâncias sociais no Brasil. No congresso nacional, tramitam vários projetos de lei que propõem a criação de mecanismos de regulação dessa publicidade. Esta pesquisa visa contribuir para a compreensão da recepção da publicidade destinada a crianças, nas famílias brasileiras. As reflexões pautam-se na Análise de Discurso Crítica, com as contribuições de Fairclough (2001; 2003 e 2010), e na Linguística Sistêmico Funcional, com os estudos de Halliday (1976; 1978, 1994), Martin (2000 e 2003) e Martin & Rose (2003). Com o objetivo de verificar o impacto da publicidade infantil na dinâmica familiar, este trabalho investigou posições, comportamentos e sentimentos presentes nos discursos de pais, por meio da análise do sistema de avaliatividade, com foco no subsistema de atitude, a partir dos pressupostos teóricos da
Gramática Sistêmico Funcional. Os dados da pesquisa foram gerados por meio de entrevistas semiestruturadas destinadas a dez mães e pais de crianças, com idade entre 6 e 10 anos, realizadas em duas escolas, pública e particular, do Distrito Federal durante o mês de junho de 2013. Os depoimentos revelaram que a publicidade para crianças tem gerado uma desarmonia no ambiente familiar, que, em alguns momentos, é distinguida e condenada, mas, quase sempre, é nutrida e conservada. Ao reivindicarem para si o papel de mantenedores da ordem familiar, os pais também se solidarizam com as emoções dos filhos, advindas dos desejos gerados pela publicidade. Mães e pais identificam-se com os sentimentos das crianças, ora de frustração e ora de alegria, decorrentes das possibilidades de realização dos desejos de compra e, ao mesmo tempo, sentem que a responsabilidade pelo gerenciamento do equilíbrio familiar é um atributo pesado e, não raramente, cruel.
Palavras-chave: Publicidade infantil; Discurso; Recepção; Avaliatividade.
Bibliografia básica:
FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Coord. trad. revisão e prefácio à ed. brasileira Izabel Magalhães. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
______. Analysing discourse: textual analysis for social research. London; New York: Routledge, 2003.
HALLIDAY, M. A. K. An introduction to Functional Grammar. London: Edward, 1994.
MARTIN, J.R. e WHITE, P. 2005. The language of evaluation: Appraisal in English. London: Palgrave Macmillan.
______. Working with discourse: meaning beyond the clause. London: Continuum, 2003.

26.
Maria de Fatima Carvalho de Oliveira Felix
Título do trabalho: Representações discursivas no debate acerca da PEC das Domésticas na mídia brasileira
Autor(es): Maria de Fatima Carvalho de Oliveira Felix (Universidade de Brasília – UnB)
Email: fatimaunb@yahoo.com.br
Resumo: A promulgação da Proposta de Emenda à Constituição nº 66/2012, a popularmente nomeada PEC das Domésticas, em meados de 2013, promoveu intenso debate em alguns segmentos da sociedade brasileira. A aprovação da PEC no Congresso Nacional garantiu a ampliação de direitos aos/às trabalhadores/as domésticos/as, como, por exemplo, jornada semanal de 44 horas, pagamento de horas extras e pagamento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Conquista para uns/umas; reclamações infindáveis para outros/as. Mais que isso, a PEC das Domésticas pode ser considerada um avanço histórico na sociedade brasileira, pois reconhece direitos e garantias possuídos por outras categorias, mas ainda alijados à classe desses/as trabalhadores/as. Depois dessa aprovação, foi iniciado um intenso debate entre mídia, classe de trabalhadores/as e empregadores/as. O motivo de tanto alvoroço foi o fato de que as alterações na legislação trabalhista dessa categoria tinham/têm o
poder de modificar fortemente – se regularmente observadas e cumpridas – as relações, em muitos casos, já problemáticas, estabelecidas entre trabalhadores/as domésticos e empregadores/as, principalmente em relação aos encargos financeiros gerados para quem emprega. Essa PEC também reacendeu um esquecido debate a respeito das relações entre empregada/patroa, que evoca um relacionamento que mistura exploração e solidariedade e que tem origem no período escravocrata. Assim, como proposta de comunicação, apresentamos, portanto, uma breve análise de um texto acerca da PEC das Domésticas. Utilizamos a reportagem Nada será como antes, publicada em 3/4/2013, na Veja, uma revista de grande circulação no Brasil, como base para o desenvolvimento da análise sociodiscursiva. Nesta análise, nosso objetivo é identificar os discursos mobilizados na construção da representação desse evento. O principal referencial teórico-metodológico da pesquisa é a Análise de
Discurso Crítica, de vertente britânica e latino-americana (CHOULIARAKI & FAIRCLOUGH, 1999; FAIRCLOUGH, 2003a, 2003b, 2008; RAMALHO & RESENDE, 2011).
Palavras-chave: Análise de Discurso Crítica; trabalho doméstico; PEC das domésticas
Bibliografia básica:
CHOULIARAKI, Lilie & FAIRCLOUGH, Norman Discourse in late modernity: rethinking Critical Discourse Analysis. Edinbourg University, 1999.
FAIRCLOUGH, Norman. Analysing discourse: textual analysis for social research. Londres: Routledge, 2003
FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Ática, 1974.
SANTOS, Judith Karine Cavalcanti. Quebrando as correntes invisíveis: uma análise crítica do trabalho doméstico no Brasil. Dissertação (Mestrado em Direito)-Universidade de Brasília, Brasília, 2010.
SANTOS, Judith Karine Cavalcanti. Quebrando as correntes invisíveis: uma análise crítica do trabalho doméstico no Brasil. 2010. 120 f., il. Dissertação (Mestrado em Direito)-Universidade de Brasília, Brasília, 2010.

27.
Paula de Souza Gonçalves Morasco
Título do trabalho: A “nova classe média” ou “nova classe trabalhadora” brasileira no discurso noticioso do jornal Folha de S. Paulo
Autora: Paula de Souza Gonçalves Morasco (pós-doutorado)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP)
Email: psouzag@yahoo.com.br
Resumo: Este trabalho traz um panorama da representação dos atores sociais da nova classe média brasileira, desde o ano 2000 até os dias atuais, nas notícias do jornal Folha de S. Paulo. Nosso intuito é observar se a representação desses atores sociais mudou após esses catorze anos neste discurso noticioso, considerando-se tanto a consolidação dessa nova classe no Brasil quanto o leitorado prototípico desse jornal. Para a realização de nosso estudo, embasamo-nos nos pressupostos da Análise Crítica do Discurso (FAIRCLOUGH, 2001; WODAK, 2004; VAN DIJK, 2001; VAN LEEUWEN, 2008) e também buscamos respaldo em estudos sobre a enunciação (CHARAUDEAU, 2007; KEBRAT-ORECCHIONI, 1980; PAVEAU, 2007), pois também focamos o sujeito enunciador que sustenta os enunciados produzidos no discurso noticioso. Nossas análises vêm mostrando que, atualmente, há um cuidado maior com a produção do discurso noticioso na representação dos atores sociais da nova classe trabalhadora em relação aos anos anteriores. O apagamento do enunciador da notícia é uma façanha praticamente inalcançável, uma vez que sua presença é revelada por suas escolhas léxico-gramaticais e pré-discursos que acabam vindo à tona pela maneira como se produz o texto, ou seja, quem enuncia a notícia está sempre presente, seja por suas escolhas lexicais para a representação dos atores sociais, seja pela construção do ethos de um leitor específico e ideal a quem o jornal se reporta, dentre outras possibilidades. Apesar da grande frequência de estratégias de apagamento da voz do jornal por meio do uso das aspas e de construções discursivas que induzem o leitor a uma determinada interpretação, foi possível notar como se opta por representar a nova classe média por meio da exclusão dos atores sociais ou por meio da inclusão, mas de maneira genérica e muito frequentemente voltada para a questão do consumo.
Palavras-chave: Folha de S. Paulo; Notícia; Jornal; Nova classe média; Análise Crítica do Discurso
Bibliografia básica:
CHARAUDEAU, P. Discours journalistique et positionnements énonciatifs. Frontières et dérives, Semen, 22, 2006, Site consultado: http://semen.revues.org/2793. Acesso em 04 nov. de 2014.
FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. MAGALHÃES, I. (coord. da tradução), revisão técnica e prefácio. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 2001.
HALLIDAY, M.A.K; MATTHIESSEN, Christian. An introduction to Functional Grammar. London: Arnold, 2004.
KEBRAT-ORECCHIONI, C. L'énonciation : De la subjectivité dans le langage. Paris: Armand Colin, n.3, v.3. 1980, p. 162-167. Site consultado: http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mots_0243-6450_19.... Acesso em 21 out. 2014.
NERI, M. C. (coord.). A nova classe média. Rio de Janeiro: FGV/IBRE, CPS. 2008.
PAVEAU, M. Palavras anteriores: os pré-discursos entre memória e cognição. Filologia e Linguística Portuguesa. Universidade de Paris 13, França. Tradução de Norma Seltzer Goldstein, n. 9, p. 311-331, 2007.
POCHMANN, M. Nova Classe Média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.
VAN DIJK, T. Critical Discourse Analysis. In: SCHIFFRIN, D., TANNEN, D., HAMILTON, H. E. The Handbook of Discourse Analysis. IV. p. 352-371, 2001.
VAN LEEUWEN, T. A. Discourse and Practice: New Tools for Critical Discourse Analysis. Oxford: University Press, 2008.
WODAK, R. Do que trata a ACD – um resumo de sua história, conceitos importantes e seus desenvolvimentos. Linguagem em (Dis)curso – LemD. Tubarão, v.4, n.esp, 2004, p.223-243.

28.
Regysane Botelho Cutrim Alves
Título do trabalho: Criança na propaganda: uma análise semiótico-discursiva da representação de crianças em textos publicitários
Autora: Regysane Botelho Cutrim Alves (UnB/UFMA) - regysane@gmail.com
Resumo: A temática da publicidade infantil tem sido bastante discutida na sociedade brasileira, entretanto, pouca atenção é dada à forma como as crianças são representadas em textos publicitários de produtos não infantis. Assim, neste trabalho buscamos refletir sobre como as crianças são representadas em anúncios publicitários multimodais publicados em uma revista brasileira semanal de circulação nacional. Para tanto, foram utilizadas a Análise do Discurso Crítica (Fairclough 2001, 2003) e a teoria da Representação dos Atores Sociais (van Leeuwen, 2008) para entender os modos como as crianças são representadas nesses textos. Como se tratam de textos multimodais em que há a prevalência de elementos visuais, a gramática do design visual (Kress e van Leeuwen, 1996) foi utilizada para descrever o modo como os recursos semióticos são utilizados nesses anúncios. Os resultados preliminares indicam que há uma mercantilização da imagem da criança por meio da
qual os anunciantes tentam associar a suas marcas e produtos valores como diversão, leveza e criatividade. Além disso, as crianças são adultizadas nesses anúncios ao terem a sua imagem projetada nos adultos presentes nos comerciais, de quem parecem ser uma miniatura, e ao serem associadas a produtos que não são de consumo infantil.
Palavras-chave: Publicidade. Crianças. Representação. Análise do Discurso Crítica.
Bibliografia básica:
FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Trad. (Org.) Izabel Magalhães. Brasília: Universidade de Brasília, 2001.
________. Analysing discourse: textual analysis for social research. Londres: Routledge, 2003.
KRESS, G. & van LEEUWEN, T. Reading images: the grammar of visual design: London; New York: Routledge, 1996.
VAN LEEUWEN, T. Discourse and practice: News tools for critical discourse analysis. Oxford: Oxford University Press, 2008.

29.
Sineide Gonçalves [Submitted by user: IP 186.235.213.63]
Título do trabalho: OS FOOTINGS AVALIATIVOS DE AFETO, JULGAMENTO E APRECIAÇÃO DE MARÍLIA GABRIELA EM ENTREVISTAS COM ATORES CONSIDERADOS GALÃS DA TELEVISÃO BRASILEIRA
Autor(es): Sineide Gonçalves e Adail Sebastião Rodrigues-Júnior – (PPGLetras-UFOP)
sineide.mestrado@gmail.com adail.sebastiao@gmail.com;
Resumo: A partir do estudo da língua em contextos sociais específicos, denominados contextos microecológicos (GOFFMAN, 1974), e baseando-se nas abordagens sobre o estudo da fala contextualmente orientada (DURANTI, 1997) e suas possíveis interfaces com a perspectiva teórico-metodológica da Avaliatividade (MARTIN; WHITE, 2005), que explora o modelo de valorização do significado interpessoal, o objeto investigativo desta pesquisa é a complexidade da conversa casual em três entrevistas do programa televisivo MARÍLIA GABRIELA ENTREVISTA, em que participam Murilo Benício, Reynaldo Gianechinni e Marcos Palmeira. O objetivo desta comunicação é identificar, descrever e analisar as relações entre as pistas de contextualização (GUMPERZ, 2002) e os elementos léxico-gramaticais de afeto, julgamento e apreciação nas produções discursivas da entrevistadora Marília Gabriela em interação de fala com esses atores considerados galãs da televisão brasileira. Para a sistematização dessas relações, faz-se necessário levar em conta os papéis discursivos dos diferentes footings (GOFFMAN, 2002) de Marília Gabriela orientados pelos tópicos da conversação com seus entrevistados. As perguntas que embasam a pesquisa são: 1) Como Marília Gabriela constrói seus footings diante dos três galãs da mídia televisiva brasileira? 2) Que papéis semântico-discursivos o subsistema de atitude adota na configuração das entrevistas sob análise? Por meio da análise semântico-discursiva que privilegia os elementos léxico-gramaticais de afeto, julgamento e apreciação das transcrições das falas de Marília Gabriela durante as entrevistas, os resultados parciais apontam para a hipótese de que a entrevistadora adotou footings atitudinais de afeto ao entrevistar Reynaldo Gianechinni, de julgamento ao entrevistar Marcos Palmeira e de apreciação ao entrevistar Murilo Benício.
Palavras-chave: Footing; pistas de contextualização; atitude avaliativa; entrevista televisiva.
Bibliografia básica:
AUSTIN, John Langshaw. Quando dizer é fazer./John Langshaw Austin. Trad. De Danilo Marendes de Souza Filho. /Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
BENTES, Anna Christina. Linguística de texto e análise da conversação: panorama das pesquisas no Brasil/ Anna Christina Bentes, Marli Quadros Leite (orgs). São Paulo: Cortez, 2010.
MARCUSCHI, L. A. 2003. Análise da conversação. São Paulo: Ática,
MARTIN, J. R. The language of evaluation: appraisal in English/ J. R. Martins and P. R. R. White. Pligrave, 2005.
RODRIGUES-JÚNIOR, Adail Sebastião. Estratégias discursivas de um pai-de-santo umbandista em possessão. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2002.
SACKS, SCHEGLOFF, JEFFERSON, G. A. Sistema Elementar para a organização da tomada de turnos para a conversa. Linguagem, 1974.

30.
Vanessa Narel [Submitted by user: IP 177.75.68.27]
Título do trabalho - Construção da virilidade na publicidade de automóveis: uma abordagem crítica do discurso.
Autor(es): Vanessa Narel (UEPB- vanessanarel@gmail.com); Mauriene Freitas- (UEPB- maurienef@gmail.com); Greiciane Frazão - (UFPB- greciane_frazao@hotmail.com)
Resumo: Em um mundo marcado cada vez mais pelo consumo, o discurso publicitário se torna objeto de estudo natural dos analistas críticos do discurso. Com estratégias específicas voltadas para o seu mercado consumidor, esse discurso se mostra recorrentemente eficaz em seu intuito: a venda de um produto. Assim, esse trabalho se dedica a entender as estratégias discursivas utilizadas pela publicidade para seduzir seu publico alvo, nesse caso, os homens que anseiam comprar uma determinada categoria de carro. Para realizar essa investigação, recorremos aos textos de Norman Fairclough, linguista inglês e expoente da análise crítica do discurso que trabalha com a concepção dialética das relações discursivas. Assim, para Fairclough, o discurso é constituído por um tripé indissociável: o texto, a prática discursiva e a prática social. Desta forma, iremos analisar publicidades de automóveis por esse viés para compreender não só as estratégias publicitárias, mas a própria sociedade.
Palavras-chave: Análise Crítica do Discurso; Publicidade; Virilidade; Identidades Sociais
Bibliografia básica:
CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Gearges. História da virilidade. Rio de Janeiro: Luzes, 2013.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Tradução de Izabel Magalhães et alii. Brasília: UNB, 2001.
----- ; Wodak, Ruth. Análisis critico del discurso. In: Van Dijk, Teun (Org.) El discurso como interacción social: estudios sobre el discursos II, un introdicción multidisciplinaria: Barcelona: Gedisa, 2005, p.367-404.
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do saber. Trad.: Luiz Felipe Baeta Neves. 8Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.
Revista Veja, disponível em http://veja.abril.com.br/

31.
William Ruotti [Submitted by user: IP 189.78.85.22]
Título do trabalho: O Ensino de Língua Portuguesa: os documentos oficiais e a construção do discurso pedagógico do professor da Rede Estadual de Ensino de Carapicuíba-SP
Autor: Willian Ruotti - PUC-SP williamruotti@uol.com.br
Resumo: O presente trabalho faz parte da pesquisa de doutorado que está sendo realizada junto ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, linha de pesquisa Leitura, Escrita e Ensino de Língua Portuguesa. O recorte aqui realizado tem como objeto, no primeiro momento, os encontros realizados com os professores de Língua Portuguesa da rede pública estadual da cidade de Carapicuíba para Orientações Técnicas. Essas, por sua vez, aconteceram entre 2012 e 2014, visando, junto aos professores, dentre outros pontos: (i) orientar a implementação do Currículo do Estado de São Paulo - planejamento e execução; (ii) explicitar e discutir o arcabouço teórico envolvido; (iii) propor reflexões sobre possíveis posturas e ações interventivas a serem assumidas por eles. Entendemos como Fairclough (2001) que o discurso contribui de diferentes formas para os processos de mudança cultural, redefinindo e reconstituindo os diferentes “eus”; em se tratando desses professores de Português de Carapicuíba, o objetivo é identificar a maneira como eles representam sua prática, agem, identificam-se a si mesmos e imaginam ser identificados pelos outros em sua atuação. Para tal, utilizamos as propriedades analíticas do texto propostas por Fairclough (op. cit.): o controle interacional, a modalidade, a polidez e o ethos, tendo como ponto de partida a maneira como esses professores apresentam-se nesses grupos focais (Orientações Técnicas). No segundo momento, após essas O.T., realizamos visitas periódicas às escolas de atuação desses professores, verificando a realidade no qual desenvolvem suas práticas e a maneira como organizam os caminhos para construir a interação com seus alunos – evento concreto (Chouliaraki & Fairclough, 1999). Dessa forma, identificamos, a princípio, uma recorrente falta de segurança na condução de suas aulas, estando essa associada a três fatores: a incompreensão e/ou resistência ao discurso institucional (SEE-SP), a precária formação dos profissionais de Letras e o desconhecimento do perfil profissional exigido deles (especificamente Resolução SE nº 70, de 26-10-2010). Isso nos mostra, também, como nos ensina Resende (2009), a necessidade de pontuarmos claramente a causalidade de tais eventos, entendendo não ser pré-requisito a existência de um padrão associado a determinadas ocorrências.
Palavras-chave: Ensino de Língua Portuguesa; Análise de Discurso Crítica; Discurso Pedagógico.

32.
Título do trabalho: Pobreza no discurso político: responsabilidade de quem?
Autor(es):
KELLY CRISTINA NUNES DE OLIVEIRA
EDNA CRISTINA MUNIZ DA SILVA
Resumo: A reflexão sobre pobreza figura, atualmente, em tema relevante para a agenda das Ciências Sociais Críticas e para Análise de Discurso Crítica - ADC, uma vez que alcança um problema de incidência social sobre fatores que a relacionam à globalização e à exclusão social. Enquadra-se na linha de pesquisa “Discursos, representações sociais e textos” desenvolvida na universidade de Brasília. Nesse contexto, constituem objeto de análise os pronunciamentos da presidenta do Brasil Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura do encontro com governadores do Nordeste para a assinatura do Pacto pela Erradicação da Miséria, em 25/07/2011, e na cerimônia de anúncio de medidas do Plano Brasil Sem Miséria, em 19/02/2013, em que se antecipa a possibilidade de cumprimento da meta dos Objetivos do Milênio de erradicação da pobreza. Busca-se analisar representações de práticas discursivas e sociais constantes em textos institucionais, no
caso um pronunciamento presidencial sob o sentido da pobreza além de investigar o papel dos atores sociais envolvidos como participantes dessas práticas. Constituem o contexto de investigação pressupostos de Análise de Discurso Crítica (Fairclough, 2001, 2003); dos estudos sobre atores sociais (van Leewven, 1997, 2009) e da Linguística Sistêmico Funcional (Halliday & Matthiessen, 2004) que conduzem o entrelaçamento entre discurso e práticas sociais, ou seja, expõem as conexões entre aspectos semióticos e não-semióticos,. As análises advindas de representações discursivas sobre a pobreza, sob foco de análise da metafunção interpessoal e de uso de metáforas gramaticais enseja que o Estado como proponente de políticas públicas que sugerem erradicar a pobreza da população e a mitigar a exclusão social são insuficientes para alcançar a emancipação da população inserida no contexto de pobreza ou exclusão, além de esvaziar o poder agentivo dos atores
imersos em situação de pobreza.
Email: kellyney1@hotmail.com
Palavras-chave: atores sociais: pobreza; metafunção interpessoal; discurso presidencial; metáforas gramaticais
Bibliografia básica:
FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Coord. téc. e pref. Izabel Magalhães. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
______. Analysing discourse: textual analysis for social research. London: Routledge, 2003.
HALLIDAY, M. A. K. & MATTHIESSEN, C. M. I. .An introduction to Functional Grammar.London: Hodder Arnold, 2004.
VAN LEEUWEN, T.. A representação dos actores sociais. In: PEDRO, Emília Ribeiro. (Org.). Análise crítica do discurso: uma perspectiva sociopolítica e funcional. Lisboa: Caminho, 1997, p. 169-222
_____. Discourse and practice: new tools for critical discourse analysis. New York: Oxford University Press, 2008.

33.
Título do trabalho: OLIMPÍADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA EM FOCO: REPRESENTAÇÕES DISCURSIVAS ACERCA DOS SUJEITOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO EDUCACIONAL
Autor(es): Fabiana Aparecida de Assis (Universidade de Brasília – UnB) - fabianaibiapina1@gmail.com
O objetivo deste artigo é apresentar uma reflexão crítica acerca de construções linguísticas desenvolvidas em um texto jornalístico publicado na edição nº 88, da revista Língua Portuguesa, a respeito do projeto Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP), que acontece em caráter bienal, desde 2002, numa parceria entre o Ministério da Educação e Cultura (MEC), a Fundação Itaú Social (FIS) e o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Assim, baseado em uma triangulação teórica, o contexto de investigação deste projeto ancora-se nos pressupostos de Análise de Discurso Crítica (Fairclough, 1995, 2001, 2003; Chouliaraki & Fairchough, 1999), da Linguística Sistêmico Funcional (Halliday & Matthiessen, 2004) e da teoria de representação dos atores sociais de van Leeuwen (1997; 2008), a fim de analisar as escolhas linguísticas feitas por Leonardo Fuhrmann (autor do texto, objeto de estudo deste artigo), que, na elaboração de seu texto midiático, utiliza-se de expressões e comentários que conduzem o leitor a perceber o evento retratado como exemplo a ser seguido. E, já que o texto de Fuhrmann traz informações a respeito do projeto OLP, relatos de alguns participantes, fragmentos de textos premiados, além de comentários do redator sobre a importância de tal acontecimento para a educação brasileira, posiciona-se como elemento reflexivo acerca de um evento que envolve temas (leitura e escrita) de grande relevância para pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, entre eles, os linguistas. Busca-se, dessa forma, analisar as representações de práticas discursivas e sociais constantes no texto “O prêmio é o de menos”; identificar as ideologias que perpassam esse gênero discursivo; bem como verificar os diversos modos pelos quais os atores sociais apresentados no texto são representados discursivamente.
Palavras-chave: língua portuguesa; gêneros do discurso; linguística.

34.
Título do trabalho: Modalizando o dizer: uma análise sistêmico-funcional de dissertações
Autor(es):
Maria Medianeira de Souza (UFPE/medianeirasouza@yahoo.com.br)
Rebeca Fernandes Penha (UFPE/rebeca_letras@hotmail.com)
Resumo: Esse trabalho se inscreve na Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) e tem como objetivo analisar o uso da Modalidade em dissertações de mestrado da área de Letras, através do Sistema de Modalidade e de Transitividade, uma vez que pretendemos analisar a Modalidade relacionada aos Processos Verbais dizer e afirmar. Essa pesquisa se justifica porque nos permitirá compreender na escrita acadêmica, especificamente, o modo como mestrandos apresentam seus argumentos, articulando-os com outros dizeres e, algumas vezes, modalizando-os. Constituem nosso corpus, dissertações publicadas pelo PPGL/UFPE, nos anos de 1985 a 2004. Para a seleção dos dados, utilizamos o Software WordSmith Tools, em especial a ferramenta Concord, que localizou os Processos Verbais e Participantes, além dos modalizadores a eles associados. Respalda este empreendimento, a LSF a qual concebe a linguagem tendo em vista as funções sociais que esta concretiza e postula a organização desta mediante a
inter-relação de três Metafunções: Ideacional, Interpessoal e Textual. A Metafunção Ideacional se materializa pelo Sistema de Transitividade, composto por seis tipos de Processos, entre eles, o Processo Verbal, responsável pelo dizer algo, ao qual se associam os Participantes, Dizente, Locução e, opcionalmente, um Receptor. A Metafunção Interpessoal se manifesta na língua pelo Sistema de Modo e pelo Sistema de Modalidade, os quais servem para acessar os significados interpessoais da linguagem. Neste último sistema, recai nossa atenção para, em amálgama com o Sistema de Transitividade, averiguarmos a Modalização dos Processos Verbais. A análise revela que é frequente os mestrandos atenuarem o seu próprio dizer ao apresentarem seus argumentos amparados com modalizadores, como poder, entre outros. Pode-se, inicialmente, aventar para essas ocorrências, por parte do autor, uma estratégia de proteção de face, um resguardar-se de possíveis críticas, uma vez não
ocorreram casos de modalização quando o dizer é referente a uma voz de autoridade.
Email: medianeirasouza@yahoo.com.br
Palavras-chave: Linguística Sistêmico-Funcional; Processos Verbais; Modalização; Dissertação.
Bibliografia básica:
FURTADO DA CUNHA, M. A.; SOUZA, M. M. de. Transitividade e seus Contextos de Uso. São Paulo: Cortez, 2011.
GHIO, E.; FERNANDEZ, M. D. Linguística Sistémico-Funcional: aplicaciones a la lengua espanola. Santa Fé: Wladhurter Editores, 2008.
GOUVEIA, C. A. M. Texto e Gramática: uma introdução a Linguística Sistêmico-Funcional. Matraga, Rio de Janeiro, v. 16, n. 24, p. 13-47, jan./jun, 2009.
HOFFNAGEL, J. C. Modalidade em língua portuguesa. In: Temas em Antropologia e Linguística. Recife: Bagaço, 2010.
HALLIDAY, M. A. K.; MARTTHIESSEM, C. M. I. M. Introduction to Functional Grammar. 3. ed. London: Arnold, 2004.

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↑ índice

SIMPÓSIO 27 – FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE PL2/PLE: PERSPECTIVAS DE LÁ E DE CÁ

Coordenadores:
Adriana Albuquerque – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – albuquerqueafs@gmail.com
Livia Assunção – Università di Bologna / Johns Hopkins University – livia.assuncao@unibo.it

RESUMOS APROVADOS

1) Ensinando português à distância: prós e contras
Rosa Marina de Brito Meyer (PUC-Rio, rosameyer@puc-rio.br)
Ricardo Borges Alencar (PUC-Rio, richard@puc-rio.br)
Veronica Gomes Afonso (PUC-Rio/SUNY-NP, veronicacgafonso@yahoo.com.br)
Resumo: Em tempos de redução de custos na maior parte das universidades do mundo, o ensino de línguas está bastante ameaçado; em várias instituições, o número de disciplinas é reduzido ou até mesmo algumas línguas deixam de ser oferecidas. Para fazer frente a essa tendência, novas e criativas alternativas se tornaram necessárias. Uma experiência pioneira entre a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e a State University of New York em New Paltz (SUNY-NP) levou o ensino do português como língua estrangeira a 20 alunos da universidade norteamericana. Dessa experiência depreendem-se alguns fatores favoráveis ao ensino por meios digitais, mas também alguns elementos dificultadores. Aspectos relativos às condições materiais - laboratório, conexão, etc -, à construção do material, à metodologia e dinâmica das aulas, à abordagem das estruturas do português, e à avaliação serão apresentados.

2) Português, a segunda língua dos surdos brasileiros: conjeturas e reflexões a respeito do ensino do idioma, tendo em vista a Libras como sua primeira língua.
Jorge Bidarra (Universidade Estadual do Oeste do Paraná, UNIOESTE, jorge.bidarra@unioeste.br)
Mirna Fernanda de Oliveira (UNIOESTE, mirna.oliveira@gmail.com)
Tania Aparecida Martins (martitania@hotmail.com)
Resumo: Embora os surdos brasileiros disponham de uma primeira língua ou L1 (libras), sua interlocução com os ouvintes é problemática devido a dois aspectos principais: o desconhecimento da libras por parte de ouvintes e a dificuldade dos surdos em relação ao Português brasileiro (L2 para os surdos). Apesar da complexidade do assunto, o fato é que os surdos precisam lidar com ambas as línguas, uma exposição bastante complexa tendo em vista a diferença de modalidade entre L1, uma língua espaço-visual, e L2, língua oral, cujas estruturas lexicais, sintáticas e semântico-conceituais não compartilham da mesma organização. No Brasil, 5.1% dos habitantes são considerados deficientes auditivos (abrangendo os que não ouvem [surdez severa] e os que ouvem com grande dificuldade ou têm dificuldades para ouvir) (IBGE, 2010). O processo de ensino-aprendizagem do Português (L2) para esse grupo tem sido uma tarefa desafiadora para toda a sociedade e que vem requerendo da
comunidade educacional e dos pesquisadores a investigação e a colocação em prática de métodos e técnicas que propiciem aos alunos surdos a aquisição L2, não só pela consideração da L1 (libras), mas também da cultura e identidade dessa comunidade (Karnopp, 2002). Assumindo o bilinguismo como uma solução plausível e adequada, buscamos refletir aqui sobre propostas curriculares, formação de professores, bem como a efetiva participação de surdos e ouvintes no desenvolvimento desse processo no contexto escolar (Fernandes, 2006). O tema abordado nessa comunicação constitui uma pequena parte de uma pesquisa mais ampla que vem sendo executada pelo nosso grupo de pesquisa, cujo foco principal é a Ambiguidade Lexical (homonímia/ polissemia) no contraste entre as duas línguas. Essas investigações objetivam, como trabalhos futuros, a implementação de ferramentas linguísticas computacionais úteis tanto para professores quanto para alunos surdos e também ouvintes.

3) Português para Falantes de Espanhol: aspetos chave na formação de professores
Rocío Alonso Rey (Universidade de Salamanca, rocioalonsorey@usal.es)
Resumo: Nas últimas décadas foi verificado um notável desenvolvimento dos trabalhos dedicados ao Português para Falantes de Espanhol (Carvalho, 2001, Rabassa, 2010; Alonso, 2014 ), um campo de investigação (Carvalho, 2001, 2013), (sub)área de conhecimento (Scaramucci, 2013) ou especialidade (Rabassa, 2010) que estuda o processo de ensino/aprendizagem do português no caso dos aprendentes de português que têm o espanhol como língua materna, como L2 -ou língua adicional- ou língua de herança.
Este grupo de aprendentes apresentam um conjunto de caraterísticas específicas próprias, diferentes das que se encontram em aprendentes com outras línguas maternas -ou adicionais- (Almeida, 1995; Scaramucci e Wiedemann, 2008; Alonso, 2012), que fazem com que seja necessária uma metodologia de ensino que tenha em conta essas especificidades (Almeida, 1995; Grannier, 2001, 2014; Colín e Carlesso, 2014; Wiedemann, 2014). Neste trabalho são apresentados os pontos fundamentais relacionados com estas duas grandes linhas de pesquisa do PFE, nomeadamente, os aspetos relacionados com o processo de aprendizagem da língua, positivos e negativos, envolvidos na compreensão, na construção do conhecimento, na produção e na progressão da aprendizagem; e os aspetos relacionados com a metodologia do ensino, derivados dessas especificidades, atendendo aos estudos e propostas didáticas mais recentes na especialidade. O objetivo deste trabalho é pôr de relevo a necessidade do tratamento destes assuntos na formação de professores que vão trabalhar com grupos homogêneos de aprendentes FE ou com grupos heterogêneos com presença de FE (ou doutras línguas próximas ao português) para que sejam capazes de planificar atividades e aplicar técnicas de ensino adequadas as necessidades dos aprendentes.

4) NECESSIDADES FORMATIVAS DE PROFESSORES ATUANTES EM TIMOR-LESTE: O DESAFIO DE ARTICULAR LINGUAGENS
Joice Eloi Guimarães (Programa de Qualificação Docente e Ensino de Língua Portuguesa em Timor-Leste -PQLP/CAPES-, joiceeg@hotmail.com)
Resumo: O intercurso linguístico observado na República Democrática de Timor-Leste revela a coexistência de línguas que, devido a fatores histórico-sociais, perduram na sociedade timorense. A Língua Portuguesa, apesar de ocupar o lugar de língua oficial dessa nação, atualmente é falada apenas por 15% da população. Tendo em vista esse contexto, tencionamos com este trabalho discorrer sobre as necessidades formativas apresentadas por professores brasileiros que integram o Programa de Qualificação Docente e Ensino de Língua Portuguesa em Timor-Leste (PQLP/CAPES), pois esses sujeitos desenvolvem sua prática didática em/de Língua Portuguesa em meio à variedade que integra o universo linguístico dos timorenses. Compreendemos a formação docente como um processo inserido em determinado contexto, no dinamismo próprio da vida que ali se desenvolve, na relação dialógica com o outro, e que permite ao professor exercitar diferentes olhares para sua prática. No intuito
de atribuir sentidos aos enunciados dos sujeitos que integram essa pesquisa aplicamos um questionário cujo objetivo é mapear as dificuldades e as necessidades formativas desses professores para a realização da sua prática em Timor. A metodologia utilizada para a análise das respostas obtidas fundamenta-se na perspectiva sócio-histórica, na qual o ser social e as ações que realiza são considerados em sua realidade concreta. Tomando como referência os estudos desenvolvidos por Bakhtin e demais integrantes do Círculo de Bakhtin, pela teoria do dialogismo, escolhemos como foco da nossa investigação o enunciado concreto, e, como categorias para análise, conceitos componentes do contexto extraverbal: conceito de cronotopo, horizonte temporal e espacial – tempo (histórico) e espaço (social) e de entonação, avaliação social do sujeito que enuncia em relação ao objeto sobre o qual ele enuncia. A partir da análise realizada apresentamos uma proposta de formação
contínua na qual a multiplicidade linguística é elemento que soma no trabalho com/em Língua Portuguesa nos ambientes educativos em Timor-Leste.

5) A licenciatura em Português do Brasil como Segunda Língua (PBSL) - Universidade de Brasília
Daniele Marcelle Grannier (UnB, danielemarcellegrannier@gmail.com)
Orlene Lúcia de Sabóia Carvalho (UnB)
Resumo: Criada em 1998, primeira e única até o momento, a licenciatura em Português do Brasil como Segunda Língua (PBSL), da Universidade de Brasília, forma novas turmas de professores semestralmente. Essa licenciatura se destaca por preparar professores que podem atuar em três linhas diferenciadas: português para estrangeiros, para indígenas e para surdos. Essa formação tem por base o conhecimento especializado da língua portuguesa em uso, como ela é efetivamente falada e escrita, associado ao desenvolvimento de uma pedagogia de línguas culturalmente sensível e a uma vivência consciente do aprendizado de línguas. Para esse fim, além dos estágios, o curso é centrado em disciplinas teóricas, práticas e de laboratório, voltadas para o conhecimento científico da língua portuguesa e para seu ensino como segunda língua. Nas diversas disciplinas que compõem a formação teórico-metodológica dos graduandos, estão contemplados os aspectos socioculturais e a
variação linguística, os diferentes contextos culturais de ensino de português como L2 ou LE, as diversas abordagens de ensino, análises contrastivas de línguas próximas e línguas distantes, a compreensão e produção de gêneros textuais verbais e multimodais, políticas linguísticas, além da capacitação para a prática em sala de aula. Devido à carência de materiais instrucionais para o ensino de português demandados pelas diversas situações de ensino e aprendizagem, há uma ênfase especial, ao longo do curso, na elaboração de materiais didáticos pelos alunos. Complementarmente, os alunos cursam duas línguas estrangeiras, disciplinas de literatura brasileira e também disciplinas da área da educação. Os alunos egressos dessa licenciatura têm atuado em diversas frentes, em programas de educação bilíngue de escolas regulares, principalmente no ensino de português a surdos, em escolas de línguas no Brasil, em universidades dos Estados Unidos e em
outros países de vários continentes.

6) Alguns percursos didáticos para o ensino do PLE
Pedro Balaus Custódio (Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal, balaus@esec.pt)
Resumo: A presente reflexão insere-se na linha de pesquisa sobre o ensino do PLE e incide, em particular, sobre os alunos que estuda(ra)m em Coimbra ao abrigo do Programa Erasmus. Os objetivos desta análise percorrem vários trilhos, de entre os quais podemos destacar: o lastro formativo teórico-prático do docente nativo que leciona estes cursos, o seu conhecimento e proficiência didática, a capacidade preditora das dificuldades dos alunos de PLE ou as particularidades decorrentes das proveniências culturais e linguísticas dos alunos, etc. Estas observações decorrem da pertinência em identificar, caracterizar e descrever as populações estudantis que, nos últimos anos, nos visitam (também) para aprender Português. Em simultâneo, entendemos ser útil compreender quais as abordagens educativas que são mais comuns nestes contextos.
Assim, do ponto de vista metodológico, apresentaremos não apenas os fluxos de estudantes ao abrigo desta figura de mobilidade, como distinguiremos o perfil desses grupos, dando testemunho de alguns desafios que se colocam ao ensino do PLE a alunos europeus. Os resultados atingidos ao longo de vários anos destas práticas letivas permitem-nos, por um lado, aferir as melhores formas de propor atividades em contexto de sala de aula e, por outro, desenhar duas linhas orientadoras de trabalho destinadas a estes públicos específicos. Por último, daremos ainda conta de alguns resultados preliminares obtidos a partir do uso de textos literários de autores contemporâneos, como forma de enriquecimento lexical e cultural no decurso das aulas de PLE.

7) O emprego dos conectivos concessivos em PLM: contribuições para o ensino de PL2E
Thamara Santos de Castro (PUC-Rio, thamara_bbgg@yahoo.com.br)
Resumo: De maneira geral, nas gramáticas tradicionais de Língua Portuguesa, as conjunções / locuções conjuntivas concessivas são expostas em uma lista sem qualquer observação sobre suas condições de uso e seus aspectos semânticos, como se pudessem ser utilizadas de forma aleatória. Isso dificulta o ensino de Português, principalmente como segunda língua. Como há construções intrínsecas aos usuários nativos da língua, essas precisam ser mais bem detalhadas para que o falante não nativo consiga atingir um nível relevante de competência linguística. Para isso, baseando-nos na perspectiva funcionalista da linguagem, que entende que as escolhas gramaticais dependem do contexto em que estão inseridos os enunciados, este trabalho tem o objetivo de verificar as estruturas morfossintáticas em que ocorrem as orações concessivas e de observar os diferentes sentidos secundários que cada conjunção ou locução conjuntiva concessiva pode trazer ao enunciado. Com
isso, faremos um estudo que tentará facilitar o ensino das conjunções / locuções conjuntivas concessivas, visando à aprendizagem dos falantes não nativos de português.

8) O futuro do subjuntivo a italianos aprendizes do português como língua estrangeira
Monique Carbone CINTRA (UNESP/FLCAr - Araraquara, moniquecintra@hotmail.com)
Fernanda Silva VELOSO (UFPR - Curitiba, fernandaveloso@ufpr.br)
Resumo: O presente trabalho apresenta uma pesquisa de mestrado, vinculada à linha de pesquisa ensino e aprendizagem de línguas, cujo objetivo é analisar o uso do futuro do subjuntivo (FS) no português e o modo como ele é abordado no contexto italiano de ensino e aprendizagem da língua portuguesa (LP) como língua estrangeira (LE). Pudemos constatar, durante o nosso contato direto com italianos do curso de Letras que estudavam a LP em uma universidade da Itália central, que italianos estudantes de português língua estrangeira (PLE) revelam grande dificuldade ao se depararem com as estruturas linguísticas que envolvem o uso do FS em português, principalmente devido ao fato de esse tempo verbal não existir na complexidade da língua italiana (LI). A referida pesquisa, de caráter qualitativo interpretativista, consistiu, num primeiro momento, no estudo teórico-linguístico desse modo-tempo verbal em português – o FS –, bem como no modo indicativo encontrado na língua
italiana em sentenças que constituem uma hipótese futura. Subsequente a essa etapa, aplicar-se-á dois questionários, um aos professores e outro aos alunos para que suas dificuldades sejam especificadas e, posteriormente, elaborar-se-á uma proposta de redação que estimule, não de forma explícita, os alunos a usarem o FS. Por fim, analisaremos, com base teórica na análise constrastiva e no conceito de Interlíngua (Selinker, 1972), as ocorrências desse tempo-modo verbal, bem como as estratégias utilizadas pelos alunos para evitarem o FS nas suas produções escritas. Nossa tentativa, no âmbito da Linguística Aplicada, é a de disponibilizar resultados que possam ser reunidos às teorias desenvolvidas na área e utilizados pedagogicamente nesse contexto específico. Para a compreensão do uso do FS, valemo-nos também do funcionalismo enquanto corrente linguística, a fim de verificar as formas verbais do italiano empregadas para transmitir ideias veiculadas a um evento
futuro, do qual dependerá a constatação de uma situação. Os resultados preliminares apontam que na LI, no lugar do FS, emprega-se o futuro ou o presente do indicativo, dependendo da ideia de proximidade ou distanciamento que o falante quer demonstrar em relação à situação a qual se refere. A ideia manifestada pelo FS é concebida, em italiano, como um momento de referência (sempre ancorado no futuro) e associado a um outro momento (o do acontecimento – que pode ser anterior ou posterior). Essa diferença, quanto à percepção da realidade, merece ser respeitada no contexto de ensino e aprendizagem do PLE para italofalantes e é também importante considerar que o FS faz parte da língua portuguesa em uso e sofre variações.

9) O jornalismo brasileiro no processo de aprendizagem da norma coloquial para alunos de PL2E
José Rafael Pieroni Corsi Junior (raf.pieroni@gmail.com)
O presente trabalho tem como objetivo analisar a importância dos meios de comunicação e como a exposição a alguns destas publicações contribui para o aprendizado de PL2E entre estudantes em níveis intermediário e avançado. Estes alunos estrangeiros são expostos ao cotidiano das cidades brasileiras e, desta forma, já estão habituados a muitas expressões e desvios da norma culta da Língua Portuguesa, ao português informal, falado nas ruas. O que nos propomos é acrescentar ao aprendizado em sala de aula o uso de jornais ditos populares como mais uma forma de contribuição no aprendizado do aluno de PL2E.
Desta forma, nosso objetivo é fornecer diretrizes que ajudem a nortear os caminhos do professor de PL2E em sala de aula trabalhando elementos que tornem desafiador o aprendizado de português como Língua Estrangeira. A exposição do aluno de PL2E a tais publicações pode contribuir não apenas para o aprendizado da Língua Portuguesa, mas também para sua interação cultural neste novo ambiente em que vive e interage.

10) Ferramentas interativas para uma didática 2.0: tecendo novos cenários para o ensino e aprendizagem da língua portuguesa
Amélia Eunice Albuquerque de Moura Tavares (Università degli Studi di Perugia, Itália, tavaresamelia@gmail.com)
Resumo: Atualmente vivemos em rede e na rede e a escola deixou de ser um espaço físico limitado para se abrir à difusão e construção do saber através de plataformas e comunidades virtuais. As propostas de inclusão das tecnologias digitais em contextos educativos formais e não formais têm evoluído de forma notável, constituindo hoje um campo caracterizado pela crescente diversidade de modalidades de aplicação, promotoras de situações de aprendizagem inovadoras e conducentes ao desenvolvimento de competências em diferentes domínios. O professor da era da educação digital é visto como um facilitador, mediador de novas práticas de aprendizagem e engenheiro de múltiplas experiências pedagógico-didáticas. Cada professor/tutor deve compreender a importância desta nova reconfiguração na comunicação de diferentes conteúdos através de distintos canais multimédia e, simultaneamente, consciencializar-se da necessidade de uma maior conexão da escola à
sociedade do conhecimento na qual nos movemos à velocidade de um clique. Contudo, estes processos de integração curricular para uma didática que promova a literacia digital requerem uma perspetiva crítica acerca das possibilidades, limites e implicações destas tecnologias por parte dos agentes educativos. Efetivamente, cada docente tem a obrigação de indagar constantemente acerca das suas práticas pedagógicas, tornando-se um aprendiz e avaliador permanente não esquecendo, porém, que não deve ser a nova capacidade da tecnologia a determinar a prática do ensino do PL2 ou PLE mas devem ser as contínuas reflexões sobre a didática e as suas técnicas a guiar a adoção de novas tecnologias. Respeitando o ambiente pessoal de aprendizagem de cada estudante, é necessário continuamente planear e contextualizar tarefas, refletindo sobre estratégias para o desenvolvimento de competências e habilidades e selecionando os recursos didáticos digitais que melhor correspondem
aos estilos cognitivos dos aprendizes. De facto, com esta comunicação procura-se convidar os docentes à produção criativa de authoring tools para a dinamização de autênticas aulas 2.0.

11) "Não parece, mas é": um estudo comparativo entre expressões idiomáticas do Português Brasileiro e do Inglês Norte-Americano
Bárbara Baldwin (PUC-Rio - barbara.sdc@gmail.com)
Resumo: O presente estudo é filiado à linha de pesquisa Descrição do Português como L1, L2 e como Língua Estrangeira. A descrição da Expressão Idiomática (EI), de modo geral, é determinada por especificidades de difícil sistematização. A pesquisa é importante considerando a frequência com que as EI’s são usadas; as dificuldades que aprendizes de português segunda língua têm em interpretá-las e a carência de recursos disponíveis aos professores para explicá-las. Partindo das noções de complexidade, conotação e cristalização por tradição cultural da EI, proposto por Cláudia Xatara (1998), nos servimos de conceitos de interculturalismo apontados por Milton Bennet (1998) para observar padrões culturais idiomáticos compartilhados entre Brasil e Estados Unidos e estabelecer conexões de sentido entre EI’s dos dois idiomas. Por meio de dicionários de expressões e textos autênticos disponíveis na internet, comparamos qualitativamente a
Equivalência Semântica (ES) dessas expressões. Considerando diferentes graus de ES e aplicação no contexto situacional, destacamos aquelas de maior grau como, por exemplo, “vai ver se eu estou na esquina” - “go fly a kite” ; “abotoar o paletó” - “kick the bucket” e “dedo-duro” - “drop a dime”. Apontamos, ainda, indicadores comuns que influenciariam a formação de EI’s nas duas culturas e que poderiam ser aprofundados em pesquisas futuras.

12) A substituição da palavra sim nas respostas afirmativas no português brasileiro. Um estudo descritivo das diferentes formas de afirmação usadas entre os brasileiros que vão auxiliar o aprendiz de PL2E
Ana Rosa de Sá Donadio (PUC-Rio, ardnd@yahoo.com.br)
Resumo: Neste trabalho vamos identificar e descrever as diferentes formas de afirmação usadas pelos brasileiros, variando os grupos sociais e as situações comunicativas, para auxiliar o aprendizado do aluno estrangeiro de língua portuguesa.
Cada língua possui seus rituais e particularidades. Sabemos que, nem sempre, as frases construídas, seguindo corretamente as normas da gramática tradicional, são as mais eficazes para atender às intenções de comunicação. A escolha de elementos e mecanismos linguísticos adequados e alternativos à palavra sim, quando se quer dar uma resposta afirmativa em português no Brasil pode não ser fácil para o aluno estrangeiro. A dificuldade no aprendizado de um idioma vem das diferenças da cultura e dos costumes locais onde a língua está inserida. Portanto a adequação ou não do uso da palavra de afirmação sim, comum a todos os idiomas, como resposta afirmativa, torna-se uma questão a ser levantada no ensino de PL2E.
As variações nas formas afirmativas vão adquirir conotações diferentes em ambientes sociolinguísticos diversos. A utilização da palavra sim entre os brasileiros é pouco comum nas respostas afirmativas. Este uso pode ser, às vezes, interpretado com o sentido de indiferença, pouco caso ou rispidez. Fatores extralinguísticos como o contexto onde estão inseridos os interactantes, suas posições sociais, seus níveis de escolaridade, idade, etc., vão influenciar as escolhas dos elementos linguísticos adequados.
Este trabalho tem por objetivo identificar, descrever e analisar as várias situações de comunicação onde encontramos respostas afirmativas. Para isso, foram transcritos diálogos encontrados em filmes de longa metragem brasileiros onde se constata o não frequente uso do sim. Nesta pesquisa, abordamos a importância de trazer para sala de aula tais variações de estratégias de afirmação usadas pelos brasileiros, com alternâncias entre grupos sociais e situações comunicativas o que contribui para o processo de aprendizado do aluno de PL2E.

13) Ensinar a ler e escrever em L2. Que perfil docente para ensinar alunos imigrantes?
Belisanda de Jesus da Silva Soares Tafoi, Agrupamento de Escolas da Damaia, Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, UIDEF, tafoi.be@gmail.com)
Resumo: Nas últimas décadas, Portugal tornou-se um país de acolhimento e de integração de alunos imigrantes cujas características plurilinguísticas e pluriculturais despoletam questões e colocam desafios quer a docentes quer a aprendentes, desconhecedores do sistema linguístico português (Mateus e al, 2002, 2008; Ançã, 2006; Grosso, 2008).
Confrontados com as dificuldades de ensino e aprendizagem de uma língua e com os curricula das diferentes disciplinas, têm surgido respostas educativas que pretendem minimizar os desafios da integração no sistema educativo, ao nível da aprendizagem da língua portuguesa e do processo de aquisição de competências essenciais na cultura autóctone.
Derivando desta realidade, apresenta-se a comunicação ancorada no trabalho de investigação realizado no âmbito do doutoramento da primeira autora, cujos objetivos são: a) percecionar como se processa o acolhimento e as aprendizagens de alunos imigrantes num sistema educativo e numa língua de escolarização diferente da sua língua materna; b) identificar as expectativas, necessidades formativas e as concepções dos professores perante o ensino de Português Língua2, que lhes permita sustentar as suas práticas e as estratégias de intervenção melhor adequadas ao perfil plurilinguístico e pluricultural dos alunos.
Nesta comunicação equaciona-se por um lado o trabalho desenvolvido em modelo de acolhimento de crianças e jovens imigrantes com línguas maternas muito diversificadas e, por outro, avança-se com informações acerca das concepções dos professores sobre o ensino de português L2, estratégias privilegiadas e necessidades de formação.
A compreensão e teorização, das realidades e dos contextos, ancoradas nos discursos dos docentes permite interpretar as suas percepções, perante a imersão de alunos imigrantes, em contexto linguístico com falantes nativos, aprendentes de português L2 e remetem para uma prática pedagógica reflexiva.

14) Rio e suas fulgurações midiáticas: representações culturais no ensino de português como língua estrangeira
Lucas Rezende Almeida (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - luks.almeida@hotmail.com
Resumo: O Brasil nunca esteve tão presente no cenário internacional, seja pela sua crescente posição econômica, seja pela sua visibilidade esportiva através dos jogos Olímpicos ou da Copa. Essa sua nova posição global faz crescer o mercado interno para diversos setores. No campo educacional, nunca houve tantos estrangeiros no Brasil interessados em aprenderem português.
Devido a isso, pensar em formas diversificadas de ensinar língua e cultura para quem nos pretende entender é um compromisso nacional que as principais universidades brasileiras tem assumido junto com os profissionais da área, procurando (re)unir o conhecimento com a prática.
Neste trabalho, demonstrou-se de que forma a mídia funciona como uma propaganda do que seria o Brasil e o brasileiro ao mundo, por meio do filme “Rio 2”. Apresentou-se de que forma esses elementos culturais ricos podem ser explorados pelo professor no ensino de português como língua estrangeira através de duas das dimensões de Hofstede (1991). Explorou-se de que forma elas representam aspectos culturais subjetivos dentro do filme por meio da “distância de poder” e do par “coletivismo X individualismo”.
Diante da análise, demonstramos que o filme “Rio 2” possui elementos culturais não apenas objetivos, como as festividades, o samba e o futebol, mas também subjetivos. Dessa forma, a utilização desse filme para o Ensino de Português para Estrangeiro permite ao aluno entender características comportamentais linguísticas que representam nossa cultura. Uma proposta de discussão cuidadosa e bem elaborada pelo professor pode levar ao aluno a vislumbrar esses aspectos intrínsecos que pertencem a camada interna, responsável por sustentar o iceberg, que é a cultura (PETERSON, 2004).
O filme é, por si só, uma abordagem intercultural que vislumbra a cultura brasileira. Enquanto produzido por uma agência americana e dirigido por um brasileiro tendo um protagonista com nome e criação também estrangeiras, o filme faz uma simbiose entre estereótipos de nossas culturas e a realidade vivenciada por nosso povo multiforme e heterogêneo.

15) Casos de flutuação no emprego do modo subjuntivo no português brasileiro: uma investigação
Adriana Albuquerque – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – albuquerqueafs@gmail.com
Martina Farias Martins - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - martina.far@hotmail.com
Resumo: Vinculado à linha de pesquisa em Estudos da Linguagem, que tem como tema casos de flutuação no emprego do modo subjuntivo no português brasileiro e seu impacto no processo de ensino-aprendizagem de português como língua estrangeira (PLE) e/ou como segunda língua (PL2E), o presente trabalho pretende (1) investigar a tensão existente entre a regularidade e a flutuação no uso do subjuntivo, além de (2) identificar e analisar diferentes situações em que ocorrem essas variações no referido modo verbal do português e (3) apresentar caminhos didáticos para o ensino e a aprendizagem de particularidades relativas ao assunto em questão. Nessa perspectiva, aprofundar o tema faz-se necessário, uma vez que os alunos de nível avançado, ao perceberem esses casos de flutuação, colocam em questionamento as regras anteriormente aprendidas e memorizadas, desenvolvendo sentimentos de insegurança quanto as suas capacidades linguísticas. No que tange à base teórica, este
trabalho esta inserido em uma corrente funcionalista da língua. Partindo do princípio de que um modelo adequado de gramática requer tanto a aplicação de uma organização em camadas quanto o reconhecimento de vários níveis de análise, Hengeveld (2004) defende que há diversas razões para que a GF (Gramática Funcional) se expanda da gramática da sentença para a gramática do discurso. Assim, partindo de uma descrição da língua que se assemelhe cada vez mais ao processamento linguístico do indivíduo, esse trabalho visa descrever a língua por meio de seus aspectos funcionais. Para isso está sendo realizado um levantamento bibliográfico da literatura que trata do assunto, além de uma coleta de dados a partir de informações disponibilizadas pelo site da Linguateca. No que diz respeito aos resultados preliminares pode-se perceber por meio de pesquisas já iniciadas no tema, o quão relevante é apresentar aos alunos de níveis avançados os casos de flutuação do
subjuntivo no português brasileiro.

16) Práticas docentes: ferramentas para o ensino do PLE/PLH
Celia Bianconi (Boston University - cbianc@bu.edu)
José Antonio Castellano (Columbia University)- jc846@columbia.edu)
Ricardo Borges Alencar (PUC-Rio - deputy-ccci@puc-rio.br)
Resumo: Uma vez que reconhecemos que o processo de formação de professores de uma língua estrangeira, extrapola o vocabulário e a sistematização gramatical do ensino dessa língua, temos como objetivo fazer considerações sobre algumas das questões que nos parecem relevantes para tal processo. A partir de uma abordagem comunicativa e intercultural, faremos observações sobre elementos de práticas docentes de PLE/PLH, contemplando a compreensão e a produção escritas, a estrutura gramatical e os aspectos interculturais envolvidos nessas práticas.
A primeira parte da proposta é uma apresentação de português na leitura de material autêntico em uma sala de aula de língua estrangeira através da Taxonomia de Bloom e do input compreensivo no uso de Crônicas, um gênero literário rico que fala sobre um episódio envolvendo pessoas reais e que podem ser encontrados em jornais e revistas brasileiros. Os alunos podem se beneficiar de trabalhar com crônicas para melhorar seu vocabulário e pronúncia de palavras, para aprender sobre a cultura e identificar-se com uma passagem particular. A leitura de crônicas também promove a discussão em sala de aula e análise de situações reais. Esta abordagem envolve os participantes a interagir com os colegas para promover atividades de ensino e aprendizagem. As atividades de pré-leitura e leitura serão demonstradas e os participantes discutem como incorporá-los com sucesso em salas de aula de línguas para aumentar a consciência cultural e proficiência na língua.
A seguir, apresentaremos um estudo gramatical de um dos tópicos que ainda se apresenta como um desafio para o ensino de PLE. Lidando com uma abordagem de cunho comunicativo, direcionada para o sistema pronominal do português, buscamos uma sistematização e uma estratégia de ensino com aplicação em sala de aula de PLE. Partiremos do arcabouço teórico apresentado em Bechara e Cunha & Cintra, fazendo uma nova proposta de ensino desse tema para alunos falantes de outras línguas. Essa proposta tem se mostrado eficiente para o sucesso dos estudantes na compreensão do sistema pronominal do português.
Finalmente, lançaremos luz sobre alguns aspectos culturais, baseados em teóricos como Hall e Bennett, que influenciam diretamente as escolhas linguísticas em um determinado contexto comunicativo, indicando o impacto desses aspectos na sala de aula de PLE/PLH na área da Nova Inglaterra, EUA. Nossa pesquisa mostra que estudantes que são expostos a questões interculturais tendem a reter melhor os conhecimentos de português, mesmo não estando em contexto de imersão.

17) Uma ferramenta gratuita para o ensino de PLE
Caio César CHRISTIANO (Universidade Blaise Pascal, Clermont-Ferrand, caiochristiano@hotmail.com)
Resumo: Pretendemos, com esta comunicação, fazer a inauguração mundial do projeto PBOnline que foi co-financiado pela Divisão da Promoção da Língua Portuguesa.
O projeto nasceu de uma necessidade constatada em mais de uma década de experiência em pedagogia de língua estrangeira: não existem materiais áudio-visuais facilmente acessíveis para uso em sala-de-aula de língua portuguesa para estrangeiros. Os professores de PLE de todo o mundo procuram há tempos sem sucesso esse tipo de material.
Desta forma, o projeto consiste na criação de um um website que seja referência mundial no ensino de língua portuguesa para estrangeiros. Os alunos que aprendem a língua podem consultá-lo para travar conhecimento de forma contextualizada com as estruturas faladas no português do Brasil enquanto os professores poderão usá-lo como recurso pedagógico em suas aulas de língua, mostrando a seus alunos a riqueza de pronúncias e sotaques que existe dentro do Brasil.
Este website preenche uma importante lacuna no aprendizado de português do Brasil como língua estrangeira, já que não existe material deste tipo disponível gratuitamente. Além disso, o website utiliza uma abordagem pedagógica inovadora: ao invés de ter contato com atores que leem textos irreais, os alunos poderão ver e ouvir brasileiros em situações reais que falam de forma autêntica.
O website oferece também uma seção de poesia falada, para que os aprendentes possam ter contato com a arte literária que se pratica e se praticou no Brasil e conta com uma série de exercícios de compreensão lingüística para que os usuários possam praticar, no momento em que quiserem, a língua portuguesa.
Ao longo da apresentação discutiremos as linhas mestras que nos guiaram pedagogicamente na elaboração do projeto e colocaremos em pauta alguns pontos controversos no ensino de línguas, como, por exemplo, a utilização de gravações de falantes não-nativos e de falantes de variantes linguísticas que são geralmente menos privilegiadas em outros materiais didáticos.

18) Práticas de formação de professores de português língua adicional: aprender a ensinar em eventos de formação
Everton Vargas da Costa (edacosta@fas.harvard.edu)
Resumo: O presente trabalho descreve a formação de professores de Português como Língua Adicional em um instituto cultural brasileiro no exterior em eventos cotidianos nos quais os participantes se envolvem. A discussão parte da visão da racionalidade prática que prioriza os conhecimentos produzidos na prática do professor, e não unicamente a ampliação de seus conhecimentos técnicos (Pérez Gómez, 1995; Nóvoa, 1995); e das noções de conhecimento-na-ação e de reflexão-na-ação, propostas por Schön (2000), um paradigma da formação profissional que possibilita compreender as ações do professor com seus pares no seu local de ensino como geradoras de conhecimento a partir do diálogo reflexivo dos profissionais com situações problemáticas. A pesquisa utiliza os princípios metodológicos da etnográfia (observação-participante) e propõe o conceito de eventos de formação: eventos sociais envolvendo dois ou mais participantes orientados para tópicos de
ensino, com o propósito de solucionar problemas emergentes de sua prática pedagógica (Costa, 2013). As ações dos participantes envolvem explicações sobre conteúdos de gramática, como ensiná-la e avaliá-la, relatos de experiências de sala de aula e respostas a pedidos de ajuda sobre questões cotidianas na sala de aula. A análise revela que o tópico tratado nas interações é essencial para o propósito de formação e que as participações como formador e formando se definem com base na experiência que os participantes têm com a situação problemática em foco. O trabalho identificou também diferentes momentos e espaços no instituto onde os eventos são construídos, e que os modos de participação são distintos, dependendo de onde e quando acontecem. Com base na descrição desses eventos de formação com o propósito de aprender a ensinar neste Instituto, espera-se contribuir para os estudos sobre formação de professores na perspectiva de que aprender a
ser professor significa usar o conhecimento de maneira significativa de acordo com demandas locais e situadas.

19) O humor crítico presente em charges publicadas em jornais brasileiros e na internet.
Sheila Mejlachowicz (PUC-Rio, sheila.m1@globo.com)
Resumo: O processo de aprendizagem de uma língua estrangeira envolve questões que vão muito além da assimilação de regras gramaticais. O estrangeiro não entra em contato apenas com um novo idioma sobre o qual ele ainda tem pouco conhecimento. Existe um outro desafio, que é aprender uma nova cultura, muitas vezes tão diferente da sua. O conhecimento gramatical mostra-se necessário, porém insuficiente para possibilitar ao aluno alcançar a competência comunicativa.
A proposta deste estudo tem como base a presença do humor e da ironia na crítica em charges jornalísticas no Brasil. Não que sejam elementos exclusivos da nossa cultura, mas a questão é como o estrangeiro percebe e considera isso.
Um trabalho com charges em uma aula de português como segunda língua para estrangeiros (PL2E), em nível avançado, tem alguns objetivos específicos. O primeiro é estimular a discussão de assuntos atuais pertinentes à nossa sociedade. Além disso, levá-los a perceber, a entender e, em muitos casos, a aceitar a presença do humor e da ironia em nossa cultura como fatores essenciais para a crítica, o que pode causar um estranhamento se o estrangeiro considerar que essa é uma forma de não dar a seriedade devida a um determinado tema. Finalmente, a ampliação de vocabulário através do jogo de palavras existente em muitas charges.
Sendo assim, a relevância deste estudo se dá justamente por abarcar questões que passam por diferenças culturais, pelo trabalho com um gênero textual interessante do ponto de vista didático e, finalmente, por também ter foco na ampliação de vocabulário.
A elaboração deste estudo passa por duas abordagens. A primeira, sociodiscursiva, parte da teoria dos gêneros na conceituação de Bakhtin (2000). Segundo ele, o locutor tem um intuito discursivo que vai determinar a escolha do gênero em que o enunciado será estruturado.
Será abordado também o interculturalismo e a sua importância no processo de ensino-aprendizagem de uma segunda língua. Serão observados os conceitos de cultura objetiva e de cultura subjetiva, a partir de Bennett (1998).

20) Aspectos interacionais e culturais da ordem no ensino de PL2 em ambiente militar
Viviane Bousada Caetano da Silva (PUC-Rio, vivianebcs@hotmail.com)
Resumo: O presente estudo se propõe a analisar o ato de fala ordem utilizado por militares do Exército Brasileiro com seus aspectos sociointeracionais e culturais subjacentes, contribuindo, dessa maneira, para uma prática pedagógica mais eficiente do ensino de português para esse determinado grupo de estrangeiros. Se a língua é o reflexo de uma sociedade ou de um determinado grupo social; se as estruturas linguísticas estão intrinsecamente relacionadas aos aspectos culturais; e se esta pesquisadora atua em um contexto militar, ensinando português para militares estrangeiros em missão no Brasil, é justificável o estudo do ato ilocucionário da ordem, tão recorrente nesse grupo social baseado na hierarquia e na disciplina. Logo, qualquer professor que atue nesse contexto específico deve primeiramente aprender para depois saber transmitir a nuance e as peculiaridades desse ritual interacional nesse meio em questão. Dessa forma, para abordar o tema julgamos necessário
recorrer à Teoria de Atos de Fala de Searle (1969) e à Teoria da Polidez de Brown e Levinson (1987), além da Comunicação Intercultural de Milton Bennett (1998) e (2004) e do Cruzamento de Culturas de Hofstede (2010). Para tanto, estabelecemos um estudo de base qualitativa com uma abordagem temática e metodológica que lança mão de instrumentos de observação direta ou participante e da gravação em áudio da situação investigada, tendo como informantes militares do Exército Brasileiro para análise. Como resultado preliminar, pudemos verificar no coupus o uso das estratégias de polidez positiva e/ou negativa, a fim de amenizar o ato de ameaça à face tanto do falante quanto do ouvinte em determinado contexto. O estudo desse aspecto interacional relacionado à linguagem é necessária para que profissionais da área comecem a refletir sobre a sua própria língua, repassem essa visão para seus alunos e desfaça uma possível ilusão etnocêntrica.

21) Crônica de futebol como instrumento de interação social para o aluno internacional
Isabel Cristina Pozzi (PUC-Rio, isabelcpozzi@gmail.com)
Resumo: Aproveitaremos o clima de Copa do Mundo onde a emoção esteve e ainda está latente no coração dos brasileiros para analisar como esta paixão nacional se reflete na escrita dos cronistas.
Escolhemos como tema da nossa pesquisa a análise das crônicas de Paulo Cezar Caju no caderno de esportes do Jornal “O Globo” – veiculo que representa bem a mídia escrita carioca. PC como é conhecido no mundo de futebol foi um jogador polêmico da década de 70 e que depois morou na França por alguns anos jogando no time Olympique de Marseille. O comentarista coloca toda sua energia e experiência nos seus comentários semanais sobre o esporte favorito dos brasileiros.
A escolha do tema – o discurso esportivo – para a pesquisa foi motivada pelo fato de as crônicas esportivas serem bem mais informais do que as demais matérias dos jornais. As crônicas usam um registro bem coloquial ao se dirigirem ao seu leitor que algumas vezes são semelhantes às conversas de botequim. Apesar de informalidade o texto é bastante intenso e autoral. Portanto pretendemos destacar e definir as referências representativas e linguísticas existentes no discurso das crônicas de Paulo Cezar.
A nossa pesquisa tentará propor e explicar o uso da linguagem com duplo sentido e representações adjacentes nas frases das crônicas que são, certamente, de difícil entendimento para o estudante estrangeiro e quando necessário elucidar sobre o contexto envolvido no texto.

22) Ensino de Português Língua Estrangeira: práticas docentes no interior do estado de São Paulo - Brasil
Nildicéia Aparecida Rocha (UNESP, Araraquara - nildirocha@gmail.com)
Rosangela Sanches da Silveira Gileno (UNESP, Araraquara - rosangela@fclar.unesp.br)
Cássia Regina Coutinho Sossolote (UNESP, Araraquara - sosso@fclar.unesp.br)
Resumo: Nas duas últimas décadas, o Brasil tem se afastado da posição de país tipicamente colonizado, passando para a posição de país emergente, despertando a atenção de outros países. Nota-se que razões políticas e mercadológicas projetaram o português do Brasil no espaço internacional, redefinindo a língua como língua de comunicação internacional, sendo hoje mais valorizada e divulgada e atraindo o interesse outras nacionalidades em aprendê-la e ensiná-la. Neste sentido, para atender ao crescente número de intercambistas, advindos de universidades estrangeiras para a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP – Campus de Araraquara, desenvolvemos o Projeto de Extensão: “Ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE) para estrangeiros”, coordenado pelas professoras doutoras Nildicéia Aparecida Rocha e Rosângela Sanches Silveira Gileno, junto à Pró-Reitoria de Extensão Universitária (PROEX). Este projeto tem o objetivo de oferecer aulas, atividades extras e culturais para os estrangeiros que frequentam as unidades da UNESP de Araraquara – Faculdade de Ciências e Letras, Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Faculdade de Odontologia, Instituto de Química, assim como para os estrangeiros da região. O projeto propicia aos estrangeiros estratégias linguístico-discursivas e culturais em PLE, promovendo maior extensão interna ao campus da UNESP, nas aulas da graduação, da pós-graduação, da comunidade acadêmica em geral, assim como externas no meio citadino, regional e brasileiro, favorecendo a dinâmica e a relação dos estrangeiros na realidade nacional com o povo brasileiro. Esta comunicação, portanto, tem o objetivo de apresentar reflexões teórico-metodológicas sobre as práticas docentes no ensino de PLE, também articulado ao processo de internacionalização das universidades e da sociedade brasileira. O mérito do projeto se caracteriza também pela possibilidade de
formação na área de PLE para acadêmicos do curso de Letras, garantindo-lhes experiência pedagógica de ensino de PLE para estrangeiros e desenvolvimento de pesquisas na área, tanto na graduação como na pós-graduação.

23) A ordem dos fatores (não) altera o produto. A relevância da posição dos adjetivos no ensino de PL2E
Talita Melo Viegas Nunes - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - talitanunes_rj@hotmail.com
Resumo: Este estudo tem como principal objetivo analisar o uso característico e a posição dos adjetivos com relação aos substantivos no sintagma nominal da língua portuguesa, partindo da compreensão semântica dos estudantes de Português como Segunda Língua (PL2E). Esta investigação é realizada com base em amostras de histórias em quadrinhos e charges que abordam exemplos sociais e culturais da língua em destaque, além do aspecto gramatical enfatizado ao longo da pesquisa.
O Funcionalismo Sistêmico de Halliday é apresentado como base teórica, visto que o seu princípio está no uso da língua como meio mais importante de interação social. Segundo o autor, ao se expressar o falante realiza uma escolha entre os diversos signos existentes na língua. Esta seleção é influenciada pelo meio social e situacional dos interactantes que, ao se relacionarem, necessitam partilhar de algumas afinidades existentes em visões de mundo similares.
Para o desenvolvimento deste trabalho, observam-se as primordiais diferenças gramaticais e semânticas do português brasileiro no que se relaciona ao uso dos adjetivos. Espera-se, através de uma análise descritiva da colocação desta classe gramatical, esclarecer diferentes sentidos próprios do meio social, visando assim facilitar o entendimento dos aprendizes quanto ao emprego dos adjetivos em determinados contextos socioculturais.
Por se tratar do ensino de PL2E, devemos dedicar uma atenção especial ao fato de que a maior parte dos alunos apresenta dificuldades na compreensão de alguns aspectos externos à sua língua materna. Com base nesta limitação, é importante ressaltar que as considerações feitas devem possuir um embasamento nas especificidades da língua estudada.
Os resultados finais da pesquisa irão fornecer, aos professores e pesquisadores da área, relevantes subsídios para a elaboração de material didático e para a preparação de aulas que privilegiem aspectos gramaticais, discursivos e socioculturais da língua-alvo.
Deste modo, a necessidade de esclarecer essas diferenças significativas de abordagem semântica e gramatical é fundamental, a fim de que o processo de ensino-aprendizagem seja motivador e bem sucedido para os estudantes estrangeiros.

24) Português como língua estrangeira para senegaleses
Adriano Luiz Ribeiro de Freitas, Lúcia Lovato Leiria, Normélia Parise
Resumo: Como resultado dos fluxos migratórios impulsionados pela globalização e da imagem do Brasil no exterior como país de oportunidades, cada vez mais, aumenta o número de imigrantes que se deslocam para nosso país. Esse fenômeno chegou também à cidade do Rio Grande, RS, onde atualmente é considerável o número de imigrantes, especialmente oriundos do Senegal. Este estudo, portanto, fundamenta-se em um curso básico de português para imigrantes oriundos do Senegal, falantes da língua wolof, com o objetivo geral levar o ensino do nosso idioma a esses imigrantes e com os objetivos específicos de promover a integração social e cultural desses imigrantes/trabalhadores por meio da aquisição do idioma local; oferecer as bases linguísticas para o aluno interagir em língua portuguesa em sua rotina de trabalho; promover a competência de leitura de textos relacionados ao ambiente de trabalho e ao dia a dia; levar ao conhecimento dos alunos os gêneros textuais típicos
do mundo do trabalho, como carta de apresentação, formulários, cheques, atestados, carteira de trabalho etc. Do ponto de vista linguístico e antropológico, adotamos os fundamentos da Sociolinguística Interacional (GUMPERZ, 1982) da Antropologia Cultural (MATTA, 2001). Considerando-se a especificidade do público alvo deste curso – senegaleses, trabalhadores com nível de instrução básica –, adotamos a pedagogia do trabalho com projetos (ANDRIGHETTI, 2012), que se constitui de um plano de ação, sem passos rígidos e delimitados, que visa a atender às necessidades do grupo de alunos. Nesse sentido, propomos este trabalho que busca apresentar os resultados de ensino/aprendizagem do curso de português como língua estrangeira para falantes de wolof, com vistas a contribuir para a formação docente de português para estrangeiro, levando em consideração as particularidades sociais, culturais e linguísticas do grupo específico de alunos.

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SIMPÓSIO 28 - DESAFIOS E ESTRATÉGIAS TRADUTÓRIAS PARA O SÉCULO XXI E A TRADUÇÃO APLICADA AO ENSINO DE PLE

Coordenadores:
Gian Luigi De Rosa – Università del Salento – gianluigi.derosa@unisalento.it
Maria João Marçalo - Universidade de Évora - mjm@uevora.pt
Kátia de Abreu Chulata – Università di Chieti-Pescara – kdeabre@hotmail.com
Maria José Coracini – Unicamp – coracini.mj@gmail.com

RESUMOS APROVADOS

1.
Título do trabalho: A ESCRITA TRADUTÓRIA E OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO
SUBJETIVA DE QUEM TRADUZ
Autor(es): Ana Maria de Moura Schäffer
Centro Universitário Adventista de São Paulo - Campus Engenheiro Coelho (UNASP)
natifran2@gmail.com
ana.schaffer@unasp.edu.br
Resumo: Considerando a tradução como um espaço discursivo para a constituição identitária de tradutores e um lócus privilegiado para uma reflexão sobre a linguagem, este texto traz à tona a tradução de gênero (doravante TG), ao trazer um recorte de uma pesquisa que é fruto de um projeto maior que se pautou, inicialmente, no interesse em problematizar o encontro entre feminismo e tradução, ao resgatar, sob o viés histórico, a prática de tradução de certos grupos feministas (Canadá, década de 1970) que serviu de agenda política para, de alguma forma, subverter processos de subjetivação (FOUCAULT, 1984). Analisamos amostras de representação de tradução decorrentes de um corpus que privilegiou o dizer de tradutoras brasileiras, seres estes interpelados pela injunção à interpretação mediada pela linguagem, com o objetivo de interrogar os modos de subjetivação que normatizam quem traduz e questionar como esses modos cotidianamente construídos por professoras-tradutoras podem apresentar outras visibilidades do sujeito e as práticas que exercem. Uma vez que, de modo geral, o que reverberou das falas selecionadas foi uma representação de tradução como possibilidade de luta contra as condições históricas, as relações de poder e os modos de subjetivação normatizantes camuflados sob o manto da linguagem, consagramos neste texto a tradução de gênero como uma arma legítima e poderosa de luta contra tais processos subjetivantes. O pressuposto é que uma vez que a linguagem institui e mantém as desigualdades sociais e age como instrumento legítimo de autoridade patriarcal e, sendo a língua uma instituição social (BARTHES, 2006) que reforça a dominação do homem sobre a mulher, é, pois, a linguagem que precisa ser subvertida, embora se tenha consciência de que uma alteração pura e simples nesse processo, não será suficiente para uma mudança de
atitude frente à questão.
Email: natifran2@gmail.com
Palavras-chave: Análise do discurso; Modos de subjetivação; Tradução de gênero
Bibliografia básica:
BASSNETT, Susan. Writing in No Man’s Land: Question of Gender and Translation. Ilha do Desterro, 28, 1992.
CHAMBERLAIN, Lori (1988). Gender and the Metaphorics of Translation. Signs 13, 1992, p. 454-472; reimpresso em Lawrence Venuti (ed) Rethinking Translation. Discourse,
Subjectivity, Ideology. London & New York: Routledge, 1992.
CORACINI, Maria José Faria Rodrigues. A constituição identitária do tradutor: a questão da (auto-) censura. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de
Tradutores, nº 17, 2008.
CORACINI, Maria José Faria Rodrigues. Identidade & discurso: (des)construindo subjetividades. Campinas: Editora da Unicamp. Chapecó: Argos Editora Universitária,
2003.
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. (Trad. M. Schnaiderman e R. J. Ribeiro). São Paulo: Perspectiva, 1973.
FLOTOW, Luise von. Translation and Gender: Translating in the “Era of Feminism. Translation Theories Explained. Manchester: St. Jerome Publishing, 1997.
FOUCAULT, M (1979). Microfísica do Poder. 13.ed. Rio de Janeiro. Ed. Graal Ltda, 1998.
FOUCAULT, Michel. “Sujeito e poder”. In: DREYFUS, Hubert L. & RABINOW, Paul. Michel Foucault: Uma trajetória Filosófica. Tradução Vera Porto Carrero – Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1995.

2)
Título do trabalho: Variação linguística e tradução literária: impasses e
possibilidades
Autor(es): Carolina Geaquinto Paganine - Universidade Federal Fluminense - UFF
Contato: carolinagp@id.uff.br
Resumo: Segundo Antoine Berman, a multiplicidade de vozes é uma das grandes
marcas da escrita em prosa e, para o teórico francês, traduzir essa
multiplicidade “talvez seja o ‘problema’ mais agudo da tradução da prosa,
pois toda prosa se caracteriza por superposições de línguas mais ou menos
declaradas” (2007, p. 85). Partindo dessa centralidade para os estudos de
prosa e de tradução, nesta comunicação apresentamos, primeiramente, um
estudo sobre a variação linguística em obras literárias no contexto das
literaturas de língua portuguesa e inglesa, mostrando os objetivos e as
especificidades da representação literária da oralidade e pontuando as
diferenças entre os dois contextos linguísticos. Em seguida, realizamos uma
reflexão sobre a tradução da variação linguística, percorrendo questões
como: é possível representar, para línguas-culturas diversas, a particularidade geográfica e/ou individual da fala de personagens e narradores? Em tradução, essas particularidades inevitavelmente são generalizadas e homogeneizadas entre si? Por último, para ilustrar a reflexão, apresenta-se
uma análise crítica de traduções para a língua portuguesa de obras de
Thomas Hardy (Tess of the D’Urbervilles e The Well-Beloved) e de Charles
Dickens (Great Expectations) que impõem dificuldades do ponto de vista da
representação do regional e da individualidade, respectivamente, no uso que
essas obras fazem da variação linguística. Publicadas entre 1942 a 2011, as
traduções dessas obras exemplificam os diferentes posicionamentos críticos
dos tradutores e do meio editorial ao longo dos anos com relação à
representação da fala do Outro, ora adaptando, ora recriando as diferenças
linguístico-culturais.
Email: carolinagp@id.uff.br
Palavras-chave: variação linguística; oralidade; tradução da variação
linguística; Thomas Hardy; Charles Dickens.
Bibliografia básica:
BERMAN, Antoine. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Trad.
Andréia Guerini, Marie-Hélène C. Torres e Mauri Furlan. Rio de Janeiro:
7letras/PGET, 2007.
BRITTO, Paulo Henriques. A tradução literária. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2012.
ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato. O português da gente: a língua que
estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006.
PRETI, Dino. Sociolingüística: os níveis de fala: um estudo
sociolingüístico do diálogo na literatura brasileira. 9. ed. 1. reimpr. São
Paulo: Edusp, 2003.
PYM, Anthony. Translating linguistic variation: parody and the creation of
authenticity. In: VEGA, Miguel A.; MARTÍN-GAITERO, Rafael (Ee.).
Traducción, metrópoli y diáspora. Madrid: Universidad Complutense de
Madrid, 2000. p. 69-75. Disponível em: http://usuaris.tinet.cat/apym/on-line/translation/authenticity.html>.
Acesso em: 8 mar. 2012.

3)
Título do trabalho: “O jeito que a gente diz” – um desafio para tradutores
e aprendizes de PLE
Autor(es): Stella E. O. Tagnin (Universidade de São Paulo - seotagni@usp.br)
Resumo: Um dos maiores desafios do tradutor é encontrar a “tradução certa”,
o equivalente “perfeito” na língua de chegada. Mas isso não se restringe à
linguagem técnica. Muito pelo contrário, é na linguagem cotidiana que podem
surgir problemas muitas vezes não percebidos pelo tradutor. São os
problemas da convencionalidade na língua, aquelas combinações fixas ou
semifixas – chamadas de colocações - que passam despercebidas ao tradutor
“ingênuo” (similar ao “aprendiz ingênuo” de Fillmore 1979) por não
representarem um problema de compreensão. Para tanto, o tradutor/aprendiz
deve, primeiramente, perder sua “ingenuidade” e se conscientizar da
existência dessas convenções. A partir daí estará apto a recorrer a uma
fonte de referência para buscar o equivalente. Surge aqui um novo problema,
pois os dicionários brasileiros não costumam elencar essas colocações. Mas
existem hoje corpora on-line que o tradutor/aprendiz pode consultar,
gratuitamente, para dirimir suas dúvidas. O objetivo deste trabalho é,
primeiramente, apresentar e discutir as principais categorias convencionais
relevantes para o tradutor – e para o aprendiz da língua portuguesa -, a
partir do princípio idiomático proposto por Sinclair (1991), que reza que a
língua é composta por um vasto número de combinações consagradas. Em
seguida, pretende demonstrar como corpora que contemplam a língua
portuguesa podem ser usados tanto para solucionar problemas tradutórios
quanto para auxiliar o aprendiz de PLE. Os corpora que ilustrarão essa
metodologia, vinculada à Linguística de Corpus, são: Corpus do Português,
COMPARA, Cortrad e CorTec. O primeiro corpus é monolíngue; os outros são
bilíngues inglês-português. Como a Linguística de Corpus já tem sido
amplamente usada em cursos de formação de tradutores, mas ainda é pouco
conhecida no ensino de PLE, acreditamos que essa área poderia se beneficiar
muito de sua utilização.
Email: seotagni@usp.br
Palavras-chave: Linguística de Corpus - corpora - ensino de tradução -
ensino de PLE
Bibliografia básica:
Fillmore C. Innocence: a second idealization for linguistics. Proceedings
of the Fifth Berkeley Linguistics Society. Berkeley: University of
California, 1979.
Sinclair, John. Corpus, Concordance, Collocation. Oxford, Oxford University
Press, 1991.
Tagnin, S.E.O. O Jeito que a Gente Diz, São Paulo: Disal, 2013.

4)
Título do trabalho: A língua materna e a tradução no ensino de línguas: história e perspectivas
Autor(es): Elisa Figueira de Souza Corrêa (doutoranda PUC-Rio / bolsista CNPq /
pehdefigo@gmail.com)
Resumo: A motivação inicial desta pesquisa adveio de minhas experiências lecionando
português-língua estrangeira (PLE) na Universidade de Hebei, na China. Devido a
dificuldades de comunicação – visto que nem eu dominava o mandarim, nem meus alunos, o português – e frustrada diante da orientação hegemônica de ministrar uma aula monolíngue em PLE, decidi-me por analisar criticamente tal situação. O
desenvolvimento dessa análise, acompanhado por uma necessidade de não coibir a
língua materna (LM) ou a língua franca (nesse contexto, o inglês), veio a constituir
o principal pilar da presente investigação. Como resultado, apresenta-se um
levantamento historiográfico do uso da LM e da tradução no ensino-aprendizagem de
línguas não-maternas (LNM) e desenvolve-se uma crítica a diversos métodos de ensino,
com base na qual se opta por romper com a orientação pró-monolinguismo do século XX.
Para justificar a LM e a tradução pedagógica (i.e. exercícios de
tradução) como recursos no ensino-aprendizagem de LNM, constata-se a necessidade
cognitiva e afetiva da LM em sala de aula e defende-se a prática tradutória,
conforme concebida pós-modernamente, como um recurso de tripla face: (1) como uma
quinta habilidade a ser visada pelo ensino de LNM; (2) como uma forma de criar
consciência linguística no aluno, especialmente pelo contraste entre LM e LNM; e (3)
como fruto de uma proposta de ensino-aprendizagem que, por aderir à condição
pós-método, procura utilizar-se de ferramentas variadas para enriquecer o ambiente
da sala de aula e a experiência de aprendizagem. O trabalho sustenta seus argumentos
a favor do uso desses dois recursos – LM e tradução pedagógica – com dados de outras
pesquisas e com depoimentos de alunos e professores sobre o assunto, concluindo em
prol dos mesmos e contra a hegemonia da sala de aula monolíngue em LNM, a qual ainda
prevalece como situação ideal no senso comum e em diversas instâncias
de política educacional.
Email: pehdefigo@gmail.com
Palavras-chave: “língua materna”, “tradução pedagógica”, “tradução como quinta
habilidade”, “consciência linguística”, “condição pós-método”
Bibliografia básica:
(1) CONSELHO DA EUROPA. Quadro europeu comum de referência para línguas. Lisboa:
ASA, 2001. Disponível em: http://europass.cedefop.europa.eu/pt/resources/european-language-levels-cefr/cef-ell-document.pdf>.
Acesso em: 3 ago. 2014.
(2) ESSEN, Arthur van. Language awareness and knowledge about language: a historical
overview. In: CENOZ, Jasone; HORNBERGER, Nancy H. (eds.). Encyclopedia of language
and education. 2.ed. v. 6. New York: Springer, 2008. p. 3-14.
(3) FROTA, Maria Paula. A singularidade na escrita tradutora: linguagem e
subjetividade nos estudos da tradução, na linguística e na psicanálise. Campinas
(SP): Pontes; FAPESP, 2000.
(4) KUMARAVADIVELU, B. The postmethod condition: (e)merging strategies for
second/foreign language teaching. TESOL Quarterly, v. 28, n. 1, p. 27-48, spring,
1994. Disponível em:
.
Acesso em: 4 jun. 2014.
(5) PRABHU, N. S. There is no best method: why? TESOL Quarterly, v. 24, n. 2, p.
161-176, sum. 1990b. Disponível em:
. Acesso: 1 jun.
2014.

5)
Título do trabalho: Tradução/traduções: uma perspectiva no estudo das divergências entre PE e PB
Autor(es):
Vanessa Castagna (Universidade Ca' Foscari de Veneza; email:
castagna@unive.it)
Resumo: Tendo como pano de fundo teórico a abordagem dos Descriptive Translation
Studies e a linguística aplicada, o objetivo é ilustrar como a análise
contrastiva de traduções portuguesas e brasileiras contemporâneas de uma
mesma obra literária pode proporcionar elementos de reflexão atualizados
acerca da convergência/divergência entre PE e PB num registo linguístico
específico como é o literário. Como já salientaram os estudiosos da Escola
de Telavive, o tradutor ativo no seu meio cultural reflete na sua obra um
sistema implícito de normas e práticas aceites. Esse tipo de processo
também se aplica a um modelo implícito de língua literária geralmente
aceite no contexto em que o tradutor atua.
A nossa análise focar-se-á em obras da literatura italiana contemporânea
traduzidas e publicadas em edições diferentes em Portugal e no Brasil nas
últimas décadas, visando patentear quais os elementos sistematicamente
divergentes no plano lexical, morfossintático e estilístico entre as
variedades brasileira e europeia do português, com possíveis implicações e
aproveitamentos na didática do PLE.
Email: castagna@unive.it
Palavras-chave: tradução literária; estudos de tradução; variedades do
português
Bibliografia básica:
EVEN-ZOHAR, Itamar, “The position of translated literature within the
literary polysystem”, in VENUTI, Lawrence (ed.), The Translation Studies
Reader, London/New York, Routdledge, 2000.
SCHAFFNER, Christina (ed.), Translation and Norms, Clevedon, Multilingual
Matters. 1999.
TOURY, Gideon, Descriptive Translation Studies and Beyond,
Amsterdam/Philadelphia, John Benjamins, 1995.

6)
Título do trabalho: As relações sociais e afetivas expressas pelas formas de tratamento em traduções de The Adventures of Tom Sawyer
Autor(es): Fernanda Bondan SOPPELSA (UCS)
fbsoppelsa@ucs.br
Giselle Olivia Mantovani DAL CORNO (UCS)
gomdcorn@ucs.br
Resumo: Mark Twain, renomado autor realista, conhecido pelo seu estilo coloquial e
pelo local colorism, representa com maestria a modalidade oral regional da língua
inglesa na fala dos personagens do romance Adventures of Tom Sawyer (As aventuras de
Tom Sawyer). As formas de tratamento empregadas pelos personagens principais ajudam
a construir uma representação de como as relações sociais são marcadas na obra. A
partir da análise de alguns diálogos do texto original em inglês e de suas
respectivas traduções, observa-se não somente as marcas de oralidade, mas também
como as escolhas lexicais para formas de tratamento podem revelar diferentes graus
de afetividade e hierarquia social. Verificam-se alguns casos de perdas nas
traduções brasileiras em relação ao uso das formas de tratamento, como também, em
uma das traduções, um processo de domesticação, nos moldes de Venutti (1998).
Email: nandinhasoppelsa@gmail.com
Palavras-chave: Formas de tratamento; Relações sociais e afetivas; As aventuras de
Tom Sawyer; Tradução; Domesticação.
Bibliografia básica:
BROWN, Roger; FORD, Marguerite. Address in American English. Journal of abnormal
and social psychology, v. 62, n. 2, p. 375-385, 1961.
HOLTGRAVES, Thomas M. Language as social action: social psychology and language
use. Mahwah, New Jersey; London: Lawrence Erlbaum, 2002.
KRAMSCH, Claire. Language and culture. New York: Oxford University Press, 2001.
MULLIGAN, Erin R. Paternalism and the Southern hierarchy: how slavery defined
antebellum Southern women. Armstrong undergraduate journal of History, v. 2, n. 2,
2012.
VENUTI, Lawrence. A tradução e a formação de identidades culturais. In: SIGNORINI,
Inês (org). Lingua(gem) e identidade: elementos para uma discussão no campo
aplicado. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 173-200.

7)
Título do trabalho: O mal-estar na tradução: entre línguas-culturas e o triplo luto do tradutor
Autor(es): CORACINI, Maria José
Resumo: Pretendendo problematizar a tarefa do tradutor e a construção de sua
identidade, focamos a tradução com base no pensamento derrideano, dentre outros,
que, embora não abordem diretamente a tradução, permitem-nos lançar um olhar
questionador sobre aspectos ligados à linguagem e à identidade do tradutor, como por exemplo, teorias do discurso e concepções advindas da psicanálise freudo-lacaniana, no que diz respeito à subjetividade. Partimos do pressuposto de que o tradutor se coloca no espaço sem espaço do in between – entre línguas-culturas, entre o texto de partida e o texto de chegada, entre o autor e o possível leitor do texto traduzido, entre a língua do outro e a (auto e hetero) censura proveniente da ideologia de seu
momento histórico-social e de sua formação como sujeito e como tradutor, entre o
familiar e o estranho. Nesse “espaço” de tensão e conflito, as línguas exigem que o tradutor faça um triplo luto: de si, do texto original e das
línguas em questão. O luto, como lembra Freud, resulta da perda de um objeto ou ente querido: no caso em questão, o tradutor vê-se na contingência de fazer o luto de sua própria língua (ou língua de chegada) e, ao mesmo tempo, o luto da língua do outro (língua de partida), para, num movimento complexo, penetrar nas discursividades do texto, da palavra exigente do outro e na da língua-cultura de chegada. Nessa medida, renuncia ao seu desejo de autoria, para ser fiel ao outro, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, renuncia ao outro e à língua-cultura do outro. Entretanto, è exatamente nessa renúncia que o tradutor torna-se autor, ainda que permaneça na
ilusão da fidelidade impossível e necessária ao mesmo tempo.
Email: coracini.mj@gmail.com
Palavras-chave: tradução, subjetividade, língua-cultura, identidade, luto
Bibliografia básica:
CORACINI, Maria José ( 2011) A Celebração do outro. Campinas: Editora Mercado de
Letras, 2a edição, 2011.
DERRIDA, Jacques ( ) Des Tours de Babel. Semeia. 54, 1991.
DERRIDA Jacques, O que é uma tradução "relevante"? Trad. Olívia Niemeyer Santos.
Revista ALFA, vol. 44 (espeical), UNESP, 2000
FREUD, Sigmund (1915-17) Luto e Melancolia, Obras Completas de S. Freud. Rio de
Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu. In: LACAN, J.
Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar / Campo Freudiano no Brasil,
1998, p. 96-103.

8)
Título do trabalho: Uma voz estrangeira: o desafio de legendar os
documentários
Autor(es): Francesco Morleo, Università del Salento, francescomorleo@hotmail.it
Caterina Varasano, Università del Salento, varasanocate@libero.it
Resumo: O presente contributo visa propor uma análise sócio-pragmática de produtos
audiovisuais para um estudo tradutológico e tradutivo ligado à produção de
legendas interlinguísticas. As legendas são o resultado de um processo
complexo que inclue três operações principais. O legendador tem que operar
seguindo três linhas de trabalho ao mesmo tempo: redução, passagem das
unidades cumpridas às unidades breves; transformação diamésica, passagem do
código oral ao código escrito; tradução, passagem da língua fonte à língua
alvo. Além disso, é preciso considerar que a fala fílmica pertence ao
âmbito da língua transmitida, por isso é uma reprodução da fala espontânea,
mas não é autêntica. Tentando reproduzir a fala espontânea, a fala fílmica
do cinema português e brasileiro representa uma reprodução da realidade
linguística, uma pedra de toque das diferentes características das
variantes do mundo lusófono. Um caso especial de língua fílmica é
oferecido pelos documetários, os quais se apresentam como um verdadeiro
desafio ao tradutor: as características linguísticas são sempre traduzíveis?
Existem vários tipos de documentários: os onde quem fala é deixado livre de
produzir o seu pensamento, neste caso a língua é muito mais próxima à fala
espontânea, e os onde quem fala segue um texto anteriormente elaborado.
Nestes casos o tradutor deve seguir o estilo geral do produto audiovisual
na criação das legendas? As legendas devem ser uma ajuda para a compreensão
ou podem manter as marcas da oralidade? Estas são algumas das perguntas às
quais este trabalho tenta dar as respostas.
Email: varasanocate@libero.it
Palavras-chave: Sociolinguística, pragmática, tradução, legendadem.
Bibliografia básica:
Bagno M. 2003, A norma oculta: Língua & poder na sociedade brasileira, Parabola, São Paulo.
De Rosa G. L. 2009, Uma língua sem dono: o(s) português(es) no século XXI, in "Lingue e Linguaggi", 3, pp. 105-123.
De Rosa G. L. 2012, Mondi Doppiati: tradurre l'audiovisivo dal portoghese tra variazione linguistica e problematiche traduttive,
FrancoAngeli, Milano.
Gambier Y. and Gottlieb H. (eds.) 2001, (Multi)media Translation: concepts, practices, and research, John Benjamins, Amsterdam.
Perego E. 2005, La traduzione audiovisiva, Carrocci, Roma.

9)
Título do trabalho: A Trajetória Idiomática do Capítulo 13 da “Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios” – um estudo comparativo de suas traduções
Autor(es): Cinthia Maria Ramazzini Remaeh (Universidade Sagrado Coração – USC /
cinthia.mramazzini@globo.com)
Letícia Alves Moreira (Universidade Sagrado Coração – USC /
leticia.rip@hotmail.com)
Resumo: Da antiguidade ao presente, o tradutor tem unido culturas através
dos saberes históricos e psicológicos. Cabe a ele buscar equivalentes
teóricos de uma língua para outra, sem deixar que se perca o conteúdo e a
essência central do texto. No tocante à bíblia, esta é o livro mais lido,
traduzido e distribuído em todo mundo. Diante disso, num diálogo
intertradutório, foi apresentada como proposta de Iniciação Científica, uma
comparação analítica do léxico das traduções do capítulo treze da “Primeira
Epístola de São Paulo aos Coríntios”, para se verificar como quatro
traduções da referida epístola (Edição Ave-Maria, 1998; Edição Pastoral,
1990; A Bíblia de Jerusalém, 1989; Edição Revista e Atualizada no Brasil,
1999) apresentaram, em seus contextos, o amor retratado no idioma de origem
dessa carta. Posto que o original, em grego, foi ganhando novas versões
geradas para públicos particulares, propôs-se como método para evidenciar tais
alterações, as escolhas lexicais realizadas que tornam nítido o ponto de
vista que orientou as traduções, uma vez que implicações socioculturais e
ideológicas subjazem à semântica de cada item lexical escolhido.
Apoiando-se nos estudos de Arrojo (1986) e Rónai (2012), que analisam o
papel do tradutor no processo tradutório; em Pagano (2001), a qual trabalha
a tradução dos textos sagrados; entre outros, obtêm-se como resultados
preliminares desse diálogo entre o passado e o presente da referida carta,
que o papel do tradutor consiste numa atividade seletiva e reflexiva, posto
que as traduções analisadas mostraram-se passíveis de suscitar objeções por
motivos ligados à religião, assim como evidenciou-se que os objetivos
evangelizadores subjacentes à tradução, mais de uma vez, tornaram-na
coloquial, buscando facilitar a compreensão para o público-alvo.
Justifica-se, assim, o presente estudo, para além de um exercício de
análise tradutória, mas como possibilidade de reflexão sobre o papel do tradutor como mediador na
aquisição de conhecimentos.
Email: simelp@simelp.it
Palavras-chave: Texto sagrado; Epístola de São Paulo; Tradução comparada;
Prática tradutória.
Bibliografia básica:
ARROJO, R. (1986). Oficina de tradução: a teoria na prática. São Paulo:
Ática.
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas, 1989.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução: Centro Bíblico Católico. 116.
Ed. Claretiana São Paulo: AVE-MARIA Ltda, 1998.
PAGANO, Adriana. Metodologias de Pesquisa em Tradução. Belo Horizonte:
Faculdade de Letras, UFMG, 2001.
RONÁI, Paulo. A Tradução Vivida. 4. ed. São Paulo: José Olympio, 2012.

10)
Comunicação Cancelada

11)
Título do trabalho: Do PE ao PB e vice-versa: Traduções intervarietais na Lusografia.
Autor(es): Caio César CHRISTIANO (Universidade Blaise Pascal - Clermont-Ferrand)
caiochristiano@hotmail.com (doutor em linguística pela Universidade de
Poitiers - França)
Resumo: As relações linguísticas entre Brasil e Portugal ocupam um lugar único
entre todos os países tocados pelos fenômenos históricos da colonização e
da descolonização. Trata-se possivelmente da contra-prova ao aforismo
frequentemente atribuído a Weinreich segundo o qual um dialeto seria «
língua que possui um exército e uma marinha ». O recente acordo ortográfico
assinado entre as nações lusófonas ficou aquém das expectativas e não
conseguiu nem ao menos fazer desaparecer as diferenças entre as normas
escritas de Portugal e do Brésil e, entre estes dois países, constatamos um
raro fenômeno de assimetria na intercompreensão linguística.
Nesta comunicação, analisaremos exemplos de textos brasileiros submetidos a
adaptações para sua difusão em Portugal assim como textos portugueses
alterados previamente à sua difusão no Brasil. Trata-se, portanto, de um
verdadeiro exercício de tradução intervarietal do Português Europeu (PE) ao
Português Brasileiro (PB) e vice versa. Interessar-nos-emos pelos aspectos
linguísticos e estilísticos que mais frequentemente sofrem alterações na
passagem de uma variedade à outra nestes textos e vamos nos interrogar
sobre as implicações ideológicas, estéticas e identitárias implicadas nas
mudanças de uma variedade à outra.
Finalmente, interrogar-nos-emos sobre a real utilidade das traduções
inter-varietais na língua portuguesa e sobre os possíveis usos pedagógicos
destas traduções intervarietais.
Email: caiochristiano@hotmail.com
Palavras-chave: Tradução, Português Brasileiro (PB), Português Europeu
(PE), tradução intervarietal, PLE
Bibliografia básica:
Baker, M. (1992) In Other Words. Londres: Routlege.
Christiano, C., (2012), « As diferenças criadas (ou não resolvidas) pelo acordo ortográfico : estudo de corpus », in TEIXEIRA E SILVA, Roberval; YAN, Qiarong; ESPADINHA, Maria Antónia; LEAL, Ana Varani. (eds.) A formação de novas gerações de falantes de português no mundo. Macau: Universidade de Macau.
Eco, U. (2006) Dire presque la même chose – Expériences de traduction. Paris: Grasset et Fasquelle. (traduzido por Myriem Bouzaher).
Noll, V. (2008) O Português Brasileiro. São Paulo: Globo. (tradução de Mário Viaro)
Robinson D. (2012). Becoming a translator: An Introduction to the Theory and Practice of Translation. Londres: Routledge.

12)
Traduções e formação do léxico económico: estudo de um corpus de
manuais de economia política traduzidos em português no século XIX
Marco E.L. Guidi (Dipartimento di Economia e Management – Università di
Pisa) Monica Lupetti (Dipartimento di Filologia, Letteratura e Linguistica
– Università di Pisa)
Palavras-chave: tradução, didática do PLE, lexicologia, linguagem
setorial, linguística de corpus, economia política.
A aplicação da linguística de corpus à analise das traduções é uma
área de investigação ainda recente, que pode oferecer dados úteis seja
à praxe tradutora seja à didática das línguas, sobretudo dentro do
território das linguagens setoriais (em inglês languages for specific
purposes – LSPs). Isto deve-se a convergência de varias razões. Em
primeiro lugar, o estudo de corpora especializados pode resultar útil, em
geral, para estudar e reconstruir aquelas línguas de especialização que,
ao longo do tempo, conheceram uma evolução bastante relevante, tornando
até os textos de um passado não longínquo opacos à compreensão de quem
não possui uma consciência diacrónica do léxico neles utilizado.
Ter à disposição ferramentas que permitam recuperar não só termos
específicos que já não se utilizam mas também colocações,
definições, estruturas frásicas mais ou menos complexas típicas de um
dado LSP, é extremamente útil para atingir o dito objetivo. O problema
torna-se ainda mais complicado no momento em que se passa do domínio do
léxico de especialização duma determinada língua, para a consciência
de como é versado numa outra língua. Os dicionários bilingues atuais
fornecem com frequência indicações erróneas ou lacunares quando se
trata de textos do passado, enquanto que recorrer a dicionários coevos ao
próprio texto pode ser difícil, seja por razões de disponibilidade dos
mesmos dicionários seja porque a atenção dada aos LSPs pela lexicografia
menos recente é insuficiente. Os dicionários antigos, alias, nem sempre
ajudam quando as palavras são polissémicas, isto é quando o seu
significado específico depende da associação com outras palavras ou da
posição que ocupam em determinadas frases. Uma análise linguística em
paralelo de corpora compostos por textos originais e traduções pode ser
muito útil e eficaz até pelas potencialidades que esta tem ao dar-nos uma
visão muito articulada das correspondências lexicais entre uma e outra
língua. A tudo isto podemos acrescentar o facto de que em vários
contextos são as próprias traduções que introduzem inovações lexicais
na área dos LSPs.
O nosso paper pretende estudar a questão centrando-se no léxico
económico e selecionando, para isso, um corpus de manuais de economia
política traduzidos de várias línguas em português, durante o século
XIX. A escolha dos manuais torna-se muito interessante porque estes são
instrumentos elementares para oferecer as primeiras noções de ciência
económica a um público que não a conhece de maneira aprofundada.
Além disso, têm um caráter sistemático, abrangendo de forma sintética
os argumentos principais desta ciência, e sendo uma fonte muito profícua
para o estudo do léxico económico. No presente trabalho, estes manuais
foram traduzidos em Portugal e no Brasil, e às vezes é o mesmo manual a
ser traduzido em ambos os contextos, permitindo ainda averiguar as
eventuais variações que a linguagem económica sofre na viagem do Velho
ao Novo Continente. Um último elemento de interesse consiste no facto de
serem raras as traduções de tratados e monografias de assuntos
económicos durante o século XIX e nos dois contextos. Os grandes
clássicos da economia, na maioria dos casos, serão traduzidos apenas no
século XX. Como tal, os manuais produzidos são o principal veículo de
circulação das ideias e da linguagem da economia política de outras
áreas para a área lusófona.
Finalmente, já que em muitos casos nos encontramos perante manuais
traduzidos que têm um caráter elementar e popular, sublinharemos a
importância dos glossários e resumos incluídos nos mesmos e que nos
fornecem as definições básicas dos termos económicos.
Da análise linguística deste corpus paralelo resultará a elaboração de
um léxico económico multilingue – sendo os textos originais redigidos em
inglês, francês e italiano – que poderá ser útil seja para o trabalho
profissional de tradução de textos históricos da economia seja à
didática da tradução nas aulas de português como língua estrangeira
para fins específicos.
Referencias bibliográficas:
Augello, M. M. & Guidi, M. E. L. (eds), 2012, The Economic Reader:
Textbooks, Manuals and the Dissemination of the Economic Sciences during
the 19th and Early 20th Century, London and New York: Routledge.
Olohan, M., 2004, Introducing Corpora in Translation Studies, London & New
York: Routledge. Lluch E. & Cardoso, J.L., 1999, “Las teorías económicas
contempladas a través de una óptica nacional”, in E. Fuentes Quintana
(ed.), Economía y economistas españoles, vol. I, Barcelona, Galaxia
Gutenberg: 477484.
Bowker, L. & J. Pearson, 2002, Working with Specialized Languages: A
Practical Guide to Using Corpora, London & New York: Routledge.
Johansson, S., 2003, “Reflection on Corpora and their Uses in
Crosslinguistic Research” in F. Zanettin, S. Bernardini and D. Stewart
(eds) Corpora in Translator, Manchester, St. Jerome Publishing: 135144.

13)
Título do trabalho: Problemáticas tradutórias e adequação sociolinguística: a tradução italiana e e a edição portuguesa de “De Estive em Lisboa e lembrei de você” de Luiz Ruffato.
Autor(es): Gian Luigi De Rosa (Università del Salento)
Quando se pensa na tradução normalmente se considera o processo tradutório em termos de transposição de uma (variedade de) língua standard para outra (variedade de) língua standard e a maioria dos problemas que os Translation Studies consideram pressupõe essa situação de “default”.
Querendo analisar a tradução desde a perspectiva sociolinguística, o problema central é o dos textos marcados sociolinguisticamente pela presença de mais variedades de língua(s), que, por definição, são portadoras de significados sociais e, portanto, da tradução do significado social associado aos elementos (formas, palavras, etc.) de uma (variedade de) língua que o veiculam.
A nossa análise tentará focalizar essas problemáticas tradutórias na tradução italiana e na edição portuguesa de “De Estive em Lisboa e lembrei de você” de Luiz Ruffato, evidenciando as diferentes estratégias tradutórias da marcação sociolinguística atuadas nas duas versões.
Bibliografia
Bazzanella C. (1994), Le facce del parlare. Un approccio pragmatico all'italiano parlato, La Nuova Italia, Firenze.
Bazzanella C., a cura di (2002), Sul Dialogo. Contesti e forme di interazione verbale, Guerini, Milano
Berruto G. (1987), Sociolinguistica dell’italiano contemporaneo, La Nuova Italia Scientifica, Roma.
Berruto G. (1988), “Di qualche problema sociolinguistico della traduzione”, Annali della Facoltà di Lettere dell'Università di Cagliari [n.ro speciale: Studi in memoria di A. Sanna ], 8, 45: 345-365.
Berruto G. (1995), Fondamenti di sociolinguistica, Editori Laterza, Roma-Bari.
Berruto G. (2006), “Varietà diamesiche, diastratiche, diafasiche”, in Sobrero A.A., a cura di, Introduzione all’italiano contemporaneo. La variazione e gli usi, Editori Laterza, Roma-Bari.
Berruto G. (2010), “Trasporre l’intraducibile: il sociolinguista e la traduzione”, in Sertoli G., Vaglio Marengo C. e Lombardi C., a cura di, Comparatistica e intertestualità. Studi in onore di Franco Marenco, Tomo II, Edizioni dell’Orso, Alessandria.
Bombi R. (2000) “Problemi generali della traduzione di testi plurilingui: il caso del Pygmalion di George Bernard Shaw”, in Orioles V., a cura di, Documenti letterari del plurilinguismo, Il Calamo, Roma, pp. 145-182.
Brown P. & Levinson, S. (1987), Politeness: Some language universals in language use, Cambridge University Press, Cambridge.
Toury G. (1995), Descriptive Translation Studies and beyond, John Benjamins, Amsterdam.
Weinreich U., Labov W. and Herzog M. I. (1975), “Empirical Foundations for a
Theory of Language Change”, in Lehmann W. P. and Malkiel Y., eds., Directions for Historical Linguistics: A Symposium, Columbia University, Austin-London.

14)
Título do trabalho: Literatura e Tradução: as possiveis leituras de uma troca cultural
Autor(es): Cristina Gemmino (Instituição: Università di Roma Tre. Email:
cristinagemmino@hotmail.com).
Resumo:
O tema da identidade, da afirmação de uma cultura em detrimento de uma outra é, desde séculos, um dos assuntos que afeta os debates políticos, filosóficos,
linguísticos e sobretudo literários.
Num mundo globalizado, qual seria a nossa identidade? Qual seria a nossa cultura?
Podemos falar só de uma identidade?
O processo da globalização que vivemos é o resultado de uma convivência nem sempre harmoniosa entre povos de diferentes origens, identidades e então de diferentes
culturas. Portanto, a cultura é um processo em permanente evolução. Ela é o conjunto de fenômenos materiais e ideológicos que caraterizam um grupo ou uma nação que estão
em permanente processo de mudança. Teriamos que entender essas mudanças como disseminação das diferenças culturais em todo o globo. Mudança como mistura de povos
e culturas diferentes, mudança como mistura de identidades.
Por que escolher a cultura, a identidade como tópicos desse trabalho? Essa abordagem tem como objetivo o de procurar na literatura lusofona (tanto portuguesa quanto, e
sobretudo, brasileira e africana) e na tradução aquelas condições favoráveis para que se possa falar de um harmônico convívio entre as diversidades culturais e
sociais, para uma liberdade de cada indivíduo definir a própria identidade ou as suas múltiplas identidades.
Palavras-chave: Mistura; Troca; Identidade; Universal; Local; Cultura.
Bibliografia básica:
Albertazzi, S. (2000) Lo sguardo dell’altro, Carocci editore, Roma;
Arrojo, R. (1998) Os estudos da tradução na pós-modernidade, o reconhecimento da diferença e a perda da inocência, Delta, 14, 2, São Paulo;
Couto, M. (2005) Pensatempos, Caminho, Lisboa;
Hall, S. (2009) Da diáspora: identidades e mediações culturais, Editora UFMG, Belo Horizonte;
Mata, I. (2005) Even Crusoe needs a Friday: os limites da dicotomia Universal Local nas literatures africanas, Gragoatá, 19, 2, Niterói.

15.
Título do trabalho: Ángel Crespo: tradutor de poesia brasileira
Autor(es): Francielle Piuco Biglia – Universitat Pompeu i Fabra – UPF franciellepbiglia@gmail.com
Resumo: o nosso trabalho tem como objeto de estudo as traduções da poesia brasileira realizadas pelo poeta espanhol Ángel Crespo (1926 – 1995).
Através do contato estabelecido em Madrid com o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto, A. Crespo assume a direção da Revista de cultura brasileña (1962 – 1970), que (apesar do título) se concentra na difusão da literatura brasileira, com dedicação especial à poesia. O interesse do poeta espanhol pela produção poética brasileira, especialmente pelos poetas modernistas como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes —para citar alguns, culmina com a publicação, em 1973, da Antología de la poesía brasileña pela editora Seix Barral.
Se por um lado, vamos refletir sobre o poeta-tradutor, figura tão presente nos estudos de tradução poética; por outro, vamos expor as estratégias do poeta espanhol e seu ideal de tradução através de ensaios e prólogos que acompanham as suas obras traduzidas.

CRESPO, A. (1995). “Un ideal de traducción poética”. En Lliçons inaugurals de traducció I interpretació a la Universitat Pompeu Fabra. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, pp. 43-51.
CRESPO, A. Antología de la poesía brasileña (desde el Romanticismo a la Generación del 45). Barcelona: Seix Barral, 1973.
CROCE, B. (2002b). “L’intraducibilità della rievocazione”. En Nergaard, S. La teoria della traduzione nella storia. Milano: Strumenti Bompiani, pp. 215-220.
PESSOA, F. (1966). “Páginas íntimas de auto-interpretação”. Arquivo pessoa [Recurso electrónico] consultado por la primera vez el 25 de agosto de 2012
RUIZ CASANOVA, F. (2011a). “La poesía y la traducción”. Dos cuestiones de literatura comparada traducción y poesía. Exilio y traducción. Madrid: Ediciones Cátedra, pp. 75-92.
RUIZ CASANOVA, F. (2011b). “Traductores-poetas o poetas-traductores”. Dos cuestiones de literatura comparada traducción y poesía. Exilio y traducción. Madrid: Ediciones Cátedra, pp. 93-117.

16.
Título do trabalho: Apontamentos para uma tradução à procura de editor: estratégias tradutórias para os vocativos na novela epistolar Maria dos Canos Serrados de Ricardo Adolfo
Autor(es): Sara Quarantani - Università di Modena e Reggio Emilia
email: sara.quarantani@unimore.it
Resumo: Num texto marcado diastrática e diatopicamente, como se apresenta ao leitor a novela epistolar de Ricardo Adolfo intitulada Maria dos Canos Serrados, o tradutor terá de planear uma estratégia de tradução para conseguir veicular ao destinatário as características da língua-fonte sem trair as intenções do próprio autor.
Para alcançar este objetivo, em primeiro lugar, será preciso chegar a uma exaustiva análise da variedade popular de PE utilizada pelo autor para caracterizar a fala da protagonista, e única voz narrativa da novela. Portanto visaremos encontrar uma equivalência mais conforme numa variedade popular da língua italiana contemporânea para restituir ao público alvo a língua da Maria, que se distingue pelos evidentes traços orais e pela presença de gíria e calão.
Em segundo lugar, com acento na análise da língua criada por Ricardo Adolfo, que constitui também o marco estilístico da prosa em todas as obras do autor, a nossa atenção focar-se-á em hipóteses de tradução dos vocativos que se encontram em abertura das cartas, ao fim de restituir o seu uso particular na língua-alvo. Os vocativos são marcados pelo frequente uso de alterações da palavra, ou seja pelo extenso uso não só de diminutivos (“querido velhinho”, “velhito”) que veiculam ao texto um efeito irónico e carinhoso, assim como os utilizados por Fernando Pessoa nas cartas de amor dirigidas a Ofélia Queiroz, mas também de aumentativos (velhão, velhãozão) que, ao contrário, transmitem significados depreciativos, revelando o carácter desesperado e obsessivo dos sentimentos que a protagonista nutre pelo namorado sempre ausente.
Email: sara.quarantani@unimore.it
Palavras-chave: tradução, novela epistolar, calão e gírias, vocativos, alteração dos substantivos
Bibliografia Básica:
ADOLFO, Ricardo, Maria dos Canos Serrados, Alfaguara, Lisboa 2013
ALTMAN, Janet Gurkin, Epistolarity. Approaches to a Form, Ohio State University Press, 1982
BARROS, Rita, Contributo para uma análise sociolinguística do português de Lisboa, Tese de Mestrado, Universidade de Lisboa, 1994
BARTHES, Roland, Frammenti di un discorso amoroso, trad. it di R. Guidieri, Einaudi 2014 (1977)
BERRUTO, Gaetano, Sociolinguistica dell’italiano contemporaneo, Carocci, Roma 2012, 2ª ed.
CARDINALETTO, Anna, GARZONE, Giuliana, L’Italiano nelle traduzioni, Franco Angeli, 2005
CUNHA, Sílvia, Dias inventados: o romance-diário na ficção contemporânea portuguesa, in “Forma Breve” n° 10, Universidade de Aveiro, Aveiro 2013, p. 345-54
DE ROSA, Gian Luigi, “Gírias e Calão Tra Dialogo Finzionale e Realtà Linguistica” in DE MARCHIS, Giorgio (a cura di), Da Roma all’Oceano: il Portoghese nel mondo, La nuova Frontiera, Roma 2008, p. 65-85
ECO, Umberto, Dire quasi la stessa cosa, Bompiani, Milano 2003
PESSOA, Fernando, Cartas de Amor a Ofélia Queiroz, Assírio&Alvim, Lisboa 2012
REAL, Miguel, O Romance Português Contemporâneo. 1950-2010, Caminho, Lisboa 2012
SOBRERO, Alberto M. (a cura di), Introduzione all’italiano contemporaneo. La variazione e gli usi, Editori Laterza, Roma- Bari 2006

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↑ índice

SIMPÓSIO 29 – ESTUDOS DO ESTILO EM DIFERENTES GÊNEROS DISCURSIVOS

Coordenadores:
Elis de Almeida Cardoso - Universidade de São Paulo - elisdacar@yahoo.com
Álvaro Antônio Caretta - Universidade Federal de São Paulo - alcaretta@yahoo.com.br

RESUMOS APROVADOS

1.
ESTILO E DISCURSO LITERÁRIO
Elis de Almeida Cardoso (Universidade de São Paulo, elisdacar@yahoo.com)
“Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem”, afirma Bakhtin (2003, p. 263). Seja qual for o campo da atividade humana, é por meio dos enunciados concretos que a língua é empregada. São esses enunciados, diz o autor russo, que “refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo temático e pelo estilo da linguagem (...), mas, acima de tudo, por sua construção composicional” (2003, p. 261). E por conteúdo temático e estilo da linguagem, Bakhtin compreende a seleção dos recursos da língua - lexicais, fraseológicos, gramaticais. Esse material linguístico só pode ser investigado em enunciados concretos, uma vez que é por meio deles que a vida entra na língua, diz o autor. O estilo está diretamente associado ao enunciado e às suas formas características, ou seja, aos gêneros do discurso. Embora cada gênero apresente características até certo ponto estáveis, cada enunciado é individual e particular, reflete, pois, a individualidade de quem fala ou escreve. Pode, portanto, apresentar um estilo individual. Portanto, na esteira do pensamento bakhtiniano, de acordo com a natureza do enunciado se deve voltar mais ou menos ao estilo individual. O literário está entre os gêneros mais favoráveis, portanto, não pode ser estudado sem que se leve em consideração o estilo individual. Além de se valorizar o estilo individual, o estilo do autor, é preciso ter em mente que a literatura reflete os estilos da linguagem da época e reproduz em forma de texto as transformações da língua e da sociedade.
Pretende-se analisar o discurso literário como um ato linguístico que não pode ser isolado dos outros gêneros e estudado apenas pela Literatura. Deve ser tratado também pela Linguística como um gênero discursivo plural que mescla aspectos linguísticos e estilísticos, refletindo o contexto, a ideologia do autor, o momento sócio-histórico-cultural, etc (Bakhtin, 2003). Neste trabalho será abordada a relação texto literário/dimensão sociocultural que pode ser entendida quando se parte do texto para o contexto, isto é, quando se analisa o texto literário do ponto de vista discursivo.

2.
O ESTILO NA CANÇÃO POPULAR BRASILEIRA
Álvaro Antônio Caretta Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP alcaretta@yahoo.com.br
O estilo diz respeito às possibilidades de utilização dos recursos linguísticos permitidas pelo gênero conforme sua esfera de atuação. Bakhtin pensa o estilo relacionado ao conteúdo temático e à forma composicional na constituição do gênero. Nessa concepção, o estilo está relacionado às formas típicas de enunciado, os gêneros discursivos, pertencentes a uma determinada esfera discursiva, e às funções comunicativas que eles exercem dentro de sua esfera. Há gêneros, como os artísticos, que permitem a impressão de um estilo individual e a utilização de uma diversidade de estilos, porém existem outros gêneros que trabalham menos com a criatividade e a originalidade, pois são padronizados, reduzindo a marca do estilo pessoal. Percebe-se, então, que a um determinado gênero corresponde determinado estilo.
Para se compreender a palavra em sua plenitude, é preciso tomá-la na relação com as outras palavras. Para isso, é imprescindível observá-la não só no interior do enunciado concreto, mas também na cadeia da comunicação verbal. Da mesma forma, o estilo deve ser compreendido nas relações do enunciado concreto com outros enunciados, já que ele também se constitui dialogicamente.
Na esteira das propostas de Bakhtin para o estudo dos gêneros discursivos, particularmente do estilo, apresentaremos algumas considerações sobre o estilo no gênero canção popular, demonstrando como os componentes linguísticos e musicais são relacionados na composição das canções.
Por meio da análise de algumas canções, observaremos o trabalho do enunciador com esses componentes, procurando compreender as intenções estilísticas dos compositores. Nesse percurso, destacaremos o dialogismo estabelecido com os estilos musicais e com temas do cancioneiro popular.
Em um esforço teórico, pretendemos relacionar o estilo com a produção do ethos do enunciador e, dessa forma, compreender como o enunciador constrói sua imagem por meio da compatibilidade entre o componentes linguístico e musical na canção popular brasileira.

3.
AS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS DE CONSTRUÇÃO DO GÊNERO CARTILHA INSTITUCIONAL
Gustavo Ximenes Cunha (Universidade Federal de Alfenas, email: ximenescunha@yahoo.com.br)
Resumo: As estratégias discursivas empregadas pelas esferas do poder executivo (União, Estados e Municípios) para se dirigir à população constituem um campo de estudos bastante propício para se compreender a complexidade das relações entre Estado e sociedade. Afinal, os documentos por meio dos quais o Estado interage com o cidadão, dando orientações e prestando esclarecimentos, permitem a observação de questões sociais e históricas mais amplas. Nessa perspectiva, esta comunicação apresenta uma pesquisa em andamento cujo objetivo é estudar as estratégias discursivas empregadas na construção do gênero cartilha institucional. Especificamente, o estudo investiga as formas e as funções das estratégias discursivas empregadas por diferentes agências reguladoras do Governo Federal do Brasil (Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)) para fazer a gestão de imagens, quando interage, por meio de cartilhas institucionais, com um setor da Sociedade – o cidadão. O quadro teórico e metodológico utilizado para fundamentar a pesquisa é o Modelo de Análise Modular do Discurso, abordagem que tem nas concepções de Bakhtin e Voloshínov sobre língua, linguagem e gêneros discursivos um de seus fundamentos epistemológicos. Com o estudo de quinze cartilhas institucionais, três de cada agência selecionada, a pesquisa vem obtendo um conhecimento profundo de como o Estado, por meio de recursos linguístico-discursivos empregados na construção dessas cartilhas, constrói imagens (faces) para si e para o setor da sociedade com que dialoga, o cidadão. Assim, os resultados deste estudo sobre cartilhas institucionais permitem compreender a maneira como o Estado vê a população e entende seu lugar na organização da sociedade. A pesquisa em desenvolvimento vem contribuindo, portanto, para um conhecimento aprofundado do gênero cartilha institucional e, consequentemente, de seu papel na regulação das práticas sociais.

4.
O ESTILO DOS GÊNEROS DIGITAIS: O BLOG NA EDUCAÇÃO
Daniervelin Renata Marques Pereira (Universidade Federal do Triângulo Mineiro, daniervelin@gmail.com)
Resumo: esta proposta tem como ponto de partida a análise feita de chats e fóruns de dois cursos online sob o viés da teoria Semiótica Francesa, com desdobramentos propostos pela Semiótica Tensiva, aliada à teoria dos gêneros de Bakhtin (2010) e aos estudos sobre o estilo (DISCINI, 2004). Compreendemos, nesse estudo de práticas educativas, os mecanismos de produção de sentido vinculados a ajustamentos sensíveis necessários à adaptação dos sujeitos ao mundo digital. Tratamos das regularidades e sensibilidades que constituem as práticas digitais, as quais, atreladas aos gêneros, neles se manifestam como sistema de regras passíveis de inovações em uso. Para isso, partimos de algumas características dos gêneros chat e fórum da esfera educacional, visando ao conjunto de gêneros digitais dentro de uma teoria geral dos gêneros. Algumas conclusões deste estudo apontam para condições mais livres de participação nas interações online relativas aos gêneros
digitais, especialmente em função da flexibilidade espacial, da permutabilidade de papéis conversacionais e, em alguns casos, das posições discursivas que remetem a papéis sociais definidos (professor/aluno). Com o objetivo de melhor definir o estilo dos gêneros digitais, continuamos nossa pesquisa no estudo do gênero blog, muito utilizado também em contextos de ensino-aprendizagem. Das análises feitas, depreendem-se recorrências que apontam para o estilo do gênero blog, as quais permitem, em consequência, a identificação de características mais gerais que se somam às já encontradas nas investigações anteriores, de chats e fóruns, mas demandam um ajustamento na definição que buscamos do estilo do gênero digital da esfera educativa. No recorte de três blogs de interações realizadas em 2014, propomos uma análise baseada em categorias já utilizadas em nosso estudo anterior (PEREIRA, 2013): modos de ensino e de aprendizagem acolhidos pela prática educativa
digital; formas de vida pedagógico-digital e procedimentos de ajustamento desenvolvidos pelos sujeitos, entre outras encontradas no estudo do blog.

5.
ESTILÍSTICA E FUTEBOL: UM ESTUDO DAS CRÔNICAS LUDOPÉDICAS DE NELSON RODRIGUES
CLAUDIO CEZAR HENRIQUES (Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ + claudioch@uol.com.br)
Nesta comunicação pretende-se abordar aspectos estilísticos que atuam nas relações léxico-semânticas e na construção discursiva, tomando como pano de fundo o futebol e tendo como "corpus" crônicas escritas por Nélson Rodrigues (1912-1980). Elas estão incluídas no livro A Pátria em Chuteiras, com seleção e notas de Ruy Castro. Após o fracasso da seleção brasileira na Copa de 2014, a famosa expressão "complexo de vira-latas" ressurgiu em solo brasileiro recolocando a dicotomia "fracasso x sucesso" na ordem do dia. As crônicas rodrigueanas fazem esse contraponto e defendem posições interessantes para a discussão do tema. O assunto, por si só, já poderia despertar a curiosidade e o interesse de leitores especializados e leigos, mas é provável que esta apresentação possa mostrar uma faceta menos conhecida dos estudos estilísticos.

6.
O ESTILO DO GÊNERO DISCURSIVO CARTA DO LEITOR EM DIFERENTES SUPORTES E MÍDIAS: UM ESTUDO SOB A PERSPECTIVA DIALÓGICA DO CÍRCULO DE BAKHTIN
ROSANGELA ORO BROCARDO, UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná -, rosangela.oro@gmail.com
Este estudo tem por objetivo propor uma discussão acerca do estilo do gênero discursivo carta do leitor em diferentes suportes e mídias. Com base na teoria dialógica do Círculo de Bakhtin (2003[1979], 2010[1929], 2010[1975], 2012[1929]), busca-se apresentar reflexões acerca das regularidades estilísticas apresentadas por esse gênero em diferentes espaços de circulação. Para isso, o aporte teórico construído para esta análise está pautado, ainda, em Bonini (2011) sobre as noções distintas de hipergênero, suporte e mídia. Sob essa perspectiva, delimitou-se como corpus 12 enunciados do gênero carta do leitor, publicadas na revista Veja, versões impressa e digital, em resposta a artigo de Lya Luft. Considerando esta situação específica de interação social, buscamos focalizar na investigação as regularidades da dimensão estilística do gênero, articulada ao conteúdo temático e à construção composicional do gênero carta do leitor. Em nossa
análise preliminar, observamos que o estilo destes enunciados, inseridos na esfera jornalística, podem apresentar especificidades em um e em outro suporte e mídia, os quais podem exercer determinações na constituição da carta do leitor, orientando este gênero em todas as suas dimensões. Além de contribuir com o estudo das regularidades deste gênero da esfera jornalística, a pesquisa poderá se constituir em um material para auxiliar o ensino da linguagem no âmbito escolar. Este estudo está vinculado ao Projeto Observatório de Educação, realizado com apoio da CAPES e denominado Formação Continuada para professores da Educação Básica nos anos iniciais: ações voltadas para a alfabetização em municípios com baixo IDEB da região Oeste do Paraná.

7.
A ESQUINA DO CLUBE: ESTILO E(M) CANÇÃO
Luciane de Paula
Email: lucianedepaula1@gmail.com
Resumo: Esta proposta pretende refletir acerca da estilística da canção na esfera cultural. Para isso, pretende pensar o estilo do Clube da Esquina, visto como manifestação discursiva autoral (e) do gênero. Estilo visto como marca de vozes sociais que constroem imagens de sujeitos, canção e nação. Compreende-se a canção como gênero vivo, marcado pelo sincretismo melodia e letra, mas também performance. A entoação do intérprete, no caso do Clube da Esquina, é um dos elementos que, mais que marcar a voz do sujeito, constrói marcas típicas de um gênero cancioneiro. A língua entoada está/é viva. As vozes de Milton Nascimento, Flávio Venturini ou Lô Borges, ao cantarem “Clube da Esquina no. 2”, por exemplo, alteram os sentidos e constroem outras significações, ainda que a materialização linguística da letra da canção seja a mesma. No estável há o irrepetível, como se constitui o enunciado e o gênero para Bakhtin. A hipótese é a de que a canção nasce como gênero primário e se constitui como secundário no ato de sua execução, na vida, via acabamento estético dado pela oralidade. Ao ser entoada, aproxima-se do gênero primário, como se a voz que a cantasse fosse “natural”. Discurso em arte, na vida. A canção nasce e vive na esfera cultural cotidiana, de forma interativa. A justificativa desta proposta se refere à reflexão analítica sobre o gênero canção e sua função num país conhecido como musical. Entender o estilo na e da canção, de certa forma, auxilia a pensar o estilo de se entoar sobre o Brasil. Uma entoação que constrói uma imagem contraditória: a contenção e o excesso marcados pela voz e pelo som. Estudar o processo de constituição da canção se justifica ainda por contribuir para a compreensão de aspectos e valores linguístico-culturais produzidos pelo e no Brasil. O canto como atividade linguístico-cultural.

8.
GÊNERO DISCURSIVO, ESTILO, AUTORIA
Miriam Bauab Puzzo
Universidade de Taubaté (UNITAU) puzzo@uol.com.br
O estilo é uma das questões prementes para o ensino de língua, no que tange à produção da escrita. Bakhtin e o Círculo discutiram esse tópico como um dos mais importantes na constituição dos gêneros e no tom avaliativo dos enunciados. Tendo isso em mente, o objetivo desta comunicação é discutir o uso estilístico da língua em enunciados concretos, na perspectiva dialógica da linguagem. Esta é uma característica fundamental na constituição de propostas enunciativas de natureza autoral, nos mais variados gêneros discursivos, conforme pontua Bakhtin (2003); (2013). O estilo, tanto genérico como individual, é responsável pela constituição dos gêneros discursivos nas mais variadas esferas de produção e circulação. O estilo genérico é responsável pela comunicação interativa, mantendo certa regularidade enunciativa que permite a produção e a circulação de enunciados no contexto social. Por outro lado, o estilo individual em função do tema,
da proposta enunciativa do autor, do veículo de circulação de determinado enunciado, do tom avaliativo do autor, pode imprimir variações na forma composicional e no estilo genérico de enunciados autorais. Assim, a proposta deste estudo é discutir o estilo do artigo de opinião “Notas sem confete”, de Fernando de Barros Silva, veiculado na Folha de S. Paulo, de 6 de fevereiro de 2008, observando como o tema, a proposta do autor e sua relação com o contexto imediato criam uma forma expressiva diferenciada, rompendo com a forma composicional e o estilo genérico do artigo. Nessa perspectiva analítica, procura-se demonstrar que o estilo não se reduz ao sujeito-enunciador, mas resulta das relações dialógicas que o enunciador mantém com o leitor presumido e com o contexto social. Como postula Bakhtin, o estilo decorre da relação dialógica mantida entre o enunciador e o grupo social (BAKHTIN, 2003). Destaca-se, portanto, a questão da autoria em gêneros permeáveis
à inflexão subjetiva, alterando seu formato.

9.
A QUESTÃO DO ESTILO COMO CONSTITUINTE DO GÊNERO DA ATIVIDADE DE REVISÃO TEXTUAL
Vanessa Fonseca Barbosa
Doutoranda em Letras/Linguística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)E-mail: vanessa.barbosa@acad.pucrs.br
Resumo: Tendo em vista as dificuldades existentes no processo de escrita encontradas também pelos estudantes do ensino superior, costuma-se compreender a demanda que há em torno dos profissionais da revisão de textos na esfera acadêmica. Por outro lado, sabe-se também que, de modo geral, essa atividade costuma ser silenciada, uma vez que há poucos estudos – sobretudo em uma perspectiva enunciativo-discursiva – tanto sobre o trabalho de revisão em si como a respeito da formação do revisor de textos. Assim, o presente trabalho apresenta uma reflexão sobre a importância do estilo no trabalho do revisor de textos, o qual constitui a atividade e, consequentemente, pode definir a natureza da relação entre o autor e revisor de textos. Para tanto, ponderar-se-á acerca do diálogo existente entre o conceito de gêneros do discurso do Círculo de Bakhtin (1992) e o de gênero da atividade para os estudiosos das Ciências do Trabalho, como Yves Clot e Daniel Faïta (2000). Os
gêneros da atividade contribuem com a organização do trabalho, na medida em que oferecem subsídios que orientam o ator do trabalho à realização da atividade, tal como os gêneros do discurso oferecem maneiras de uso da linguagem. Acredita-se que, com o passar do tempo e a aquisição da experiência profissional, o trabalhador tende a utilizar melhor essa liberdade de ação que o gênero profissional possibilita e a administrar também da melhor maneira a construção de seu estilo profissional, já que todo indivíduo transmite ao gênero algo de si, a sua percepção e o seu modo próprio de realizar o trabalho. Desse modo, trazendo a questão do estilo para o trabalho do revisor de textos, buscar-se-á contribuir com a reflexão teórica e prática sobre a constituição do gênero da atividade de revisão textual.

10.
PROGRAMA TELEVISIVO SHOW DA FÉ: ANÁLISE DIALÓGICA DE GÊNEROS E ESTILOS DIVERSOS
Kelli da Rosa Ribeiro
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) klro.rib@gmail.com
Resumo: O culto televisivo Show da fé é um gênero discursivo de natureza híbrida, uma vez que podemos observar a recorrência de outros gêneros no interior do culto. Assim, constituem o Show da fé, os seguintes gêneros: a pregação da palavra bíblica, o testemunho do fiel e o anúncio de produtos evangélicos, que envolve também o oferecimento do carnê de associado que contribui para o programa se manter no ar. Cada um desses gêneros apresenta sua especificidade, no que tange ao estilo do locutor, forma composicional e unidade temática, mas mantém entre si relações dialógicas que se engendram e criam sentidos no todo do culto. Isso acontece porque cada um desses gêneros no interior do culto se traduz em diferentes momentos de interação verbal, nas quais mudam-se locutores, interlocutores, projeto discursivo, entonação e objeto do dizer. Nessa perspectiva, esse trabalho propõe as seguintes questões norteadoras: de que forma o estilo do locutor cria sentidos em cada um dos gêneros que compõem o Show da fé? De que maneira os diferentes estilos dos locutores se entrecruzam dialogicamente no todo do culto televisivo? Que vozes sociais emergem em diálogo com esses estilos? Que valores sociais estão envolvidos nas escolhas discursivas dos locutores? Para embasar teoricamente tais reflexões, recorremos às idéias de M. Bakhtin e seu Círculo, estudando, sobretudo os conceitos de gêneros do discurso, enunciado, relações dialógicas, vozes sociais e entonação. Analisamos as questões propostas em três trechos, um de cada gênero que compõe o culto. Buscamos, com as análises, entender o funcionamento discursivo do Show da fé, observando de que forma o estilo do locutor engendra valores em torno de fé, milagres, comércio religioso e concorrência midiática.

11.
ESTILÍSTICA EM LIVROS DIDÁTICOS DE PORTUGUÊS: MUDANÇAS EM CURSO?
Maria Inês Batista Campos Universidade de São Paulo maricamp@usp.br
Nesta comunicação, nosso objetivo é analisar o tratamento oferecido ao ensino da Estilística, particularmente, figuras de linguagem, em coleções didáticas de língua portuguesa para o ensino médio aprovadas no último programa governamental brasileiro (Programa Nacional do Livro Didático –Ensino Médio /PNLD-2015). Na longa tradição dos compêndios didáticos, a Gramática comparece dividida em três disciplinas: Fonética, Morfologia e Sintaxe e os estudos estilísticos vem como apêndice no final do livro, na maioria das vezes, abordado como Estilística da língua. No sentido de refletir sobre esse tema, discutiremos duas atividades didáticas da primeira série (volume 1), com base na concepção de estilística do gênero e estilo de Bakhtin e o Círculo. A finalidade é recuperar nesta na teoria respaldo para uma melhor compreensão do ensino da estilística deixando de ser pensado a partir de uma produção tomada na sua individualidade. Como afirma Voloshinov
em Marxismo e filosofia da linguagem “A fonética, a gramática, o léxico, essas três divisões do sistema da língua, os três centros organizadores das categorias linguísticas, formaram-se em função das duas tarefas atribuídas à linguística: uma heurística e a outra pedagógica. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 1986, p. 99). Assim, finalizaremos com uma análise do tratamento dado pelos livros didáticos selecionados quanto às metáforas e metonímias.

12.
POR UMA METODOLOGIA DE ANÁLISE MIDIÁTICA: GÊNERO E ESTILO NA INTERPRETAÇÃO DA OBRA DE JORGE BEN JOR
Luciana Xavier de Oliveira Doutoranda em Comunicação Social Programa de Pós-Graduação em Comunicação Universidade Federal Fluminense E-mail: luciana.ufba@gmail.com
Para compreender o processo de reprodução, renovação e reconfiguração dos gêneros musicais, e como o estilo é capaz de influenciar estes possíveis desdobramentos, nossa proposta consiste em fazer uma apropriação das teorias desenvolvidas por Mikhail Bakhtin sobre os gêneros discursivos e aplicá-las ao contexto dos gêneros da música popular massiva, utilizando, especificamente, suas reflexões em torno da noção de estilo, cujas marcas possibilitariam a configuração de novos gêneros dentro dos processos produtivos da linguagem e da comunicação. Na estruturação das gramáticas do gênero musical em um contexto midiático, quais são seus possíveis vetores de reconfiguração e transformação? Levando-se em consideração suas dinâmicas de produção de sentido e condições de circulação e reconhecimento, podemos empreender diferentes procedimentos analíticos, voltados para a compreensão de como o gênero se materializa na canção.
Neste sentido, buscamos suporte em Bakhtin, cuja definição de estilo é apropriada para auxiliar na compreensão das dinâmicas e transformações no gênero discursivo musical, destacando também o papel ativo do ouvinte no processo de recepção e produção de sentido. Assim, podemos pensar que o estilo funciona como elemento-chave nas formas de direcionamento contidas na produção musical. O estilo, pois, seria uma seleção de determinados procedimentos composicionais, que têm a ver com o emprego de determinadas estratégias plásticas e midiáticas que possibilitam a localização de um produto musical no interior de um dado gênero, de acordo com suas regras gramaticais, mas garantindo ao autor maneiras específicas de diferenciação e autenticidade.
A partir de uma perspectiva culturalista, e evitando restringir a análise apenas à observação das estruturas formais musicais, este artigo busca oferecer uma alternativa aos estudos da música popular, levando em consideração a leitura de possíveis marcas de estilo a partir da análise da obra do compositor brasileiro Jorge Ben Jor, através da qual é possível determinar as bases de novas categorias musicais, na qual é possível observar um intercruzamento entre linhas genéricas que ultrapassam as fronteiras de sua matriz anterior, criando novas formas.

13.
MARCAS DE ESTILO INDIVIDUAL E ESTILO DE GÊNERO EM RESUMOS ESCRITOS POR UNIVERSITÁRIOS
Márcia Helena de Melo Pereira
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)
marciahelenad@yahoo.com.br
Resumo: O proposito deste trabalho é investigar a relação contígua existente entre estilo individual e estilo de gênero, tomando como base de análise dados do processo de construção de dois resumos escritos por duas duplas de estudantes universitários. Ao conceber gêneros como “tipos relativamente estáveis de enunciados” do ponto de vista temático, composicional e estilístico, constituídos sócio-historicamente nas diferentes e variadas esferas de comunicação verbal, Bakhtin afasta a ideia de determinismo dos mesmos, dando aos sujeitos a possibilidade de criar, modificar um gênero. Nesse sentido, os sujeitos participam da constituição dos gêneros através de sua expressividade individual, o que não implica uma criação de gêneros novos. Alguns gêneros, no entanto, permitem mais contribuições estilísticas do que outros. Um requerimento, por exemplo, não permite muitas inovações. Partindo dessas considerações de Bakhtin, perguntamo-nos: as duas
duplas em questão usam as mesmas estratégias para se apropriarem do gênero resumo ou as estratégias são diferentes de dupla para dupla? O estilo do gênero prevalece sobre o estilo das duas duplas ou ele deu margem para um posicionamento delas? A maior contribuição que este trabalho pode dar para o enriquecimento das discussões que têm sido feitas sobre essa questão está no material de pesquisa que possuímos. Ele é de natureza processual, o que nos permite fazer uma análise que transcende o produto final, o texto. Quanto aos aspectos metodológicos, os resumos foram escritos conjuntamente, para que pudéssemos registrar a conversa mantida entre os sujeitos a respeito do texto que estavam produzindo. Essa conversa, juntamente com uma entrevista posterior que fizemos com cada dupla, questionando-as a respeito das operações de reescrita que realizaram, acrescentou dados valiosos sobre a apreensão desse gênero do discurso, constituindo nossos dados processuais.
Concluímos que o gênero resumo não é muito flexível, mas sua estereotipia não impossibilitou que uma das duplas imprimisse nele seu estilo.

14.
METÁFORAS, ESCOLHAS DISCURSIVAS E ESTILO: UMA LEITURA DO UNIVERSO AMAZÔNICA NA POESIA DE PAES LOUREIRO
Raphael Bessa Ferreira (USP - ru-98@hotmail.com)
Resumo: No texto poético os aspectos oriundos do eixo do enunciado - tais como as escolhas lexicais e demais recursos retóricos - revelam as potencialidades da língua, marcando portanto àquele discurso certa carga expressiva empregada pelo enunciador. Ora, se o estilo é escolha, nada mais pertinente do que observar no traço constitutivo do material poético a(s) subjetividade(s) impressas por este enunciador, o que revela ao texto um caráter individual na seleção e uso de todo o repertório de possibilidades da língua, de modo a plasmar o uso linguístico de um determinado grupo social, representando, na enunciação, caracteres do uso individual e coletivo da língua em contextos geográfico, histórico ou mesmo socialmente marcados. Com base nisso, intenta-se averiguar na poesia do escritor paraense João de Jesus Paes Loureiro a carga expressiva com o qual um determinado agrupamento de palavras de mesma base semântica, oriundas do universo regional amazônico,
metaforizam no enunciado preocupações do sujeito discursivo, revelando um estilo lírico/reflexivo ante os muitos contextos daquela região. Desse modo, é a partir do suporte teórico das teorias do estilo, mais precisamente as de Martins (1989); dos trabalhos da linguística cognitiva acerca das metáforas e de suas conceitualizações da experiência com o mundo, visto em Lakoff e Johnson (1995); bem como dos estudos discursivos, mais precisamente os de Bakhtin (2003); que será realizada a reflexão e análise de algumas construções metafóricas de campos semânticos ligados ao universo cultural e social amazônico, coletados no primeiro volume das Obras Reunidas de Paes Loureiro (2001).

15.
PROJEÇÕES DE ESTILO NO GÊNERO DO DISCURSO CARTA DE CONSELHOS EM REVISTAS ONLINE
Rodrigo Acosta Pereira (UFSC/ drigo_acosta@yahoo.com.br)
Resumo: Estudos contemporâneos em Linguística e Linguística Aplicada têm se dedicado a investigar os gêneros do discurso sob diferentes vertentes epistemológicas. A presente pesquisa baseia-se nos escritos do Círculo de Bakhtin e nos estudos contemporâneos da Análise Dialógica de Discurso. Os dados são formados por 30 (trinta) textos-enunciados do gênero carta de conselhos, publicados nas revistas online Claudia, Nova e Veja. Como resultados, analisamos inicialmente a questão do conteúdo temático e, em segundo momento, as projeções estilístico-composicionais do referido gênero. Dada a análise, compreendemos que o conteúdo semântico-objetal do gênero carta de conselhos é o reclamante e seu dizer, ao passo que o projeto discursivo da carta é a evidenciação desse dizer do reclamante e a reação-resposta do conselheiro/articulista frente a esse dizer. Quanto às projeções de estilo, o autor do gênero se utiliza de diversos recursos estilísticos, como:
verbos de introdução do discurso do outro, modalizadores, marcadores conversacionais, perguntas retóricas, marcadores avaliativos/valorativos, que estão a serviço da orientação apreciativa/axiológica do conselheiro/articulista face aos problemas do reclamante. Em relação à intercalação da carta do reclamante na carta de conselhos, entendemos que ela se apresenta como um elemento estilístico-composicional da carta e se conjuga à reação-resposta do conselheiro/articulista como enunciado citado. A fotografia do conselheiro/articulista inserida na carta, por sua vez, também se apresenta como um elemento estilístico-composicional do gênero e está a serviço da construção de elos pessoais, além de ratificar a postura de autor e o ethos do conselheiro/articulista. A partir desses resultados, interpretamos a carta de conselhos como um gênero híbrido perpassado por projeções estilísticas do discurso do jornalismo de entretenimento e de autoajuda. Ao final,
entendemos que o trabalho não apenas contribui para a consolidação de estudos bakhtinianos em Linguística Aplicada como, por conseguinte, colabora para a legitimação do que se tem denominado de Análise Dialógica de Discurso.

16.
ORALIDADE E LETRAMENTO NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: A VARIAÇÃO ESTILÍSTICA NO GÊNERO RELATO PESSOAL
Autor(es):
Sônia Alves Dantas - Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
soniadantas.udi@gmail.com
O objetivo desta comunicação oral é trazer à reflexão resultados do projeto de pesquisa em andamento no âmbito do Mestrado Profissional em Letras (Profletras-UFU) intitulado “Oralidade e letramento no ensino de Língua Portuguesa: uma proposta de trabalho com o gênero relato pessoal”. Nesse trabalho, investigamos o potencial do gênero discursivo relato pessoal para o desenvolvimento da expressão oral e escrita de alunos do 6º ano do Ensino Fundamental, considerando a relação de interação e complementaridade entre essas duas práticas sociais e a noção de adequação do discurso às situações de comunicação. Partindo de uma perspectiva sócio-discursiva da língua e apoiando-nos nos estudos de Bakhtin (1997) - que define os gêneros como tipos relativamente estáveis de enunciados, cuja caracterização engloba o conteúdo temático, o estilo e a construção composicional -, nos estudos de Brait (2003) acerca da relação estabelecida entre gênero, interação e estilo, em Marcuschi (2001, 2010) e Bortoni-Ricardo (2005), que tratam da noção do contínuo oralidade e letramento, dentre outros estudiosos, analisamos os textos produzidos pelos alunos considerando o contínuo de monitoração estilística, que perpassa os contextos menos e mais formais, a fim de trabalhar a noção de adequação linguística atrelada às situações de comunicação (interlocutores, objetivos comunicativos e esfera de produção, circulação e recepção dos textos produzidos).

17.
UMA QUESTÃO DE ESTILO: AS SINGULARIDADES DO GÊNERO VIDEOAULA YOUTUBIANA DE ESCRITA CIENTÍFICA
Autor(es): Simone Cristina Mussio
Email: simussio@yahoo.com.br
Resumo: Hoje, devido à globalização instaurada em todo o mundo, propiciada pela revolução tecnológica informacional, o comportamento da sociedade contemporânea mudou. Através da universalização do acesso a meios de comunicação, novas ferramentas geradas pela informática passaram a exercer enorme influência nas pessoas, e a internet assumiu sua face mais visível neste contexto, situando-se em uma posição de destaque e tornando-se uma importante ferramenta para a transformação e difusão de distintos e infindáveis gêneros discursivos. Logo, estando tais meios tecnológicos associados a novas práticas sociais, quaisquer mudanças na vida social implicam alterações e mudanças nos gêneros. Por esse motivo, esta pesquisa, pautada em uma análise bakhtiniana do discurso, tenciona observar como se materializam as formas de constituição estilística do gênero videoaula youtubiana de escrita científica, o qual, devido à sua ancoragem neste novo paradigma informacional-tecnológico, transforma-se em um produto social, desuniforme e suscetível a mudanças. Através da análise de tais videoaulas, busca averiguar, também, como estas se ressignificam com o objetivo de se amoldarem aos novos tempos e situações e, por existirem novos propósitos, ampliam-se à medida que a esfera de circulação se complexifica. É dessa forma que o gênero passa, então, a constituir-se a partir de determinadas questões espaço-temporais, bem como em razão das necessidades e atividades socioculturais. Assim, pode-se notar que as videoaulas de escrita científica youtubianas apropriam-se dessas novas características educacionais, decorrentes do desenvolvimento tecnológico, dominado por uma “cultura eletrônica”, de modo a ampliarem e desenvolverem os gêneros de forma significativa.

18.
IRREVERÊNCIA E EXPRESSIVIDADE DA NEOLOGIA ESTILÍSTICA: PREFIXAÇÕES DO TIPO NÃO-X E QUASE-X NO DISCURSO POÉTICO CABRALINO
Autor(es): COTRIM, Rosana Maria Sant'Ana (Universidade Federal de Goiás, rocotrim@ibest.com.br)
De modo geral, na língua portuguesa a derivação, por sua produtividade e regularidade, é considerada um tipo padrão de criação de palavras e, portanto, é muito empregada na neologia denominativa. Isso se deve principalmente ao fato de que ela gera combinações possíveis e sentidos previsíveis ante os afixos e respectivas bases selecionadas, adequadas ao atendimento das necessidades comunicativas da língua comum. Contudo, aplicada a discursos específicos como o poético, ela reveste-se de características peculiares para a obtenção de resultados únicos e excepcionais que a tipifica e a enquadra na neologia estilística. De fato, a neologia estilística visa tão somente a atender à discursividade do texto e a executar uma tarefa expressiva que a atualiza no discurso, mas é também capaz de evidenciar estilo(s). Este trabalho tem por objetivo, portanto, analisar as unidades léxicas criadas por derivações prefixais do tipo não-x e quase-x na poética de João
Cabral de Melo Neto, escritor pernambucano reconhecido como um dos maiores poetas do Modernismo brasileiro. Fundamentando-se na Lexicologia para a recolha, classificação e análise das unidades léxicas criadas, na Estilística Léxica para a verificação dos efeitos de sentido por elas alcançados no discurso em que se inserem e no critério lexicográfico para sua atestação, compreende-se que a recorrência das criações lexicais na poética cabralina participa efetivamente na instituição de uma das maiores qualidades do poeta, qual seja a superação da dicotomia entre expressão e construção. Conclui-se, portanto, que estas criações lexicais revelam uma forma de escolha do poeta e consubstanciam, pela irreverência, a expressividade e a geração de efeitos de sentido, de modo a contribuir para a composição da temática da negatividade resultante da abordagem das mazelas sociais nordestinas tão presentes em sua poética, tais como a seca, o latifúndio canavieiro,
a miséria e a "morte e vida" deles resultantes.

19.
ESTILO E INTERGENERICIDADE EM VÍDEOS DE DIVULGAÇÃO CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA
Autor(es): Grenissa Bonvino Stafuzza
Email: grenissa@gmail.com
Resumo: A presente comunicação traz como proposta pensar a configuração intergenérica e de estilo de duas produções midiáticas de divulgação crítica cinematográfica publicadas na rede social Youtube, consideradas no presente estudo como enunciados conforme as teorizações do Círculo de Bakhtin, tais sejam: i) o vídeo “Cineclube IESB - Amor à Flor de Pele (Wong Kar-Wai, 2000), debate PARTE 1 de 2” e o vídeo que dá continuidade a este, intitulado “Cineclube IESB - Amor à Flor de Pele (Wong Kar-Wai, 2000), debate PARTE 2 de 2”, produzido pelo canal Cineclube IESB, sendo esta produção midiática representativa de um discurso cinematográfico universitário; ii) o vídeo produzido pelo canal Veja Cinema, intitulado “Veja Cinema: Bastardos Inglórios”, analisado no presente estudo como um vídeo de crítica impressionista, aquela que confere a ideia de pretender divulgar a estreia de um filme de forma massificada. Ao considerar o vídeo como um enunciado, investigado aqui como um ponto de encontro e de interação dialógica entre material (imagens, sons, linguagem), forma (sua realização cronotópica, sentidos produzidos) e conteúdo (lugar de representação da linguagem, valoração, ideologias), entendemos que todos os elementos constituintes da mídia (verbo, vocal, visual) encontram-se em interação dialógica, sendo que esta interação promove pensar a construção intergenérica e de estilo da arquitetônica da produção midiática sobre cinema, de caráter acadêmico e de caráter comercial. Logo, ao pensar sobre a atualização das esferas de atividades enunciativas, compreendemos que o todo arquitetônico da produção midiática de críticas cinematográficas pode ser observado como acontecimento, um centro de valores que se constitui na relação dinâmica, viva e tensa, na e pela construção verbovocovisual (para usar a expressão de Pignatari, 2005) da produção dos vídeos de divulgação crítica cinematográfica, sendo essa construção reveladora de sentidos da divulgação acadêmica do cinema, bem como da divulgação mass media de um determinado filme.

20.
O ESTILO E A RELAÇÃO ENTRE TIPOS TEXTUAIS NA COMPOSIÇÃO DO GÊNERO PRONTUÁRIO MÉDICO
Kênia de Souza Oliveira - Universidade Federal de Uberlândia. keniavini@hotmail.com
Este trabalho tem como objetivo analisar as tipologias utilizadas na construção do gênero prontuário médico. Partindo da perspectiva bakhtiniana, de que os gêneros do discurso são concebidos como tipos relativamente estáveis de enunciado, marcados por sua composição, conteúdo temático e estilo. Assim, a composição diz respeito à estruturação e ao aspecto formal do gênero, enquanto que o conteúdo temático diz respeito às escolhas e propósitos comunicativos do autor em relação ao assunto abordado, já o estilo refere-se a um modo de apresentação do conteúdo traduzido no plano composicional do gênero por meio da seleção de recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua. Nesse sentido, o trabalho tem, também, como objetivo apresentar o gênero prontuário médico no campo teórico da Linguística Textual, visando apontar as relações entre tipos textuais, bem como analisar as escolhas linguísticas e seus efeitos na composição desse gênero.
Para a realização da tarefa pretendida, a metodologia foi traçada tendo em vista o delineamento da pesquisa bibliográfica. O corpus escolhido é constituído de cinco prontuários médicos, escritos no ano de 2014. Em contatos com vários teóricos foram selecionados, os considerados, que melhor atendiam às perspectivas de uma análise profunda do corpus escolhido. Desse modo, constatou-se que as tipologias descritiva, narrativa e dissertativa estão conjugadas na composição do gênero prontuário médico e as abreviações e nominalizações marcam o estilo desse gênero.

21.
Análise do estilo na divulgação científica em rede sociais digitais (Facebook)
Artur Daniel Ramos Modolo -Universidade de São Paulo - adrmodolo@gmail.com
Resumo: A proposta central da comunicação é a compreensão das alterações de estilo ocorridas durante a inserção da divulgação científica em redes sociais, especialmente em nosso objeto de análise no Facebook. Para atingir tal objetivo, examinar-se-á enunciados oriundos das páginas das revistas Pesquisa FAPESP, Scientific American Brasil e Superinteressante nessa rede social. Essa seleção visa contemplar três diferentes tipos de produção de divulgação científica, resultando, do ponto de vista bakhtiniano, em diferentes tipos de público leitor (interlocutor presumido), escolhas lexicais e materialização do discurso. Por consequência da distinção de finalidade discursiva, será possível observar como as particularidades de cada uma das revistas resultam, de fato, em três variações estilísticas da divulgação científica. Como resultado da presente análise, pretende-se verificar como os recursos multimodais e tecnológicos presentes no Facebook
acarretaram mudanças de estilo em comparação com suportes mais tradicionais (revistas, jornais). Antes da popularização da Internet para uso doméstico, as revistas de divulgação científica propiciavam apenas um espaço delimitado de interação verbal entre publicação-leitores em suas revistas impressas. Dessa forma, tal possibilidade de interação estava basicamente restrita ao gênero do discurso “carta do leitor”. As cartas dos leitores, entretanto, eram previamente selecionados pelos editores e apenas parte delas era publicada. Por outro lado, após o crescimento da Internet, sobretudo das redes sociais, a interação se diversificou. Essa interação se materializa principalmente pelo uso de comentários, na qual se verifica que a pluralidade de estilos é significativamente mais acentuada. O contraste supracitado explicita a maneira pela qual a produção verbal na divulgação científica, tanto dos leitores, quanto dos divulgadores, constitui-se por variados
gêneros e, consequentemente, estilos de gêneros diversos. Os leitores podem interagir verbalmente com maior liberdade e variedade de conteúdo e estilo, os divulgadores da ciência tendem a utilizar um grau ainda maior de material visual (vídeos, infográficos, fotografias etc.) nas publicações digitais.

Email: adrmodolo@gmail.com

Palavras-chave: estilo; gêneros discursivos; divulgação científica; rede social; discurso
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 5. ed. São
Paulo: Martins Fontes, p.261-306, 2010.
_______. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária In: Questões de literatura e estética: a teoria do romance. F. Bernardini et al. 4. ed. São Paulo: UNESP, 1998, pp. 13-57.
_______. Questões de estilística no ensino da língua. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo, 2013.
CARDOSO, E. A. A difícil escolha das palavras. in: Língua Portuguesa, v. 1, p. 52-55, 2012.
GRILLO, S. V. C.. Divulgação científica: linguagens, esferas e gêneros. Tese apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas como requisito parcial para obtenção do título de livre-docente. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013

22.
Diálogo do revisor de textos com o autor: análise do gênero comentário
Fabíola Barreto Gonçalves – UFRN – fabiolabarreto@hotmail.com
Francisco Wildson Confessor – UFRN – wil_confessor@yahoo.com.br
Resumo: Esta comunicação busca realizar uma avaliação dos comentários produzidos pelo revisor de textos direcionados ao autor. A motivação parte da experiência como revisores na Secretaria de Educação a Distância (SEDIS) e na Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EDUFRN), respectivamente, lócus de material produzido, mormente, por docentes da instituição. Este trabalho justifica-se no intuito de dar um tratamento ao diálogo autor-revisor, que guarda suas peculiaridades. A análise desses balões de comentários traz à tona, sobretudo, o papel das pessoas do discurso. Ou seja, de um lado está o autor do texto, em geral, especialista em dada área e que carrega certa posição social dentro da academia; de outro, o revisor, especialista em linguagem, que deve estar atento às suas escolhas lexicais a fim de alcançar o propósito pretendido. Considerando tratar-se de um trabalho a distância, não há como evitar o comentário, que visa não só
dirimir dúvidas como ainda fazer sugestões, apontar problemas etc. Nesse sentido, o objetivo geral é o de analisar as escolhas discursivas dos revisores e de como elas contribuem para a configuração do estilo do gênero em tela. Na metodologia, o corpus é composto por comentários produzidos por revisores da SEDIS e da EDUFRN, entre 2013 e 2014, e classificados de acordo com as categorias de revisão apontadas por Ribeiro (2009). Como resultados preliminares, pelos posicionamentos valorativos expressos, destacamos que a categoria mais utilizada é a interativa. Nessa interação, ao caracterizarmos o estilo do gênero, percebemos que a intenção comunicativa é a de um comentário crítico, o que pode suscitar tanto a reflexão como uma reação negativa do interlocutor, causada pela má interpretação do comentário (faltando-lhe, portanto, clareza) ou por ser um comentário ofensivo. Para fins da pesquisa, orientamo-nos pelo viés dialógico da análise do discurso
(BAKHTIN, 2011; BAKHTIN, 2009).

Email: fabiolabarreto@hotmail.com

Palavras-chave: Revisão. Interação revisor-autor. Dialogismo.

Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 5. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
BAKHTIN, M.(V. N. Volochínov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 2009.
FARACO, C. A. Linguagem e diálogo: as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin. São Paulo: Parábola, 2009.
OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. Revisão de textos: da prática à teoria. Natal: Edufrn, 2010.
RIBEIRO, Ana Elisa. Revisão de textos e “diálogo” com o autor: abordagens profissionais do processo de produção e edição textual. Anais... XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Curitiba/PR, 4 a 7 set. 2009.

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SIMPÓSIO 30 – PORTUGUÊS LÍNGUA MINORITÁRIA EM SOCIEDADES PÓS-COLONIAIS

Coordenadores:
Luis Ernesto Behares - Universidad de la República Montevideo - lbeharesc@yahoo.com
Laura Masello - Universidad de la República Montevideo - lmasello@hotmail.com

RESUMOS APROVADOS

1.
Título do trabalho: Português língua oficial em Macau e Timor-Leste: legitimidade no século XXI
Autor: Sérgio Pereira Antunes
LIA/FFLCH/USP - Laboratório de Interlocuções com a Ásia - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
santunes@usp.br
Resumo: O trabalho visa observar a legitimidade de a língua portuguesa ser determinada como língua oficial da República Democrática de Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, em pleno século XXI, conforme estabelecida, respectivamente, na Constituição e na Lei Básica. A determinação de uma língua como oficial pode atender a diversos aspectos: ser fruto de uma tradição cultural dos povos de um Estado; ser consequência natural de um processo de consolidação e integração nacional; atender interesses econômicos; atender a um ordenamento dominante, entre outros. Do ponto de vista jurídico, a estipulação de uma língua oficial tem carácter estritamente legal e, portanto, merece ser apreciada em diferentes pontos, a exemplo de: validade, vigência, efetividade, eficácia e legitimidade; ou sob a teoria tridimensional do Direito formulada por Miguel Reale: norma, fato e valor; ou ainda sob os pontos hierárquicos discutidos por Hans Kelsen. Por meio de estudo analítico, a pesquisa tomará a questão jurídica à luz do contexto político, histórico e social do uso da língua portuguesa como língua oficial nesses territórios (Timor-Leste e Macau) bem como as políticas públicas governamentais aplicadas em cumprimento do mandamento legal, apreciando sua adoção e utilização por parte da população local, na avaliação de sua efetividade social e aderência aos ensejos da sociedade. Resultados preliminares têm demonstrado a congruência dos objetivos, eis que a oficialidade da língua portuguesa tem amparo legal e há argumentos políticos e sociais a evidenciar a legitimidade e efetividade social. O trabalho está filiado às linhas de pesquisa do LIA/USP que visam estudar os espaços que se formaram nas rotas do império português, em direção ao Oriente, numa perspectiva intercultural e interdisciplinar, pensando e renovando modelos de interação cultural, especificamente quanto aos aspectos sociais, econômicos e jurídicos desses espaços (Macau e Timor-Leste).
Email: santunes@usp.br
Palavras-chave: Macau - Timor-Leste - língua oficial - legitimidade - políticas públicas
Bibliografia básica:
ANTUNES, Sérgio Pereira e ANTUNES, Sheila Barroso Alves. Lusofonia juridicamente assegurada em Macau: reflexões e políticas públicas. IN TEIXEIRA E SILVA, Roberval; YAN, Qiarong; ESPADINHA, Maria Antónia; LEAL, Ana Varani. (orgs.). III SIMELP: A Formação de Novas Gerações de Falantes de Português no Mundo. Macau: Universidade de Macau, 2012.
MACAU. Lei Básica. Macau: Governo da Região Administrativa Especial de Macau, 2005.
REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. São Paulo: Saraiva, 1983. 10ª edição.
TIMOR LESTE. Constituição. Dili: República Democrática do Timor-Leste, 2002.

2.
Título do trabalho: Português de Uruguai: algumas características dos processos de contato urbano e de isolamento rural
Autor: Luis Ernesto Behares - Universidad de la República - Montevideo-Uruguai
lbeharesc@yahoo.com
Resumo: A denominação Português de Uruguai (PU) corresponde a um grupo de variedades do português faladas no nordeste do Uruguai, descritas desde meados do século XX (Rona, 1959) e que experimentaram diversas interpretações (Behares, 2013). Trata-se de variedades do Português conservadas, geração após geração, desde o século XVIII em áreas que atualmente formam parte de Uruguai, em coexistência no século XX com o espanhol. Por esse motivo, existe na bibliografia uma tendência a defini-las intrinsecamente como “falas de contato” (Elizaincín, 1976, 1992; Elizaincín, Behares e Barrios, 1983). Porém, desde o início (Rona, 1959; Elizaincín e Behares, 1981), as pesquisas têm mostrado que, para além da heterogeneidade e da variabilidade estruturais dessas falas, elas possuem uma “base portuguesa”. Isto é: são variedades do português, embora afetadas pelo contato com o espanhol. É necessário identificar as variedades que são a língua materna de uma proporção importante de falantes, adquiridas no seu grupo imediato de pertença e como língua de comunidades subalternizadas. Essas falas, que designamos como PU (Carvalho, 2003b, Behares, 2007) conservam mais claramente os funcionamentos do português e seus próprios recursos histórico-dialetais. Outro conjunto de falas, dispersas na periferia do PU, derivam de contatos mais ou menos ocasionais entre falantes de português e de espanhol, e são conhecidas popularmente como “portunhol”. As pesquisas dos últimos dez anos (Carvalho, 2003a, 2004; Behares, 2011; Behares, Díaz e Holzmann, 2004, entre outras) mostraram condições diferentes para o PU existente no âmbito rural (compreendendo vilas e povoados) e para o PU falado nas cidades da maior porte das áreas uruguaias do nordeste (principalmente em Rivera). O intuito deste trabalho é mostrar algumas dessas condições diferenciadas, com base na descrição contrastiva de traços fonológicos, morfossintáticos e léxicos, nos contextos sociolinguísticos de proximidade ao português brasileiro ou de isolamento.

Email: lbeharesc@yahoo.com
Palavras-chave: Palavras-chave: Português, Uruguai, rural, urbano, sociolingüística.
Bibliografia básica:
BEHARES, L.E. (2011) Breves noticias sobre el Portugués del Uruguay. En: VICENTE, R. B. HERNÁNDEZ, M.C. L., DEFENDI, C. P., RAUBER, A. L., SARTIN, E. B. de G. y E. C. S. SANTOS (Orgs.) Cognição, gramaticalização e Cultura: Un diálogo sem fronteiras. São Paulo: Universidade de São Paulo, PP. 161-196.
BEHARES, L. E.; DÍAZ, C. E. y G. HOLZMANN (2004) Na frontera nós fizemo assim. Lengua y cocina en el Uruguay fronterizo. Montevideo: Librería de la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación.
CARVALHO, A. M. (2004) I speak like the guys on TV: palatalization and the urbanization of Uruguayan Portuguese. Language Variation and Change (Cambridge, USA), Nº 16, pp. 127-151.
ELIZAINCÍN, A. (1976) The emergence of bilingual dialects on the Brazilian Uruguayan border. International Journal of the Sociology of Language, 9, pp. 120-134.
RONA, J. P. (1959) El dialecto "fronterizo" del norte del Uruguay. Universidad de la República, Facultad de Humanidades y Ciencias, Publicaciones del Departamento de Lingüística, Montevideo (Separata de la Revista de la FHC).

3.
Título do trabalho: Resistência ao português no/do Uruguai de 1967-69. Como foi recebida a proposta para o ensino básico bilíngue espanhol/português.
Autor: Juan Manuel Fustes (Universidad de la República,juanmanuelfustes@gmail.com)
Resumo: O norte do Uruguai conhece uma longa história de assentamentos de povoações de fala portuguesa que tiveram, desde os primeiros tempos da presença européia (séculos XVI-XVII), intercâmbios com grupos de fala espanhola e de falas indígenas. Essa foi, de fato, até o estabelecimento dos limites nacionais (depois de 1830), uma zona híbrida na qual prevalecia o português, mas convivendo com o espanhol, o guarani e outras línguas locais. Quando as linhas demarcativas foram traçadas e o Uruguai – governado desde o sul (Montevidéu) com base em uma cultura hispânica – começou a impor a sua presença nas zonas do norte povoadas por falantes de português, o conceito de língua nacional foi desafiado por um grupo que parecia recusar-se a ser categorizado como composto por cidadãos verdadeiramente uruguaios. As décadas que passaram desde o espalhamento da escolarização obrigatória em todo o território uruguaio (sob o impulso de José Pedro Varela, a partir de 1877) até os anos sessenta do século XX foram conflitivas no que respeita à integração das crianças nas escolas da fronteira Uruguai-Brasil, por serem recebidas como falantes monolíngües de espanhol ainda que a maioria delas não o fosse.
Em decorrência dos estudos dialetológicos da década de 1960 (com a figura pioneira de José Pedro Rona), nasceram os primeiros projetos para o reconhecimento do estatuto especial dos falantes uruguaios de português e para o ensino nessa língua em algumas escolas uruguaias. Tratava-se da aplicação do princípio segundo o qual toda instrução básica deve ser oferecida na língua materna das crianças, sendo que o português era uma língua compartilhada socialmente por um alto número de falantes nessas áreas do Uruguai. Estudaremos essa primeira iniciativa apresentada no Uruguai e as reações de resistência expressas nos âmbitos pedagógico, político e jornalístico, todos acontecimentos verificados entre 1967 e 1969.
Email: juanmanuelfustes@gmail.com
Palavras-chave: fronteira Uruguai-Brasil; educação bilíngue; línguas nacionais, línguas minoritárias
Bibliografia básica:
BEHARES, Luis E. (2007). “Portugués del Uruguay y Educación Fronteriza”. Em: Brovetto, C.; Geymonat, J.; Brian, N. (comps.) Portugués del Uruguay y educación bilingüe. Montevideo, ANEP-CEP, 2007.
CARVALHO, Ana Maria (2003). “Rumo a uma definição do português uruguaio”. Revista Internacional de Lingüística Iberoamericana, RILI, I, 2, pp. 125-149.
GARCÍA ETCHEGOYEN DE L., E. (1968). Problemas de la enseñanza del lenguaje en las escuelas primarias de la zona fronteriza con el Brasil. Em: CONSEJO DE ENSEÑANZA PRIMARIA Y NORMAL. Repartido Nº 847, carpeta nº 3306/967. Leg.2 Firmado por los inspectores: C. Crespi, C. Lesa, N. Abatte, M. A. Ribolla, L. Casaballe y Emilia Álvarez de Guadalupe. Montevideo.
SOARES BORTOLINI, L.; P. Garcez e M. Schlatter (2013). “Práticas linguísticas e identidades em trânsito: espanhol e português em um cotidiano comunitário escolar uruguaio na fronteira com o Brasil” em MOITA LOPES, Luiz Paulo da (org.) Português no século XXI: cenário geopolítico e sociolinguístico. São Paulo, Parábola Editorial, pp. 249-273.

4.
Título do trabalho: O português, língua minoritária, nas escolas uruguaias de contexto fronteiriço
Autor: Javier Geymonat - UDELAR Uruguai - javiergeymonat@gmail.com
Resumo: Em 2003, as autoridades educativas uruguaias decidiram a inclusão do português em escolas da rede pública na fronteira com o Brasil. Historicamente o sistema educativo do Uruguai nunca tinha levado em conta a especificidade linguística da região fronteiriça, fora algumas pouquíssimas iniciativas nas quatro últimas décadas do século XX. Foram criados, naquela época, programas de educação bilíngue, que promoveram o trabalho na língua através dos conteúdos curriculares, tanto em escolas de tempo integral, como em escolas de tempo parcial. Esses programas atendem, desde então, a uma população que, na sua maioria, fala português (língua minoritária no Uruguai), além de uma minoria falante de espanhol (língua majoritária no país). É que as escolas onde esses programas foram implementados, estão localizadas em uma área caracterizada pelo bilinguismo social e com presença significativa da língua portuguesa.
A sociedade fronteiriça uruguaio-brasileira é bilíngue e diglóssica, pois tem a presença das duas línguas (espanhol e português), com usos diferenciados, sendo que o espanhol prevalece nas situações de comunicação mais formais e o português nas interações mais informais. Esta língua esteve e ainda está fortemente estigmatizada, até pelos seus falantes, e a escola foi a instituição que mais coadjuvou para a criação e a perpetuidade desta matriz. A implementação destes programas exigiu, então, que as escolas reconhecessem a particularidade do contexto e promovessem práticas de aula coerentes com ele. Estas experiências de ensino bilíngue, portanto, vieram a mudar a percepção que professores, diretores e supervisores tinham da fronteira, da situação sociolinguística e da educação fronteiriça. Este trabalho apresenta o impacto que a implementação de um programa de educação bilíngue com português, língua minoritária, tem na escola fronteiriça, considerando, em particular, as atitudes linguísticas dos atores envolvidos.
Email: javiergeymonat@gmail.com
Palavras-chave: contexto fronteiriço - língua minoritária - educação bilíngue - atitudes linguísticas
Bibliografia básica:
Albarracín, L. I. (2002) “Lengua minoritaria y escuela.” Ponencia en el I Simposio Internacional y V Regional de la Cátedra UNESCO, Subsede Universidad Nacional de
Cuyo. “Lectura y escritura: nuevos desafíos”. Mendoza 4-6 de abril 2002.
Baker, C. (2001) Foundations of Bilingual Education and Bilingualism. Multilingual Matters Ltd.
Brovetto, C., J. Geymonat e N. Brian (2007) “Una experiencia de educación bilingüe español – portugués en escuelas de la zona fronteriza” In: Brovetto, Geymonat e Brian (orgs.) Portugués del Uruguay y Educación Bilingüe. ANEP, Montevideo.

Valdés, G. (1995) “The teaching of minority languages as academic subjects: pedagogical and theoretical challenges.” The Modern Language Journal, 79, iii, 299-328.

5.
Título do trabalho: Apropriação e resistência em narrativas pós-coloniais de língua portuguesa
Autora: Laura Masello, Universidad de la República, laumasello@gmail.com
Resumo: Em sociedades pós-coloniais caracterizadas pela existência de contextos pluriculturais e plurilíngues, pode-se constatar frequentemente a persistência de tensões entre a cultura dominante e as culturas dominadas através da escolha feita pelos escritores com relação à língua ou à variedade de língua em que constroem sua obra e os processos decorrentes dessa decisão nos planos discursivo e ideológico (Masello 2011). Existem nesse sentido contra-escrituras ao centro e desde o centro (Hernández 2007) que se configuram como narrativas fortemente marcadas por diferentes graus de elaboração identitária. Estes abrangem desde os variados recursos da apropriação até as estratégias de resistência que emergem nos entrelugares (Santiago 1978) da trama discursiva. As modalidades e estratégias utilizadas pelos autores são múltiplas: inserção de xenismos, alternância de códigos linguísticos, crioulização ou africanização das línguas europeias, adoção de estruturas gramaticais e recursos pragmáticos que subvertem a língua dominante, entre outros, ou, no outro extremo, a escritura na própria língua ou variedade minoritária. O português, a priori língua dominante nas sociedades pós-coloniais do espaço lusófono por ter sido a língua do conquistador, ocupa hoje em dia lugares bem divergentes segundo as comunidades e países em que sua presença é minoritária. Assim, enquanto as literaturas pós-coloniais africanas de língua portuguesa revelam respostas heterogêneas no tratamento das tensões mencionadas em contextos em que a língua portuguesa continua sendo a língua da elite intelectual, em outras sociedades diglóssicas, como a da fronteira do Uruguai com o Brasil, a resistência à cultura hegemônica se expressa através de uma literatura escrita diretamente na variedade do português minoritária naquele país. Este trabalho faz parte de uma linha de pesquisa que estuda as relações entre línguas dominadas e línguas dominantes através de suas manifestações literárias e visa analisar os recursos linguístico-discursivos de apropriação e de resistência na obra de autores pertencentes a esses espaços interculturais tais como o timorense Luís Cardozo, o moçambicano Mia Couto, o angolense Uanhenga Xitu, o uruguaio Fabián Severo, entre outros.
Email: laumasello@gmail.com
Palavras-chave: narrativas pós-coloniais- línguas dominadas, línguas dominantes- apropriação- resistência
Bibliografia básica:
Hernández, Rebecca. 2007. Traducción y postcolonialismo. Procesos culturales y lingüísticos en la narrativa postcolonial de lengua portuguesa. Granada: Ed. Comares.
Masello, Laura. 2011. El revés de la trama: escrituras identitarias en Brasil y el Caribe. Montevideo: Biblioteca plural, UdelaR.
Santiago, Silviano. 1978. “O entre-lugar do discurso latino-americano”. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Saulo: Perspectiva.