Caderno de Resumos: Simpósios de 51 - 61

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SIMPÓSIO 51 - O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Coordenadores:
Ana Lúcia Tinoco Cabral - Universidade Cruzeiro do Sul UNICSUL - altinococabral@gmail.com
Rosalice Pinto - CLUNL - rosapinto1@netcabo.pt


RESUMOS APROVADOS

1. LETRAMENTOS, AUTONOMIA E REGULAÇÃO DO TRABALHO NA INDÚSTRIA PETROQUÍMICA: SUBSÍDIOS PARA CURSO DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL.
Márcia Mendonça (UNICAMP)
Email: mendonca.mrs@gmail.com
Resumo: Na perspectiva dos Novos Estudos do Letramento (NLS) (Street, 2013, 2010, 2003, 1984), dos letramentos situados (BARTON & HAMILTON, 2000) e dos letramentos críticos no mundo do trabalho (HULL, 2000), serão problematizados aspectos das práticas de letramento presentes em quatro setores do polo petroquímico de Camaçari (Salvador, BA, Brasil): montagem de andaimes, revestimento, mecânica e almoxarifado. A análise considerou a relação constitutiva entre os usos da escrita e os contextos sociais, instituições e comunidades em que emergem, bem como crenças, valores e representações que não só influenciam, mas (se) constituem (n)as próprias práticas de letramento. Os dados foram coletados e gerados como etapa preliminar de elaboração de curso de aperfeiçoamento com foco em letramentos e numeramentos, a ser ofertado a trabalhadores desta indústria. Para essa coleta, utilizaram-se notas de campo, fotografias, coleta documental e entrevistas semiestruturadas com
supervisores e trabalhadores supervisionados. As análises iniciais apontaram que o grau de autonomia decisória e de regulação das atividades laborais se relaciona com a cultura organizacional de cada empresa, variando de acordo com o setor, o que implicava o predomínio de certas formas de interação verbal em detrimento de outras (reuniões de equipe com e sem supervisor, discussões entre os parceiros de trabalho, etc). Algumas práticas de letramento, formas de legitimação social dessas práticas, competências e habilidades requeridas num mesmo local de trabalho - indústria petroquímica – são específicas do setor em que se realizam e têm relação com as formas de interação verbal aí privilegiadas. Em três dos setores, práticas orais letradas têm destaque na organização e regulação das atividades diárias. Conclusões preliminares apontaram a necessidade de ampliar o conhecimento crítico sobre os letramentos no mundo do trabalho para elaborar cursos de educação continuada na área de língua que impactem a formação geral dos trabalhadores e lhes permitam maior autonomia na atuação profissional.
Palavras-chave: letramentos; letramentos no mundo do trabalho; formação em serviço; educação profissional.
Bibliografia básica:
BARTON, D.; HAMILTON, M. (2000). Literacy practices. In: BARTON, D.; HAMILTON, M.; IVANIC, R. (eds.). Situated literacies: reading and writing in context. London: Routledge. Pp. 7-15.
HULL, G. (2000) Critical literacy at work. Journal of Adolescent & Adult Literacy. Vol. 43, Apr. 2000. Pp. 648-652.
STREET, B. (2010). Os novos estudos de letramento: histórico e perspectivas. In: MARINHO, Marildes; CARVALHO, Gilcinei Teodoro (org.). Cultura escrita e letramento. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010. Pp. 33-53.
______ (2003). What's "new" in New Literacy Studies? Critical approaches to literacy in theory and practice. Current Issues in Comparative Education, Vol. 5(2).
_____ (1984). Literacy in Theory and Practice. Cambridge: CUP.

2. O LETRAMENTO CIENTÍFICO DE ALUNOS DE GRADUAÇÃO DO CURSO DE LETRAS
Luzineth Rodrigues Martins (UERR)
Email: luzinethmartins@yahoo.com.br
Resumo: Este trabalho está situado na linha "O ensino de língua portuguesa na formação profissional” e versa sobre a produção de gêneros na universidade, tema que tem sido considerado pelas instâncias de pesquisa como indicativo da qualidade da formação acadêmica e de visibilidade de produção de conhecimento e de letramento científico dos acadêmicos (MOTTA-ROTH e HENDGES, 2010). Esta discussão desenvolve-se sob a perspectiva da comunidade discursiva desenvolvida por Swales (1990/2009) para quem os gêneros produzidos nessa comunidade formam uma rede interativa de comunicação, considerando os objetivos e as propostas do grupo, e representam um modo de revalidação das atividades dessa comunidade. Nessa perspectiva, as instituições de ensino superior têm acrescentado aos seus currículos disciplinas voltadas à produção de textos, a fim de propiciar aos discentes conhecimentos para a produção dos diferentes gêneros discursivos da comunidade acadêmica. Entende-se ser um dos objetivos da formação acadêmica propiciar condições para que os discentes façam uso consciente e coerente dessa prática na academia e no campo de trabalho, razão pela qual procura-se analisar a qualidade e as implicações do uso dos gêneros acadêmicos pelos alunos do curso de Letras da Universidade Estadual de Roraima. A pesquisa foi realizada por meio de entrevista e de questionário, contendo questões abertas e fechadas que versavam sobre os espaços de produção dos gêneros no referido curso, sobre as dificuldades enfrentadas pelos acadêmicos e sobre a orientação teórico-metodológica dada pelos professores. Os resultados destacam a necessidade de uma prática acadêmica mais voltada à construção de conhecimentos, à preparação para uma participação mais ativa dos discentes na sua futura área profissional, e uma revisão curricular com foco nas disciplinas que subsidiam o desenvolvimento da produção discursiva dos acadêmicos.
Palavras- chave: gêneros acadêmicos; comunidade discursiva; letramento científico.
Bibliografia básica:
ANTUNES, IRANDÉ. Território das palavras: estudo do léxico em sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.
BALTAR, Marcos. Competência discursiva e gêneros textuais: uma experiência com o jornal na sala de aula. 2 ed.rev. Caxias do Sul, RS: Educs, 2006.
MOTTA-ROTH, Desirée e HENDGES, Graciela H. Produção textual na universidade. São Paulo: Parábola Editora, 2010.
SWALES, John M. Genre analysis: English in academic and researching settings. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

3. FIGURAS, ESQUEMAS, GRÁFICOS E QUADROS IMPLICAM APAGMENTO TEXTUAL, DISCURSIVO E ENUNCIATIVO?
Maria das Graças Soares Rodrigues (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Email: gracasrodrigues@gmail.com
Resumo: Propomo-nos a discutir possíveis reformulações textuais, discursivas e enunciativas em gêneros discursivos acadêmicos (dissertações, teses, capítulos de livros e artigos científicos) de diferentes áreas do conhecimento. Nessa direção, buscaremos responder à questão evocada pelo título deste trabalho: "figuras, esquemas, gráficos e quadros implicam reformulação textual, discursiva e enunciativa"? Qual a função textual, discursiva e enunciativa das figuras, esquemas, gráficos e quadros? Qual o propósito comunicativo? Como os enunciadores são identificados? Que marcas da língua remetem a enunciadores? Qual a relação plurissemiótica entre o texto e as figuras, esquemas, gráficos e quadros? Para responder a essas questões, estabelecemos como objetivos descrever, analisar e interpretar figuras, esquemas, gráficos e quadros inseridos em textos acadêmicos. Ademais, pretendemos cotejar essas figuras, esquemas, gráficos e quadros com o texto no qual estão inseridos, a fim de averiguar possíveis semelhanças e diferenças entre as instâncias enunciativas que ancoram as informações veiculadas por essas duas formas de semiotização: a linguagem verbal e as imagens usadas para sintetizar e/ou reformular o próprio texto. Nossa ancoragem teórica segue a análise textual dos discursos, a linguística textual e a responsabilidade enunciativa. A abordagem teórica segue a pesquisa qualitativa de natureza interpretativista, assim como o método indutivo. Em suma, os resultados preliminares apontam que, em geral, as figuras, esquemas, gráficos e quadros revelam apagamento enunciativo, não há marcas da língua apontando de quem é o ponto de vista, ou quem assume a responsabilidade enunciativa, diferentemente da organização linguística do texto verbal acadêmico, que, de acordo com a área a que pertença, poderá haver uma tendência à assunção da responsabilidade enunciativa em gêneros discursivos da área de ciências humanas e um apagamento enunciativo, em geral, em gêneros discursivos acadêmicos da área de extas, das engenharias, de ciências da saúde e de biologia, entre outras.
Palavras-chave: Discurso acadêmico; apagamento enunciativo; plusrissemiótica
Bibliografia básica:
ADAM, Jean-Michel. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, [2008] 2011.
GUENTCHÉVA, Zlatka. Manifestations de la catégorie du médiatif dans les temps français. Langue Française, n. 102, 1994, p. 8-23.
RABATEL, Alain. Les postures énonciatives dans la co-construction dialogique des points de vue: coénonciation, surénonciation, sousénonciation. In.BRES, Jacques et al. Dialogisme et polyphonie: approches linguistiques. Bruxelles : De Boeck & Larcier, 2005, P. 95-110
RABATEL, Alain. Homo narrans : pour une analyse énonciative et interactionnelle du récit. Le point de vue et la logique de la narration. Limoges: Lambert-Lucas, 2008. (Tome 1)
RABATEL, Alain. Homo narrans : pour une analyse énonciative et interactionnelle du récit. Dialogisme e polyphonie dans le récit. Limoges: Lambert-Lucas, 2008. (Tome 2)
RABATEL, Alain. Les reformulations pluri-sémiotiques en contexte de formation. Besançon: Presses Universitaires de Franche-Comté, 2010.
RODRIGUES, Maria das Graças Soares; PASSEGGI, Luis; SILVA NETO, João Gomes. “Voltarei. O povo me absolverá...”: a construção de um discurso de renúncia. In. RODRIGUES, Maria das Graças Soares; PASSEGGI, Luis; SILVA NETO, João Gomes (Orgs.) Análises textuais e discursivas – metodologia e aplicações. São Paulo: Cortez, 2010, p.150-195.

4. Título do trabalho: O ENSINO DAS VOZES NO DISCURSO ESPECIALIZADO: UM ESTUDO SOBRE A (NÃO) ASSUNÇÃO DA RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA NO DISCURSO JURÍDICO
Alexandro Teixeira Gomes (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
E-mail: alextgomes@yahoo.com.br
Resumo: As discussões mais recentes que envolvem os fenômenos da linguagem a consideram não apenas como elemento de comunicação, mas, sobretudo, como prática interativa e social que permeia todos os setores de nossas vidas. Essas discussões, aliadas ao crescente interesse que o discurso jurídico tem despertado no âmbito dos estudos linguísticos, abrem espaços para o debate no campo interdisciplinar Linguagem vs Discurso Jurídico com variadas possibilidades de estudo, buscando romper o divórcio entre essas duas áreas do saber que apresentam uma série de intersecções. Assim, este trabalho tem por escopo descrever, analisar e interpretar os mecanismos de não assunção da responsabilidade enunciativa no âmbito do discurso jurídico, tomando como objeto de análise a sentença judicial condenatória. Como suporte teórico, seguimos os aportes da Análise Textual dos Discursos (ADAM, 2011) e da Linguística Enunciativa, com base em Rabatel (1998, 2003, 2004, 2005, 2008, 2009, 2010) e Guentchéva (1994, 1996, 2011) e Guentchéva et al. (1994). No que concerne à abordagem jurídica, nossa ancoragem teórica segue, sobretudo, Montolío (2002, 2010, 2011, 2012, 2013), Lourenço e Rodrigues (2013) e Rodrigues, Passeggi e Silva Neto (2014). Essa pesquisa contribui, dentre outras questões, para o entendimento da organização argumentativa do produtor do texto e de seus propósitos argumentativos e oferece ferramentas para o ensino dos discursos especializados, contribuindo para uma formação autônoma e crítica daqueles que trabalham e/ou estudam no âmbito desses discursos.
Palavras-chave: Responsabilidade enunciativa; Discurso especializado; Discurso jurídico; Sentença judicial condenatória.
Bibliografia básica:
ADAM, J.-M. A linguística textual: uma introdução à análise textual dos discursos. 2. ed. revista e aumentada. São Paulo: Cortez, 2011.
GUENTCHÉVA, Z. L’opération de prise en charge et la notion de médiativité. In: DENDALE, P.; COLTIER, D. (Direc.). Champs linguistiques: la prise em charge énonciative: études théoriques et empiriques. Bruxelles: Duculot, 2011. p. 117-142.
MONTOLÍO, E. (Ed.). Hacia la modernización del discurso jurídico. Barcelona: Publicacions i Edicions de la Universitat de Barcelona, 2011.
RABATEL, A. Homo narrans: pour une analyse énonciative et interactionnelle du récit: les points de vue et la logique de la narration. Limoges: Lambert-Lucas, 2008.
RODRIGUES, M. G. S, SILVA NETO, J. G. e PASSEGGI. L. La lettre-testament du président Getúlio Vargas. Généracité, structure compositionnelle et représentations. In: MONTE, M.; PHILIPPE, G. (Direc.). Genres e Textes: déterminations, évolutions, confrontations. Lyon: Presses universitaires de Lyon, 2014. p. 253-267.

5. A PROGRESSÃO REFERENCIAL EM TEXTOS DE ALUNOS DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL: UM OLHAR LINGUÍSTICO PARA O ENSINO MÉDIO INTEGRADO.
Juzelly Fernandes Barreto Moreira (IFRN)
Email: juzelly.barreto@ifrn.edu.br
Resumo: Esta pesquisa objetiva realizar um estudo comparativo entre textos de alunos dos 1ºs e 2ºs anos do Ensino Médio Integrado de um campus do IFRN. Desta feita, pretendemos enfocar o uso das estratégias de referenciação, verificando suas ocorrências nas redações, além de investigar se os alunos dos 2ºs anos desta modalidade da educação profissional apresentam amadurecimento no que tange à progressão referencial de suas redações, em relação aos alunos do 1º ano. Nosso trabalho está respaldado sob a égide da linguística textual e articulado aos estudos propostos por Koch (2006), Costa Val (1999), Marcuschi e Koch (2006), Antunes (2010), entre outros. Tais autores aportam teoricamente este trabalho pela relevância de seus estudos para a compreensão dos processos discursivos de referenciação inerentes à tessitura do texto nessas práticas simbólicas. Como metodologia, propomos aos alunos que escrevessem sobre o tema “A Influência da Tecnologia no Comportamento Humano”. Após selecionar quarenta redações, analisamos as produções, observando a ocorrência de eventos coesivos que indicassem se os alunos do 2º anos apresentavam melhor desempenho em relação aos dos 1º anos, recém-ingressos IFRN. Os resultados ressaltaram, entre outros aspectos, a diminuição no uso de encapsulamentos/rotulações (55% -1ºs anos/ 25%- 2ºs anos), incidência estável de hipônimos (55% -1ºs anos/ 45% - 2ºs anos) e aumento expressivo no uso das elipses (15% - 1ºs anos/ 40 % - 2ºs anos). A proposição desta pesquisa revela que o estudo da referenciação é imprescindível na educação profissional porque julgamos que o exercício pleno da prática profissional passa pelo domínio das habilidades técnicas, mas também essencialmente pela competência discursiva do indivíduo.
Palavras-chave: Educação Profissional. Estratégias de Referenciação. Produção Textual. Coesão.
Bibliografia básica:
ANTUNES, Irandé. Análise de Textos: fundamentos e práticas. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.
COSTA VAL, Maria da Graça. Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 2ª ed.,1999.
KOCH, Ingedore G. Villaça. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 1999
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e Compreender: os sentidos do Texto. 2ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.

6. RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA NO TEXTO JURÍDICO: UM ESTUDO DA PETIÇÃO INICIAL
Maria das Vitórias Nunes Silva Lourenço e Mário Lourenço de Medeiros
(FAS - Faculdade do Seridó e Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Email: vitorianunnes@hotmail.com e mariolourencodcsh@hotmail.com
Este estudo objetiva descrever, analisar e interpretar a Responsabilidade Enunciativa (RE) em Petições Iniciais. Ancoramos a discussão no campo da Linguística, mais precisamente, na Análise Textual dos Discursos (ATD). Dessa forma, a relevância deste estudo reside na construção da crítica ao texto jurídico, pois empreende uma abordagem dialógica do ponto de vista, suscitando não apenas questionamentos sobre a maneira como uma instância linguística concebe um objeto de discurso, mas também discutindo as questões de linguagem inerentes à escrita especializada. Selecionamos duas categorias de análise que, segundo Adam (2011), caracterizam na materialidade textual o grau de RE: os diferentes tipos de representação da fala e as indicações de quadros mediadores. Para tanto, baseamo-nos nos estudos realizados por Rabatel (2003, 2009a, 2010). Da mesma forma, tencionando estudar as indicações de quadros mediadores, observamos os postulados de Guentchéva (1994, 1996).
No que concerne à metodologia, adotamos a pesquisa de base qualitativa, de natureza interpretativista e introspectiva. O corpus da pesquisa é constituído por Petições Iniciais, que ensejaram ações oriundas na Vara Cível da Comarca de Currais Novos-RN. A análise dos dados mostra que um objeto de discurso é sempre perspectivado e manifesta o ponto de vista de um ou mais enunciadores. Como consequência, o produtor do texto, ao utilizar-se dos PDV de outros enunciadores, influencia e estabelece a orientação argumentativa do texto. Da mesma forma, evidencia a relevância do uso das construções mediatizadas no texto jurídico como estratégias atenuantes da responsabilidade do produtor do texto com o que é dito, e ao mesmo tempo visa um discurso de autoridade.
Palavras-chave: Discurso jurídico; Petição Inicial; Responsabilidade Enunciativa.
Bibliografia básica:
ADAM, Jean-Michel. A linguística: introdução à análise textual dos discursos. Tradução Maria das Graças Soares Rodrigues, João Gomes da Silva Neto, Luis Passeggi e Eulália Vera Lúcia Fraga Leurquin. São Paulo: Cortez, 2011.
COLTIER, D.; DENDALE, P.; DE BRABANTER, P. La notion de prise en charge: mise en perspective. Langue Française, Paris, n. 162, juin 2009.
GUENTCHÉVA, Zlatka. Manifestations de la catégorie du médiatif dans les temps du français. Langue Française, Paris, v. 102, n. 1, p. 8-23, 1994.
RABATEL, Alain. Homo narrans: pour une analyse énonciative et interactionnelle du récit. Tome 2. Dialogisme et polyphonie dans le récit. Limoges: Lambert-Lucas, 2008b.
______. Prise en charge et imputation, ou la prise en charge à responsabilité limitée. Langue Française, Paris, n. 162, p. 71-87, 2009.

7. ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DO DIREITO: O GÊNERO SENTENÇA JUDICIAL
Sueli Cristina Marquesi (PUCSP e UNICSUL)
Email: sueli.marquesi@cruzeirodosul.edu.br
Resumo: O presente trabalho se insere no âmbito das atividades do grupo de pesquisa “Ensino de Língua Portuguesa para Fins Específicos”, vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e do qual sou líder. Minhas pesquisas buscam estratégias que propiciem a superação de dificuldades no domínio da leitura e da escrita por alunos de diversos níveis de ensino, inclusive os de Graduação. A reflexão sobre tais em cursos de Direito levou-me a buscar, em gêneros do domínio jurídico, estratégias para o ensino de Língua Portuguesa nesse nível da formação acadêmica. No presente trabalho, é meu objetivo discutir a organização de planos de texto e de sequências textuais presentes na estrutura composicional de sentenças judiciais de processos da área criminal e seu aplicação em aulas de Língua Portuguesa para estudantes dessa área. Adoto procedimentos analíticos subsidiados por princípios teóricos da Linguística Textual (Travaglia, 2007), da Análise Textual dos Discursos (Adam, 2008), assim como por estudos realizados por Marquesi (2004, 2007, 2012, 2013); apresentarei a análise de duas sentenças, a título de exemplificação, e indicarei atividades que propiciaram bons resultados de aprendizagem de leitura e escrita por alunos de um curso de Direito na cidade de São Paulo.
Palavras-chave: Leitura e escrita; planos de texto; sequências textuais; ensino de Língua Portuguesa
Bibliografia básica:
ADAM, J-M. A Linguística Textual - introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, 2011.
MARQUESI, S. C. A organização do texto descritivo em língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.
MARQUESI, S.C. Contribuições da Análise textual dos discursos para o ensino em ambientes virtuais. IN: Revista Linha D’ Água. Número 26 - 2 segundo semestre de 2013. Programa de Pós-graduação em Filologia e em Língua Portuguesa - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, - Universidade de São Paulo. p.185-201.

8. PESQUISA E PRÁTICA DOCENTE DE MEDIAÇÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DO TEXTO ACADÊMICO
Neiva Maria Tebaldi Gomes (Centro Universitário Ritter dos Reis - Porto alegre, RS)
Email: neiva_gomes@uniritter.edu.br
Resumo: A comunicação traz à discussão resultados de uma pesquisa docente que busca suporte teórico para orientar a produção de textos do gênero acadêmico, em estudos desenvolvidos por Ducrot, Carel e colaboradores. Trata-se de estudos que oferecem um aparato para a descrição das relações argumentativas que se estabelecem em diferentes níveis linguísticos e que são responsáveis pela construção de sentidos no texto. O foco na escrita acadêmica deve-se à constatação advinda da prática docente de que, no ensino superior, as fragilidades relativas a competências discursivas e, mais especificamente, à habilidade de argumentar e de relacionar diferentes pontos de vista (vozes) vêm se revelando um obstáculo à sistematização e socialização do conhecimento, bem como ao desempenho profissional. Decorrentes de lacunas do ensino de Língua Portuguesa na educação básica, essas fragilidades refletem-se no ensino superior e se estendem aos cursos de pós-graduação, lato e stricto sensu, exigindo dos professores e pesquisadores uma atenção especial. Motivada por esse contexto, a pesquisa em questão tem como corpus textos selecionados dentre os publicados em revistas brasileiras Qualis A1. A metodologia – análise discursiva – visa identificar e descrever relações semânticas que tecem o texto do discurso científico e as vozes que o locutor põe em jogo para introduzir os conteúdos pretendidos. A análise das “vozes” realiza-se de acordo com proposta recente de Carel (Polifonia e Argumentação, 2010; A polifonia linguística, 2011) que concebe os elementos da significação como tripés: uma atitude do locutor do enunciado, um conteúdo, um enunciador. Essas categorias, juntamente com análise dos operadores argumentativos, tem-se revelado um bom aporte na orientação e produção de escrita acadêmica. A exposição visa colocar em diálogo pesquisa e prática docente de mediação do processo de produção escrita.
Palavras-chave: Produção do texto acadêmico; Argumentação; Mediação.
Bibliografia básica:
CAREL, Marion. A polifonia linguística. Letras de Hoje. PUCRS. V. 46, n. 1, p. 27-36, jan/mar. 2011.
CAREL, Marion. Polifonia e Argumentação. Desenredo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo. v. 6, n. 1, p. 22-36. Jan/jun. 2010.
CAREL, Marion. Análise argumentativa do léxico: o exemplo da palavra ‘medo’. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 44, n. 1, p. 26-35, jan./mar. 2009.
CAREL, Marion; DUCROT, Oswald. Atualização da polifonia. Desenredo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo. v. 6, n. 1, p. 9-21. Jan/jun. 2010.
DUCROT, Oswald. Argumentação retórica e argumentação linguística. Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 44, n. 1, p. 20-25, jan./mar. 2009.

9. ARGUMENTAÇÃO EM TEXTOS JURÍDICOS E O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DE FUTUROS JURISTAS
Rosalice Pinto (Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa)
Email: rpinto@fcsh.unl.pt; rosapinto1@netcabo.pt
Resumo: Como sabemos, os textos que circulam nas esferas ou atividades jurídicas são produções fortemente institucionalizadas, apresentando características micro-linguísticas com elevado grau de estabilidade. Dessa forma, a aprendizagem sistematizada da produção textual desses textos é frequentemente negligenciada. A própria Universidade estimula, muitas vezes, os graduandos da faculdade de Direito a utilizar ´modelos prontos´ já disponíveis em livros teóricos da área para a produção das diversas peças processuais. Face a este contexto, esta contribuição, perspectivada em uma abordagem textual-discursiva (Bronckart, 1999; Maingueneau, 1998; Adam, 2008), em diálogo com preceitos teóricos jurídicos, apresenta dois objetivos. Em primeiro lugar, visa a mostrar, por um lado, a relevância do estudo sistematizado de estratégias linguístico-textuais de cunho argumentativo para a produção de textos jurídicos. Em segundo lugar, objetiva apresentar a contribuição das Ciências da Linguagem para o desenvolvimento da produção de textos jurídicos por futuros profissionais nos cursos de Direito. Com isso, salientamos que esses textos têm, em sua maioria, uma dimensão retórico-argumentativa associada às escolhas linguístico-textuais e, assim, o conhecimento, por parte dos alunos, dessa dimensão pode induzi-los à produção de textos mais proficientes, em sua atividade profissional. De forma a atender os objetivos deste trabalho, serão analisadas algumas peças processuais que circularam em Portugal nos últimos dois anos. Concentrar-nos-emos, sobretudo, em dois gêneros textuais: petições iniciais e acórdãos. Os estudos preliminares até agora desenvolvidos, e atestados em sala de aula, já corroboram a relevância do estudo sistematizado de algumas estratégias argumentativas no desenvolvimento da produção textual de futuros juristas.
Palavras-chave: argumentação; textos jurídicos; desenvolvimento profissional; Interacionismo Sociodiscursivo
Bibliografia de referência:
Adam, J.-M. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, 2008.
Bronckart, J.-P. Atividade de linguagem, textos e discursos. Por um interacionismo sócio-discursivo. Tradução de Anna Rachel Machado e Péricles Cunha. São Paulo: EDUC, 1999.
Bronckart, J.-P. Notas de aula Summer School. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2014.
Maingueneau, D. Analyser les textes de communication. Paris : Dunod, 1998.

10. ESTRATÉGIAS DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS MULTIMODAIS PARA OS ENSINOS MÉDIO E TÉCNICO
Denise Landi Corrales Guaranha (Escola Técnica Estadual Martin Luther King – ETECMLK)
Email: d-guaranha@uol.com.br
Resumo: Este trabalho apresenta os resultados de uma experiência de ensino e aprendizagem da língua portuguesa para alunos do ensino médio integrado ao técnico das áreas de Gestão e Indústria na Escola Técnica Estadual Martin Luther King, pertencente ao Centro Paula Souza, em São Paulo, Brasil. A experiência consiste no desenvolvimento de uma sequência didática que vai da leitura à produção de textos multimodais com a finalidade de desenvolver essas habilidades dos discentes por meio da prática. O trabalho parte do conceito de texto como um objeto verbal e visual que se constrói por intermédio das múltiplas modalidades da linguagem. Nesse sentido, os alunos são estimulados a lerem um texto literário em língua inglesa e as diferentes traduções dessa produção; são orientados quanto aos aspectos genéricos, à contextualização da obra, sua importância histórica e sua qualidade literária, por meio de estudos em sala e de leituras críticas; e, finalmente,
são desafiados a elaborarem um trabalho criativo de releitura que deve se materializar por meio de um texto multimodal, de preferência em um gênero diferente do original, cujos recursos extralinguísticos utilizados nessa construção estejam relacionados à área de interesse desses indivíduos. Os resultados dessa experiência, que apresentaremos nesta comunicação, têm sido surpreendentes à medida que revelam a capacidade dos alunos para articular os diversos recursos comunicativos aos verbais; produzem motivação para o aprendizado; e estimulam o gosto pelas práticas de leitura e escrita desmistificando a ideia do senso comum de que os adolescentes e jovens não gostam de ler e escrever.
Palavras-chave: língua portuguesa; prática pedagógica; ensino técnico; gêneros; textos multimodais
Bibliografia básica:
DIONÍSIO, Ângela. Gêneros multimodais e multiletramento. In: KARWOSKI, Mário Alcir et al. (Org.). Gêneros textuais: reflexões e ensino. Palmas – PR: Kaygangue, 2005.

11. AS SEQUÊNCIAS TEXTUAIS ARGUMENTATIVAS NA PRÁTICA DE ESCRITA PARA A FORMAÇÃO PROFISSIONAL DA ÁREA DO DIREITO
Ana Lúcia Tinoco Cabral (Universidade Cruzeiro do Sul)
Email: altinococabral@gmail.com
Resumo: O objetivo desta comunicação é apresentar reflexões sobre a escrita de textos da área de Direito, focalizando os meios que oferece a língua para a organização textual visando a uma orientação argumentativa e verificando a pertinência do conceito de sequências textuais para a prática de escrita na formação do advogado. O trabalho se insere em projeto de pesquisa Gramática, Texto e Argumentação para a Prática de Leitura e Escrita, vinculado à linha de pesquisa Texto discurso e ensino: processos de leitura e produção de texto escrito e falado e ao grupo de pesquisa Teorias e práticas discursivas e textuais. O objetivo do projeto é investigar estratégias linguísticas, textuais-discursivas que propiciem a superação de dificuldades de leitura e escrita em diversos níveis do ensino. No âmbito desse projeto, dedicamo-nos, especialmente no que diz respeito à argumentação, à investigação de estratégias para a prática de produção textual voltada para
estudantes universitários de diversos níveis, visando inclusive à sua formação profissional, entre os quais incluem-se os estudantes de Direito. Considerando tal objetivo, o Corpus de análise do projeto constitui-se, entre outros, de petições, contestações, sentenças, artigos científicos, textos com fins didáticos. Para esta comunicação apresentaremos uma análise de trabalho de escrita baseado na aplicação do conceito de sequência textual argumentativa. Desse ponto de vista, considera-se a organização da textualidade em sequências textuais, especialmente as argumentativas (Toulmin, 2001[1958]; Adam, 2011). Propomo-nos a avaliar a pertinência da aplicação desse conceito para o aperfeiçoamento da escrita visando à preparação dos alunos ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil exigido para a prática advocatícia. Para tanto, apresentarei a análise de respostas a questões retiradas de exames da Ordem, comparando respostas dadas antes da apresentação
do modelo teórico com respostas dadas após o estudo do conceito de sequência textual argumentativa.
Palavras-chave: escrita; formação profissional; Direito; sequência argumentativa.
Bibliografia básica:
ADAM, J-M. A Linguística Textual - introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, 2011.
CABRAL, A. L. T. Plano de texto: estratégia para o planejamento da produção escrita. IN: Revista Linha D’ Água. Número 26 - 2 segundo semestre de 2013. Programa de Pós-graduação em Filologia e em Língua Portuguesa - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, - Universidade de São Paulo. p.241-259.
TOULMIN, S. Os Usos do Argumento. São Paulo: Martins Fontes, 2001[1958].

12. INTERDISCIPLINARIDADE NOS ENSINOS DA LÍNGUA PORTUGUESA E DA MATEMÁTICA EM CURSOS TECNOLÓGICOS: ESTRATÉGIAS DE LÓGICA E LINGUAGEM
Manoel Francisco Guaranha (UNICSUL - Universidade Cruzeiro do Sul/FATEC - Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo)
Email: m-guaranha@uol.com.br
Juliano Cavalcante Bortolete (FATEC - Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo)
Email: juca_sax@hotmail.com
Resumo: Atualmente, muito se fala sobre interdisciplinaridade, mas nem sempre a escola tem estimulado os alunos a pensarem nos fenômenos estudados de modo integrado nem tem procurado desenvolver estratégias interativas de leitura que deem conta de propiciar ao estudante a possibilidade de ele: a) construir um conhecimento capaz de habilitá-lo a compreender e, consequentemente, produzir textos coesos e coerentes; b) aplicar conhecimentos matemáticos na resolução de problemas práticos e compreender a Matemática como um instrumento formal de expressão e comunicação, que procura dar conta de aspectos do real, para várias ciências. Neste trabalho levamos em conta os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio no que diz respeito à interdisciplinaridade: "Todas as linguagens trabalhadas pela escola [...] são por natureza 'interdisciplinares' com as demais áreas do currículo: é pela linguagem – verbal, visual, sonora, matemática, corporal ou outra – que os conteúdos curriculares se constituem em conhecimentos, isto é, significados que, ao serem formalizados por alguma linguagem, tornam-se conscientes de si mesmos e deliberados". Esta pesquisa integra um projeto voltado, notadamente, para o ensino tecnológico e procura integrar os estudos de Língua Portuguesa e de Matemática, dois pilares fundamentais para todas as áreas do conhecimento, e investiga a possibilidade de se compreender a linguagem verbal por meio da estrutura lógica que permeia as construções linguísticas. Para isso propõe uma estratégia de leitura de textos valendo-se da decomposição deles em proposições lógicas e do encadeamento dessas proposições em expressões matemáticas que revelem as especificidades de ambas as formas de representação da realidade, bem como os efeitos de sentido que produzem. Mais do que traduzir uma linguagem para outra, o resultado obtido nesta fase da pesquisa foi uma estratégia de aproximação e reflexão sobre as intersecções entre os dois domínios para conscientizar o aluno sobre a estrutura lógica da argumentação e as especificidades da linguagem matemática.
Palavras-chave: Linguística Aplicada; Educação Matemática; Lógica; Argumentação; Interdisciplinaridade.
Bibliografia básica:
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais - Ensino Médio. Brasília: MEC, 2000.
BARKER, Stephen F. Filosofia da matemática. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969.
DUCROT, Oswald. Provar e dizer – leis lógicas e leis argumentativas. São Paulo : Global, 1981.
______________. O Dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.
SCHEINERMAN, Edward R. Matemática discreta – uma introdução. São Paulo: Cengage Learning, 2009.

13. O FORMADOR DE PROFESSORES DE LÍNGUA PORTUGUESA DO PNAIC E SUAS ALTERAÇÕES EM PRÁTICAS PROFISSIONAIS
Elsa Midori Shimazaki (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ)
Email: shimazaki@wnet.com.br e emshimazaki@uem.br
Resumo: O programa Pacto pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), instituído pelo Estado brasileiro, objetiva alfabetizar todas as crianças brasileiras até os 8 anos de idade, sendo sua efetivação realizada por vários profissionais, dentre eles o professor formador, com atribuições de preparar outros professores para atuar junto ao professor alfabetizador, assim, é um docente com características profissionais específicas. Na Universidade Estadual de Maringá-Paraná-Brasil, onze professoras compõem a equipe de professores formadores, sendo seis licenciadas em Pedagogia e cinco em Letras, todas com nível de pós-graduação e experiência em docência na educação básica. Para que esse docente exerça sua função, são realizados encontros semanais de trabalho e estudo, quando são discutidos temas sobre o ensino da língua portuguesa falada e escrita, envolvendo: gêneros textuais; planejamento de ações didáticas; produção textual; ensino da gramática; formas de alfabetização e letramento; etc. A partir da abordagem proposta pela netnografia como pesquisa, apresentamos as contribuições dos estudos para a vida e a prática profissional do professor formador. Elaboramos um instrumento com questões abertas, que foram analisadas pelos pressupostos enunciativos e histórico-cultural. As análises, de cunho qualitativo-interpretativista, mostram que os trabalhos contribuíram para: rever e prever, por meio da teoria, as práticas desse profissional; mudar as concepções a respeito do ensino de língua; apropriar e consolidar conhecimentos sobre metodologia de ensino de língua portuguesa. Profissionalmente, os desdobramentos são muitos, pois as professoras foram convidadas para participar de eventos como palestrantes e membro de mesa redonda; ministrantes de cursos de formação de professores; apresentação de trabalhos em eventos científicos; convidadas para ministrar disciplinas em curso de especialização, além de almejar seleção de pós-graduação stricto-sensu, sendo aprovadas em mestrado e doutorado. Esses resultados demonstram que um programa de formação continuada em nível nacional atinge uma população de professores maior do que o previsto, levando-os a alterações em suas práticas profissionais.
Palavras-chave: Professor de Língua Portuguesa; formador; PNAIC; práticas profissionais.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. 2009 [1952]. Estética da criação verbal. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes.
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. 2013. Cadernos de formação. Disponíveis em http://pacto.mec.gov.br/images/pdf/Formacao. Acesso em 12/11/2014.
VIERIA-ABRAHÃO. 2012. A formação do professor de línguas de uma perspectiva sociocultural. In: Universidade Estadual de Londrina. Signum: estudos da linguagem. Londrina: Eduel, P. 457-480.
VYGOTSKY, L. S. 2000.Psicologia pedagógica, São Paulo: Martins Fontes, 2000a.
__________. 2003. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes.

14. O ENSINO DE ASPETOS PRAGMÁTICOS A RECECIONISTAS DE HOTEL EM FRANÇA
Sara Lopes (Centro de Linguística da Universidade do Porto / Laboratoire Parole et Langage, Université d'Aix-Marseille)
Email: sara.lopes@univ-amu.fr
Resumo: O presente trabalho nasce da necessidade de formar profissionais da hotelaria em França, um país que recebeu em 2012 cerca de 270 mil turistas portugueses (Mémento du Tourisme, 2012). É nosso objetivo formular uma reflexão sociolinguística e didática sobre o discurso especializado dos rececionistas em hotelaria, com o intuito de propor pistas didáticas de ensino de aspetos pragmáticos da língua portuguesa a locutores não lusófonos. O público de prática profissional tem condicionantes especiais, por conseguinte, necessita de uma formação adequada às especificidades do contexto-ação (Mourlhon-Dallies, 2008).
Partiremos das noções de género de Swales (1990) e de discurso especializado de Moirand & Felten (2007) para um trabalho de descrição linguística do discurso oral dos rececionistas de hotel. Este compreende tanto o plano linguístico, como a lógica do domínio profissional, daí a necessidade de recolher dados sobre estas duas componentes. Para tal, iremos seguir as propostas de Mangiante & Parpette (2008) no que concerne à construção de uma formação do ensino da língua estrangeira a um público profissional. Esta conceptualização baseia-se em etapas: 1ª: análise das necessidades, 2ª: recolha de dados, 3ª: análise dos dados e 4ª: elaboração das atividades. Depois de terem sido identificadas as necessidades e recolhidos os dados através de entrevistas, inquéritos e diálogos observados na receção de um hotel, procederemos a uma análise de dois aspetos da Pragmática relevantes neste discurso: as formas de tratamento e os atos indiretos. A análise será primordial para a construção de módulos didáticos destinados a aprendentes que devem atingir o nível B1 do QECRL e que apresentaremos no final deste trabalho. Pretende-se que as propostas sejam úteis para professores ou autores de manuais escolares que se dediquem a formar futuros profissionais da hotelaria.
Palavras-chave: Português para fins específicos; hotelaria; oral; pragmática; ensino
Bibliografia básica:
LEECH, Geoffrey (1983). « A survey of the interpersonal Rhetoric”, in Principles of Pragmatics ». London and NY: Longman, pp. 131-151.
MANGIANTE, Jean-Marc. & PARPETTE, Chantal (2008). Le Français sur Objectif Spécifique: de l’analyse des besoins à l’élaboration d’un cours. Paris : Hachette.
MOIRAND, Sophie & FELTEN, Geneviève Tréguer-. (2007). « Des mots de la langue aux discours spécialisés, des acteurs sociaux à la part culturelle du langage : raisons et conséquences de ces déplacements », ASp, nº 51-52.
MOURLHON-DALLIES, Florence (2008). Enseigner une langue à des fins professionnelles. Col. Langues et didactique. Paris : Didier.
SWALES, John M. (1990). Genre Analysis - English in academic and research settings. Cambridge : Cambridge University Press.

15. O TRABALHO DOCENTE COM A LEITURA EM UMA ENTREVISTA DE AUTONCONFRONTAÇÃO SIMPLES: POSSIBILIDADES DE COMPREENSÃO E FORMAÇÃO DO AGIR DO PROFESSOR
Sandra Memari Trava (Universidade São Francisco – USF)
email: stmemari@ig.com.br
Luzia Bueno (Universidade São Francisco – USF)
email Luzia_bueno@uol.com.br
Resumo: Este resumo tem por objetivo refletir sobre a importância da metodologia da autoconfrontação simples, em intervenções nas situações de trabalho do dia a dia dos profissionais da educação, visando a formação profissional dos mesmos. A autoconfrontação simples é uma metodologia desenvolvida pela Clinica da Atividade (CLOT,2010), consiste em analisar a atividade de trabalho dos próprios trabalhadores, confrontando-a às sequências de imagens em que eles mesmos aparecem trabalhando. Esse método tem por objetivo principal fazer da atividade vivida o objeto de uma outra experiência, ou atividade presente, por meio da linguagem, provocando o sujeito a pensar sobre a mesma e ressignificá-la (CLOT, 2010). Também trazemos como pressupostos teóricos a abordagem do ISD (Interacionismo Sociodiscursivo), Bronckart (1999, 2006); Machado (2004); Bueno (2007, 2011), juntamente aos aportes teóricos da Ergonomia da Atividade (AMIGUES, 2004; SAUJAT, 2004). A coleta de dados foi realizada em uma escola pública da Rede Estadual de Ensino Paulista, tendo como sujeito de pesquisa uma professora alfabetizadora voluntária. Os dados foram coletados por meio, videogravação das aulas e posteriormente a realização da entrevista de autoconfrontação simples. Alguns resultados nos permitem enfatizar a complexidade do trabalho docente e a necessidade do professor em responder as várias demandas que a profissão de professor impõe com práticas de leitura na escola. Acreditamos que essa metodologia possa contribuir nas diversas áreas da educação, linguística, sociologia e psicologia bem como para a formação dos profissionais da educação do Ensino Fundamental I.
Palavras-chave: Autoconfrontação simples; formação de professor; trabalho docente.
Bibliografia básica:
CLOT, Yves. 2010. Trabalho e poder de agir. Trad. Guilherme J.F. Teixeira e Marlene M.Z Vianna. Belo Horizonte: Frabrefactum,
BRONCKART, J. P. 1999. Atividade de linguagem, texto e discurso: por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: EDUC.
_________________. 2006. Atividade de Linguagem, discurso e desenvolvimento humano. Org. Anna Rachel Machado. Campinas, SP: Mercado de Letras.
AMIGUES, R. 2004. Trabalho do professor e trabalho de ensino In: A.R. MACHADO. O ensino como trabalho. Uma abordagem discursiva. Londrina: Eduel.
MACHADO, Anna Rachel (org.). 2004. O ensino como trabalho uma abordagem discursiva. Londrina: Eduel.

16. O GÊNERO RELATÓRIO NAS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA: UM INSTRUMENTO SEMIÓTICO PARA O AGIR PROFISSIONAL EM CURSOS SUPERIORES DE TECNOLOGIA
Sueli Correia Lemes Valezi
Email: suelivalezi@uol.com.br
Resumo: Este trabalho tem o objetivo de apresentar os resultados obtidos com o processo de implementação de uma sequência didática sobre o gênero relatório nas aulas presenciais de Língua Portuguesa em um Curso Superior de Tecnologia em Sistemas para Internet – cuja formação centra-se na qualificação profissional para o trabalho na área informática – utilizando um ambiente virtual de aprendizagem (AVA). Os dados para a análise foram coletados em duas fases de investigação: a implementação da sequência didática ocorrida em 2012, período de realização da pesquisa de doutoramento, e a sua reformulação e reimplantação no ano de 2014. As bases epistemológicas para este trabalho filiam-se à Linguística Aplicada, em uma perspectiva multidisciplinar, com destaque para os aportes do Interacionismo Sociodiscursivo (ISD), com Bronckart (1999, 2006, 2008) e suas investigações baseadas na compreensão de que os textos configuram como produtos empíricos para a análise e a interpretação do agir humano. Bronckart (1999) concentrou-se em torno de um significativo conjunto de textos com o intuito de construir um quadro epistemológico de análise desses produtos empíricos, contribuindo, assim, com um aporte teórico para a descrição e consequente modelização de um gênero de texto, considerando os parâmetros físicos e sociossubjetivos, e os parâmetros constitutivos dos níveis de análise linguístico-discursiva – organizacional, enunciativo e semântico. De perspectiva qualitativa-interpretativista, esta pesquisa utilizou, como instrumento de coleta de dados, a pesquisa-ação. Com o processo de implementação do gênero relatório, foi possível observar que, embora ele não constitua um instrumento semiótico comum às ações dos professores da área de informática, como o é em diversas áreas profissionais, ele funcionou como um objeto de ensino adequado para o desenvolvimento de capacidades de linguagem e,
consequentemente, para a construção de novos modelos de agir dos alunos, atendendo, assim, tanto à formação acadêmica quanto profissional.
Palavras-chave: Formação Profissional; Gêneros de Texto; Sequência Didática.
Bibliografia básica:
BRONCKART, J. P. Atividade de Linguagem, Textos e Discursos: por um interacionismo sociodiscursivo. 2. ed. Trad. Anna Rachel Machado e Péricles Cunha. São Paulo: EDUC. 1999.
______; MACHADO, Anna Rachel. Procedimentos de análise de textos sobre o trabalho educacional. In: MACHADO, Anna Rachel (org.). O Ensino como Trabalho: uma abordagem discursiva. Londrina: Eduel, 2004.
______. Atividade de Linguagem, Discurso e Desenvolvimento HumanoAnna Rachel Machado e Maria de Lourdes Meirelles Matencio (orgs.); (Trad.) Anna Rachel Machado e Maria de Lourdes Meirelles Matencio et al. Mercado das Letras: Campinas – SP, 2006.
______. O agir nos discursos: das concepções teóricas às concepções dos trabalhadores. (Trad.) Anna Raquel Machado, Maria de Lourdes Meirelles Matêncio. Campinas-SP: Mercado de Letras, 2008.

17. UM ESTUDO EXPLORATÓRIO SOBRE PRESCRIÇÕES, EXPECTATIVAS E NECESSIDADES ACERCA DA PRODUÇÃO ESCRITA DE ALUNOS EM UM CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO NA ÁREA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS (MBA)
Marcelo Concário (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP)
Email: mconcario@faac.unesp.br
Resumo: Este trabalho resulta de um estudo exploratório, iniciado a partir do convite para ministrar um módulo intitulado “Escrita acadêmica e trabalho de conclusão de curso (TCC)”, com duração de cinco horas, em duas turmas de especialização na área de Administração de Empresas (MBA), ofertado por uma Fundação em uma renomada universidade pública do estado de São Paulo, Brasil. O objetivo é descrever as impressões do professor-pesquisador acerca das prescrições da instituição promotora do MBA, e das expectativas e necessidades verbalizadas pelos alunos durante as aulas. Com base na comunicação entre o pesquisador e a equipe administrativa do MBA, nos registros e nas anotações do professor-pesquisador, e nas manifestações de alunos, verifica-se que os conceitos implícitos de “escrita acadêmica” são difusos, deficientes e conflitantes. Há muitos indícios de que tanto a instituição como os alunos possam ter expectativas de que intervenções destinadas a aprimorar habilidades de produção escrita se restrinjam ao ensino e à revisão de aspectos formais, e pontuais, da língua-alvo e de normas relativas à formatação de textos acadêmicos escritos. Ou seja, há grande foco na escrita enquanto produto. Por se tratar de uma investigação impressionista, exploratória, os resultados servem mais para identificar possíveis aspectos a serem estudados em maior profundidade, por exemplo: o papel do professor de línguas na explicitação de objetivos da formação em programas de educação profissionalizante e/ou ensino superior; a necessidade de reforçar – continuar reforçando – os aspectos processuais da linguagem, comunicação e expressão verbal; a relevância do letramento crítico na escola, em seus diferentes níveis; a aparentemente grande necessidade – em contextos de formação profissional no Brasil – de ressignificar vivências da escrita que adultos já tenham experimentado em outras instituições de ensino; e a promoção de autoconfiança na comunicação formal em ambientes profissionais e acadêmicos.
Palavras-chave: português como língua materna; português para fins específicos; escrita acadêmica; educação profissional; interdisciplinaridade
Bibliografia básica:
BYRNES, H. (Ed.) Advanced language learning. The contributions of Halliday and Vygotsky. New York: Continuum, 2006.
COOK-GUMPERZ, J. The social construction of literacy. 2. ed. Cambridge: CUP, 2006.
SIGNORINI, I. (Org.) Investigando a relação oral/escrito. Campinas: Mercado de Letras, 2001.

18. ESTUDO DAS MARCAS DO BOLETIM DE OCORRÊNCIA E APLICAÇÃO NO ENSINO DO GÊNERO NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE POLICIAIS
Denise dos Santos Gonçalves (Academia de Polícia Militar (APM/MG))
Email: denisegoncalves@yahoo.com
Resumo: Neste trabalho apresentamos resultados de uma pesquisa de Mestrado que buscou identificar marcas do boletim de ocorrência (BO) emitido pela Polícia Militar de Minas Gerais. A pesquisa foi desenvolvida a partir dos modelos de análise de textos propostos pelo Interacionismo Sociodiscursivo e inventariou características que reportam ao contexto de produção e ao folhado textual. Observou-se que o BO se arranja em dois grandes blocos: os campos parametrizados, que acomodam informações em tabelas, e o histórico, espaço em que o texto se apresenta livre da conformidade de quadros. A estrutura do gênero, que privilegia a inserção de informações nos campos parametrizados, atende a demanda institucional que visa a compor banco de dados sobre as informações de segurança pública no estado. Em razão desse arranjo estrutural, o histórico é tomado, à primeira vista, como o único espaço do BO em que se desenvolve a narrativa. Via de consequência, o mesmo arranjo pode sugerir que nos campos parametrizados se acomoda, exclusivamente, a descrição. Abordaremos a constituição da narrativa, sequência predominante no gênero boletim de ocorrência, e demonstraremos, com fundamento nos resultados da pesquisa, um percurso narrativo peculiar, que se desenvolve preliminarmente nos campos parametrizados, antecipando informações a serem consideradas pelo relator por ocasião da elaboração do histórico. Apresentaremos, por fim, relato da aplicação prática de uma check-list, produto da pesquisa, que vem sendo adotada nas atividades de ensino e aprendizagem em cursos técnicos e superiores voltados para a formação de policiais, especificamente em disciplinas que abordam a escrita desses profissionais.
Palavras-chave: escrita profissional; gênero textual; ensino; boletim de ocorrência.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail. 2003 [1979]. Os Gêneros do Discurso. In: ________. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Coleção biblioteca universal). p. 261-306.
BRONCKART, Jean-Paul. 2003 [1997]. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sociodiscursivo. 1ª ed. 3ª reimp. Tradução de Anna Raquel Machado, Péricles Cunha. São Paulo: EDUC.
________. Atividade de linguagem, discurso e desenvolvimento humano. 2006. Tradução de Anna Raquel Machado e Maria de Lourdes Meirelles Matêncio (orgs.). Campinas, SP: Mercado das Letras.
________. Um retorno necessário à questão do agir. 2013. In: BUENO, Luzia; LOPES, Maria Ângela Paulino Lopes; CRISTOVÃO, Vera Lúcia Lopes (orgs.). Gêneros textuais e formação inicial: uma homenagem a Malu Matêncio. 1. Ed. Campinas, SP: Mercado das Letras. p. 85-107. (Série Ideias sobre Linguagem).
MARCUSCHI, Luiz Antônio. A. 2008. Gêneros textuais no ensino de língua. In: Marcuschi, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial. (Educação linguística). p. 146-225.

19. A PRÁTICA PROFISSIONAL JURÍDICA NO GÉNERO ACÓRDÃO
Carla Teixeira (Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, CLUNL)
Email: carla.teixeira@fcsh.unl.pt
Resumo: Situando-se no quadro teórico do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart 2003, Bronckart 2008), este trabalho foca a relação entre a atividade jurídica e a produção de textos pertencentes ao género acórdão. A partir de um corpus textual do género acórdão, analisar-se-ão segmentos que comprovam a opção por estratégicas que evidenciam a prática jurídica, ao nível das construções frásicas ritualizadas e da a coesão nominal, atendendo aos mecanismos de textualização identificados na arquitetura geral dos textos interacionista. Refletindo sobre a produção de textos técnicos, em geral, e a quem se destina o acórdão, nos referidos segmentos textuais, observar-se-á a construção da figura de um destinatário textual privilegiado e a figura de destinatários textuais secundários. Por outras palavras, para quem escrevem os juízes (ou o juiz relator) quando redigem um acórdão? Para os seus pares ou para os cidadãos? Qual é a instrumentalidade da linguagem usada na atividade jurídica, enquanto fenómeno social (Solan & Tiersman 2012). Como é que é possível definir boas práticas textuais jurídicas, equilibrando questões técnicas e de acessibilidade aos textos técnicos pelo cidadão comum? Respondendo a estas questões, espera-se futuramente sensibilizar os participantes da atividade jurídica do interesse no entendimento dos textos por parte de todos os envolvidos no processo jurídico. As primeiras análises de exemplares do género acórdão apontam para a existência de segmentos textuais que referem normais legais com propriedades intertextuais, detendo um forte caráter técnico e possuindo uma fraca inteligibilidade para o cidadão comum. Outros segmentos, com propriedades argumentativas e mais acessíveis para o cidadão, sustentam o ponto de vista do produtor textual sobre o cumprimento ou não das normas legais no caso concreto.
Palavras-chave: Interacionismo Sociodiscursivo; atividade jurídica; géneros de texto; acórdão
Bibliografia básica:
BRONCKART, J.-B. (2003). Textos e Discursos. Por um Interacionismo Sócio-discursivo. São Paulo: Editora da PUC-SP, EDUC.
BRONCKART, J.-B. (2008). Genre de textes, types de discours et “degrés” de langue. In Texto! Janvier, vol. XIII, nº 1. Disponível em http://www.revue-texto.net/index.php?id=86. Consultado em: 19.07.2013.
SOLAN, L. M. & TIERSMAN, P. M. (2012). Introduction. In Tiersman, P. M. & Solan, L. M. (ed.) The Oxford Handbook of Language and Law. Oxford University Press, pp.1-9.

20. ESTRATÉGIAS DE REFERENCIAÇÃO EM TEXTOS JURÍDICOS
Leonor Werneck dos Santos (UFRJ)
Email: leonorwerneck@gmail.com
Resumo: Neste trabalho, analisaremos o papel das estratégias de referenciação na produção de textos jurídicos portugueses e brasileiros, especialmente petições iniciais e sentenças. Destacaremos de que maneira, neste específico contexto acadêmico e profissional, é necessário acionar conhecimento prévios para identificar os objetos de discurso. Seguindo os pressupostos teóricos atuais da Linguística de Texto, consideramos o texto numa perspectiva sociocognitiva e interacional (cf. Apotheloz & Reichler-Béguelin, 1999; Mondada, 2003; Koch, 2008; Cavalcante, 2011). Consequentemente, o processo de referenciação deve ser visto como uma prática discursiva que pressupõe interação entre os sujeitos do discurso, responsáveis por escolhas significativas para representar os referentes de acordo com a sua proposta de sentido. Como, por meio dos processos referenciais, a imagem do referente vai sendo alterada, à medida que se desenvolve o discurso, o desconhecimento de alguma informação pode dificultar a reelaboração dos objetos de discurso. Nosso objetivo principal é verificar como os processos referenciais presentes no corpus exigem o acionamento de conhecimentos prévios, compartilhados pelo entorno sociocognitivo e cultural, para reconstruir os objetos de discurso e, assim, construir os sentidos no texto. Nem sempre os estudos sobre dêixis e anáfora observam a construção de sentido, por isso, na nossa análise, destacamos o importante papel da dêixis e da anáfora na construção da coesão e da arquitetura argumentativa dos textos. Pretendemos provar que a necessidade de inferências em ambos os processos faz parte da progressão referencial, colaborando na coerência textual. Como conclusões preliminares, pretendemos comprovar que a dêixis, não se opondo aos casos de anáforas diretas e indiretas (incluindo os encapsulamentos), associa-se a elas como um continuum tipológico de maior ou menor grau de deiticidade (cf. Santos & Cavalcante, 2014) e necessidade de inferências para sua compreensão.
Palavras-chave: referenciação; discurso jurídico; ensino; dêixis; anáfora.
Bibliografia básica:
APOTHÉLOZ, D., REICHLER-BÉGUELIN, M-J. Interpretations and functions of
demonstrative NPs in indirect anaphora. Journal of Pragmatics, 31, p. 363-97, 1999.
CAVALCANTE, M. Referenciação: sobre coisas ditas e não ditas. Fortaleza: EdUFC, 2011.
KOCH, I. As tramas do texto. São Paulo: Cortez, 2008.
MONDADA, L.; DUBOIS, D. Construção dos objetos de discurso e categorização: uma abordagem dos processos de referenciação. In: CAVALCANTE, M. et al. (org.). Referenciação. São Paulo: Contexto, 2003. p. 17-52.
SANTOS, L. W. dos; CAVALCANTE, M.;. Referenciação: continuum anáfora-dêixis. Revista Intersecções, ano 7, n. 1, 2014, p. 224-246.

21. A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA: O LUGAR DA EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Ana Isabel Pinto (Escola Superior de Educação do Porto)
Email: anapinto@ese.ipp.pt
Resumo: Hoje em dia é quase inquestionável a presença da Literatura nos documentos oficiais que regulam as práticas de ensino da língua. Tanto a nível das políticas de ensino da língua quer em textos de reflexão teórica, a educação literária mantém o lugar de privilégio que sempre teve no âmbito do ensino da língua. Multiplicam-se os argumentos em prol do valor da leitura literária ainda que os paradigmas, em que o ensino da língua e da Literatura assentam, pareçam ser variados. Por outro lado, os estudos em torno da formação no âmbito da educação literária dos futuros professores de língua são recentes e escassos (Lopes, Costa, & Sampaio, 2011; Paulino, 2010a; 2010b; 2004), sendo por isso uma área onde há muito por explorar. Sendo assim, parece importante compreender, numa conceção de ensino da língua onde parece quase unânime a presença da Literatura como núcleo aglutinador, como é que está a ser formado, nesse contexto, o professor de Português, nas escolas que formam em Educação Básica em Portugal. Para tal, iremos centrar a nossa atenção na formação do professor de Língua Portuguesa, no que à área de Literatura e da didática da língua diz respeito, e compreender quais os saberes que a estes níveis são mais valorizados e que tipo de formação para a educação literária se promove junto dos mesmos. Visa-se, em concreto, com este estudo, compreender como é feita a formação para a educação literária nas Licenciaturas em Educação Básica, por recurso à caraterização das conceções de formação para a Educação Literária que emergem de programas de Unidades Curriculares dos cursos e dos seus intervenientes. Espera-se, assim, com os resultados deste estudo, construir conhecimento não só sobre o carácter potencialmente transformador que processos de formação, como o da formação para a educação literária, podem ter nas práticas e competências de alunos do Ensino Superior, bem como contribuir com dados empíricos para a caracterização, quanto à formação para a Educação Literária, da formação profissional do professor de Língua Portuguesa.
Palavras-chave: Formação de professores; Língua Portuguesa; Educação Literária
Bibliografia básica:
CEIA, C. (2002). O que é ser professor de Literatura. Lisboa: Colibri.
Lomas, C. (org.) (2006). O valor das palavras (II): Gramática, literatura e cultura de massas na aula. Porto: Edições ASA.
PAIVA, A. & MACIEL, F. (2005). Discursos da Paixão: A Leitura Literária no processo de formação do professor das séries iniciais. In A. Paiva, A. Martins, G. Paulino & Z. Versiani (orgs.). Leituras Literárias: discursos transitivos. pp.11 - 125. Belo Horizonte: Autêntica editora/CEALE.
PAULINO, G. (2004). Deslocamentos e configurações do letramento literário na escola. Scripta, v. 7, n.14, pp. 67-78. Belo horizonte
VEN, P. V. de (2009). Paradigmas do ensino da língua materna. In Duarte, R. (coord.). Língua de escolarização: Estudo comparativo. Lisboa: Ministério da Educação.

22. TERMO DE VISITA: ESTRUTURA COMPOSICIONAL E ENSINO
Solange Aparecida Faria Cardoso (Universidade Federal de Uberlândia - Instituto de Letras e Linguística - Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos)
Email: solangejac@yahoo.com.br
Resumo: Os gêneros textuais, eventos dinâmicos que possuem relação intrínseca com as atividades e as necessidades de uma sociedade, englobam as inúmeras situações comunicativas daí ser consenso entre diferentes abordagens de estudo, a relação entre gênero e sociedade. Em uma perspectiva sociorretórica, a análise de gêneros textuais permite iluminar as práticas sociais que lhes estão subjacentes, e identificar regularidades que compõem a organização de informação em uma dada amostra. Nesse sentido, trabalhos que concebem gênero na perspectiva sociorretórica (BIASI-RODRIGUES, 2005; BONINI, 2006) contribuem com a tarefa de “descreverem alguns gêneros escritos que circulam nas esferas acadêmicas e profissionais, cujo domínio é de grande interesse dos indivíduos que deles necessitam para bem desempenharem suas tarefas comunicativas institucionais” (SILVEIRA, 2005, p. 9). Nesta perspectiva, este trabalho tem por objetivo identificar a organização retórica de uma amostra do gênero Termo de Visita por meio da aplicação do modelo CARS, elaborado por Swales (1998). Escolhemos este gênero textual pela importância de, entre outras, não só ordenar as atividades diárias a serem desenvolvidas em uma instituição de ensino, como também a de deixar um registro documentado para possibilitar o desenvolvimento de outras atividades, no futuro, em uma mesma instituição de ensino. De modo mais específico, sob a perspectiva dos gêneros, analisamos as estratégias linguístico-textuais, os protagonistas e o modo de controle e organização estabelecidos no processo de produção escrita desse gênero, no âmbito profissional da Inspeção Escolar. Tomam-se, por corpus, 65 Termos de Visita, produzidos em situação real, durante o ano letivo de 2013 e coletados, por empréstimo, a partir de entrevistas com profissionais da área de Educação da cidade de Uberlândia (MG). Após a aplicação do modelo, apresentamos um quadro indicando as regularidades identificadas no corpus analisado e uma proposta para o ensino de produção de Termo de Visita nos cursos de Inspeção Escolar.
Palavras-chave: gênero textual; termo de visita; modelo CARS; análise; ensino.
Bibliografia básica:
BIASI-RODRIGUES, B.; HEMAIS, B. 2005. A proposta sociorretórica de John M. Swales para o estudo de gêneros textuais. In: MEUER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (orgs.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial. p. 108-129.
BONINI, A.; BIASI-RODRIGUES, B.; CARVALHO, G. de. 2006. A análise de gêneros textuais de acordo com a abordagem sócio-retórica. In: LEFFA, V. J. Pesquisa em linguística aplicada: temas e métodos. Pelotas: EDUCAT. p. 182-221.
SWALES, J. (1990). 1998. Genre Analysis. 5th edition. United Kingdom: Cambridge Press.

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SIMPÓSIO 52 - ESTUDOS HISTÓRICOS DO LÉXICO E LEXICOGRAFIA DO PORTUGUÊS

Coordenadores:
Maria Filomena Gonçalves - Universidade de Évora/CIDEHUS-UÉ/FCT - mfg@uevora.pt
Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa - UNESP/FCLAr - jtm.jau@uol.com.br


RESUMOS APROVADOS

1.
Título do trabalho: Padrões do português em cartas pessoais no final do século XIX no Sul do Brasil: contribuções da Linguística de Corpus para os estudos diacrônicos do léxico
Autor(es):
MARIA JOSÉ BOCORNY FINATTO
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Depto. De Linguística, Filologia e Teoria Literária, Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS. Brasil.
E-mail: maria.finatto@gmail.com
Resumo: Este trabalho filia-se à Linguística de Corpus (LC), introduzida no Brasil por Berber Sardinha (2004), pretendendo demonstrar suas contribuições para estudos diacrônicos do léxico com corpora de pequenas dimensões em termos do número de palavras. A LC é metodologia de investigação de línguas em uso, mas também disciplina e abordagem teórica, com princípios específicos. Caracterizada pela utilização de grandes acervos de textos em formato digital, cuja exploração é feita em grandes massas de dados, com apoio computacional e forte tratamento estatístico, a LC estabelece que esses acervos visam exemplificar um determinado tipo de uso ou estado de língua. A LC brasileira presta importantes contribuições, mas segue bastante desconhecida como auxiliar para diferentes tipos de estudos, especialmente os diacrônicos, embora haja exemplos importantes da sua instrumentalização em vultosos projetos de cunho diacrônico apoiados por grandes corpora –
dicionários e acervos de pesquisa - como o PHPB (GALVES, FARIA, 2010) e o DHPB (MURAKAWA, 2014). Tentando diminuir esta lacuna, demonstramos a utilidade de procedimentos básicos de LC para estudos de padrões lexicais em dois pequenos corpora de cartas pessoais brasileiras do século XIX. O primeiro é um corpus de 11 cartas pessoais transcritas do acervo de pesquisa de Monaretto (2005), com 5.520 palavras, legado documental da família de Júlio de Castilhos (1860-1903), importante figura da política e da história gaúcha do Sul do Brasil no século XIX. Esses textos de 1883 a 1890, explorados com ferramentas da LC, são comparados com um conjunto de cartas do Acervo Cupertino do Amaral (textos produzidos entre 1873-1895), amostra de 23 cartas pessoais com 4.977 palavras, do projeto Laboratório de História do Português Brasileiro (http://www.letras.ufrj.br/laborhistorico/). Amaral (1852-1906) foi personagem no cenário político do Rio de Janeiro. Nossos resultados iniciais
evidenciam, entre outros aspectos, que a variedade lexical proporcional de cada conjunto documental e a frequência de palavras gramaticais como QUE, elementos básicos em estatística lexical (BIDERMAN, 1996) e em LC, são indicativos da inter-relação fala/escrita nesses documentos. Por fim, apresentamos outras técnicas úteis para estudos de Linguística Histórica envolvendo comparações estatísticas lexicais entre dados de corpora pequenos e grandes.
Email: maria.finatto@gmail.com
Palavras-chave: Linguística de Corpus; estatística lexical, cartas pessoais, diacronia, escrita, século 19.
Bibliografia básica:
BERBER SARDINHA, Tony. Lingüística de Corpus. Barueri –SP: Manole, 2004.
BIDERMAN, M. T. Léxico e Vocabulário Fundamental. Alfa, São Paulo, v. 40, p. 27-46, 1996.
GALVES, Charlotte; FARIA, Pablo. 2010. Tycho Brahe Parsed Corpus of Historical Portuguese. Disponível em: http://www.tycho.iel.unicamp.br/~tycho/corpus/en/index.html.
MONARETTO, Valéria Neto de Oliveira. O estudo da mudança do som no registro escrito: fonte para o estudo da fonologia diacrônica. In: Letras de Hoje, v.40, n. 3, 2005.
MURAKAWA, Clotilde de A. Conhecendo o Dicionário Histórico do Português do Brasil – séculos XVI, XVII e XVIII: sua história e metodologia. In: ISQUERDO, Aparecida N.; DAL CORNO, Giselle O. (Orgs.) As Ciências do Léxico. Campo Grande – MT, Editora da UFMS, 2014. p. 267-286.

2.
Título do trabalho: O campo léxico “objetos” em impresso do século XVI
Autor(es):
Rejane Centurion Gambarra e Gomes
(USP/UNEMAT/FAPESP)
rejanecenturion@usp.br
Resumo: A Historia da prouincia Sãcta Cruz a que vulgarmete chamamos Brasil é considerada a primeira história escrita sobre o Brasil, a partir da qual Pero de Magalhães de Gândavo (1576) trata de diversos aspectos da nova província: fauna, flora, capitanias, habitantes, entre outros. Tomamos como recorte para estudo do aspecto lexical, os capítulos acerca do nativo, categorizando substantivos em campos léxicos (COSERIU, 1977), de forma a procurarmos compreender o processo de nomeação do colonizador frente ao novo mundo. Como procedimento metodológico para o levantamento das lexias, utilizamos o programa de estatística textual Léxico 3. Para atestação das lexias e aferição das acepções, consultamos dicionários coevos e não coevos de Gândavo (BLUTEAU, 1712-1721; CARDOSI, 1562; HOUAISS, 2009; PEREYRA, 1647). A importância do campo “objetos” se dá por considerarmos necessário conhecer os nomes empregados pelo não nativo para se referir aos objetos
(utensílios e/ou instrumentos) utilizados pelos nativos, pois, assim, além de conhecer aspectos relacionados ao processo de nomeação, conhecemos o conjunto de objetos citados pelo autor. Constituído o campo, os usos das lexias mostram que dos vinte e três itens presentes no corpus, dezesseis deles são empregados apontando a utilização dos objetos em combates e em situações de vingança e/ou morte, restando sete, os quais apontam utilização em situações diferentes, predominando, portanto, o emprego do primeiro grupo de lexias. Como resultado analítico, procuramos mostrar como os itens do campo léxico em questão podem indicar a construção de imagens do nativo pelo não nativo. O objeto desta comunicação é um dos seis campos analisados em nossa nossa pesquisa de doutorado, a qual está ligada ao programa de pós-graduação em Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), ao Departamento de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso
(UNEMAT), e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Email: rejanecenturion@usp.br
Palavras-chave: século XVI – Gândavo – campo léxico – objetos – imagens
Bibliografia básica:
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712-1721. 10 vol. Disponível em: http://purl.pt/13969/4/ Acesso em: 19.ago.2013.
CARDOSI, Hieronymi. Dictionarivm ex lvsitanico in latinvm sermonem. Ex Officina Ioannis Aluari typographi Regij, 1562. Disponível em: http://purl.pt/15192 Acesso em: 19.ago.2013
COSERIU, Eugenio. Principios de Semántica Estructural. Madrid: Editorial Gredos, 1977.
HOUAISS eletrônico. Versão monousuário 3.0. Instituto Antônio Houaiss. Objetiva, 2009.

3.
Título do trabalho: O 'campo das cores' no Dicionário Histórico do
Português do Brasil (sécs. XVI-XVIII)
Autor(es):
Maria Filomena Gonçalves
Universidade de Évora / CIDEHUS-UÉ / FCT
mfg@uevora.pt
Resumo:
Os cromónimos são um dos mais curiosos e complexos microssistemas lexicais de uma língua, já que o campo das cores traduz bem a estreita relação entre léxico, sociedade e e cultura. Por ser um fenómeno de percepção sensorial, além dos aspectos físicos/fisológicos, a cor envolve aspectos psicológicos e culturais, os quais naturalmente se reflectem nos nomes das cores, porque nomear comporta, de algum modo, uma definição. Por isso mesmo, descrever esse microssistema supõe reunir e definir as denominações das cores e das suas 'nuances' mas também as expressões, locuções e provérbios formados com um “termo” de cor (Mollard-Desfour, 2011: 90).
O objectivo desta comunicação é analisar os nomes das cores e os vários tipos de sintagmas cromáticos presentes quer no “banco de textos” do Dicionário Histórico do Português do Brasil (séculos XVI a XVIII), quer nos verbetes do DHPB. Embora o 'campo das cores' registe elevada frequência nos domínios da fauna e da flora (Martins & Zavaglia, 2013), existem denominações e referências cromáticas em muitos outros domínios.
A partir das unidades e expressões coligidas no “banco de textos”, analisaremos os nomes de cor “directos” – cromónimos propriamente ditos – e os “indirectos” ou “referenciais” (Mollard-Desfour, 2011: 90), vale dizer, denominações criadas metaforicamente ou por analogia com os referentes de origem –, de maneira a serem identificados os processos denominativos, os tipos de denominações e a possível existência de uma dinâmica cromática ao longo de três séculos de história lexical do português.
Email: mfg@uevora.pt
Palavras-chave:
léxico; Dicionário Histórico do Português do Brasil; cromónimos; sintagmas cromáticos; campo das cores
Bibliografia básica:
BIDERMAN, Maria Teresa, Maria Fernanda B. NASCIMENTO, L. PEREIRA (2007): “Uso das cores no português brasileiro e no português
europeu”. In: Aparecida Negri Isquierdo & Ieda Maria Alves. (eds.), As ciências do léxico: Lexicologia, lexicografia, terminologia, vol.
III. Campo Grande/São Paulo: UFMS/Humanitas, 105-124.
CORREIA, Margarita (2007): “Towards a general description of the semantic field of ‘colour’ in European Portuguese”. In: C.P. Biggam & Christian J. Kay (eds.), Progress in colour studies, 1: Language and Culture. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 111-125.
BIDERMAN, Maria Teresa & Clotilde de A. A. MURAKAWA coords (2012): Dicionário Histórico do Português do Brasil (séculos XVI, XVII, XVIII), 12 vols. Araraquara: FCL.
MARTINS, Sabrina de Cássia & Cláudia ZAVAGLIA (2013): “As cores da fauna e da flora: um dicionário especial”. Estudos linguísticos.
São Paulo, 42 (1), jan-abr, 245-256.
SILVESTRE, João Paulo, Alina VILLALVA, Paulo, PACHECO: “The spectrum of red colour names in Portuguese”. Disponível em:
http://doc.gold.ac.uk/aisb50/AISB50-S20/aisb50-S20-silvestre-paper.pdf

4.
Título do trabalho: TRAÇOS DO LÉXICO NORDESTINO EM MEMORIAL DE MARIA MOURA, DE RAQUEL DE QUEIROZ
Autor(es): Carlos Alberto de Souza - Universidade Federal do Ceará - carlosalsouza@hotmail.com
Resumo: O presente estudo visa apresentar um projeto dicionarístico para elaboração de um glossário do linguajar regional popular no romance Memorial de Maria Moura (1992), de Rachel de Queiroz que compõe a tese defendida na Universidade Federal do Ceará-Brasil, em outubro de 2013, intitulada A linguagem regional-popular nos romances de Rachel de Queiroz. O objetivo maior é descrever o léxico regional característico do Nordeste brasileiro, de modo especial, o do Ceará, terra natal da escritora. Acreditamos que uma pesquisa, nestes moldes, está revestida de importância para os estudos linguísticos, por tratar-se de uma pesquisa de natureza sócio e etnolinguística, a qual investiga a variação da linguagem em seu contexto social, mais precisamente, no que diz respeito ao processo linguístico e à cultura regional nordestina, anotados no glossário a que nos propusemos realizar, como forma de cooperar com algumas lacunas da Lexicologia e Lexicografia, mormente, a
regional nordestina, para a fortuna crítica da obra de Rachel de Queiroz. Para a realização desta pesquisa, adotamos a abordagem indutivo-dedutiva, por ela ser adequada à investigação dos fenômenos da variação linguística perseguida aqui, em suas diferentes perspectivas. Este estudo desenvolveu-se à luz dos princípios teóricos da Lexicologia e da Lexicografia, que foram utilizados conforme Aragão (2006), Krieger et al (2006), Biderman (2001), Isquerdo (1998) e Barbosa (1991), para a elaboração de um glossário dos itens lexicais que constituem o regionalismo presente em Memorial de Maria Moura (1992). Ao término da nossa proposta de glossário, confirmamos, a um só tempo que o léxico dos diferentes personagens do romance marca, além da variação regional, outros tipos de variação, como as sociais e as culturais. As variações linguísticas na linguagem regional-popular são marcadamente léxico-semânticas; e as variáveis regionais e socioculturais
empregadas pelos personagens do romance em estudo advêm da relação entre linguagem, sociedade e cultura.
Email: carlosalsouza@hotmail.com
Palavras-chave: Regionalismos, Linguagem popular, Léxico, Literatura regional.
Bibliografia básica:
ARAGÃO, M. S. S. de.Motivações significativas de itens lexicais da linguagem regional-popular nos
atlas lingüísticos regionais brasileiros. 2006. Disponível em . Acesso em 02.03.2012.
BIDERMAN, Maria Tereza Camargo.Os dicionários na contemporaneidade: arquitetura, métodos e técnicas. In:
OLIVEIRA, A. M. P.; ISQUERDO, A. N. (Orgs.) As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. Campo Grande-MS: Ed. UFMS, 2001. p.129-142.
BARBOSA, Maria Aparecida. Lexicologia, lexicografia, terminologia, terminografia: objeto, métodos, campos de
atuação e de cooperação. In: SEMINÁRIO DO GEL – XXXIX. Anais... Franca: UNIFRAN, 1991a, p.1-11.
ISQUERDO, Aparecida Negri.Vocabulário do seringueiro: campo léxico da seringa.In: OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de. ; ISQUERDO, Aparecida Negri; FINATO, (Orgs). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande: Editora da UFMS, 1998.
KRIEGER, Maria da Graça et al. Glossário de gestão ambiental. São Paulo: Disal, 2006.

5.
Título do trabalho: Estudo semântico-lexical de manuscrito oitocentista a partir de obras lexicográficas do século XVIII ao XXI
Autor(es): Milena Borges de Moraes (UNEMAT/USP/FAPEMAT). milenaborges@usp.br
Resumo: Ancorada no Projeto de Pesquisa História e variedade do português paulista às margens do Anhembi, coordenado pelo Prof. Dr. Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, docente da Universidade de São Paulo – USP, e como parte da minha pesquisa de doutoramento vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa, USP, a presente comunicação objetiva realizar um estudo semântico-lexical de itens lexicais extraídos do manuscrito “Memoria sobre o plano de guerra offensiva e deffensiva da Capitania de Mato Grosso”, um documento oficial datado de 31 de janeiro de 1800, no Forte Coimbra, Capitania de Mato Grosso, pelo Tenente-Coronel Engenheiro Ricardo Franco de Almeida Serra. Como procedimento analítico, selecionamos as abonações de cada item lexical no contexto realizado na língua escrita desse manuscrito; a representação canônica e acepção deles presentes em obras lexicográficas pertencentes às várias fases da línguaportuguesa, compreendendo desde o século XVIII (século em que foi datado o manuscrito Memoria) até o século XXI (fase deste estudo), a saber: Vocabulario Portuguez e Latino (1712 - 1728), de Raphael Bluteau; Diccionario da Lingua Portugueza (1813, 2. ed.), de Antonio de Moraes Silva; Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1975, 1. ed.), de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; Dicionário Houaiss eletrônico da língua portuguesa (2009), de Antônio Houaiss. Adotou-se como referencial teórico-metodológico as disciplinas Lexicologia e Lexicografia. Como resultado preliminar, sobressaiu o caráter de manutenção da forma do léxico oitocentista do português brasileiro, e do aspecto semântico porém com expansão de sentido do item lexical, o que caracteriza o enriquecimento do léxico. Refletir um extrato de língua registrado em um documento possibilita-nos vislumbrar a partir de dicionário, "porta-voz" da sociedade de uma época (BIDERMAN, 1978), o caráter de manutenção do
léxico, apesar de ser considerado um sistema aberto. Este estudo é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso.
Email: milenaborges@usp.br
Palavras-chave: Manuscrito oitocentista. Léxico. Dicionário. Manutenção. Expansão.
Bibliografia básica:
BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Teoria lingüística: linguística quantitativa e computacional. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978.
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino: aulico, anatomico, architectonico ... Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712 - 1728. 8 v. Disponível em: .
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss eletrônico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.
MORAES SILVA, Antonio. Diccionario da lingua portugueza. 2. ed. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. Disponível em: .

6.
Título do trabalho: Os relatos de viagem como fonte do DHPB: paralexicografia e definição lexicográfica
Autor(es): Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa - Faculdade de Ciências e Letras - Programa de Pós-graduação em Linguística e Língua Portuguesa UNESP - Araraquara
E-mail: jtm.jau@uol.com.br
Resumo:
Os relatos de viagens escritos por viajantes e missionários portugueses no período dos séculos XVI ao XVIII, têm-se constituído em precioso material de estudo não só para aqueles que desejam conhecer a história, a geografia, a cultura , os usos e costumes do período, mas também e principalmente para conhecer a língua portuguesa documentada em tais relatos.
O projeto do Dicionário Histórico do Português do Brasil- séculos XVI, XVII e XVIII (DHPB) organizou um banco de dados com documentos/textos dos séculos XVI, XVII e XVIII e nele incluiu inúmeros relatos, cuja importância aparece refletida na construção dos verbetes do referido dicionário. Assim, das descrições feitas pelos viajantes sobre a flora e fauna brasileiras, pode-se observar a existência de processos paralexicográficos; ou seja, tais relatos não sendo dicionários e não tendo por objetivo ser obra de referência, trouxeram subsídios lexicográficos para o DHPB. O “olhar” do viajante sobre a natureza brasileira e o modo como ele a descreve, permitiu que se estabelecesse uma tipologia da definição, tipologia que se tornou um grande auxiliar para a definição das entradas do DHPB.
Esta apresentação tem por objetivo destacar esses processos paralexicográficos como fonte de produção de definição lexicográfica.
Palavras-chave: Relato de viagem; Lexicografia; definição lexicográfica; paralexicografia
Bibliografia básica:
BOSQUE, I. Sobre la teoria de la definición lexicográfica. Verba, 9,, 1982, p. 105-123.
CASTILLO CARBALLO, M. A. : La macroestrutura del diccionário In: MEDINA GUERRA, A. M. (Coord.) Lexicografía española. Madrid: Ariel, 2003, p.79-101.
HAENSCH, G.: Tipologia de las obras lexicográficas. In: HAENSCH, G. / WOLF Lothar / ETTINGER, S./ WERNER, R.. La Lexicografia. De la Lingüística Teórica a la Lexicografia Práctica. Madrid: Editorial Gredos, 1982, p.95-187.
IMBS, Paul. Au seuil de la lexicographie.: Cahiers de Lexicologie. Vol. 2, 1960, p. 3-17.
PORTO DAPENA, J.- A. Manual de técnica lexicográfica. Madrid, Arco/Libros, S.L, 2002 REY-DEBOVE, J.. Léxico e Dicionário. Trad. Clóvis Barleta de Moraes. Revista Alfa, vol. 28 (suplemento), São Paulo, 1984, p. 45-69.

7.
Título do trabalho: As expressões sintagmáticas no Dicionário Histórico do Português do Brasil (DHPB)
Autor(es): Odair Luiz Nadin
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquisa Filho” (UNESP/Araraquara)
e-mail: odairnadin@fclar.unesp.br
Resumo:
O Dicionário Histórico do Português do Brasil: séculos XVI, XVII e XVIII (DHPB) é uma importante obra da Lexicografia brasileira, ainda inédita, idealizada e iniciada por Maria Tereza Camargo Biderman e concluída por Clotilde de Almeida de Azevedo Murakawa e sua equipe. Essa obra reúne um conjunto de dez mil verbetes elaborados a partir de um corpus com textos produzidos no Brasil durante os séculos em questão. Dentre as inúmeras informações presentes em seus verbetes, essa obra registra também o que se denominou “expressões sintagmáticas”. Entendemos, em nossa pesquisa, essas expressões no âmbito da Fraseologia. A Fraseologia é “um dos ramos das ciências da palavra que tem por objeto de estudo as ‘unidades lexicais’ constituídas de dois ou mais vocábulos ou de sintagmas ou de frases [...]” (BARBOSA, 2012, p. 491). Assim, essa pesquisa tem por objetivo observar quantas unidades ditas sintagmáticas foram arroladas no DHPB formadas a partir de um verbo (riscar das suas memorias, cruzar as mãos) e analisar seu grau de lexicalização bem como seu uso no português do Brasil na atualidade. Para a análise, por questões metodológicas, limitar-nos-emos, como dito antes, às denominadas “expressões sintagmáticas” formadas a partir de um verbo e que possuam algum de seus significados usados atualmente no Português do Brasil.
Palavras-chave: Dicionário Histórico do Português do Brasil. Expressões Sintagmáticas. Fraseologia. Português do Brasil
Bibliografia básica
BARBOSA, M. A. Fraseologia e linguagens: a fraseologia na literatura e no discurso publicitário. In. ISQUERDO, A. N.; SEABRA, M. C. T. C. de. (Orgs.). As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. Campo Grande - MS: Editora UFMS, 2014, v. VI, p. 489-497.
CORPAS PASTOR, Gloria; Mena Martínez, Florentina. La globalización de la fraseología como convergencia cultural. In. Letras de Hoje. V. 39, 2004, p. 9-43.
MURAKAWA, C. A. A. Conhecendo o Dicionário Histórico do Português do Brasil - Séculos XVI, XVII e XVIII sua história e metodologia. In: Isquerdo, A. P.; Mantovani dal Corno, G. O. (Orgs.). As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia.. 1ed.Campo Grande - MS: Editora UFMS, 2014, v. VII, p. 267-284.
ORTIZ ALVAREZ, M. L.; UNTERNBÄUMEN, E. H. (Orgs.). Uma (Re)Visão da Teoria e da Pesquisa Fraseológia. Campinas: Pontes Editora, 2011.

8.
Título: DENTRE QUALIFICADORES E AÇÕES SEXUAIS: ESTUDO LEXICOLÓGICO DO PROCESSO CRIME DE ESTUPRO DE MARIA POSSIDONIA DE JESUS (1907)
Autor(es):
Daianna Quelle da Silva Santos da Silva (FACFSA / daiannaquelle@gmail.com)
Rita de Cássia Ribeiro de Queiroz (UEFS / rcrqueiroz@uol.com.br)
Resumo: Os documentos manuscritos salvaguardados em acervos públicos e/ou privados são imprescindíveis para que haja a compreensão de questões linguísticas, históricas, sociais e outras. Nesse sentido, a edição filológica destes documentos propicia a consciência e resgate culturais das civilizações, por esta razão é imperativo que se tenha cuidado ao manusear tais documentos, além de estabelecer critérios para a feitura de edições confiáveis, fidedignas. O processo crime de estupro de Maria Possidonia de Jesus, documento manuscrito lavrado em 1907 e localizado no acervo do Centro de Documentação e Pesquisa (CEDOC) se configura como um testemunho linguístico-cultural por explanar a história de Maria Possidonia de Jesus, menor de idade e vítima do estupro, cujo acusado é denominado João Barboza. Para facilitar a leitura do documento, foi de extrema valia termos noções de codicologia e diplomática – ciências auxiliares da Filologia. Ao nos depararmos
com o conteúdo do texto, notamos a existência de lexias como: “vagina” “ofendida” “deflorada”, “ofensor”, etc. No contexto do documento, estas lexias fazem parte do vocabulário da sexualidade e trazem a lume os primeiros anos de República no Brasil, já que o documento é datado do século XX, e comumente os crimes sexuais destas época e natureza refletiam o rótulo de “desonra social” para vítima e toda a sua família. Sendo assim, através da Teoria dos Campos Lexicais, ampliada por Coseriu (1977), intentamos fazer a explanação de dois macrocampos referentes à sexualidade, são eles: o das Ações (sexuais) e dos Qualificadores (da ofendida e do ofensor).
Email: daiannaquelle@gmail.com
Palavras-chave: Lexicologia. Campos Lexicais. Sexualidade. Processo crime de estupro.
Bibliografia básica:
ABBADE, Celina Márcia de Souza. O estudo do léxico. In: TEXEIRA, Maria da Conceição Reis; QUEIROZ, Rita de Cássia Ribeiro de; SANTOS, Rosa Borges dos (Org.) Diferentes perspectivas dos estudos filológicos. Salvador: Quarteto, 2006. p. 213-225.
______. Campos lexicais no livro de cozinha da Infanta D. Maria. 2003. 431f. Tese (Doutorado em Letras e Linguística) – Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2003.
CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
COSERIU, Eugenio. Princípios de semántica estructural. Vers. esp. de Marcos Martinez Hernández, rev. por el autor. Madrid: Gredos, 1977.
MINIDICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Instituto Antônio Houaiss de. lexicografia e bancos de dados da língua portuguesa. 2. ed. revisada e aumentada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
SAUSSURE, Ferdinad de [1916], Curso de lingüística geral. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 17. ed. São Paulo: Cultrix, 1993.
XIMENES, Expedito Eloísio. Estudo filológico e linguístico das unidades fraseológicas da linguagem jurídico-criminal da Capitania do Ceará nos séculos XVIII e XIX. 2009. 413f. Tese (Doutorado em Linguística) – Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2009.

9.
Título do trabalho: O PERCURSO DAS DEFINIÇÕES DE “HOMEM” E “MULHER” NOS DICIONÁRIOS
Autor(es): CLAUDIENE DINIZ DA SILVA (UFMG)
Email: diennedinniz@hotmail.com
Resumo:
Essa pesquisa se propõe a apresentar quais conceitos são atribuídos a homem e mulher nos dicionários de língua portuguesa, começando por Bluteau (1728) até os mais atuais, disponíveis no meio digital. A pesquisa tem a intenção de que apesar de o dicionário ter a intenção de definir as palavras de forma neutra, sabemos que a língua faz parte de uma sociedade, sofrendo assim influências da cultura e da história. Para mostrar essa ausência de neutralidade nas definições dos dicionários, utilizamos os termos homem e mulher para uma análise, a fim de mostrar as ideologias e os preconceitos expressos nas definições desses termos. Para alcançarmos o objetivo proposto, utilizamos como referencial teórico alguns pressupostos da lexicografia e mais especificamente da lexicografia discursiva, representada aqui por Orlandi (2000). Apresentamos alguns conceitos sobre essa ciência do léxico, em especial aqueles que envolvem o processo de construção de uma definição,
isso porque, se a definição segue construída por meio de normas e regras objetivas, buscamos analisar como a ideologia perpassa por esse processo. A Lexicografia Discursiva, ao que defende que o dicionário não é um texto neutro, mas sim repleto de ideologias, subsidia nossa pesquisa.
Email: diennedinniz@hotmail.com
Palavras-chave: dicionario, percurso, homem, mulher, lexicografia discursiva
Bibliografia básica:
ANDRADE, M. M. Conceito/definição em dicionários da língua geral e em dicionários de linguagens de especialidades. Disponível em: http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iv /civ10_21-32.html. Acessado em:12/06/2014.
BIDERMAN, M.T.C. A ciência da Lexicografia. Alfa, São Paulo, 28(supl.): 1-26, 1984
BRANGEL, Larissa Moreira. O tratamento lexicográfico de vocábulos de cores na perspectiva da semântica cognitiva. Dissertação de mestrado, UFRGS, 2011.
ORLANDI, Eni Pulcinelli. Lexicografia Discursiva. Alfa, São Paulo, 44: 97-114, 2000.
PONTES, Antônio Luciano; SANTIAGO, Márcio Sales. Crenças de professores sobre o papel do dicionário no ensino de Língua Portuguesa. In: COSTA DOS SANTOS, Francisco José (Org.). Letras plurais: crenças e metodologias do ensino de línguas. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira de Jovens Escritores, 2009. p. 105-123.
The results of this submission may be viewed at:
http://simelp.it/node/11/submission/574

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SIMPÓSIO 53 - ESTUDOS GEOLINGUÍSTICOS: IMPORTANTE CONTRIBUIÇÃO PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUA MATERNA E ESTRANGEIRA

Coordenadores:
Adriana Cristina Cristianini – Universidade Federal de Uberlândia – dricris@ileel.ufu.br
Irenilde Pereira dos Santos – Universidade de São Paulo – irpesan@uol.com.br


RESUMOS APROVADOS

1.
Título do trabalho: LÍNGUA, SUBJETIVIDADE E VARIAÇÃO: UMA REFLEXÃO SOBRE REPRESENTAÇÕES LINGUÍSTICAS DE ESTUDANTES AFRICANOS ACERCA DA LÍNGUA PORTUGUESA NOS DADOS DO PROFALA
Autor(es):
Maria Elias Soares (UFC/DLV) meliassoares@gmail.com
Izabel Larissa Lucena Silva (UFC/CAPES/PNPD) izabel_larissa@yahoo.com.br
Klébia Enislaine do Nascimento e Silva (UFC) klebia.enislaine@bol.com.br
Resumo: O presente estudo busca fazer uma reflexão sobre a relação entre língua, subjetividade e variação nos enunciados de estudantes africanos falantes de língua portuguesa (materna ou não materna). Para tanto, analisamos as marcas de modalidade presentes nos enunciados desses sujeitos, as quais constituem importantes estratégias de manifestação de sua subjetividade com relação às informações que veiculam (CORACINI, 1991). Este estudo insere-se num projeto maior, intitulado Variação e processamento da fala e do discurso: análise e aplicações (PROFALA), que tem como objetivo disponibilizar um banco de dados do português falado nos PALOPs e no Timor-Leste para a análise descritiva de aspectos fonético-fonológicos, semântico-lexicais, morfossintáticos e pragmático-discursivos da Língua Portuguesa utilizada nesses países. Em nossa análise, usamos, de cada país que compõe o corpus africano (Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe), 10 entrevistas do questionário metalinguístico, que trata de questões relacionadas à língua portuguesa (língua, norma e variação). Este trabalho se insere na linha de pesquisa da descrição e da análise linguística e se baseia na perspectiva Sociofuncionalista, uma vez que conjuga pressupostos da Sociolinguística Variacionista (LABOV, 2008[1972]; BAGNO, 1999; SCHERRE, 2005; FARACO, 2008) e Funcionalista (PALMER, 1986; HENGEVELD, 1988; HALLIDAY, 2004). Acreditamos que nossa investigação pode não apenas fornecer dados empíricos sobre a relação entre os meios de expressão da modalidade e a construção da argumentação, mas também revelar os julgamentos, as opiniões, as representações que esses falantes constroem com relação à língua portuguesa. E, nesse sentido, contribuir para a elaboração de materiais didáticos voltados para o ensino de língua portuguesa (materna ou não materna), que respeite as diversidades linguísticas e sociolinguísticas de seus falantes. Os resultados preliminares apontam que a língua portuguesa é apresentada, nas opiniões e nos julgamentos dos estudantes, como uma língua reconhecidamente heterogênea, sujeita principalmente à variação diatópica e diastrática, evidenciada, sobretudo nos níveis fonético-fonológico e lexical. Por outro lado, percebemos representações fortemente conservadoras sobre a língua portuguesa, arraigadas de “mitos” sobre sua gramática e funcionamento em sociedade.
Palavras-chave: Sociolinguística; Língua portuguesa; PALOPs, PROFALA, Subjetividade.
Bibliografia básica:
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 21. ed. São Paulo: Loyola, 1999.
CORACINI, M. J. Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da ciência. São Paulo: Educ/Pontes, 1991.
HALLIDAY, M. A. K. An Introduction to Functional Grammar. Baltimore: Edward Arnold, 2004.
HENGEVELD, Kess. Illocution, mood and modality in a functional grammar of Spanish. In: Journal of Semantics, v. 6, 1988, p. 227-269.
LABOV, William (1972). Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. [Padrões Sociolinguísticos. Trad.: Marcos Bagno; Marta Scherre e Caroline Cardoso. São Paulo: Parábola, 2008.]
PALMER, F. R. Mood and Modality. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.
SHERRE, M. M. P. Doa-se lindos filhotes de poodle: variação linguística, mídia e preconceito. São Paulo: Parábola, 2005.
FARACO, C. A. Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo: Parábola, 2008.

2.
Título do trabalho: DIFICULDADES DE CRIANÇAS POMERANAS NA AQUISIÇÃO E/OU APRENDIZAGEM DE LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL: UMA ABORDAGEM GEOLINGUÍSTICA
Autor(es): Neubiana Silva Veloso Beilke – Universidade Federal de Uberlândia – neubianabeilke@mestrado.ufu.br
Resumo: Este trabalho é um recorte do projeto "A sobrevivência do Pommersch no Brasil: um estudo sobre os casos de Vila Neitzel/MG e Vale do Rio Pardo/RS" que, além de levantar corpora do pomerano, traça uma relação interdisciplinar com os estudos geolinguísticos. Nosso objetivo, nesta comunicação, é salientar a importância dos aspectos geoespaciais e as relações que estes estabelecem socialmente com as línguas. Ressalta-se que a Geolinguística, por nos permitir compreender melhor a realidade linguística, as variações e os contatos linguísticos de uma dada comunidade, constitui-se em contribuições importantes também para os processos de ensino-aprendizagem de línguas maternas, estrangeiras, oficiais e co-oficiais. Embora, no Brasil, a língua portuguesa seja oficial, para grande parte das crianças pomeranas, o português é tido como segunda língua. Contudo, no processo de educação escolar, é possível perceber que algumas crianças pomeranas apresentam dificuldades na aquisição, entre outras, de alguns fonemas do português. Isso ocorre porque, em casa, fala-se pomerano e, ao entrarem na escola, essas crianças parecem sofrer um estranhamento com a nova realidade linguística. Há professores que relatam vivenciar um contexto no qual falar pomerano faz a criança se sentir mais à vontade em relação às atividades propostas. A comunicação em pomerano, nesses casos, parece permitir o estabelecimento de uma relação professor-aluno mais efetiva. As principais referências para este trabalho são BENINCÁ (2008), RODRIGUES (2010), BANDEIRA (2011), BANDEIRA & ZIMMER (2011) e SCHAEFFER (2012). O desenvolvimento do tema desta comunicação é possível devido a pesquisas bibliográficas sobre comunidades pomeranas e, também, ao contato com os pomeranos para realização de entrevistas no decorrer do desenvolvimento do projeto em que estudamos a variedade brasileira do pomerano, a qual denominamos de Brasilianische Pommersch.
Palavras-chave: Pomerano; Língua Portuguesa; Geolinguística; Linguística de Corpus; Aquisição da linguagem.
Bibliografia básica:
BANDEIRA, M. H. T. A Dinâmica do Bi/Multilinguismo em Tarefas Não Verbais: Vantagens Cognitivas para Crianças Falantes de Pomerano (L1) e Português (L2). UCPel, Pelotas, 2011. [s/r.].
BANDEIRA, M. H. T.; ZIMMER, M. C. A transferência dos padrões de VOT de plosivas surdas no multilinguismo. In: Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 46, n. 2, p. 87-95, abr./jun. 2011.
BENINCÁ, L. R. Dificuldade no Domínio de Fonemas do Português por Crianças Bilíngues de Português e Pomerano. UFES. Dissertação de Mestrado em Estudos Linguísticos. Vitória, 2008.
RODRIGUES , C. V. Aprender Português: Delineando as Dificuldades dos Falantes de Pomerano. In: Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas. Geolinguística sem fronteiras, juntando culturas. Universidade de Évora, SLG, 44, 2010.
SCHAEFFER, S. C. B. Descrição Fonética e Fonológica do Pomerano Falado no Espirito Santo. UFES. Dissertação de Mestrado em Estudos Linguísticos. Vitória, 2012.

3.
Título do trabalho: GEOLINGUÍSTICA E ENSINO: A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA EM TEXTOS DE ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA
Autor(es): Geisa Borges da Costa - UFBA/UFRB - geicosta@ufrb.edu.br
Jacyra Andrade Mora - UFBA - jacymota@ufba.br
Resumo: O presente trabalho, pautando-se nos pressupostos teóricos e metodológicos da sociolinguística quantitativa variacionista, objetiva investigar os aspectos relacionados ao apagamento do /R / em coda silábica em posição final e medial de vocábulo na escrita de estudantes em início de escolarização. O corpus foi constituído por testes escritos com um total de 18 alunos, na faixa etária de oito a onze anos, pertencentes ao 3º, 4º e 5º ano do ensino fundamental de uma escola pública do município de Catu - BA. Para cada série, foram testados três meninos e três meninas, todos nascidos e residentes neste município, localizado a 78 km de Salvador, observando a relação existente entre fala e grafia e a interferência daquela no processo de aprendizagem da língua escrita. Na escolha do léxico para a elaboração dos testes escritos, procurou-se incluir palavras usuais, normalmente trabalhadas pelos professores no início da escolarização, e também aquelas que, supostamente, não são estudadas pelos alunos, a fim de testar a hipótese de que o grau de familiaridade com a palavra inibiria o apagamento do rótico. Assim, o mesmo instrumento de testagem escrita foi aplicado aos alunos dos três níveis de escolaridade com o intuito de observar em que medida se dá a intervenção da fala na escrita com relação ao apagamento do segmento /R/ em posição de coda silábica. Desse modo, para uma análise estatisticamente mais rigorosa, os dados foram submetidos ao pacote de programas computacionais desenvolvido para a realização de análises linguísticas. Para isso, foram controladas seis variáveis linguísticas: contexto precedente, extensão do vocábulo, ponto e modo de articulação do segmento subsequente e grau de familiaridade com a palavra. As variáveis sociais eleitas para análise foram: escolaridade e gênero. Os resultados sinalizaram que o processo de escolarização exerce uma forte influência na recuperação do
rótico na língua escrita, pois à medida que os alunos avançam nas séries escolares, os desvios em relação à norma-padrão diminuem sensivelmente. Além disso, o trabalho aponta para a necessidade de uma aproximação maior entre a pesquisa acadêmica e as práticas pedagógicas no ensino de língua portuguesa, a fim de que o tratamento dado a alguns fatos da língua, como a interferência da fala coloquial na escrita, possa ser melhor sistematizado pela escola.
Palavras-chave: Apagamento consonântico. Rótico. Escrita. Escolarização.
Bibliografia básica:
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola, 2004.
MOLLICA, Maria Cecília. Da linguagem coloquial à escrita padrão. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.
MOTA, Jacyra; SOUZA, Lorena. Estudo de fatos fônicos em inquéritos experimentais do ALiB: o apagamento dos róticos em coda silábica. In: GÄRTNER, Eberhard; SCHÖNBERGER, Axel (Edd.). Estudos sobre o português brasileiro. Francofurti Moenani: Valentia, 2009.
TASCA, Maria. Interferência da língua falada na escrita das séries iniciais: o papel de fatores linguísticos e sociais. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.
WEINRICH; LABOV; HERZOG. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Parábola, 2006.

4.
Título do trabalho: O ESBOÇO DE ATLAS DO FALAR NIPO-BRASILEIRO DO DISTRITO FEDERAL: CONTRIBUIÇÃO PARA O ENSINO DE LÍNGUAS
Autor(es): Yuko Takano - Universidade de Brasília - yukotk@gmail.com
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo apresentar e discutir um aspecto semântico-lexical do falar dos nipo-brasileiros do Distrito Federal, com vistas ao ensino de línguas. Trata-se, na verdade, da retomada de um segmento da tese de doutorado Esboço de Atlas do Falar Nipo-Brasileiro do Distrito Federal: aspecto semântico-lexical, defendida por nós na Universidade de São Paulo em 2013. A partir de elementos da Sociolinguística, na vertente do bilinguismo, a tese enfoca o contato de línguas e os fenômenos que derivam desse processo: o empréstimo lexical e a mudança de código. Recorre aos estudos, entre outros, de Grosjean, Thomason e Kaufman e Gumperz, cuja referência teórica embasa o tratamento qualitativo do corpus. Utiliza também os procedimentos teórico-metodológicos da Geolinguística. Focaliza cinco comunidades do Distrito Federal – Brasília, Brazlândia, Núcleo Bandeirante, Taguatinga e Vargem Bonita. A escolha dessas comunidades justifica-se não somente por fatores históricos, com destaque para a (i)migração japonesa no Planalto Central, bem como por sua relevância no cenário econômico e no desenvolvimento do Distrito Federal. Utiliza-se o Questionário Semântico-Lexical Visual que foi aplicado a dez sujeitos nipo-brasileiros bilíngues de duas faixas etárias: 1) de 50 a 65 anos; e 2) de 66 anos em diante, todos do sexo feminino e pertencentes à segunda geração (nissei). Os dados coletados integram um banco de dados semântico-lexical constituído de 25 temas, que correspondem às respostas registradas nas entrevistas. Posteriormente, os temas foram documentados em cartogramas linguísticos, em que se apresentam os elementos semântico-lexicais, expressos em japonês e português e/ou português-japonês das comunidades pesquisadas. No presente trabalho, apresentamos e discutimos o tema de número 20 – mala pesada. Os resultados da análise indicam a configuração de uma variedade nipo-brasileira nas comunidades em tela, que constitui uma contribuição inestimável para o ensino de línguas para nipo-brasileiros.
Palavras-chave: Falar nipo-brasileiro. Geolinguística. Atlas linguístico. Bilinguismo. Ensino de línguas para nipo-brasileiros.
Bibliografia básica:
TAKANO, Yuko Esboço de Atlas do Falar Nipo-Brasileiro do Distrito Federal: aspecto semântico-lexical. 2013. Tese (Doutorado em Linguística) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

5.
Título do trabalho: ESTUDO DA VARIDADE DIATÓPICA LEXICAL NO GÊNERO CONTO PARA FAVORECER O ENSINO DE LÍNGUA
Autor(es): Kimiko Uchigasaki Pinheiro – Universidade de Brasília – kimiko.uchigasaki@gmail.com
Resumo: Esta pesquisa apresenta uma parte dos resultados que compõem nossa dissertação de mestrado Oralização de Histórias Antigas com uso de Jogos Teatrais para favorecer a Expressão Oral em Língua Japonesa (PINHEIRO, 2013), a qual propôs-se a favorecer o ensino de língua estrangeira, especialmente, a expressão oral a partir das interações reais, dando voz ao gênero discursivo do conto mukashibanashi. O trabalho adotou técnicas teatrais, bem como dos jogos teatrais, considerando, assim, as dimensões afetivas e corporais dos participantes, na (re)-significação e (re)-construção das enunciações em língua estrangeira. Privilegiou-se, portanto, uma visão de língua que abarca seus indissociáveis contextos culturais, sociais e ideológicos. O alicerce da pesquisa está, principalmente, nas teorias de Bakhtin (1929/1986), Alvar (1969), Coseriu (1979), Revuz (1998), Mastrella de Andrade (2011), Reis (2008) e Viola Spolin (2000). Utilizou-se da metodologia de pesquisa-ação dentro da perspectiva de Barbier (2007), a fim de dispor uma perspectiva no modo de ensinar e aprender uma língua estrangeira. A análise qualitativa e interpretativista dos documentos como os diários de bordo trouxe como resultado aspectos da subjetividade, da identidade, e da interação. Em termos geolinguístico, observa-se que o conto apresenta as ocorrências lexicais que retratam a variedade diatópica no seu tempo histórico e espacial. Partindo desse recorte da pesquisa que, nesta comunicação, objetivamos discutir a contribuição dos estudos dialetais e geolinguísticos para a ampliação do acervo lexical do aluno de língua.
Palavras-chave: Gênero discursivo; Jogos teatrais; Geolinguística; Variedade diatópica; Léxico.
Bibliografia básica:
ALVAR, Manuel. Estruturalismo, Geografia Lingüística y Dialectologia Atual. Madrid: Gredos, 1969.
BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. (Tradução Michel Lahud e Yara
Frateschi Vieira). São Paulo: Hucitec, 3ª. ed., 1929/1986.
BARBIER, R. A Pesquisa-ação.(Tradução Lucie Didio). Brasília: Líber Livro,2007.
REIS, M.G.M. A Expressão em cena: afetividade, o corpo, e a voz da LE, In: MASTRELLA DE ANDRADE, M. R.Afetividade e emoções no Ensino/Aprendizagem de Línguas: Múltiplos Olhares org. Mariana Mastrella de Andrade. Ed Pontes, vol. 18. 2011.

6.
Título do trabalho: A VARIAÇÃO PRONOMINAL EM LIVROS DIDÁTICOS DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA
Autor(es): Leonardo Arctico Santana (leoarctico@msn.com) Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho) - Unesp - Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara
Resumo: Com as políticas lingüísticas promovendo a língua portuguesa no cenário mundial, temos observado um intenso desenvolvimento na área de estudos sobre Português como Língua Estrangeira (PLE), por exemplo, a produção de materiais didáticos, formação de professores, entre outros. No que se refere à elaboração de livros didáticos, várias metodologias e abordagens surgiram no cenário do ensino de línguas estrangeiras, como a proposta de abordagem comunicativa e o do ensino intercultural, pautado na relação do aprendizado da língua por meio da cultura. No Entanto, se por um lado, verificamos várias propostas de mudanças no que se refere às metodologias de ensino e a atual supervalorização da linguagem oral, por outro, notamos que os livros didáticos para o ensino de PLE mantiveram-se propondo métodos mais tradicionais que acabam por excluir a presença das variáveis linguísticas. Com isso, é gerada uma discrepância entre as “amostras de língua
portuguesa” propostas pelo livro didático e a vivenciada pelos estrangeiros ao chegarem no Brasil. Com base nesse pressuposto, buscaremos apresentar nessa comunicação, como determinadas variantes linguísticas são expostas em três livros didáticos de grande circulação no continente americano, sendo um deles produzido no Brasil, um na Argentina e o último nos Estados Unidos da América. Mais especificamente, analisaremos como a variação pronominal “tu/você” e “nós/a gente” será trazida por esses livros, uma vez que, se pensarmos em língua enquanto prática oral torna-se necessário que essa variação seja explorada visto que cada pronome pode apresentar suas especificidades.
Palavras-chave: Português Língua Estrangeira; Livro Didático; Variação Pronominal.
Bibliografia básica:
CARVALHO, Orlene Lúcia de S. .Variação lingüística e ensino: uma análise dos livros didáticos de português como segunda língua. In: Marcos Bagno. (Org.). Lingüística da norma. 1ed.São Paulo: Loyola, 2004, v. , p. 267-291.
DINIZ, L. R. A. . Mudanças discursivas em livros didáticos brasileiros de português como língua estrangeira. PortugueseLanguageJournal, v. 2, p. 1-6, 2007
LOPES, C. R. S. O quadro de pronomes pessoais: descompasso entre pesquisa e ensino. Matraga (Rio de Janeiro), v. 19, p. 116-141, 2013.
LOPES, C. R. S. A inserção de ´a gente´ no quadro pronominal do português. Frankfurt amMain/Madrid: Vervuert/Iberoamericana, 2003.
ZOPPI-FONTANA, M. O português do Brasil como língua transnacional.Campinas: RG, 2009.

7.
Título do trabalho: O ENSINO DA VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NOS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA
Autor(es): Andreia Silva de Assis (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF; andreiad.silva@hotmail.com)
Andressa Teixeira Pedrosa (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF; andressa.pedrosa@gmail.com)
Eliana Crispim França Luquetti (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF; elinafff@gmail.com)
Resumo: A presente pesquisa objetiva analisar a questão da variação linguística descrita nos livros didáticos distribuídos nas escolas públicas estaduais. Além disso, evidenciamos qual a concepção do professor, deste segmento escolar, sobre o tema e sobre o ensino gramatical desenvolvido pela escola. Para isso, fizemos algumas considerações acerca do ensino de Língua Portuguesa, sobre variação linguística, livro didático e a importância da educação linguística na formação docente. Analisamos cinco coleções de livros didáticos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental da rede pública estadual de ensino, adotados e distribuídos em território nacional pelo programa PNLD/2014, a fim de se verificar se os mesmos apresentavam uma sequência didática que pudesse contemplar o desenvolvimento da competência comunicativa dos alunos. Foram aplicados também trinta questionários destinados a professores dos anos finais do ensino fundamental do estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de verificarmos como os professores concebiam e trabalhavam com a variação linguística, e qual o papel da gramática em suas aulas. Para realização desta pesquisa, valemo-nos de autores como Bagno (2011, 2007), Cyranka (2011), Travaglia (2013, 2009), Possenti (2009, 2004, 1996), Bortoni-Ricardo (2005, 2004), dentre outros.
Palavras-chave: variação linguística; livro didático; educação linguística na formação docente.
Bibliografia básica:
BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.
CYRANKA, L. F. M. Dos dialetos populares a variedade culta: a sociolinguística na escola. 1ªed. Curitiba: Appris, 2011.
POSSENTI, S. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado das letras, 1996.
TRAVAGLIA, L. C. Gramática: ensino plural. São Paulo: Cortez, 2003.

8.
Título do trabalho: GEOLINGUÍSTICA E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA
Autor(es): Adriana Cristina Cristianini. Universidade Federal de Uberlândia – UFU. dricris@ileel.ufu.br
Resumo: Os estudos sociolinguísticos, geolinguístico, sociogeolinguístico, entre outros, possibilitam conhecer com maior exatidão, descrever e mensurar fenômenos linguísticos relacionados a fatores sociais, culturais, históricos, políticos, regionais, espirituais, e outros. Esses estudos apresentarem um volume considerável de dados linguísticos que resultam em um gigantesco número de possíveis análises e, também, oferecem condições para que professores cumpram parte das diretrizes que são determinadas pelos documentos oficiais da educação no que tange ao conhecimento e ao respeito à pluralidade cultural e linguística, tão característica do Brasil. Entretanto, muito do que é pesquisado, arduamente, não ultrapassa os “muros” das universidades e, portanto, deixa de contribuir como poderia para novas reflexões a respeito da relação entre esses estudos e as possibilidades de apoio para o ensino de língua materna. Esta comunicação propõe-se, partindo de pesquisas e publicações sobre variação linguística, apresentar reflexões de como esses estudos podem contribuir na prática docente para ensino de Língua Portuguesa. Neste estudo, daremos ênfase aos estudos sobre variação semântico-lexical, em especial os atlas semântico-lexicais brasileiros de Cristianini (2007), Encarnação (2010) e Soares (2012) e o sítio do projeto Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e Português. A opção de enfocar o aspecto lexical e relacioná-lo à variação deve-se ao fato de ser primeiramente no léxico de uma língua que encontramos o repositório do saber linguístico de uma comunidade, a configuração da realidade extralinguística e a representação da imagem vista pelo sujeito do mundo que o abriga. Os estudos do léxico, portanto, buscam, entre outros fins, estabelecer, organizar e veicular os signos na relação do homem com o mundo que o rodeia, e assim, poder instrumentalizar um maior e melhor conhecimento da língua, além de propiciar o reconhecimento das diferenças culturais que compõem as realidades de um mesmo país.
Palavras-chave: Léxico. Geolinguística. Atlas semântico-lexical. Atlas linguístico. Português do Brasil.
Bibliografia básica:
CRISTIANINI, Adriana Cristina. 2007. 3 v., 802 f. Atlas semântico-lexical da Região do Grande ABC. São Paulo. Tese (Doutorado em Linguística) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: . Acesso em: 14 nov. 2014.
ENCARNAÇÃO, Márcia Regina Teixeira da. 2010. 3 v., 741 f. Atlas semântico-lexical de Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba – municípios do Litoral Norte de São Paulo. Tese (Doutorado em Linguística) -Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. Disponível em: . Acesso em: 14 nov. 2014.
SOARES, Rita de Cássia da Silva Atlas semântico-lexical da Região Norte do Alto Tietê (Renat) - São Paulo. 2012. 3 v., 664 f. Tese (Doutorado em Linguística) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em: . Acesso em: 14 nov. 2014.
UNIVERSIDADE SANTIAGO DE COMPOSTELA. INSTITUTO DA LÍNGUA GALEGA. Projeto Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e Português. Coordenação geral: Rosario Alvarez Blanco. Disponível em: . Acesso em: 14 nov. 2014.

9.
Título do trabalho: A RELEVÂNCIA DA DIVERSIDADE LINGUÍSTICA PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: ENFOQUE SEMÂNTICO-LEXICAL
Autor(es): Rita de Cássia da Silva Soares – GPDG/USP; GPS/UFU – cassiasilva@uol.com.br
Resumo: As variações linguísticas expressam a situação real de uso da linguagem do sujeito num espaço determinado, e também denotam as características sócio-histórico-culturais de uma comunidade linguística. O espaço geográfico pode determinar o modo como um objeto será nomeado. Assim, a língua, conforme este espaço, sofre variações, estas são denominadas diatópicas. As variações diatópicas têm sido objeto de estudos científicos na área da Dialetologia e da Geolinguística, sobretudo na elaboração de atlas linguísticos. Daí a sua importância para retratar as características específicas de uma região, todavia, a palavra descontextualizada não tem significado: é sua relação com o que lhe exterior que permite ao homem reconhecer, identificar e utilizá-la em contextos diversos. A linguagem é orientada pela visão de mundo, expressa emoções, ideias, propósitos, desejos norteados pela realidade social, histórica e cultural do sujeito. Toda esta dinamicidade da língua é evidenciada no léxico, nível linguístico que melhor expressa a mobilidade das estruturas sociais, o qual reflete a maneira como a sociedade vê e representa o mundo. Neste trabalho, pretende-se mostrar que as pesquisas com base nos estudos sociogeolinguísticos – considerando o estatuto da variação diatópica associado às variantes sociais - podem contribuir para ilustrar de modo mais fiel as características dos “falares” de uma comunidade, retratando e reconhecendo a identidade linguística de uma região e, ainda, constituem num importante material a ser utilizado na produção de livros didáticos. Os itens lexicais coletados em loco durante as entrevistas para elaboração do atlas pode, e deveria, ser explorado com o objetivo de enriquecer as aulas de Língua Portuguesa no que se refere ao tópico diversidade linguística.
Palavras-chave: Palavras-chave: Sociogeolinguística; Variação; Ensino; Semântico-Lexical.
Bibliografia básica:
CRISTIANINI, Adriana Cristina. Atlas Semântico-Lexical da Região do Grande ABC. São Paulo, 2007, 3v. (Tese de Doutorado em Semiótica e Linguística Geral) FFLCH – USP.
GERALDI, João Wanderley. Linguagem e ensino: exercício de militância e divulgação. Campinas: Mercado de Letras/ALB, 1999.
SANTOS, Irenilde Pereira dos; CRISTIANINI, Adriana Cristina. (Org.) Sociogeolinguística em questão: reflexões e análises. São Paulo: Ed. Paulistana, 2012.
SANTOS, Irenilde Pereira dos. Geolinguística, Análise do Discurso e Semântica interpretativa: diálogo possível. In: Seminário Internacional de Linguística: Gênero e Memória. IV, São Paulo, 2001. Anais... CD Rom. São Paulo: Terracota, 2011b. p. 529-545.
SOARES, Rita de Cássia da Silva. Atlas Semântico-Lexical da Região Norte do Alto Tietê (ReNAT) - São Paulo. São Paulo, 2012, 3v. (Tese de Doutorado em Semiótica e Linguística Geral) FFLCH – USP.

10.
Título do trabalho: GEOLINGUÍSTICA, MEMÓRIA DISCURSIVA, VARIAÇÕES LEXICAIS E ENSINO-APRENDIZAGEM DO PORTUGUÊS
Autor(es): Selma Sueli Santos Guimarães – ESEBA/UFU – selmasu@terra.com.br
Resumo: Investigar uma língua e suas variações implica investigar também a cultura, visto que as características culturais de uma sociedade são, normalmente, armazenadas e acumuladas por meio do sistema linguístico, sobretudo por meio do léxico. No Brasil, a língua falada é o Português. Apesar disso, verifica-se, em todo o país, uma grande diversidade no emprego de palavras, isto é, na escolha lexical feita pelo sujeito para nomear a realidade à sua volta. Nesse sentido, estudos voltados para a diversidade linguística da Língua Portuguesa se tornam necessários e produtivos. Os estudos geolinguísticos e os atlas linguísticos são conhecidos como instrumentos de documentação da variação diatópica observada em comunidades linguísticas, num determinado espaço de tempo sócio-histórico. Nesse sentido, é possível dizer que o estudo das variações linguísticas pode contribuir para o ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. Partindo desse pressuposto, o presente estudo tem como objetivo apresentar possíveis aplicações das pesquisas sobre a variação lexical em aulas de Português. Toma-se como referência as diferentes escolhas lexicais presentes nas respostas dos sujeitos a uma questão do Questionário Semântico-Lexical, qual seja, “Depois da chuva, como se chama aquele negócio colorido que se forma no céu?” A análise compreende as respostas presentes em atlas linguísticos do Brasil e no Inquérito Linguístico Boléo de Portugal. O enfoque teórico que sustenta este estudo conjuga contribuições advindas da Geolinguística, da Dialetologia e da Análise do Discurso de linha francesa, que considera o homem na sua história, observando as condições de produção da linguagem por meio da relação entre a língua e os sujeitos que a falam e também as situações em que se produz o dizer. Objetiva-se também oferecer dados relativos ao aspecto semântico-lexical que possam aprofundar o conhecimento da realidade linguística do Português e, dessa maneira, contribuir com os professores de Língua Portuguesa no que se refere à variação linguística.
Palavras-chave: Geolinguística. Memória discursiva. Ensino-aprendizagem. Variações lexicais.
Bibliografia básica:
AGUILERA, V. de A. Atlas lingüístico do Paraná. Curitiba: Imprensa Oficial do Estado. 1994.
ARAGÃO, M. do S. S.; MENEZES, C. B. de. Atlas lingüístico da Paraíba. Brasília: UFPB/CNPq, 1984. 2 v.
BOLÉO, Manuel de Paiva (Org.). Inquérito linguístico: questionário. 3. ed. Aveiro: Universidade de Aveiro, 1978.
FERNANDES, Cleudemar Alves. Análise do discurso: reflexões introdutórias. 2. ed. São Carlos: Editora Claraluz, 2008.
SANTOS, Irenilde Pereira dos. Análise do aspecto semântico-lexical em cinco atlas linguísticos regionais brasileiros. In: CUNHA, Cláudia de Souza (Org.). Estudos geo-sociolingüísticos. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006. p. 83-97.

11.
Título do trabalho: ESTUDOS DIALETOLÓGICOS E GEOLINGUÍSTICOS E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA
Autor(es): Márcia Christina de Souza Oliveira Caixêta – Universidade Federal de Uberlândia – marcinha.chris@yahoo.com.br
Resumo: A variação semântico-lexical é um tema de bastante relevância dentro dos estudos linguísticos e pode trazer grandes contribuições para o desenvolvimento do trabalho com variação linguística no contexto escolar. Não há dúvidas de que os estudos teóricos que abarcam as variações que uma língua natural sofre em razão do tempo, do espaço, das condições sociais do falante têm suscitado novas perspectivas diante da língua. Entretanto, tais perspectivas não podem permanecer apenas no campo teórico, sendo necessária sua aplicabilidade em sala de aula. Assim, a importância de um trabalho que parta das discussões acadêmicas a respeito da variação semântico-lexical para desenvolver propostas de intervenção pedagógica é indiscutível. Desse modo, esta comunicação trata da articulação entre a teoria referente aos estudos dialetológicos, de modo específico os dados fornecidos por atlas linguísticos, e a prática de sala de aula. Os atlas linguísticos constituem um material de valor extremamente relevante para a compreensão dos falares de determinada região e podem fornecer uma fonte riquíssima para a elaboração e desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas para o (re)conhecimento das diferenças existentes em uma língua. Sendo assim, o trabalho com atlas linguísticos em sala de aula permite ao professor apresentar aos alunos uma vasta gama de itens lexicais recorrentes em determinadas regiões e que são bem distintos (ou não) dos itens utilizados por eles. Além disso, este tipo de trabalho pode levar o aluno a refletir sobre sua própria língua e a verificar que em termos de língua falada, na verdade, o que existem são as variações, não o certo ou o errado. Com base nos estudos de autores como Barbosa, Coseriu, Bagno e na pesquisa em atlas linguísticos publicados no Brasil, esta comunicação objetiva apresentar os resultados do trabalho em sala de aula com atividades voltadas para a variação diatópica desenvolvidas a partir de atlas linguísticos.
Palavras-chave: Atlas linguísticos. Léxico. Língua Portuguesa. Ensino.
Bibliografia básica:
BAGNO, M. A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
BARBOSA, M. A. Lexicologia, lexicografia, terminologia, terminografia, identidade científica, objeto, métodos, campos de atuação. Brasília. II Simpósio latino-americano de terminologia. I Encontro brasileiro de terminologia técnico-científica. 10 a 14 set. 1990.
BARBOSA, M. A. Língua e discurso: contribuição aos estudos semânticos-sintáxicos. São Paulo: Global, 1978.
COSERIU, E. Teoria da linguagem e linguística geral: cinco estudos. Tradução de Carlos Alberto Fonseca e Mário Ferreira.. Rio de Janeiro: Presença; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1979. (Coleção Linguagem; n.3)

12.
Título do trabalho: A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA COMO RESGATE E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA NO ENSINO DE LÍNGUA MATERNA
Autor(es): Marcelo Cesar Calcante – GRUPO ERA/PUCSP;GPS/UFU – mccesar0109@gmail.com
Resumo: Este trabalho parte do pressuposto de que o estudo da língua só tem sentido em uma concepção centrada no uso motivada a partir do ato da comunicação, ou seja, os sentidos vão se construindo na interação, daí a dinamicidade da língua. É na interação que os usuários procuram manipular léxicos, termos, expressões disponíveis em sua língua, utilizando-se de estratégias comunicativas para marcarem sua identidade subjetiva no discurso e,também, para garantir o objetivo almejado num ato de comunicação. A Sociolinguística, a Dialetologia, a Geolinguística mostram esse caráter dinâmico e interativo referente ao funcionamento da linguagem. Além de transmitir apenas informações, a língua em uso serve para demarcar identidades subjetivas e coletivas; marcar a posição social dos sujeitos da linguagem e também para influenciar outrem. A língua só tem sentido no uso, na interação. A Geolinguística como a Sociolinguística em geral ao estudar as variações num tempo, espaço determinados podem contribuir para o resgate e até mesmo a preservação de uma memória discursiva.A memória discursiva que faz parte do contexto amplo do ato de comunicação pode ser resgatada ou preservada por meio dos estudos dos Atlas Linguísticos na sala de aula não apenas no ensino de língua materna mas também numa abordagem inter ou multidisciplinar. Mostrar aos alunos e explorar os domínios semânticos de certo tempo e espaço constitui um trabalho ético de resgate e de respeito à diversidade linguístico-cultural dos usuários naquela situação específica. Portanto, este trabalho pretende analisar algumas variações das normas linguísticas de sujeitos entre 50 e 65 anos dos Atlas Linguistico do Alto Tietê da Drª Rita de Cassia Silva Soares e do Atlas Linguístico da região paulista do ABC,de autoria da Drª Adriana Cristina Cristianini, da Universidade Federal de Uberlândia. No contexto do século XXI em que um dos pilares da Educação é formar sujeitos éticos, conscientes, responsáveis, sensíveis à diversidade e à pluralidade cultural, os estudos Sociolinguísticos e Geolinguísticos são bastante profícuos nessa empreitada.
Palavras-chave: Memória discursiva- Diversidade Cultural-Sociolinguística-Geolinguística.
Bibliografia básica:
CRISTIANINI, Adriana Cristina. Atlas Semântico Lexical da Região do grande ABC. São Paulo, 2007.
MARTELOTTA, Mario Eduardo. Mudança Linguistica. São Paulo: Cortes Editora, 2011.
SANTOS, Irenilde Pereira dos; CRISTIANINI, Adriana Cristina (orgs.) Sociogeolinguistica em questão: reflexões e análises. São Paulo: Ed. Paulistana, 2012.
SOARES, Rita de Cássia Silva. Atlas Semântico-Lexical da Região Norte do Alto Tietê (RENAT).São Paulo, SP, 2012.

13.
Título do trabalho: ATLAS SEMÂNTICO-LEXICAL DO ESTADO DE GOIÁS: CAMINHOS DA PESQUISA AO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA
Autor(es): Vera Lúcia Dias dos Santos Augusto. Universidade Estadual de Goiás veraugusto@terra.com.br
Resumo: A presente comunicação tem como objetivo apresentar os resultados obtidos na conclusão da tese de doutorado realizada na Universidade de São Paulo de 2008 a 2012 e pontuar possibilidades de imbricar os resultados e trabalhos voltados para a Dialetologia e para a Geolinguísitica ao ensino de Língua Portuguesa. Atualmente, é muito grande o interesse em estudar as variações linguísticas regionais, analisando-as a partir de um viés dialetológico e geolinguístico. Essa junção aparece como uma ideia primeira de valorizar os estudos da heterogeneidade linguística, que acontece na dimensão diatópica (espacial, geográfica) e está distribuída no espaço territorial de uma nação ou região. A tese teve como objetivo principal descrever a norma semântico-lexical presente em nove municípios, com vistas ao Atlas Semântico-Lexical do Estado de Goiás, a que chamamos de ASLEG. O Estado de Goiás, localizado na região Centro-Oeste do país, apresenta uma configuração geo-histórica e cultural específica, assim, partiu-se da hipótese de que ele compreende áreas linguísticas com peculiaridades próprias. Com esse intuito, foi desenvolvida uma pesquisa de campo, característica de todos os trabalhos de natureza geolinguística, para a recolha do corpus oral. Ao registrar as variações linguísticas regionais em uso, o ASLEG assim como os demais atlas linguísticos de diferentes áreas do país vêm propiciando a pesquisadores, educadores, gramáticos, autores de livros didáticos e demais interessados nos estudos geolinguísticos e sociogeolinguísticos um material amplo, coletado a partir de critérios metodológicos precisos. Ultimamente, os educadores mais conscientes da variação linguística brasileira procuram trabalhar a partir dessa realidade diversificada, sem estigmatizar a variação dialetal de seus alunos. Sob esse aspecto, é possível refletir sobre pesquisa linguística e a atuação de ensino dos professores de Língua Portuguesa.
Palavras-chave: Dialetologia; Geolinguística; Atlas linguístico. Ensino. Língua Portuguesa.
Bibliografia básica:
AGUILERA, Vanderci de Andrade. (Org.). A Geolingüística no Brasil: trilhas seguidas, caminhos a percorrer. Londrina, PR: Eduel, 2005.
AUGUSTO, Vera Lúcia Dias dos Santos. Atlas Semântico-Lexical do Estado de Goiás. 650 f. 2012. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2012.
SANTOS, Irelinde Pereira dos; CRISTIANINI, Adriana Cristina(Orgs.). Sociogeolinguística em questão: reflexões e análises. São Paulo: Paulistana, 2012.
SILVA, Fábio Lopes da; Rajagopalan, Kanavillil (Orgs.). A linguísitica que nos faz falhar: investigação crítica. São Paulo: Parábola, 2004.
SUZANA, Alice Marcolino da Silva et al. Atlas linguístico do Brasil. Londrina: Eduel, 2014.

14.
Título do trabalho: OS ATLAS SEMÂNTICO-LEXICAIS BRASILEIROS E O TESOURO DO LÉXICO PATRIMONIAL GALEGO E PORTUGUÊS: CONTRIBUIÇÕES PARA O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Autor(es): Irenilde Pereira dos Santos – Universidade de São Paulo – irpesan@uol.com.br
Resumo: O léxico de uma língua natural constitui um repositório de itens lexicais de que os sujeitos se utilizam na atividade discursiva a todo instante. Longe de ser um retrato estático da realidade, o léxico expressa os aspectos sócio-histórico-ideológicos dos grupos sociais que integram uma sociedade que habita uma determinada localidade, num dado tempo histórico. Com relação ao aspecto diatópico, por meio de seus sememas, o léxico assinala a natureza complexa da relação língua e cultura. Na verdade, cada item lexical constitui um registro do uso lexical revelado por sujeitos em interlocução numa dada localidade. Por essa razão, pode ocorrer de um dado item lexical ter significados diferentes em duas ou mais localidades. Pode também ocorrer de haver mais de um item lexical para designar um único objeto do chamado mundo referencial/imaginário. Ambos os casos remetem a variações lexicais de cunho diatópico, que desvelam as muitas faces regionais de que se compõe uma língua natural, bem como interessam particularmente a todos quantos se voltam para o ensino/aprendizagem da língua portuguesa. O presente trabalho enfoca dois tipos de estudos de variação semântico-lexical: (i) os atlas semântico-lexicais brasileiros de Cristianini (2007), Encarnação (2010) e Soares (2012); (ii) o sítio do projeto Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e Português, cuja coordenadora geral é Rosario Alvarez Blanco (ILG-USC). Este trabalho tem por objetivo (i) apresentar e discutir a variação semântico-lexical nos três domínios: Brasil, Galícia e Portugal, com relação aos itens lexicais “córrego”/“corgo” e demais variantes lexicais correlacionadas, com base em Rastier (1996); (ii) mostrar como essa discussão pode ser trazida para o espaço da sala de aula. Os resultados preliminares apontam que algumas designações que se encontram nos atlas semântico-lexicais e no sítio não constam de boa parte dos livros didáticos brasileiros e dicionários, ou estão registradas com outro significado.
Palavras-chave: Léxico. Geolinguística. Atlas semântico-lexical. Atlas linguístico. Português do Brasil.
Bibliografia básica:
CRISTIANINI, Adriana Cristina. 2007. 3 v., 802 f. Atlas semântico-lexical da Região do Grande ABC. São Paulo. Tese (Doutorado em Linguística) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2014.
ENCARNAÇÃO, Márcia Regina Teixeira da. 2010. 3 v., 741 f. Atlas semântico-lexical de Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba – municípios do Litoral Norte de São Paulo. Tese (Doutorado em Linguística) -Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2014.
SOARES, Rita de Cássia da Silva Atlas semântico-lexical da Região Norte do Alto Tietê (Renat) - São Paulo. 2012. 3 v., 664 f. Tese (Doutorado em Linguística) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em:. Acesso em: 10 nov. 2014.
UNIVERSIDADE SANTIAGO DE COMPOSTELA. INSTITUTO DA LÍNGUA GALEGA. Projeto Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e Português. >. Coordenação geral: Rosario Alvarez Blanco. Disponível em:. Acesso em: 10 nov. 2014.

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SIMPÓSIO 54 – GLOBALIZAÇÃO LINGUÍSTICA, MOBILIDADE E METAREFLEXIVIDADE

Coordenadores:
Inês Signorini - Universidade Estadual de Campinas/UNICAMP - inesignorini@gmail.com
Luiz Paulo da Moita Lopes - Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ - moitalopes@oi.com.br
Marilda Cavalcanti - Universidade Estadual de Campinas/UNICAMP - marilda.cavalcanti@gmail.com


RESUMOS APROVADOS

01. Título do trabalho: Entre o monolinguismo e a comunicação global, hierarquias linguísticas no Brasil
Autor(es): Joana Plaza Pinto (Universidade Federal de Goiás, joplazapinto@ufg.br)
Resumo: Este trabalho discute a circulação no Brasil de duas ideologias linguísticas contraditórias e suas consequências para a migração transnacional e nacional. Para isso, levo em consideração dois campos de estudos centrais para o tema em foco: estudos das configurações atuais das sociedades globalizadas (Blommaert 2010; Jacquemet 2005; Pratt 2013) e os estudos das metapragmáticas da vida cotidiana (Silverstein 1979, 1993). O corpus analisado é um conjunto de textos em variados gêneros discursivos encontrados na busca por metapragmáticas explícitas em contextos de mobilidade nacional e transnacional. Os resultados mostram duas ideologias em conflito e em complementação, uma articulação contraditória e produtiva que se sustenta em aspectos racializados da identidade brasileira. A primeira é a ideologia do monolinguismo nacional, construída por enunciados sobre o idioma nacional como meio único de comunicação interno à nação, sobre a unificação de
compreensibilidade do português nacional e sobre a escrita como meio padrão para a expressão desse idioma único e unificado. A segunda é a ideologia da comunicação global, construída por enunciados sobre a comoditificação de línguas (especialmente línguas coloniais), sobre a centralidade do inglês como meio global e neutro de comunicação e a habilidade oral como central para a vida social. A articulação contraditória dessas duas ideologias revela hierarquias linguísticas que se constroem sobre a formação histórica do racismo no Brasil e as suas atuais consequentes configurações no sistema mundo/moderno colonial (Mignolo 2003).
Email: joplazapinto@ufg.br
Palavras-chave: ideologia linguística; monolinguismo; globalização; racismo.
Bibliografia básica:
BLOMMAERT, Jan. 2010. The Sociolinguistics of Globalization. Cambridge: University Press.
JACQUEMET, Marco. 2005. Transidiomatic practices: Language and power in the age of globalization. Language & Communication 25: 257-277.
MIGNOLO, Walter D. 2003. Histórias locais / Projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Trad.: Solange Ribeiro de Oliveira. Belo Horizonte: Editora da UFMG.
PRATT, Mary Louise. 2013. Utopias linguísticas. Trabalhos em Linguística Aplicada 52(2): 437-459.
SILVERSTEIN, Michael. 1993. Metapragmatic discourse and metapragmatic function. In: John A. Lucy (Org.). Reflexive language: reported speech and metapragmatics. Cambridge: University Press.

02. Título do trabalho: Superdiversidade no contexto escolar de fronteira: diálogo de saberes
Autor(es): Maria Inêz Probst Lucena - Uniiversidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
lucena.inez@gmail.com
Maria Elena Pires Santos - Uniiversidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)
mel.pires@hotmail.com
Resumo: Embora nos últimos anos tenham-se ampliado as pesquisas e publicações que rompem com a visão do Brasil como um país monolíngue, é fato inegável que, no contexto escolar, ainda persiste fortemente esse mito, mesmo em contextos de fronteira em que a ‘superdiversidade’ (VERTOVEC, 2007; BLOMMAERT; RAMPTON, 2011) salta aos olhos. A Linguística Aplicada, em sua vertente ‘indisciplinar’ e transcultural (MOITA LOPES, 2006, 2013; CAVALCANTI, 2013; SIGNORINI, 2013, entre outros), no âmbito das novas epistemologias que propiciem a apreensão de fenômenos ou eventos compartilhados em que todos são participantes, contribui para a interconexão entre os saberes acadêmicos e os saberes locais, abrindo espaço para a discussão e/ou a solução de problemas relacionados a práticas de linguagem situadas. É sob esse enfoque que se coloca como objetivo apresentar, nessa apresentação, as dissonâncias entre o letramento escolar e os multiletramentos locais, no contexto
escolar transfronteiriço, na divisa entre Brasil, Paraguai e Argentina. Para tanto, apresentamos exemplos provenientes de uma pesquisa etnográfica, focando em um evento na sala de aula de Língua Portuguesa em que professora e alunos trabalham colaborativamente na construção de uma peça teatral. Com a finalidade de contar a história do bairro, colocando seus moradores como protagonistas da própria história, evidenciou-se a importância da negociação entre os saberes escolares institucionalizados e os saberes locais da vida vivida.
Email: lucena.inez@gmail.com
Palavras-chave: Superdiversidade – práticas de linguagem – contexto de fronteira - etnografia
Bibliografia básica:
BLOMMAERT , Jan; Rampton, Ben. Language and Superdiversity. Diversities Vol. 13, No. 2, 2011
CAVALCANTI, Marilda. (2013). Educação linguística na formação de professores de línguas: Intercompreensão e práticas translingues. In: MOITA LOPES, L.P. Linguística Aplicada na Modernidade Recente. São Paulo: Parábola.
MOITA LOPES, Luiz Paulo (2006).Por uma Linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola
SIGNORINI, Inês.(2013). Política, língua portuguesa e globalização. MOITA LOPES, L.P. Linguística Aplicada na Modernidade Recente. São Paulo: Parábola.
VERTOVEC, Steven (2007) Super-diversity and its implications. Ethnic and Racial Studies, 30: 6, 1024 —1054

03. Título do trabalho: Globalização nas margens do sistema mundo moderno/colonial: elementos para uma sociolinguística da mobilidade desde experiências indígenas
Autor(es): André Marques do Nascimento - Universidade Federal de Goiás
marquesandre@yahoo.com.br
Resumo: Na atualidade, poucos são os estudos que, desde uma visão crítica e não distópica, visam à compreensão da agência indígena sobre os processos e efeitos da globalização em suas práticas comunicativas. Deslocamento, homogeneização, extinção e morte de línguas têm sido, normalmente, os principais descritores dos efeitos da chamada globalização no que concerne ao uso das línguas indígenas, sem muita atenção sendo dispensada, contudo, às instâncias contra-hegêmonicas de resistência e reelaboração de práticas comunicativas compostas por recursos destas línguas que, ao contrário das previsões mais catastróficas, podem significar a atualização e a continuidade de seu uso situado nas configurações geopolíticas e culturais contemporâneas. Partindo destas assunções, este trabalho analisa sob o pano de fundo da sociolinguística da mobilidade e de estudos decoloniais latino-americanos como a apropriação de infraestruturas de globalização por comunidades e pessoas indígenas tem gerado i) redes de coalização translocais que, dentre outras consequências, tornam visíveis as populações indígenas e suas demandas contemporâneas e ii) novos ambientes de interação comunicativa transidiomática, nos quais recursos das línguas indígenas assim como da língua portuguesa são usados de forma produtiva. Nesta direção, a análise aqui apresentada enfoca elementos de discurso que se emergem na composição de Rap por grupos latino-americanos que se auto-identificam como indígenas e/ou originários e em mensagens postadas em redes sociais ou através de aplicativos de smartphones por usuários/as indígenas brasileiros/as, nos quais observam-se novos contextos de uso de recursos das línguas indígenas. O principal argumento aqui desenvolvido é de que o salto escalar translocal possibilitado pela apropriação de infraestruturas de globalização, especialmente de novas tecnologias de mídia e comunicação, tem efeito potencial positivo na vitalidade linguística dos grupos situados às margens do sistema mundo moderno/colonial, refutando, assim, a hipótese totalizante de homogeneização cultural gerada pela globalização geocultural.
Email: marquesandre@yahoo.com.br
Palavras-chave: Globalização. Infraestruturas de globalização. Povos Indígenas. Práticas transidiomáticas. Tecnologias de comunicação
Bibliografia básica:
BLOMMAERT, J. The sociolinguistics of globalization. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
BLOMMAERT, J.; WESTINEN, E.; LEPPÄNEN, S. Further notes on sociolinguistic scales. Tilburg Papers in Culture Studies, 2014.
JACQUEMET, M. Transidiomatic practices: language and power in the age of globalization. Language and communication, 25, 2005, p. 257-277.
MIGNOLO, W. D. Local histories/Global designs: coloniality, subaltern knowledges, and border thinking. Princeton: Princeton University Press, 2000.
WANG, X.; SPOTTI, M.; JUFFERMANS, K.; CORNIPS, L.; KROON, S.; BLOMMAERT, J. Globalization in the margins. Tilburg Papers in Culture Studies, 2013.

04. Título do trabalho: “C ça ksé bon”: Retomando a linguagem de emigrantes Portugueses por jovens Luso-Descendentes nas redes sociais
Autor(es): Isabelle Simoes Marques (Universidade Aberta e CLUNL-FCSH- Universidade Nova de Lisboa)
isimoesmarques@fcsh.unl.pt
Michele Koven (University of Illinois at Urbana-Champaign)
koven.michele@gmail.com
Resumo: Uma vez que o estudo sobre o falar bilingue (code-switching e code-mixing) dos migrantes de primeira geração tem sido estudado extensivamente, abordaremos na nossa comunicação como jovens de uma geração pós-migrante (2ª ou 3ª geração) parodia o discurso híbrido dos seus pais ou avós (Chun 2009, Jaspers 2011, Rampton 1995). Observaremos as práticas semióticas heteroglóssicas usadas por jovens de origem portuguesa, nascidos e criados em França, em contextos on-line. Mais especificamente, olharemos para o seu uso, avaliação e desempenho das línguas portuguesa e francesa, bem como elementos semióticos híbridos em vídeos do Youtube, fluxos de comentários assim como posts no Facebook. Através dessas variadas produções linguísticas, examinaremos como os participantes reúnem-se em torno de António, uma estilização de uma figura de um emigrante português de primeira geração em França, desempenhado pelo dueto cómico francês Ro et Cut. António é conhecido pelo seu comportamento semiótico (não)verbal, que evoca a primeira geração de emigrantes portugueses em França. Mais especificamente, estudaremos como os participantes retomam intersemióticamente o discurso de António (Bauman and Briggs 1990). Neste sentido, analisaremos a circulação quase viral de uma das frases emblemáticas desta personagem, "C'est ça que c'est bon" (trad. isto é que é bom). Embora muitos possam reconhecê-lo como um francês imperfeito ("broken” french), marcado pela influência do português e sociolectos estigmatizados de francês, esta frase tem sido amplamente usada e citada on-line. Muitos têm subsequentemente retomado esta frase com estratégias ortográficas heteroglóssicas, escrevendo-a com uma linguagem jovem, do tipo sms ("C ça ksé bon"), citando, tacitamente, de forma ridícula e cómica esta figura migrante. Iremos, portanto, analisar como estas práticas semióticas híbridas são envolvidas, reproduzem ou desafiam as ideologias linguísticas monolingues dominantes das línguas portuguesas e francesas no contexto Europeu.
Email: isimoesmarques@fcsh.unl.pt
Palavras-chave: transnacionalismo linguístico, identidades migrantes e pós-migrantes, redes sociais
Bibliografia básica:
Bauman, Richard, Briggs, Charles (1990). Poetics and performance as critical perspectives on language and social life. Annual Review of Anthropology 19: 59-88.
Chun, Elaine (2009). Speaking like Asian immigrants: Intersections of accommodation and mocking. Pragmatics 19:17-38.
Jaspers, Jurgen (2011). Talking like a ‘zerolingual’: Ambiguous linguistic caricatures at an urban secondary school. Journal of Pragmatics 43: 1264-1278.
Koven, Michele and Simões Marques, Isabelle (in press). Performing and Evaluating (Non)modernities of Portuguese Migrant Figures on YouTube: The Case of Antonio de Carglouch. Language in Society.
Rampton, Ben (1995). Crossing. Manchester: Saint Jerome’s.

05. Título do trabalho: Language and transnational education of the Japanese-Brazilian community between Japan and Brazil
Autor(es): Christian Muench (Kiel University, Germany)
christian.muench@romanistik.uni-kiel.de
Maria Torres-Guzman (Columbia University, New York)
met12@columbia.edu
Resumo: Transnational communities of immigrants have been much in the foreground of studies on culture, language and education. This paper analyses the changing relationships between Japanese-Brazilian communities in Japan and Brazil and their effect on language education of their children.
Since the arrival of the first ship with Japanese immigrants in Brazil in 1908, the Japanese-Brazilian community in Brazil maintained close links with Japan. Japanese-Brazilian migrants from Brazil also kept in close contact with their families back home since they started leaving for Japan in the early 1990s. And while many of those Japanese-Brazilians residing in Japan were forced to return as a result of the financial and economic crises since 2008, few of them would give up their immigrant status in Japan to keep the option of returning. Thus, over the last 25 years, circular movements between Japan and Brazil have defined the lives of many Japanese-Brazilians with serious effects on the education of their children. Apart from describing and analysing the complex situation and the cultural obstacles this community faces, this paper is going to address in particular the general question of linguistic accomodation in educational policies. The school systems and societies of Brazil and Japan provide an ideal background for contrasting the problems of children of transnational communities in monolingually organized school systems. In the face of globalization processes, the silent minority of transnational migrants calls for a critical review of both, opportunities and challenges of our educational agendas and language policies.
Email: christian.muench@romanistik.uni-kiel.de
Palavras-chave: Language, education, trans-national communities, migration, language policy
Bibliografia básica: To be forwarded

06. Título do trabalho: Pesquisadores brasileiros nos Estados Unidos: Um Estudo sobre a construҁao de identidades bilingues.
Autor(es): Fernando Mier y Terán - Universidade de Illinois em Urbana-Champaign Estados Unidos
mieryte2@illinois.edu
fermytg@gmail.com
Resumo: Neste trabalho, procuro analisar como um grupo de pesquisadores brasileiros, que moram e estudam nos Estados Unidos, vive sob a egide de um contexto culturalmente diverficado, construindo suas identidades bilingues como falantes de Portugues e de Ingles no contexto da globalizaҁao. Para tanto, observo como elas são apresentadas em narrativas desenvolvidas por eles. Baseio-me nas teorias socioconstrucionistas das identidades sociais e da analise do discurso. Especificamente, neste trabalho, objetivo explicitar como diversas perspectivas ideologicas conectam-se e auxiliam na percepҁao desses participantes sobre sua alteridade.
Resultados Preliminares: As pessoas que já participaram na pesquisa aportaram narrativas que contribuim para a compreensão dos processos de construҁao de identidades baseadas nas suas práticas discursivas como falantes bilingues.
Email: mieryte2@illinois.edu
Palavras-chave: Construção de Identidade, Bilinguismo, Narrativa, Ideologias linguisticas
Bibliografia básica:
Blommaert, J. (2000). Discourse. Cambridge: Cambridge University Press.
Fairclough, N. (2003). Analysing Discourse:Textual Analyisis for Social Research. 2003. London: Routledge.
Foucault, M. (1972). The Archaeology of Knowledge and the Discourse on Language. New York: Harper.
Johnstone, B. (2008). Discourse Analyisis (Second.). Malden, MA: Blackwell Publishing.
Wortham, S. (2001). Narratives in Action, A Strategy for Research and Analysis. New York and London: Teachers College Press.

07. Título do trabalho: Recursos metapragmáticos de construção identitária: marcadores discursivos em contextos globalizados
Autor(es): Thaís Elizabeth Pereira Batista (PÓS-GRADUAÇÃO - UFG,thaiselizpbatista@gmail.com)
Resumo: Este trabalho apresenta uma discussão sobre o uso e funcionamento de Marcadores Discursivos, elementos linguísticos que destacam situações de interação, na fala de jovens. Procura-se empreender essa investigação analisando a presença desses marcadores no contexto de fala e as possíveis variações decorrentes de estilização na interação verbal (RAMPTON, 2003, 2006). Com base em estudos referentes à metapragmática (SILVERSTEIN, 1993) e à sociolinguística em tempos de globalização (BLOMMAERT, 2010), pretende-se investigar o uso de Marcadores Discursivos como recurso avaliativo e como objeto de avaliação metapragmática. O principal objetivo desta pesquisa é comparar variação de usos desses elementos em diferentes comunidades, provavelmente em graus diferentes de estigmatização, buscando pistas indexicais para analisar os usos. Os dois contextos interacionais selecionados para comparação são: uma escola estadual situada em área rural do município de Cavalcante-GO - Colégio Calunga I na comunidade quilombola Kalunga - e uma escola situada em área urbana do município de Anápolis-GO - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás – Câmpus Anápolis. Ferramentas analíticas dos estudos de sociolinguística da globalização, tais como estudos de paisagens linguísticas (Blommaert, 2013), tem mostrado salutar relevância para análises já realizadas. As paisagens linguísticas que compõem a comunidade quilombola, por exemplo, considerada uma comunidade tradicional, se entrecruzam entre elementos locais (produções em paredes da escola, placas do comércio escritas a mão, avisos para moradores/as escritos nas paredes) e globais (televisão via satélite, placas confeccionadas pelo governo federal, placas bilíngues para turistas). A interação de duas forças: formas novas e mais complexas de migração aliadas a formas de comunicação e circulação de conhecimento novas e mais complexas (BLOOMAERT, 2012) propiciam essas práticas que indiciam a influência da globalização até mesmo nas performances de quem vive em contextos definidos como rurais, o que torna os padrões linguísticos mais complexos e difíceis de se pressupor.
Email: thaiselizpbatista@gmail.com
Palavras-chave: Sociolinguística; metapragmática; interação; globalização; complexidade
Bibliografia básica:
BLOMMAERT, Jan. 2010. The Sociolinguistics of Globalization. Cambridge: University Press.
BLOMMAERT, Jan. 2013. Ethnography, superdiversity and linguistic landscapes: chronicles of complexity. Bristol: Multilingual Matters.
RAMPTON, Ben. 2003. Hegemony, social class and stylisation. Pragmatics. v. 13, n. 1, p. 49-83.
RAMPTON, Ben. 2006. Language in Late Modernity. Interaction in an Urban School. New York: Cambridge University Press.
SILVERSTEIN, Michael. 1993. Metapragmatic discourse and metapragmatic function. In: John A. Lucy (Org.). Reflexive language: reported speech and metapragmatics. Cambridge: University Press.

08. Título do trabalho: Participação política online: uma perspectiva do dissenso
Autor(es): Petrilson Alan Pinheiro (UNICAMP). E-mail: petrilson@iel.unicamp.br
Resumo: O objeto deste trabalho é apresentar a discussão de dados gerados por meio de uma análise qualitativa de dois fóruns do Portal E-democracia, da Câmara dos Deputados Federais do Congresso Brasileiro, que possibilitaram a criação de espaços de movimentos políticos por parte dos usuários do portal. Para entender esses movimentos políticos na internet, fizemos uso do referencial analítico de Van Langenhove e Harré (1999) de posicionamentos discursivos e dos conceitos teóricos propostos por Rancière (1999; 2007) de “partage du sensible”, “dissensus” e “subjetivação política”, que, assim como estabelecem uma relação hierárquica entre aqueles que possuem visibilidade e os que não possuem, dentro de um processo institucionalmente ordenador que aloca indivíduos em lugares particulares, sustentam também o potencial para a sua própria dissolução. Como resultado, pudemos observar que os usuários envolvidos nos fóruns se tornaram os próprios
representantes de si mesmos, ou melhor, das ideias que defendem por meio de suas práticas discursivas. Isso, por sua vez, se relaciona com o próprio “direito de falar” dos participantes, cuja oportunidade de argumentar por sua própria conta e questionar as justificações dos parlamentares, pôde transformar, pelo menos por algum tempo, a hierarquia (assimetria) comum que havia entre eles, o que, em última instância, contribuiu para modificar as próprias identidades dos participantes envolvidos.
Email: petrilson@iel.unicamp.br
Palavras-chave: Internet; política; dissenso; subjetivação política.
Bibliografia básica:
RANCIÈRE, J. Disagreement: Politics and philosophy. Translation: J. Rose. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999.
______. Le partage du sensible. Entretien avec Jacques Rancière. Multitudes: Revue Politique, Artistique e philosophique, 2007. Disponível em: http://multitudes.samizdat.net/Le-partage-du-sensible. Acesso em: 11 dez. 2011.
VAN LANGENHOVE, L. & HARRÉ, R. Introducing Positioning Theory. In: Harré, R. & Van Langenhove, L. (Eds.). Positioning Theory. Oxford: Blackwell, 1999.

09. Título do trabalho: Sociolinguística da globalização: trajetórias textuais, metareflexividade e sociabilidades emergentes no blog "A vida no Armário"
Autor(es): Luiz Paulo da Moita Lopes
Resumo: Ao contrário da sociolinguística quantitativista, a sociolinguística da globalização enfatiza os usos não-tácitos da linguagem e privilegia, portanto, o alto nível de reflexividade e metareflexividade constitutivo da vida contemporânea. Tal reflexividade resulta dos processos de hipersemiotização a que estamos expostos no mundo digital e fora dele, e requer o estudo de práticas discursivas situadas em tempos convencionalmente chamados de "modernidade reflexiva". Essa tradição distancia-se, deste modo, de grandes generalizações positivistas e prestigia a contigência da vida social em nossos dias e os recursos semióticos que usamos aqui e ali performativamente. Apoiando -se na viagem textual que a propaganda-vídeo intitulada "O homem homem" empreende ao ser re-entextualizada no Blog "A vida no armário" e em 18 postagens em tal blog, este trabalho problematiza vidas sociais emergentes em tais trajetórias textuais, que são eminentemente translocais e,
portanto, multi-escalares. Para tal, o trabalho está baseado em teorizações queer do gênero e da sexualidade e, em como por meio de processos discursivos de entextualização/re-entextualização, sociabilidades emergentes translocalizadas de gênero e sexualidade são indexicalizadas performativamente. A análise, proveniente de tais construtos teórico-analíticos, aponta questionamentos sérios sobre discursos tradicionais sobre vidas generificadas e sexualizadas, ao indicar novos sentidos sobre quem somos ou podemos ser. O trabalho conclui com intravisões dessa análise para a implementação de políticas linguísticas que deem conta de nossas vidas sociais translocais e performativas, bastante desatreladas de uma linguística do sistema, modernista e positivista.
Email: moitalopes@oi.com.br
Palavras-chave: globalização; sociolinguística; entextualização; viagem textual; gênero; sexualidade; vidas translocais
Bibliografia básica:
Blommaert, J. (2010) The sociolinguistics of globalization. Cambridge: Cambridge University Press.
Blommaert, J; Ramptobn, B. (2011) Language and superdiversity. A position paper. Working papers in Urban literacies, Kings' College, Paper 70.
Moita-Lopes, L. P. (ed.) (no prelo) Global Portuguese: linguistic ideologies in late modernity. Nova York: Routledge.
Pennyccook, A. Language as local practice. Londres: Routledge
Sullivan, N. (2003/2006) A critical introduction to queer theory.Nova York: New York UNiversity Press.

10. Título do trabalho: Mobilidade e metareflexividade no uso da língua por usuários brasileiros da internet
Autor(es): Inês Signorini (Universidade Estadual de Campinas - signor@iel.unicamp.br)
Resumo: Segundo pesquisas publicadas em 2012 por diferentes instituições, o número de internautas brasileiros tem crescido vertiginosamente nos últimos anos, com destaque para o fato de que interações mediadas por tecnologias digitais, especialmente as redes sociais, já fazem parte do cotidiano da maioria deles, independentemente do grupo socioeconômico a que pertençam. Em função, todavia, da mobilidade socioeconômica verificada no mesmo período e das políticas recentes de “inclusão digital”, a esse crescimento vertiginoso tem se associado o surgimento de manifestações de franco desconforto com a perturbação causada pela chegada de “emergentes” e “incluídos”, por parte de usuários mais antigos que se veem como mais qualificados para as trocas na internet. Conforme pretendemos mostrar, nessas manifestações, os comentários e avaliações de natureza metapragmática remetem a ideologias linguísticas e identidades socioculturais relacionadas à tradição
letrada escolarizada e que sustentam a percepção de falta de legitimidade do uso público da língua pelos novos internautas. Se, de fato, tem havido uma reconfiguração significativa de papéis e vozes nesse espaço específico, uma implicação a ser considerada é a da visibilidade dada às fraturas da língua nacional e à reconfiguração igualmente significativa de demandas tidas como já estabelecidas para a educação linguística básica. Focalizaremos especificamente as relacionadas aos usos da escrita em práticas hipermidiáticas. A pesquisa que deu origem aos dados analisados se enquadra no paradigma interpretativo da pesquisa desenvolvida no campo aplicado dos estudos da linguagem, mais especificamente no campo da pesquisa de filiação socio-antropológica e etnográfica, portanto voltada para o exame dos usos da língua(gem) na interação sociohistórica e culturalmente situada. Os estudos sobre a dimensão político-ideológica dos letramentos e os estudos
sociosemióticos das metapragmáticas da língua em uso são referências importantes para a discussão apresentada.
Email: inesignorini@gmail.com
Palavras-chave: metareflexividade, metapragmática, língua portuguesa, internet
Bibliografia básica:
Dias, Luiz F. Os sentidos do idioma nacional. As bases enunciativas do nacionalismo lingüístico no Brasil. Campinas: Pontes, 1996.
Signorini, Inês. Em nome da língua (em nome de quem?). In: A. Kleiman (org) Formação do professor. In: Kleiman, A. B. (org.) A Formação do professor: perspectivas da Lingüística Aplicada. Campinas: Mercado de Letras, 2001a.
Signorini, Inês. Construindo com a escrita 'outras cenas de fala'. In: Signorini, I. (org.) Investigando a relação oral/escrito e as teorias do letramento. Campinas: Mercado de Letras, 2001b.
Taylor, Talbot J. (1997) Theorizing Language: analysis, normativity, rhetoric, history. Amsterdam, New York, Oxford: Pergamon
Silverstein, Michael. Monoglot 'Standart' in America: Standardization and Metaphors of Linguistic Hegemony. In: Brenneis, D. & Macaulay, R. K.S. (eds) The Matrix of Language. Contemporary Linguistic Anthropology. Bolder: Westview Press, 1996.

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↑ índice

SIMPÓSIO 55 - CONSTRUÇÃO E DESCONTRUÇÃO DE FRONTEIRAS GEO-LINGUÍSTICAS, SÓCIO-CULTURAIS E LITERÁRIAS

Coordenadores:
Maria Grazia Russo – Università di Viterbo – mariagrazia.russo.roma@gmail.com
Paula Limão – Università degli Studi di Perugia - depaiva@alice.it
Vera Lúcia de Oliveira – Università degli Studi di Perugia veralucia.deoliveira.m@gmail.com


RESUMOS APROVADOS

1. Aline Alves Arruda (Universidade Federal Sul de Minas), O projeto literário de Carolina Maria de Jesus
Resumo: Carolina Maria de Jesus (1914-1977) nasceu em Sacramento, Minas Gerais (Brasil) e ficou conhecida em 1960 pela publicação do livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, que conta sua vida na favela do Canindé, em São Paulo, onde viveu por nove anos desde 1947. Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, Carolina ficou famosa, teve o livro editado sete vezes só no ano de lançamento, e traduzido para 13 línguas. Além deste livro, a autora publicou outros três (uma novela, outro diário e um livro de provérbios), e pesquisadores de sua obra, editaram e publicaram mais três (uma autobiografia, um diário e uma reunião de poemas). Mesmo com esse conjunto de obras e material literário ainda inédito, a escritora ficou esquecida após seu diário Best-seller. Excluída da literatura brasileira ou levada para o campo da literatura de testemunho, Carolina ainda sofreu acusações sobre sua autoria dos textos. A autora, entretanto, certa de seu potencial, possuía um projeto literário. Ou seja, nas dezenas de cadernos nos quais escreveu diversos textos de diferentes gêneros, ela pensava em viver de literatura muito antes da editora Francisco Alves publicar seu diário. O que ela enxergava como obra ia muito além do registro de seu cotidiano, pois abrangia outros gêneros como poemas, contos, romances e provérbios. Embora tenha publicado apenas pequena parte desses escritos e não tenha tido tempo nem incentivo para lapidar e organizar os demais, percebemos claramente seu legado literário e o quanto ela tinha consciência desse projeto. Pretende-se, portanto, neste trabalho, mostrar como Carolina Maria de Jesus mesmo longe de ter as condições necessárias, produziu uma trajetória literária que aqui analisamos provando como ela merece estar dentro da literatura brasileira e como, de forma surpreendente, sua escrita densa, crítica e contundente faz dela uma escritora.
Email: profalinearruda@gmail.com
Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus - lilteratura brasileira - projeto literário

2. Ana Paula Franco Nóbile Brandileone (Universidade Estadual do Norte do Paraná), “Terrorismo literário”: manifesto da literatura marginal
Resumo: Esta comunicação faz parte de um projeto maior de pesquisa, cujo interesse centra-se na investigação de um dos temas que mais se tem destacado na narrativa brasileira contemporânea, que é a da figuração da violência, especificamente a urbana. Associada à tematização da violência inscreve-se outra nota dominante: a da representação da realidade marginal e periférica, entendida em sentido amplo como todos aqueles que vivenciam uma identidade coletiva que recebe valoração negativa da cultura dominante, seja por critério de sexo, raça, cor, orientação sexual, posição nas relações de produção, condição física, dentre outros. O mais importante destas narrativas, que trazem para o centro da discussão os excluídos sociais, é o lócus (espaço mais do que geográfico, social e afetivo) de onde fala o autor, bem como a sua intenção que, não raro, dedica-se à defesa das causas e das experiências dos oprimidos, criando, deste modo, uma escritura de testemunho. Exemplos desta produção são as obras de escritores como Luiz Alberto Mendes, que escreveu o romance Memória de um sobrevivente, e de outro relato de presos intitulado Letras da liberdade, ou ainda Literatura Marginal: talentos da escrita periférica, antologia organizada por Ferréz (2005). Diante do exposto, por meio de uma abordagem teórico-reflexiva, cujo referencial teórico está alicerçado em estudos que analisam a produção literária pós-moderna e contemporânea, dentre eles Bordieu (2005, 2009), Resende (2008), Schollhammer (2011), Dalcastagnè (2002, 2005), este trabalho tem por objetivo analisar o prefácio da antologia em questão, intitulado “Terrorismo literário”, no qual o autor assume-se como porta-voz da realidade periférica, vocalizando não apenas as experiências de quem está à margem, mas também posicionando-se contra a ordem estabelecida, que é de exclusão, segregação e hierarquização. Verifica-se, pois, que emprestando a sua voz aos antes silenciados, Ferréz defende a afirmação das suas identidades, bem como a transposição das fronteiras literárias.
Email: apnobile@uenp.edu.br
Palavras-chave: Literatura marginal; escritores marginais; fronteiras literárias.

3. Anabela Naia Sardo (Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Instituto Politécnico da Guarda – Portugal), Para além da ousada ambiguidade jamesiana: o livro A outra de Ana Teresa Pereira
Resumo: A comunicação que se pretende apresentar, preparada a partir de um ensaio sobre o conto A Outra da escritora portuguesa, nascida na Ilha da Madeira, Ana Teresa Pereira, enquadra-se no SIMPÓSIO 55 - CONSTRUÇÃO E DESCONTRUÇÃO DE FRONTEIRAS GEO-LINGUÍSTICAS, SÓCIO-CULTURAIS E LITERÁRIAS, e intenta desvelar interferências entre literaturas de línguas diversas. No caso em estudo, trata-se de mostrar a influência decisiva e marcante que a literatura de Língua Inglesa (especificamente britânica e norte-americana) tem na obra da escritora portuguesa objeto de estudo. A análise do conto A Outra, publicado em 2010, procura fazer ressaltar a forma como o texto em causa, partindo da declarada paixão da escritora pelas narrativas de Henry James, consegue ir para além da ousada ambiguidade que carateriza a obra do escritor norte-americano (naturalizado britânico) do início do século XX. Henry James a par de outros escritores, essencialmente anglófonos, marcaram, de forma indelével, a obra pereiriana, perpassando as narrativas de forma persistente e demarcando o seu universo circular, sempre em construção. As diegeses pereirianas funcionam, pois, numa interdependência declarada, como se a sua obra fosse sempre a mesma. Em A Outra não é só A Volta no Parafuso, de Henry James, que está em questão. Implicitamente, outras obras do escritor foram fundamentais para que Ana Teresa Pereira se aventurasse neste exercício de homenagear Henry James, “virando do avesso” a história clássica e para sempre ambígua do autor de alguns dos romances, contos e textos de crítica literária mais marcantes da Literatura Inglesa.
E-mail: geral.esth@ipg.pt
Palavras-chave:Ana Teresa Pereira; A Outra; Henry James; desconstrução de fronteiras literárias

BIBLIOGRAFIA BÁSICA
JAMES, Henry
(1996), The Turn of the Screw. Edited by Paul Roberts.
(2004), A Volta no Parafuso. Lisboa: Relógio D’Água Editores.
PEREIRA, Ana Teresa
(2004), “A noite dá-me um nome”. 31 de janeiro: 7. Recensão do livro de Henry James
(2003), A Volta no Parafuso. Tradução de Margarida Vale de Gato. Lisboa: Relógio D’Água Editores, Público, suplemento Mil Folhas, coluna “A quatro mãos.”
(2008), O Verão Selvagem dos Teus Olhos. Lisboa: Relógio D’Água Editores, (129 pp.). Depósito Legal n.º: 23871/08.
(2010), A Outra. Lisboa: Relógio D’Água Editores, (68 pp.). Depósito Legal n.º: 316181/10.

06/11/2014
*PEst-OE/EGE/Ul4056/2014 — projeto financiado pela FCT

4. Carlo Pelliccia (Università degli Studi di Viterbo), Enraizamento e rendição da língua portuguesa no Japão nos séculos XVI e XVII. Uma língua sem fronteiras para demarcações culturais
Resumo: Esta comunicação visa apresentar, na primeira parte, o fenómeno do “enriquecimento linguístico” que se origina em dois códigos dos séculos XVI e XVII, circunstância que permitiu registrar, como afirma o filólogo Koga Tsujirō, a presença de quatro mil termos lusófonos na língua Japonesa (Estrangeirismos Portugueses), “empregados sobretudo em Nagasaki - a assim chamada Roma do Japão - e nos respectivos arredores mais próximos”. O propósito será ter em consideração documentos e fontes inéditas para apresentar a introdução dos termos emprestados (gairaigo) algumas vezes utilizados para transmigrar um determinado conceito da língua de partida àquela de chegada. A segunda parte será dedicada à importância da expansão da língua portuguesa, que se difunde através das conquistas territoriais, comerciais e espirituais, cujo uso delimita espaços culturais, quer dizer zonas lusitanas que se diferenciam do “outro” mundo, que nem sempre conseguem integrar-se, mas que permanecem como um enclave dentro de territórios estrangeiros: desta maneira, a língua vai demarcar tais fronteiras culturais, apesar das oportunidades de passagem, intercâmbio e comunicação. Um dar e um receber como duas experiências indissoluvelmente ligadas entre si.
Email: shomei@libero.it
Palavras-chave: Termos linguísticos emprestados - missionação católica - conquistas territoriais - língua de fronteira - intercâmbio cultural

5. Cinthia Lopes de Oliveira (Universidade Federal de Juiz de Fora), Representações pós-coloniais na construção da linguagem de Mia Couto
Resumo: Inserido na linha de pesquisa Literatura, Identidade e Outras Manifestações Culturais desenvolvida no PPg Letras-Estudos Literários da UFJF, este estudo é resultado das leituras e discussões do Grupo de Pesquisa Além-do-mar. Coordenado pela Profª Drª Enilce Albergaria Rocha, um dos objetos de estudo do grupo é a discussão de conceitos, geralmente polissêmicos, tais como cultura e identidade cultural, língua e linguagem, colonização e globalização do ponto de vista das contribuições culturais das diásporas africanas no processo de hibridismo cultural das Américas. A pesquisa justifica-se devido à necessidade do aprofundamento da reflexão acerca das práticas e estratégias discursivas presentes nos textos ficcionais produzidos nas ex-colônias portuguesas, levando-se em consideração os aspectos da relação entre as culturas e a resistência ao pensamento hegemônico uniformizador, a fim de se construir um discurso crítico em relação à textualidadepós-colonial. Para fins de análise, foram delimitados para esse estudo, textos do escritor moçambicano Mia Couto, em especial o conto “O embondeiro que sonhava pássaros”, além de textos do livro Pensatempos que relatam sua experiência enquanto escritor de fronteiras, em conformidade com sua afirmação de que “um homem é uma ponte ligando as diversas margens”. A partir de teóricos como Glissant, Hall, Fanon e Abdala Junior pretende-se observar nos textos literários selecionados o fenômeno da hibridação cultural imbricado ao linguístico como forma de resistência ou de autoafirmação. Em Couto, a reinvenção da linguagem se utiliza da ressignificação da palavra inserindo nela uma pluralidade de sentidos que provocam uma dilatação das potencialidades virtuais do signo linguístico. O escritor expressa, igualmente, em sua escrita uma sofisticada forma de dialogar com a tradição da oralidade das línguas africanas que se veem intertextualizadas em seuscontos. Assim, em Mia Couto, as recombinações linguísticas e semânticas provenientes desse pluralismo cultural se apresentam em um caleidoscópio de riquezas culturais híbrida
Email: cinthia.lopes@ufjf.edu.br
Palavras-chave: Fronteira. Língua. Oralidade. Relação. Resistência.

6. Cloves da Silva Junior (Universidade Federal de Goiás), ), Identidade em trânsito: sujeitos deslocados no espaço goiano em Êxodo Rural, de Brasigóis Felício
Este trabalho apresenta uma leitura crítica do conto Êxodo Rural, do autor goiano Brasigóis Felício, extraído da obra Monólogos da Angústia, a partir da discussão sobre a transitoriedade das identidades dos personagens da narrativa – com enfoque em Joaquim, protagonista da história –, o deslocamento do campo para a cidade e as transformações que foram motivadas por essa mudança. Sobre o caráter transitório das identidades, Denys Cuche (2002, p. 177) afirma que “a identidade social de um indivíduo se caracteriza pelo conjunto de suas vinculações em um sistema social; [...]. A identidade permite que o indivíduo se localize em um sistema social e seja localizado socialmente”. Nesse sentido, observa-se que, no contexto na narrativa, Joaquim está vinculado a um determinado sistema social (zona rural) e em função disso possui características/marcadores peculiares que se ligam a este espaço e que foram construídas pelo contato diário que mantém com
o ambiente rural e com os personagens que o cercam. De outro lado, ao migrar para a cidade, Joaquim se localiza em outro espaço que difere bruscamente do anterior e passa a se identificar com outros grupos, isto é, sua identidade abarca novos modos ver o espaço, lidar com as pessoas e situações que o cercam de modo diferente da zona rural. Para elucidar a análise, são apresentadas as formações identitárias desses personagens com base na relação que mantém com os demais personagens e o espaço que os circunda. Para tanto, foi feita uma articulação entre a narrativa e os postulados teóricos de Berman (1986), Cuche (2002), Foucault (2001), Ignácio (2010), entre outros. Ao final, a análise comprovará que o espaço em que se situam os personagens é motivador das mudanças de identidade de acordo com os grupos em que estão inseridos por meio das trocas sociais, considerando o caráter flutuante da identidade.
Email: cloves-jr@hotmail.com
Palavras-chave: Êxodo Rural. Identidade. Migração. Cidade. Modernidade.

7. Emma De Luca, A conservação e a miscigenação dos hábitos sociais e culturais na dinâmica da preservação e da reafirmação das identidades dos italianos emigrados para o Brasil
Resumo: A massiva emigração italiana para o Brasil foi um acontecimento que mudou radicalmente o desenvolvimento da cidade de vários pontos de vista, tais como cultural, linguístico, gastronômico, econômico e relativo ao trabalho. O presente ensaio pretende chamar a atenção para a origem dos vários grupos de italianos que chegaram ao Brasil, a partir da análise dos cargos que eles conseguiram ocupar uma vez alcançado o sonho americano. A maioria dos italianos que foi para o Brasil provinha do norte da Itália, principalmente das regiões do Piemonte, do Trentino, do Vêneto, do Friul-Veneza Júlia, mas também da Campânia; esse foi definitivamente o maior fluxo migratório que viu os italianos como protagonistas de grandes viagens de esperança e de resgate sociocultural e econômico. Um exemplo de integração que teve pleno êxito foi com certeza o caso da família Matarazzo, proveniente da Campânia, que mudou o panorama econômico paulista e de todo o Brasil, estabelecendo uma verdadeira mudança na história das indústrias brasileiras. Porém, não foram somente os italianos do norte ou da Campânia que contribuíram na formação da nova sociedade brasileira. Casos de emigração, embora mais isolados e individuais, podem ser encontrados em outras famílias de origem geográfica diferentes. Vale ressaltar também o papel de Nicola Romito, que provindo de uma família da região da Apúlia, virou uma personagem da elite brasileira. Por fim, o objetivo da presente pesquisa é o de fazer reemergir as subjetividades das várias identidades culturais italianas que se foram misturando, integrando-se definitivamente na sociedade brasileira. Conduzindo uma análise escrupulosa em relação aos recursos que as famílias utilizavam para não perder definitivamente a própria identidade cultural, o ensaio vai procurar aquela linha subtil de fronteira sociocultural e linguística que tinha que ser mantida de qualquer forma para não deixar cair no esquecimento as origens de cada italiano emigrado.
Email: em.de.luc@gmail.com
Palavras-chave: fronteira sociocultural; emigração; emigrante; italiano; identidade cultural.

8. Enilce Albergaria Rocha (Universidade Federal de Juiz de Fora), ), Mia Couto, leitor de Guimarães Rosa: criações léxico-semânticas e negociações culturais
Resumo: Análise de alguns procedimentos linguísticos observados na criação léxico-semântica de Mia Couto em Terra Sonâmbula (1992) e A Varanda do Frangipani (1996), e as convergências entre esses procedimentos e as criações léxico-semânticas de Guimarães Rosa em alguns contos de Tutaméia (1967). A problemática da identidade cultural percorre toda a obra de Mia e as elaborações identitárias são indissociáveis da reinvenção da língua portuguesa: “O desvio linguístico com relação à norma portuguesa faz parte deste país, da oralidade onde eu bebo, onde eu vivo... Fico muito triste quando fazem a interpretação só em nível estético do desvio linguístico, quando eu gostaria que se evidenciasse este retrato de dois mundos.” (Folha de são Paulo, 23 de agosto de 1988). Metodologia: Estudo analítico-comparativo entre as criações léxico-semânticas de Mia Couto e Guimarães Rosa. Resultados preliminares: - Processos convergentes entre os dois escritores no que tange: a formação dos neologismos construídos através da junção de afixos a palavras que já comportam na língua outro afixo de igual valor, ou a palavras que rejeitam a junção de afixos; a criação de neologismos a partir do sufixo “des”.
Email: enilcejf@terra.com.br
Palavras-chave: Identidade cultural - oralidade - desvio linguístico

9. Francesca Degli Atti (Università del Salento), A Vanguarda primitiva: percursos de (re)construção linguística, literária, cultural
A “Vanguarda primitiva” nasceu durante uma conversa literária entre os poetas Manoel de Barros e Douglas Diegues e o jornalista Bosco Martins. Nas afirmações de Manoel de Barros, o princípio fundador desse movimento é a “fascinação pelo primitivo”.
De fato, o interesse pelo “primitivo”, originado a partir do contato direto com as populações indígenas da região de origem dos poetas, está longe de ser expressão de mera preferência temática, e torna-se, antes, instrumento de conhecimento e lente para filtrar a experiência do mundo ao nosso redor. A percepção primitiva poética do mundo gera uma visão em que os elementos se reorganizam, construindo novas configurações linguísticas, literárias, culturais que traduzem uma reinterpretação primitiva cósmica.
Se a unidade teórica do núcleo da Vanguarda primitiva surge bem claramente, os resultados literários, as trajetórias poéticas, o mesmo modus operandi dos seus criadores divergem profundamente. A questão revela-se ainda mais complexa se analisarmos a genealogia desse movimento e a declarada ascendência oswaldiana de suas matrizes.
O confronto entre os percursos de vanguarda e as vertentes primitivistas desses poetas nos permite destacar confluências e divergências e delinear as peculiaridades da Vanguarda primitiva no panorama literário entre o século XX e o terceiro milénio.

Email: fdegliatti@yahoo.it
Palavras-chave: Vanguarda primitiva, Manoel de Barros, Douglas Diegues

10. Jéssica Balbino (jornalista), Fora do cânone: as vozes femininas na literatura marginal e periférica
Resumo: O trabalho vai mostrar como escritoras marginais e periféricas rompem com a problemática “Pode o Subalterno Falar?” e inovam no jeito de narrar, desafiando o cânone literário ao contar, de forma oral, teatral e impressa a própria história. São analisadas mulheres que frequentam saraus nos últimos 10 anos – de 2004 a 2014 -, especialmente na cidade de São Paulo e na região metropolitana de Campinas (SP), bem como as que se declaram pertencentes à literatura marginal e suburbana brasileira, por se reconhecerem nas práticas e no jeito de narrar. O objetivo é trabalhar com textos, materiais gravados em áudio e vídeo durante os saraus e materiais divulgados na web. Neste material será trabalhado, além da estatística de crescimento de participação, qual as principais temáticas abordadas e levantadas pelas mulheres escritoras urbanas e marginais do Brasil.
Dados levantados em campo para esta pesquisa mostram que embora as mulheres sejam mais atuantes socialmente, na literatura marginal e periférica brasileira na última década, quando as antologias literárias publicadas pelos saraus se popularizaram, o número de mulheres escritoras que publicaram seus escritos ainda é 20% inferior que o número de homens. Contudo, a mesma pesquisa mostra que desde 2010, há um crescimento expressivo do número de participação de mulheres em saraus, em coletivos literários, na organização das antologias 100% femininas e no protagonismo das mesmas.
A pesquisa observa ainda o protagonismo destas mulheres, poetas marginais, na web e nas redes sociais, onde divulgam o próprio trabalho e conquistam a própria voz de maneira digital.
Desta maneira, entende-se que as mulheres que se assumem escritoras marginais e periféricas criaram um novo padrão de narrativa da própria realidade a partir da localização geográfica em que vivem – a periferia – e do cotidiano que vivem: o que acontece neste ambiente. Ao contrário da mídia (tal como a conhecemos), o discurso dos poetas e escritores da periferia baseia-se não apenas em dados estatísticos e oficiais, mas em vivências, observações, relatos, depoimentos e participação ativa no meio.
Email: jessicabalbino.jornalista@gmail.com
Palavras-chave: literaturas de língua portuguesa, literatura marginal, sociolinguística.

11. Marcelo Chiaretto (Universidade Federal de Minas Gerasis), Literatura e inclusão social: o cânone e a perferia em contato na sala de aula
Resumo: Segundo Antonio Candido em seu texto “O direito à literatura” (1988), os educadores preconizam e, ao mesmo tempo, temem o efeito dos textos literários devido ao conflito existente entre a ideia convencional e legitimada de uma literatura que deve “elevar e edificar” em contraponto com uma outra ideia de literatura, mais humanizadora e ciente de sua “poderosa força indiscriminada” de revelar o que pode incomodar e corromper. Promovida na educação escolar muitas vezes para educar os sentimentos ou para entreter, a leitura literária sob o enfoque mais humanizador serviria para abalar, despertar, comover e fazer instável um espaço antes seguro, sereno e disciplinado. Como firmar um espaço viável na aula de literatura para que tal concepção de literatura possa vigorar? Tendo por base estudos na área da Teoria da literatura e na área da Educação, esta comunicação pretende demonstrar que textos literários de escritores modelares e canônicos (comoMachado de Assis), quando lidos em relação contígua com textos literários de escritores assumidos como sendo da periferia urbana brasileira e fora dos limites do sistema consagrado pelos meios oficiais (como Ferréz), podem ser fundamentais para estimular uma prática menos convencional e mais política de ensino de literatura. A rigor, seria uma prática apta a desenvolver posições e exercícios de leitura literária alternativos, capazes de questionar e criticar textos, formações sociais e assunções sociais. Desse modo, firma-se enfim o espaço possível para uma abordagem da literatura que seja ativa e desafiadora na sala de aula, a envolver análise e crítica da relação entre textos, linguagens, poderes, grupos sociais e práticas sociais.
Email: mchiaretto@uol.com.br
Palavras-chave: Literatura, Educação, Inclusão, Periferia, Cânone.

12. Maria Antonietta Rossi (Università degli Studi della Tuscia), Fronteiras linguísticas diatópicas e diastráticas na narrativa de Miguel Torga: análise das estruturas conversacionais
Resumo: A presente comunicação visa aprentar uma análise a nível conversacional das estratégias interactivas verbais empregadas no tecido narrativo das obras Contos da Montanha, Novos Contos da Montanha e Bichos do autor trasmontano Miguel Torga (1907-1995). Através duma específica seleção de diálogos, será apresentado o estudo conversacional dos estratagemas interactivos que os interlocutores põem em prática durante o fenómeno comunicativo, dando origem a uma real ação social que permite estabelecer relações interpessoais graças ao emprego de normas de polidez linguística. Sendo os diálogos circunscritos ao contexto situacional/social da região transmontana do norte de Portugal, o objectivo da comunicação consiste em descrever como as variantes tanto diatópicas como diastráticas, empregadas pelos interactantes do respectivo ambiente rural, representam efetivas fronteiras linguísticas entre o norte e o restante território continental português. De facto, o assim chamado painel tosco e montanhês representa um núcleo territorial caracterizado, a nível tanto linguístico como conversacional, pelo emprego de determinados elementos lexicais e estruturas coloquais que são típicas das camadas sociais mais baixas da paisagem de referência e que, inevitavelmente, marcam uma profunda fronteira linguística tanto diatópica como diastrática entre o norte e as outras regiões portuguesas.
Email: rossi-maria-anto@libero.it
Palavras-chave: Fronteira linguística, variante diatópica, variante diastrática, Miguel Torga, análise conversacional

13. Maria da Graça Carvalho do Amaral (Universidade Federal do Rio Grande) e Raymundo da Costa Olioni (Universidade Federal do Rio Grande), A relação entre identidade e alteridade na zona fronteiriça Chui-Chuy
Resumo: Este trabalho está inserido no esteio do Programa Escolas Interculturais de Fronteira – Programa do Ministério da Educação do Brasil em parceria com universidades federais e municípios de zona de fronteira do Brasil com outros países, como Uruguai, Argentina, Venezuela, Paraguai e Guiana –, mais especificamente constituindo-se como estudo realizado pelo PEIF na região fronteiriça Chuí-Chuy. Para a configuração desta pesquisa, adota-se a perspectiva dos Estudos Culturais (HALL: 1999), sob a ótica das relações culturais, sociais, políticas e linguísticas que configuram a identidade de brasileiros e uruguaios que compartilham o mesmo espaço geográfico numa “fronteira seca”, (des)unidos por uma mesma avenida. A construção das identidades na fronteira envolve um processo de contradições, ambiguidades e complexidades que podem ser identificadas pelos marcos referenciais, em constante e contínuo relacionar-se com a Alteridade. A fronteira constitui-se em encerramento de um espaço, limitação de algo, fixação de conteúdos e de sentidos específicos, conceitos que avançam para os domínios da construção simbólica de pertencimento denominada identidade e que corresponde a um marco de referência imaginária, definido pela diferença e a alteridade na relação com o Outro (HANCIAU: 2005, p. 133). Na fronteira, o sujeito encontra-se cindido entre a identidade nacional e a outra, a relacional, que pode ser assumida; constrói-se, assim, uma relação “entre-lugares”, como salientado tanto por HALL (2003) quanto por BHABHA (1998). O “entre-lugar” é concebido como um terceiro espaço, híbrido, que permite a constituição de novos sujeitos. Como corpus de análise da pesquisa, foram utilizadas entrevistas de brasileiros e de uruguaios de zona de fronteira que se posicionam frente a uma (re)organização enquanto sujeitos, (de)marcados geográfica e culturalmente pelas influências da cultura do Outro, instanciados pela língua.
Email: riogra@vetorial.net
Palavras-chave: : Estudos Culturais – identidades – fronteira

14. Maria Georgina dos Santos Pinho e Silva, Carla Monteiro de Souza, Huarley Mateus do Vale Monteiro (Universidade Estadual de Roraima), De como a cultura e a figura do Índio são projetados a partir de uma literatura “marginalizada”
Resumo: A literatura oral no Brasil está imbricada às histórias dos indígenas, dos europeus e dos africanos, povos que confluíram para o desenvolvimento da nossa diversidade cultural. Porém, ainda hoje encontramos uma visão vaga e algumas vezes equivocada quando a matéria se refere à produção oral dos indígenas. Sabendo das dificuldades de tal abordagem, o recorte que fizemos acerca da temática se restringe ao lugar que ocupa a literatura oral, considerada por alguns críticos literatura “marginal” quando comparada à literatura “oficial”. Diante disto, pretendemos compartilhar o mundo indígena por meio das narrativas orais, coletadas na comunidade indígena São Jorge-Roraima-Brasil, a fim de desconstruir a imagem jocosa que lhes são conferidas. Na busca de melhor compreensão do assunto, partimos dos Estudos Culturais, para atentarmos à potencialidade que as narrativas orais fornecem à cultura e aos valores de uma sociedade, ponderando que vivemos num
país plural, ou melhor, intercultural. Nesse sentido, nos valemos da ideia de que as discussões somam-se àquelas que, no campo dos estudos da literatura, valorizam as narrativas orais indígenas como expressão literária e identitária de um grupo social. Mesmo não fazendo parte do cânone, e sendo um gênero provocador na literatura contemporânea, reconhecemos os ensinamentos impressos nas narrativas orais, uma vez que são consideradas por aqueles que relatam, um espaço para manifestação das práticas culturais. Logo, as discussões levantadas aqui, está há certo tempo entre duas tendências diversas: os Estudos Culturais e a Teoria Literária. De modo que a nossa intenção é contribuir para uma reflexão a respeito da literatura oral no cenário acadêmico, com o propósito de que os povos indígenas, sua cultura e suas narrativas possam ser reconhecidas e consideradas no contexto das relações étnico-culturais e literárias ainda bastante desiguais e marginalizadas.
Email: georginapinho@hotmail.com
Palavras-chave: Cultura. Identidade. Literatura Oral. Literatura Marginal. Comunidade Indígena.

15. Maria Rosa Adanjo Correia (CLEPUL), Como Caliban desconstruiu a fronteira de Próspero
Resumo: Nas literaturas africanas de língua portuguesa Caliban foi adquirindo contornos de um mito fundador, símbolo da libertação, escapando ao domínio de Próspero que lhe ensinou a sua língua para o escravizar. A libertação dos vínculos criados pela colonização e a busca de uma identidade matricial africana marcou os intelectuais e escritores africanos nas ex-colónias portuguesas. Embora dominando a língua do colonizador continuavam agrilhoados pelas leis e censura coloniais. Após a Guerra de 39/45, na sequência do Movimento da Negritude, Caliban vai transpondo a linha de fronteira e progride no território “inimigo”: contesta a exploração económica, o racismo, a falta de liberdade. Emergem na ficção narrativa e na poesia os valores da África Negra, o orgulho da raça e da sua ancestralidade, ideias igualmente veiculadas pelos jovens ultramarinos que viviam em Portugal na Casa dos Estudantes do Império e expressas no Boletim Mensagem. Nos anos 60, em Angola Luandino Vieira publica Luuanda, onde os habitantes dos musseques de Luanda rompem a fronteira do asfalto e fazem ouvir a sua voz. Luís Bernardo Honwana dá a palavra aos camponeses das machambas moçambicanas em Nós Matámos o Cão Tinhoso. As balizas cairão com as independências, um novo ciclo inicia-se. Pouco a pouco, os temas e linguagem revelam a desconstrução da fronteira colonialista, questionando o papel do indivíduo na sociedade, clarificando a procura da identidade individual e nacional. É igualmente inegável o alargamento do espaço semântico, na imperiosa necessidade de diversificação. Mia Couto e Ondjaki, poetas e narradores, são atualmente os autores africanos mais editados e traduzidos. Será analisado o percurso da narrativa africana em língua portuguesa de Luandino Vieira e Luís Bernardo Honwana a Mia Couto e Ondjaki, na afirmação da identidade literária e da autonomia. A abordagem desta observação baseia-se, mais do que nas temáticas, no uso da criatividade e autonomia linguísticas.
Email: rosadanjo@gmail.com
Palavras-chave: língua portuguesa; ronga; quimbundo; literatura angolana de língua portuguesa; literatura moçambicana de língua portuguesa.

16. Mariagrazia Russo (Università degli Studi della Tuscia di Viterbo), O espaço linguístico fronteiriço da Raia alentejana / Raya Extremeña: percursos para a construção de identidades

Resumo: Objectivo dessa comunicação é, por um lado, descrever os fenômenos linguísticos que caracterizam o espaço fronteiriço entre a Raia Alentejana e a Raya Extremeña, e, por outro, observar os movimentos culturais, sobretudo através do web, que estão a dinamizar o ambiente social desta zona e a avançar propostas para reforçar as próprias identidades. Valorizar a própria língua e encontrar recursos para a preservar (mesmo onde essa encontra de forma muito próxima outras culturas) significa investir no património humano quer português quer espanhol, enriquecendo, através de projectos comuns, o percurso para a construção de fronteiras – não fronteiras.
Email: mariagrazia.russo.roma@gmail.com
Palavras-chave: fronteira, Raia, Raya

17. Mauren Pavão Przybylski (UNEB – Campus de Alagoinha), Construção e deconstrução das fronteiras literárias: o exemplo do narrador oral urbano-digital
Resumo: Roland Barthes (1978) entende que a narrativa nasce com a própria história da humanidade; não há, não há em parte alguma um povo sem narrativa. As novas tecnologias, por sua vez, propiciaram o surgimento de novas formas de narrar, formas essas que nem sempre são enquadradas na chamada literatura oficial e canônica, mas as quais foram repaginadas pela evolução tecnológica, fazendo emergir diferentes tipos de narradores; aqueles que ainda não possuíam um lócus de enunciação, os periféricos, passaram a ter, no ambiente digital, a possibilidade de inscrição no mundo. Há de se considerar o fato de que escritores de periferias urbanas, mesmo possuindo uma produção que possa ser considerada literária, acabam por não ser vistos como tal, por adotarem formas de inscrição que não estão de acordo com aquilo que é aceito pela coletividade, sendo autores de narrativas ditas “não-literárias”. Estas, por seu lado, ganham espaço nos estudos contemporâneos, sobretudo em diálogo com outras disciplinas, linguagens e espaços sociais. O narrador oral urbano-digital é um sujeito contador de histórias que, procurando um lugar de aceitabilidade para suas narrativas, o encontra na presença/ausência que o ambiente digital possibilita; ele pode trazer à tona sua voz, mas a recepção que isso terá não pode ser controlada. O presencial e o virtual, nesse sentido, se confundem, na medida em que suas ideias são virtualizadas e passam a integrar um ambiente que abrange milhões de pessoas, as quais podem concordar ou não com o olhar dado sobre determinada narrativa. Analisar essa fronteira existente entre o narrador oral urbano-digital e o tradicional, voltando o olhar para recepção das narrativas e a sua aceitabilidade ou não por parte de um determinado cânone é o objetivo desta reflexão.
Email: maurenpavao@gmail.com
Palavras-chave: Fronteiras literárias - narrador oral urbano-digital - narrador tradicional - periferia – cânone

18. Paula Cristina de Paiva Limão (Università degli Studi di Perugia), O “portunhol” da América latina no ciberespaço: de interlíngua e língua de fronteira a língua de intercompreensão e língua literária sem fronteiras
Resumo: O termo “portunhol” é habitualmenteutilizado para indicar dois fenómenos distintos: o da interlíngua que se forma nas fronteiras bilingues entre o Brasil e os países hispano-falantes e o da interferência em contextos de aprendizagem de L2, em que é iniludível a sobreposiçãoentre as estruturas fonéticas, sintáticas, morfológicas e lexicais do português e do espanhol.Como notou Gilberto Gil, defensor da “nova língua” «o portunholé uma manifestação espontânea, natural, vinda dos corpos e das almas culturais dos nossos povos» e, como tal, língua caraterizada pela heterogeneidade que seconstrói contextualmente nos processos discursivos e que deles advém. Língua real de comunicação e concomitantementelíngualiterária imaginada, até assumir formas extremas como o “portunhol selvagem”, a sua essência liga-se profundamente ao conceito de “intercompreensão” facto que nos permite apreenderos contornos linguísticos indistintos desta língua de contato em formação. De língua falada a língua escrita,o portunholtem-se alargado de modo considerável nos últimos anos, através da produção de muitos autores que vivem ou que são profundamente influenciados pelos contextos socioculturais das regiões fronteiriças, e divulgado na sua forma oral e escrita na Internet. O nosso objetivo seráo de indagar o modo como o fenómeno linguístico, cultural e literário do portunhol é descrito no ciberespaço da América latina nas suas diferentes vertentes e acepções.
Email: paula.depaivalimao@unipg.it
Palavras-chave:portunholnaAmérica latina – portunhol no ciberespaço¬– línguas de contato – intercompreensão.

19. Rita Ciotta Neves (Universidade Lusófona), A lição da Rainha Ginga
Resumo: segundo o moçambicano Mia Couto, a Africa tem ainda muito passado pela frente, palavras às quais faz eco a afirmação do angolano Eduardo Agualusa, quando diz que o passado, enfim, passou muito pouco. Partimos destes dois grandes escritores para reflectir, justamente, sobre o futuro (através do passado) do universo socio-cultural e literário da Lusofonia. E o texto literário modelar que escolhemos é o último romance de Agualusa, A Rainha Ginga. Uma obra que nos permitirá uma análise abrangente sobre o conceito de "fronteira", quer do ponto de vista geo-linguístico, quer literário. Nomeadamente, na construção e explicação das seguintes dicotomias: Literatura Oral vs Literatura Escrita; Língua Portuguesa vs Línguas Africanas; Género literário do Romance Histórico vs Género literário da Ficção; Estilo Realista vs Estilo Fantástico; Literatura Ocidental (colonial) vs Literatura Africana (colonial e pós-colonial). Agualusa, no seu romance, pesquisa, analisa e re-escreve uma fascinante e controversa página da história angolana, traçando o perfil de uma mulher extraordinária, a Rainha Ginga, que viveu, entre os finais do século XVI e a primeira metade do século XVII, o período da afirmação do poder colonial português em Angola. O seu objectivo e o nosso também é o de rasgar o véu do passado para compreender com uma maior lucidez o presente e o futuro da actual Lusofonia. A Literatura, como sempre, será o nosso melhor instrumento de análise.
Email: rita.ciotta@gmail.com
Palavras-chave: Agualusa, Literatura Angolana, Fronteiras geo-linguísticas, Fronteiras Literárias, Lusofonia

20. Solange Peixe Pinheiro de Carvalho (Universidade de São Paulo – USP), Romper ou erguer barreiras linguísticas? As traduções de Andrea Camilleri no Brasil
Resumo: Desde sua estreia na literatura italiana na década de 1980, Andrea Camilleri ficou reconhecido pelo trabalho pouco convencional com a linguagem, introduzindo conscientemente diferentes línguas minoritárias – siciliano, lígure, piemontês – e românicas – espanhol e francês – em seus mais de sessenta romances, entre policiais e históricos. Esse uso, que remete a uma situação linguística, social, cultural e histórica italiana e, em alguns casos, especificamente siciliana, rompeu barreiras regionais dentro da Itália, introduzindo para os leitores do continente uma forma de falar associada a uma área limitada do país – a Sicília. Essa diversidade cultural e linguística, contudo, representa um desafio para os tradutores de maneira geral, e encontramos inúmeros artigos nos quais os tradutores fazem uma reflexão sobre as diferentes estratégias para traduzir a linguagem Camilleriana em seus respectivos países e condições sócio-culturais. Considerando a situação linguística do Brasil, onde predomina o que Tarallo chamou de “multidialetismo ameno”, como mostrar para os leitores brasileiros a diversidade linguística camilleriana? Se temos nos textos originais o confronto entre diferentes realidades culturais, quais seriam as possíveis soluções para romper as barreiras surgidas com o contato italiano-português; língua híbrida camilleriana-português? Como introduzir na tradução literária brasileira, em que os casos de uso pouco convencional da linguagem são relativamente poucos, uma obra que se caracteriza principalmente pela fuga da norma? Essas questões serão analisadas tendo como corpus dois romances históricos de Andrea Camilleri, “Il Re di Girgenti” e “Il Birraio di Preston” e suas respectivas traduções brasileiras, “O Rei de Girgenti” e “A Ópera Maldita”, e como pressupostos teóricos algumas reflexões feitas nas áreas da tradução e dos estudos linguísticos.
Email: solangepinheiro@usp.br
Palavras-chave:Diversidade linguística: Andrea Camilleri; Identidade;Tradução; Língua Portuguesa

21. Vânia Lúcia Bettazza (UNESP), O discurso cinematográfico e televisivo na construção literária
Resumo: A partir da década de 1970, observa-se um entusiasmo provindo dos meios de comunicação de massa pelos efeitos da revolução tecnológica, baseada na informática e telecomunicações que consolidadas são responsáveis por diversas mudanças no modo de pensar a Literatura. Características como a velocidade e a incursão de imagens, cenas de filmes e propagandas passam a fazer parte da linguagem literária. A constante representação visual, intensa e fugaz, construída pela palavra, ou fragmentos de textos, cria visualidades, também fragmentadas, entrecruzadas e sobrepostas, é a imediatez da vida cotidiana ligada ao universo imagético da TV e do cinema, ambos interrelacionados com o universo verbal da narrativa. Expressões Literárias da Modernidade (Unesp) é a linha de pesquisa na qual se enquadra a busca em compreender, no próprio texto, as marcas da mídia televisiva e cinematográfica construídas pela palavra e transformadas em linguagem literária. Para estas verificações faremos um trajeto histórico e abarcaremos vários contistas, dentre eles: Rubem Fonseca, João Antônio, Luiz Vilela, Sérgio Santana, Marcelino Freire . É evidente que grande parte da ficção, em especial a partir de 1970, apresenta uma temática urbana, recheada de violência, com a presença de um narrador nada convencional que vai de encontro com a definição Benjaminiana, já que estamos diante de uma linguagem, muitas vezes, transgressora e mordaz que chega ao leitor de maneira brutal. No entanto, nos interessa aqui, retratar, ainda que em contos brutalistas, o grotesco, o humor e o deboche de personagens e narradores frente aos meios de comunicação citados e a constante alteração destes no modo de pensar e agir, o que subverte, muitas vezes, o visível e o previsível da ação narrada.
Email: vania_bettazza@hotmail.com
Palavras-chave: Literatura; cinema; televisão; visualidade

22. Vera Lúcia de Oliveira (Università degli Studi di Perugia), ‘Pensamentos de um correria’, de Ferréz, ou de como a periferia quer compor o seu próprio retrato
Resumo: Nessa comunicação, se abordará a polêmica gerada pelo conto de Ferréz, “Pensamentos de um correria”, publicado no jornal A Folha de São Paulo, em 8/10/2007, como resposta à carta do apresentador da Rede Globo, Luciano Huck, publicada no mesmo jornal em 1/10/2007, em que este relatava, indignado, a experiência traumática de ter sido vítima de um assalto na cidade de São Paulo. Ferréz, escritor e rapper já com dois livros publicados, em que focava o cotidiano violento do bairro de Capão redondo, na capital paulista, chama a atenção para o fato que a mesma cena do assalto pode ser vista e interpretada a partir de duas perspectivas, indicadoras das profundas desigualdades econômicas e sociais da realidade brasileira. Acusado de fazer apologia ao crime (acusa da qual o autor foi absolvido), o texto de Ferréz chama a atenção dos leitores e se põe como proposta de uma nova literatura, mais inclusiva, que possa dialogar e mesmo ser incorporada al cânome da literatura brasileira, embora produzida fora dos circuitos clássicos da literatura oficial.
E-mail: veralucia.deoliveira.m@gmail.com
Palavras-chave: Literatura brasileira; Ferréz; Literatura marginal; Periferia

23. Simone Rossinetti Rufinoni
Título do trabalho: Entre a casa e a rua: patriarcado e ressentimento em Fogo Morto
Resumo: O enredo do romance Fogo morto, de José Lins do Rego, se desenrola em torno do espaço, a um só tempo, objetivo e metafórico da decadente casa-grande, núcleo por meio do qual a ordem do patriarcado se manifesta. Todo espaço externo, o mundo do casebre do agregado mestre José Amaro ou a vila onde atua o capitão Vitorino, estão sujeitos à casa-grande, ao engenho de fogo morto e aos caprichos de seus moradores, o que faz destas personagens socialmente inferiores vítimas desse laço intransponível. O romance privilegia a vida privada, que, contudo, é prontamente oprimida pela própria natureza da servidão sob a qual vivem. A inexistência do espaço público, ou seja, da esfera da polis, comparece por meio do afã da “palavra”, com sua carga de desejo de autonomia. A ineficácia do discurso, as relações de compadrio e cordialidade, os fumos de independência logo tolhidos, as reações de indignação que não encontram eco, a revolta que se confunde com o crime serão analisados como aspectos sociais que precipitam os sintomas da loucura. Nesse contexto, o impulso em direção à autonomia soa como disparate e, em face da repercussão pública que tais iniciativas assumem, com sua quota de humilhação e perversidade, o desvario e o ressentimento se farão cada vez mais presentes. Uma das hipóteses a serem investigadas para Fogo morto é a de que sua organização interna perfaz uma espécie de estrutura do ressentimento, daí a circularidade formal, modo com que a subjetividade solapada procura sua dignidade.
e-mail: siruf@hotmail.com
Palavras-chave: Fogo Morto, ressentimento, patriarcado, espaço público e privado.
Bibliografia básica:
Almeida, José Maurício Gomes de. A tradição regionalista no romance brasileiro. Rio de Janeiro: Achiamé, 1980.
Bueno, Luis. Uma história do romance de 30. São Paulo: Edusp, 2006.
Candido, Antonio. “Um romancista da decadência”. In: Brigada ligeira e outros escritos. São Paulo: Editora da Unesp, 1992.
Freyre, Gilberto. “O engenho e a praça; a casa e a rua”. In: Sobrados e Mucambos. São Paulo: Global, 2012.
Kehl, Maria Rita. Ressentimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

24. Cristiana Crinò - Università degli Studi di Perugia
Título do trabalho: O portunhol, uma língua sem fronteiras
cristi.89@live.it
Resumo: Os últimos anos, caracterizados cada vez mais por mudanças sociais e culturais, devidas em particular à globalização dos séculos XX e XXI, têm permitido o nascer de debates e questões ligadas aos conceitos das diversidades culturais e linguísticas e, por consequência, à destruição das fronteiras geográficas e socio-históricas que se estabeleceram ao longo do tempo. As relações entre fronteiras territorias e sociais são fatores determinantes para a criação de uma constante comunicação entre os sujeitos e as línguas que convivem em um particular espaço geográfico que, no caso do nosso objeto de estudo é delimitado e representado pela fronteira Brasil-Uruguay. Trata-se de um território particular, cujos comuns processos históricos e políticos têm produzido uma situação linguística singular em que o contacto entre a língua portuguesa, falada no Rio Grande do Sul, e a língua espanhola do Uruguay originou e consolidou uma literatura tipicamente
fronteiriça. O intento desta literatura – e da arte fronteiriça em geral – é reinvidicar uma linguagem e uma cultura absolutamente misturada e impregnada de temas, sentimentos e “sabores” da vida de fronteira. Nesta realidade de fronteira a nossa atenção, de entre os autores que decidem usar o portunhol, recai no poeta Fabián Severo – autor de dois livros de poemas Noite Nu Norte (2012) e Viento de Nadie (2013). Severo utiliza uma variedade dialetal que não é normatizada ou seja, uma língua que não possui gramáticas ou dicionários, mas que representa uma história e uma identidade cultural. A nossa primeira sugestão é a de refletir portanto sobre o conceito de fronteira e a modo como esta constitui o funcionamento enunciativo da língua. Em segundo lugar, ao abordar o portunhol/portuñol, analisaremos as suas principais características, quais os aspetos fonéticos, morfológicos e de sintaxe, demonstrando que a ortografia é variável, já que o autor
emprega a transcrição ortográfica que mais lhe agrada. Por fim, propomos uma reflexão sobre as políticas linguísticas de ambos os países os quais, desde a época da independência, lutaram para proteger e manter a identidade nacional através do conhecimento do português no caso do Brasil e do espanhol no caso do Uruguay.
Email: cristi.89@live.it
Palavras-chave: Fronteira- Línguas de contacto- Portunhol- Brasil/Uruguay
Bibliografia básica:
Referências Bibliográficas
BEHARES, Luis Ernesto, 2011, Uruguai/Brasil: contribução ao estudo da heterogeneidade lingüístico-cultural da fronteira sul, «Diálogos possíveis», n. 2, pp. 29-45.
CARVALHO, Ana Maria, 2003, Rumo a uma definição do português uruguaio, «Revista Internacional de Lingüística Iberoamericana, Vol. 1, n. 2, pp. 125-149.
ELIZAINCÍN, Adolfo, 2013, El español y el portugués americanos de comienzos del siglo XIX, VII Jornadas de Historia y Cultura de América – II Congreso Internacional – II Encuentro de jóvenes americanistas, pp. 1-10, Montevideo.
FOFFANI, Enrique, 2012, La frontera Uruguay-Brasil: Fabián Severo, el poeta sin gramática, «KATATAY – Revista crítica de literatura latinoamericana», anno VIII, n. 10, pp. 43-67.
GRILLO, Rosa Maria, 1994, El portuñol. De espacio fronterizo a espacio literario, «Fundación», n. 2, pp. 20-37, Montevideo.
MOTA, Sara Dos Santos, 2012, Portuñol, sujeito e sentido: efeitos de uma política educacional em Noite nu Norte, «abehache» Revista da Associação Brasileira de Hispanistas, n. 3, pp. 127-144 (http://hispanistas.org.br/abh/)
RIZZON, Carlos Garcia, 2013, Palimpsesto da paisagem em território fronteiriço, XXVII Simpósio Nacional de História – Conhecimento histórico e diálogo social, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal – Brasil.
SEVERO, Fabián, 2011, Noite Nu Norte/Noche En El Norte Poesía de la Frontera, Rumbo Editorial, Montevideo - Uruguay.
SEVERO, Fabián, 2013, Viento De Nadie, Rumbo Editorial, Montevideo - Uruguay.
STURZA, Eliana Rosa, 2006, Línguas de fronteiras e política de línguas: uma história das idéias lingüísticas, Tese de Doutorado, Campinas, SP, Brasil.

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SIMPÓSIO 56 - LITERATURA BRASILEIRA: RELAÇÕES ENTRE HISTÓRIA, CULTURA E LÍNGUA

Coordenadores:
Adeítalo Manoel Pinho - Universidade Estadual de Feira de Santana - adeitalopinho@gmail.com
Mauro Nicola Póvoas - Universidade Federal do Rio Grande - mnpovoas@cpovo.net


RESUMOS APROVADOS

1) Adeítalo Manoel Pinho
João Ubaldo Ribeiro e Adonias Filho, relações entre história, literatura e cultura
UEFS/Bahia, Brasil
Os autores da literatura brasileira se veem constantemente entre o dilema da escrita da nacionalidade e a inclusão num mundo de literatura globalizada, a chamada literatura mundial. Em sua reflexão sobre o cosmopolitismo do pobre, o crítico Silviano Santiago (2004) percebe até um impedimento para a percepção da nossa literatura por um certo leitor acostumado à modernização planetária. A esta perspectiva de reflexão da literatura brasileira em âmbito internacional, incluo as três perspectivas de Raymond Williams (1980), que são arcaico, residual e emergente. Acreditando que sejam proposições interessantíssimas para a história da literatura e para o estudo da cultura, pois tratam e problematizam fenômenos culturais do passado que perderam sua função, do passado mas ainda em uso e das inovações do presente nunca conhecidas no passado. João Ubaldo Ribeiro e Adonias Filho realizaram escritas que gravitam entre o dilema de Santiago e as propostas de
Williams. Sendo assim proponho uma reflexão sobre dois autores da literatura brasileira em momento-chave, pois representa balanço logo após o desaparecimento do primeiro, morto em 2014, e completa o centenário de nascimento do segundo (1915-1990). Ainda lançarei mão das ideias de Nestor Garcia Canclini, Edward Said e outros, para aprofundar investigação.

2) Aleilton Fonseca
As vozes da mata: questões ecológicas no romance de Jorge Amado
UEFS/Bahia, Brasil
Na obra de Jorge Amado (1912-2001), destacam-se os cenários e as paisagens naturais como elementos constitutivos de uma saga heroica das terras do cacau. A “terra dos frutos de ouro” aparece como personagem mítica exaltada e transfigurada pelo olhar dos narradores como um cenário ao mesmo tempo agônico e paradisíaco. Sem dúvida, a mata, ou seja, a mata atlântica da região sul da Bahia, Brasil, é uma personagem viva, que demarca o ritmo e a conformação de diversas passagens da ficção do autor. A partir disso, pretende-se estudar a representação da mata, em Jorge Amado, à luz das referências às paisagens como lugar de movimentação das cenas romanescas. Pode-se considerar que a visão amadiana da terra e da mata pode ser abordada no campo do pensamento ecológico, em suas reflexões sobre as relações da ação humana com a paisagem natural, num perspectiva de convivência, transformação e adaptação mútua, em que ambos – a paisagem/a mata e o homem/o desbravador se chocam e se adaptam um ao outro, numa acomodação recíproca: o homem se adapta à mata, ao se submeter às suas condições; e a mata adapta-se ao homem, ao sofrer e assimilar sua ação transformadora, sem que essa ação seja, necessariamente, de destruição. Neste sentido, este trabalho configura-se como uma contribuição crítica aos estudos literários contemporâneos, ao abordar o tema das representações ecológicas no romance de Jorge Amado, focalizando questões do meio ambiente na literatura do século 20.

3) Alvaro Santos Simões Junior
Guerra Junqueiro: o grande nefelibata... para os brasileiros
UNESP/Assis-CNPq-FAPESP/São Paulo, Brasil
De 1890 a 1893, ocorreu em Portugal um vigoroso movimento literário que procurou assimilar e difundir as propostas estéticas decadentistas-simbolistas de matriz parisiense. A imprensa portuguesa acompanhou de perto as manifestações de um grupo de jovens poetas constituído por Eugénio de Castro, António de Oliveira Soares, Alberto de Oliveira, D. João de Castro e António Nobre, entre outros. Jornais e revistas de Lisboa, Coimbra e Porto foram inundados com notícias, resenhas e artigos sobre as obras, ideias e atitudes dos que, após a publicação de Horas (1891), de Eugénio de Castro, passaram a ser conhecidos como nefelibatas. Na imprensa brasileira coetânea, encontram-se indícios de que os brasileiros de modo geral acompanhavam o novo movimento literário português. Por meio de análise de textos de periódicos cariocas, pretende-se analisar a especificidade da assimilação das ideias decadentistas-simbolistas no Brasil considerando a recepção do livro Os
simples (1892), de Guerra Junqueiro.

4) Amina Di Munno
Culturas e linguagem na ficção de Milton Hatoum
Università degli Studi di Genova/Itália
Após a versão para o italiano que tenho feito dos trȇs principais romances de Milton Hatoum (Relato de um certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte), traduções que me permitiram lidar de perto com a sua escrita, proponho-me com este artigo analisar alguns dos aspectos que supostamente tenham contribuído a dar vida à obra do autor. Os temas de seus romances são movidos pela memória. A memória não sempre é passado, ela permite trazer à tona o subconsciente. Os textos, todavia, evocam o passado e apresentam a história através do jogo de narrações de múltiplas vozes. Há um traçado de digressões que preenchem um espaço físico e psicológico nas malhas do pano de fundo que é Manaus, cidade que aos poucos também se torna protagonista. Manaus vive a história do colonialismo, as atrocidades da ditadura, mas no decorrer da obra o significado político aparece de modo indireto, oblíquo. Em Dois Irmãos e em Cinzas do Norte o drama familiar é metáfora da tragédia urbana, da decadência. Os conflitos são ao mesmo tempo conflitos de ordem social. Um outro dos aspectos fascinantes da narrativa de Milton Hatoum é dado pelo encontro de culturas. Em sua narrativa são evidentes reminiscências de histórias das Mil e uma Noites, contadas pelo avô que emigrara de Beirute para o Acre, e histórias de seres encantados e demônios da floresta, lendas indígenas e contos populares da Amazônia. Esse seu mundo é inventado pela linguagem, pelo estudo minucioso da linguagem. Como ele mesmo refere o dele é um trabalho árduo com as palavras, com os detalhes linguísticos. Milton serve-se também de termos índios e de palavras árabes em plena harmonia, completando assim com a linguagem esse encontro de culturas em quem, como ele, possui múltiplas raízes.

5) Ana Lucia de Souza Henriques
Diálogos do viajante Richard Burton com a literatura brasileira
UERJ/Rio de Janeiro, Brasil
Richard Burton, viajante anglófono do XIX, dialoga com a literatura brasileira. Ocupando o cargo de cônsul no Brasil, Burton viaja por terras brasileiras registrando suas observações a respeito dos lugares por onde passa. Nada escapa a esse experiente viajante, que conhece muito bem a língua portuguesa. Economia, geografia, arquitetura, história e literatura brasileira são alguns dos assuntos focalizados e analisados em seu relato Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Burton também foi o primeiro tradutor de Iracema, do poema O Uraguai e de Manuel de Moraes, crônica do século XVII para a língua inglesa.
Contudo, o diálogo Burton com a literatura brasileira não se limita a traduções. Isso se torna evidente ao longo de seu relato e se comprova por epígrafes, citações e referências a escritores e obras. Entretanto, são escritores mineiros, em especial os poetas árcades, quase todos nascidos em cidades visitadas pelo cônsul inglês, que merecem destaque especial, não apenas pela beleza de suas obras, mas também pelo fato de alguns terem prestado significativa contribuição para a escrita de um momento marcante de nossa história. Acredito que as contribuições prestadas por esse viajante para os estudos da literatura brasileira sejam merecedoras de nossa atenção.

6) André Luis Mitidieri
Quartetos inéditos de Quintana em busca de um lugar perdido
UESC/Bahia, Brasil
Tomamos como ponto de partida à presente comunicação um grupo de poemas do escritor brasileiro Mario Quintana que, editado nas revistas 'Ibirapuitan' (1938-1939) e 'Província de São Pedro' (1945, 1946, 1952), teve sua grande maioria republicada no livro 'Espelho mágico' (1951). Em uma primeira etapa de pesquisa antecedente com fontes primárias da literatura, já divulgada em periódicos científicos e em coletâneas de artigos, o material coletado na revista 'Ibirapuitan' permitiu-nos concluir que, dos 82 quartetos de Quintana editados nesse veículo, 65 ganharam publicação posterior em 'Espelho mágico', ao passo que 17 deles nunca mais circulariam em livro. O resgate dessas composições poéticas que ficaram inéditas por mais de 70 anos exige-nos reflexão que, amparada em bibliografia pertinente, auxilia-nos em trabalho contínuo de revisão da história editorial do poeta e do cânone de seu país, assim como dos métodos da crítica e da historiografia
literária brasileiras. No atual momento de nossos estudos, guiamo-nos pelo objetivo primeiro de situar os mencionados textos poéticos na história literária regional e brasileira, tendo como questão norteadora central indagar se o corpus ora selecionado demonstra desvios e/ou vinculações com o conjunto da produção quintanesca e com o modernismo literário nacional. Assim, esta investigação qualitativa marcada fundamentalmente por cunho bibliográfico analisa os poemas selecionados como corpus no que se referem ao arcabouço biobibliográfico, crítico e histórico-literário a respeito do autor e sua obra, sem desprezar estudos monográficos e material para-historiográfico acerca da temática em relevo e assuntos correlatos.

7) Betina Ribeiro Rodrigues da Cunha
Permanências impermanentes: enigmas de Guimarães Rosa
UFU/Minas Gerais, Brasil
Guimarães Rosa, em seus textos, exibe uma pluralidade de notações linguísticas, discursivas, culturais e sociais, deixando antever, mais do que uma adesão ou um credo, um projeto humanístico voltado para a universalidade do regional, do primitivo e do cultural, para a dissolução de individualidades, enfim, para o reconhecimento das ambiguidades como fonte de um poder e supremacia identitárias. É esse olhar de humanizada humanidade que diferencia a leitura literária que ora se propõe. Não se pretende aqui olhar o conto “Páramo” a partir de uma determinação geográfica e/ou cultural, ainda que seu conteúdo o indique; ao contrário, espera-se observar a posição de um sujeito e o modo de sua enunciação, conduzindo uma reflexão que prometa desdenhar a razão objetiva e autoritária em favor de um novo modo de olhar a palavra, o homem e sua escritura sensível. A leitura literária permite falar de um espaço-mundo, seja utópico, seja real, seja idealizado, que dialogue com o mundo presente e sua configuração. Portanto, espera-se, aqui, propor uma leitura que encontre esse lugar, recriando-o como possibilidade interpretativa de um discurso não só humanizador, mas também representativo dessa condição cultural e identitária plural.

8) Cecil Jeanine Albert Zinani
Representações de cultura e história em A doce canção de Caetana
UCS/Rio Grande do Sul, Brasil
Aspectos de mitologia, ópera italiana e ditadura mesclam-se para compor uma tríade a partir da qual se desenvolve a trama de A doce canção de Caetana, escrita por Nélida Piñon em 1987. A ação se desenrola em Trindade, pequena cidade do interior do Brasil, dominada por um rico fazendeiro, ambientada no ano de 1970, época em que o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol, na Itália, e que assinalou, também, o tão propalado milagre brasileiro, sob o comando do general Médici, presidente do Brasil na época. No mesmo ano, retorna à cidade, após uma ausência de vinte anos, Caetana, artista de circo mambembe e antiga amante de Polidoro, o fazendeiro, com o projeto de tornar-se uma cantora lírica, isto é, “ser” Maria Callas ao menos uma noite. Com um elenco em que preponderam as Três Graças e Gioconda que pontificam no bordel da cidade, Polidoro e alguns de seus amigos, é organizada uma gigantesca farsa, envolvendo desde a aparência do teatro, com a transformação de um velho cinema decrépito em simulacro de teatro grego, até a montagem do espetáculo, a representação da ópera Traviatta, de Giuseppe Verdi. A cidade e os fatos que ali se desenrolam reconstroem, mimeticamente, a situação do país, cuja realidade se organiza em duas camadas distintas: a camada aparente, em que o povo feliz comemora o tricampeonato mundial de futebol e o milagre brasileiro, e a camada latente, mas não menos verdadeira, em que os direitos civis são desrespeitados, e a ditadura continua perpetrando crimes em nome de uma pretensa defesa da nacionalidade. Nesse sentido, esta proposta tem como objetivo apresentar uma modalidade de produção literária, realizada em linguagem elaborada, em que se discutem aspectos históricos e culturais, compondo uma moldura que abrange elementos deflagradores de reflexão, na medida em que há um deslizamento da camada latente que aflora e torna a realidade brutal e opressiva.

9) Dário Borim Jr.
Plugada no dia a dia: a crônica no século XXI
UMass Dartmouth/EUA
O objetivo deste estudo é examinar a natureza e o papel da crônica brasileira no século XXI. Após uma reflexão sobre seu desenvolvimento histórico, verifica-se que a crônica enquanto texto curto se enquadra muito bem neste novo mundo regido pela eletrônica. Argumenta-se, por exemplo, como as pessoas estão se tornando cada dia menos capazes de manter a concentração por longos períodos de tempo, que são necessários para o prazer da leitura de um romance. Ademais, a comunicação interpessoal através da mídia social, como o Facebook, é rápida e direta, de contínuo e livre acesso ao que disse alguém que nem conhecemos. A crônica, por ser breve e por aparecer na mídia eletrônica oferecendo espaço para a conversação entre autor e leitor, exerce um poder de atração e de intimidade jamais vivenciadas entre essas partes. Finalmente, vê-se que o imediatismo da circulação de notícias e o envolvimento das pessoas em tempo real com o que se passa no mundo as
tornam mais inclinadas a ler uma forma de literatura não apenas centrada na realidade, mas também calcada na contemporaneidade, simultaneidade e transitoriedade.

10) Helena Bonito Couto Pereira
Reescritas da história do Brasil em Erico Verissimo e João Ubaldo Ribeiro
Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo, Brasil
Duas grandes alegorias da construção identitária do Brasil encontram-se em Incidente em Antares (Veríssimo, 1973) e Viva o povo brasileiro (Ribeiro, 1984), integram a vertente consagrada como metaficção historiográfica um dos traços definidores do pós-modernismo, segundo Hutcheon (1991). Na metaficção historiográfica, o relato não se compromete com verdades, visto que a história se constrói a partir de vestígios textuais do passado. Por esse mesmo motivo, pode ser recontada de infinitas maneiras, tendo sido escolhido, no caso desses dois caudalosos romances, o registro metaficcional irônico e paródico. O intuito de abranger a máxima representatividade possível resulta na existência de mais de cem personagens em cena, em cada uma das obras. Seja em eventos tidos como históricos, até revestidos de pretensa solenidade, seja em episódios francamente insólitos, contracenam personagens reais e ficcionais, em espaços fundadores – a ilha de Itaparica, no Recôncavo Baiano, e a fictícia cidade de Antares, no interior do Rio Grande do Sul. Em se tratando de duas regiões bem diferentes entre si, cada uma delas apresenta identidade regional bastante consolidada, sobretudo se comparadas às construções identitárias de outras regiões do país. Verdadeiras alegorias do Brasil, esses caudalosos romances expõem a vida particular e pública de anti-heróis pós-modernos, distantes do anti-herói em confronto aberto com a realidade hostil, que protagonizou grandes romances decimonônicos, como Julien Sorel em O vermelho e o negro, de Stendhal, ou Raskolnikoff, em Crime e castigo, de Dostoiévski. Tendo em comum a ganância desmedida e uma concepção de mundo em que aos ricos toda prepotência e opressão são consentidas, Tibério Vacariano, em Antares, ou Amleto Ferreira e Perilo Ambrósio, em Itaparica, são alguns dos anti-heróis metaficcionais por meio dos quais se expõe cruamente a tragédia de um processo colonizatório que desvenda, embora não justifique, a complexidade do Brasil de hoje.

11) Juracy Assmann Saraiva
Emergência do posicionamento crítico de Machado de Assis em menções à arte musical e dramática
FEEVALE/Rio Grande do Sul, Brasil
Em sua ficção, Machado de Assis concede um espaço significativo à correlação entre o “mundo possível”, nela instituído, e elementos do âmbito das artes, compondo personagens que são apreciadores de espetáculos musicais e dramáticos. As menções à música e à dramaturgia deixam transparecer o conhecimento do escritor sobre essas duas formas de expressão e evidenciam práticas culturais da sociedade do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX. Ao referir compositores, obras, ritmos, atores e atrizes em sua ficção, o escritor introduz elementos que se correlacionam à realidade e à estrutura significativa do texto, mas, igualmente, faz uma apreciação valorativa em relação a eles, instituindo um exercício crítico que os toma por objeto. Esta comunicação centra-se nos romances, Ressurreição, A mão e a luva e Helena, publicados por Machado de Assis, entre 1872 e 1876 e cuja diegese abrange o período que vai de 1850 a 1862, para apreender significações que a menção a espetáculos teatrais e musicais agregam às narrativas, para abstrair a representação da sociedade brasileira e para identificar o posicionamento crítico que essas referências instalam. Elas convidam o receptor a transcender a história narrada para participar das reflexões de Machado de Assis sobre o contexto em que realiza sua produção. As menções sugerem, por um lado, a adesão do escritor a determinados paradigmas estéticos; por outro, denunciam a submissão da cultura brasileira a padrões e a costumes europeus, expondo, dessa forma, um processo de “colonização”, gerado pela indigência de produções que pudessem afirmar a identidade nacional brasileira.

12) LILIAN ADRIANE DOS SANTOS RIBEIRO
Recepção crítica da obra de Rachel de Queiroz na Espanha
Universidade de Sevilla/Espanha
Este artigo versa sobre a recepção crítica e a tradução da obra de Rachel de Queiroz no âmbito acadêmico espanhol. Também apresenta a primeira biografia intelectual comentada da escritora em língua espanhola: “Rachel de Queiroz: La historia de um nombre”, artigos diversos e a tese doutoral “La voz femenina em la narrativa de Rachel de Queiroz: análisis autobiográfico” das obras da autora.

13) Luciana Paiva Coronel
Narrativas contemporâneas do cárcere: entre a voz do indivíduo e o coro dos prisioneiros
FURG/Rio Grande do Sul, Brasil
Propõe-se a discussão das relações existentes entre a Literatura Brasileira, a História, a cultura e a língua a partir da análise da escrita do cárcere, produção cuja incidência no sistema literário brasileiro contemporâneo é notória e cuja elaboração atende ao que se chamou “imperativo de memória”, decorrente da experiência da violência nas prisões do país. Identificado com a problemática da pós-colonialidade, o trabalho toma como objeto Memórias de um sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, Diário de um detento, de Jocenir, e Sobrevivente André du Rap, de André du Rap, nas quais vozes subalternas assumem a palavra, recuperando pela via confessional de diferentes modos um passado de crimes e abordando também o presente degradado da prisão, no qual a experiência, muitas vezes coletiva, é narrada a partir de um ponto de vista individual. Este peculiar entrecruzamento entre as instâncias individual e coletiva define o estatuto do testemunho, cuja variante latino-americana, o testimonio, ainda mais se aproxima dos textos em estudo, que apresentam a voz de protesto de um excluído social, que narra a experiência da dor a partir do próprio corpo sem deixar de constituir uma denúncia da violência presente na rotina prisional. Tal imbricamento entre a parte e o todo é o que se pretende analisar nos textos selecionados, buscando interpretar seu significado no âmbito cultural, uma vez que os mesmos rompem, de maneiras distintas, com o fechamento tradicional das narrativas autobiográficas. Igualmente se pretende identificar as marcas desse imbricamento na tessitura discursiva dos enredos, nos quais a língua o revela.
Enraizado na literatura brasileira, o estudo busca ainda realizar um cotejo das narrativas nacionais com a escrita italiana do cárcere, que nasce de condições diversas, mas oferece importante subsídio, constituindo uma moldura internacional que ilumina nossas peculiaridades históricas, culturais e ainda a particular feição de nossa literatura do cárcere.

14) Luiz Dagobert de Aguirra Roncari
A face negra do Grande sertão: veredas: o momento épico e as variações discursivas
USP-CNPq/São Paulo, Brasil
Pretendo concentrar-me na análise de um episódio do Grande Sertão: Veredas, que se passa na chamada “Fazenda dos Tucanos”. Do meu ponto de vista, ele inicia de fato a segunda parte do romance, a épica, quando se torna mais intenso o seu tempo de guerras, sobrepujando o de formação do herói. Isso acontece depois da morte de Joca Ramiro. O grupo de jagunços ao qual pertenciam Riobaldo e Diadorim, então comandados por Zé Bebelo, se estabelece numa Casa-Grande recém-abandonada, onde são encurralados pelo bando do Hermógenes e Ricardão. De perseguidores em busca da vingança, eles se tornam presas dos executores do antigo chefe. É um dos momentos mais agudos do livro, que culmina com a matança dos cavalos, um tanto gratuita, mas que serve para revelar o grau de ferocidade dos opositores. Os embates entre os bandos mostram como será renhida a luta e a quantas o deles terá que passar para realizar o seu intento de vingança. Isso compõe a camada épica da
narrativa, a mais visível. No entanto, subterraneamente, mas como talvez seu núcleo mais efetivo, é nesse momento que se coloca para o herói a questão incontornável do Poder. É aí que Riobaldo toma consciência de que não poderá mais ficar alheio a ele, como já havia acontecido quando da morte de Medeiro Vaz, que deu sinais de querer fazê-lo seu sucessor. Isso se dá através de pelo menos três níveis discursivo-ideológicos: o dos jagunços, embasado pelos sentimentos de lealdade e vingança; o de Zé Bebelo, também fundado nas questões políticas e legais; e o do herói, jagunço semiletrado, que vive problematicamente os dois. Será, portanto, como um alto momento de consciência de si e do outro (de Diadorim e de Zé Bebelo), mas, principalmente, da sua urgência de superação do medo e de assunção da coragem, como necessidade e não mais um ato de escolha.

15) Maria da Conceição Pinheiro Araújo
Representações do feminino na obra de João Ubaldo Ribeiro
IFBA-Salvador/Bahia, Brasil
As personagens femininas são marcantes na obra do, internacionalmente premiado, autor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) assumindo um papel de destaque. Podemos lembrar de Maria da Fé em Viva o Povo Brasileiro, que encarna a alma do povo brasileiro. Ana Carocha, de O feitiço da Ilha do Pavão, anciã que guarda os segredos de dominar o tempo; C.L.B, protagonista de A casa dos Budas Ditosos que conta, de maneira livre e sem amarras sociais, suas experiências sexuais. Este texto pretende fazer um passeio pelo universo das personagens femininas de obras de João Ubaldo Ribeiro, incluindo os livros de crônicas, a partir da perspectiva da crítica feminista e dos estudos de gênero, tomando como suporte teórico autoras como Ívia Alves, Zahidé Muzart, e algumas estudiosas da obra do escritor itaparicano, particularmente, Rita Olivieri-Godet e Zilá Bernd.

16) Marinês Andrea Kunz
Cidade de Deus: reflexões sobre a sociedade brasileira
FEEVALE/Rio Grande do Sul, Brasil
Recente produção literária brasileira tem se caracterizado pela abordagem do tema da violência urbana, traduzida a partir da articulação de perspectivas sócio-históricas, que se manifestam em produções de cunho estetizante. Parte da crítica especializada tem considerado essa tendência mera espetacularização do tema, enquanto outra parte a vê como representação de aspectos de uma realidade, que objetiva proclamar o desalento diante da situação do país. Ao problematizar esses posicionamentos, a comunicação reflete sobre o contexto dessa produção literária, para discutir suas possíveis relações com o processo histórico do país e analisar sua contribuição para a abordagem crítica do tema. Estabelecendo a confluência entre fronteiras distintas, a da ficção e a da realidade, a comunicação analisa o texto verbal Cidade de Deus (1995), de Paulo Lins, e reflete sobre temas como violência, identidade nacional e formação da sociedade brasileira. Para tanto, a análise dialoga com diferentes áreas, como a história, a sociologia, a psicologia social, sublinhando a necessidade de aproximação de campos distintos, ou da eliminação de suas fronteiras, quando há a intenção de compreender fenômenos socioculturais e estéticos. Ao lançar um olhar sobre a violência no Brasil contemporâneo, tal produção literária coloca em xeque representações de identidade nacional e questiona o processo histórico vinculado a esse contexto, exercendo, pois, o papel de arte enquanto questionamento da sociedade.

17) Mauro Nicola Póvoas
De 1969 a 2003: um olhar comparativo sobre duas antologias do conto sul-rio-grandense
FURG/Rio Grande do Sul, Brasil
A comunicação tem por intenção analisar duas antologias de contos sul-rio-grandenses, distantes temporalmente em quase trinta e cinco anos: Antologia do conto gaúcho, organizada pelo escritor Flávio Moreira da Costa, em 1969, e 35 melhores contos do Rio Grande do Sul, organizada pela professora Maria da Glória Bordini, em 2003. Pretende-se mapear quais contos e escritores constam nos dois volumes, observando-se algumas recorrências de nomes, como os de Alcides Maya, João Simões Lopes Neto, Darcy Azambuja, Erico Verissimo e Tânia Jamardo Faillace. Tem-se em vista, obviamente, o tempo decorrido entre as duas coletâneas; assim, por exemplo, constata-se que no livro de 2003 aparecem autores hoje contemporâneos, e que não atuavam na década de 1960, o que aponta para o surgimento de novos percursos narrativos no horizonte da história da literatura do Rio Grande do Sul, Estado brasileiro que desde o século XIX marca presença no quadro maior da literatura brasileira. Alguns fatores serão levados em conta no trabalho, elencados a seguir: o fato de o primeiro livro ter sido organizado por um ficcionista e hoje antologista reconhecido, e o segundo ter à frente uma pesquisadora e professora universitária, doutora em Teoria da Literatura; a divisão dos contos proposta por cada um dos organizadores; os critérios utilizados, como a temática, a excelência estética, a data de publicação original do conto e o local de nascimento dos escritores; os prefácios, as orelhas e as notas que acompanham as edições; a constância de narrativas que se utilizam da chamada linguagem regional; a presença da autoria feminina; as diferenças editoriais e gráficas, como o tipo de editora (comercial ou não), a presença de dados biobibliográficos acerca dos contistas e o número de contos escolhidos.

18) Rejane Pivetta de Oliveira
Configurações dos espaços marginais na literatura brasileira
UNIRITTER/Rio Grande do Sul, Brasil
A categoria marginal reveste-se de inúmeras acepções na análise do fenômeno estético, sendo, aliás, constitutiva da própria ideia da arte como espaço de transgressão e subversão, além dos limites e das margens aceitos. Marginal, nesses termos, é a condição da arte como ultrapassamento de modelos consagrados. A despeito da permanência desse sentido genérico do termo, neste trabalho o conceito de marginal será tomado na relação com o espaço, definido como lugar de destino dos explorados e esquecidos, dos que vivem nos subúrbios, periferias e favelas. Pretende-se situar o problema em diferentes momentos da história literária brasileira: no início do século XX, na obra de Lima Barreto; na década de 1950, na obra de Carolina Maria de Jesus e no final dos anos 1990, na obra de Paulo Lins. Neste percurso, interessa examinar a hipótese dos diferentes regimes de representação do espaço marginal: como elemento referencial; como indicador de relações
sociais; e como aspecto estruturador de uma visão do sujeito sobre suas condições de existência. A análise orienta-se por indagações acerca do espaço na literatura (Brandão, 2013), enfatizando a dimensão política (Rancière, 2005) que perpassa a abordagem estética dos espaços marginais.

19) Rita de Cassia Ribeiro de Queiroz
Diálogos entre história, cultura e língua na obra Nhô Guimarães de Aleilton Fonseca
UEFS/Bahia, Brasil
O escritor Aleilton Fonseca, nascido na região sul do estado da Bahia, vem, desde a década de 1980, publicando seus textos em diversos veículos, dentre estes jornais e revistas literárias. Pelo Jornal da Bahia, venceu três prêmios de contos. Formado em Letras pela Universidade Federal da Bahia, integrou um grupo de escritores denominado de “Geração 80”. Sua produção literária, desde então, brinda os leitores não só com contos, mas também com poesias e romances, com destaque para alguns títulos: Movimento de sondagem (1981), Jaú dos bois e outros contos (1997), O Desterro dos mortos (2001), Canto de alvorada (2003), Nhô Guimarães (2006), O pêndulo de Euclides (2009), A mulher dos sonhos e outras histórias de humor (2010), Une rivière dans les yeux / Um rio nos olhos (2012), O Arlequim da pauliceia (2012), As marcas da cidade (2012), Memorial dos corpos sutis (2012), La femme de rêve (2013), Un río en los ojos (2013). Como todo artista, Aleilton Fonseca busca sempre burilar sua obra, até que esta esteja a seu contento. Sendo um artista da palavra, seus textos são lapidados também pela seleção dos itens lexicais. No romance Nhô Guimarães, uma justa homenagem ao escritor mineiro Guimarães Rosa no cinquentenário do romance Grande sertão: veredas, Fonseca (2006) trava um diálogo entre a língua, a história e a cultura através das palavras que escolheu, as quais refletem tanto o universo sertanejo de Guimarães Rosa quanto o seu próprio, quando traz à tona lexias como “assuntar”, “alumiar”, “aviar”, “arribar”, “arredar”, “escabreada”, “aperreado”, etc. Deste modo, pretende-se dialogar com a história, a cultura e a língua através do vocabulário contido no romance Nhô Guimarães, o qual é o reflexo do espírito do homem sertanejo, moldado histórico, culturalmente e linguisticamente nos séculos de existência de um país chamado Brasil, tão diverso e tão uno.

20) Rita Olivieri-Godet
Figurações da alteridade ameríndia na literatura brasileira: povos e territórios
Université Rennes 2/França
Análise das figurações da alteridade ameríndia centrada na representação dos atores sociais indígenas e de seus territórios em romances contemporâneos brasileiros. A comunicação visa prioritariamente discutir: 1 - os elementos constitutivos da escolha do personagem ameríndio como "instância de alteridade", destacando as modalidades de construção da figura ficcional do Ameríndio e sua relação com os discursos sociais; 2 - o imaginário hegemônico nacional sobre os territórios habitados pelos povos ameríndios.

21) Roberto Said
Maria Bethânia e o Brasil mestiço: um olhar sobre a modernidade cultural brasileira
UFMG/Minas Gerais, Brasil
Em um pequeno mas instigante texto publicado no decênio de 1980, Caio Fernando Abreu se debruçava sobre a trajetória da cantora popular brasileira Maria Bethânia com a seguinte indagação: “será que são muitas Bethânias, ou é uma só?”. A dúvida lançada pelo escritor parece cifrar um traço decisivo da artista, em vias de comemorar 50 anos de carreira: toda a multiplicidade delineada sob suas muitas faces (cantora de protesto, romântica, performática, teatral, declamadora, poética) se constrói sem desarmar um fio de coerência e continuidade impressionantes. A ousadia e a experimentação não se realizam senão sob linhas de força recorrentes. O trabalho com a poesia (sobretudo a brasileira, a portuguesa e a africana produzida em português), em diálogo criativo com a canção, constitui uma das recorrências mais notáveis desse percurso artístico. Este trabalho visa a estudar a antologia poética e ficcional selecionada pela cantora baiana, em seu Caderno de poesia (2015), a fim de analisar as implicações políticas e culturais presentes em seu cânone particular. Parte-se do pressuposto de que os textos escolhidos, oriundos de diferentes tradições, que articulam temática e esteticamente o popular e o erudito, o arcaico e o moderno, o passado e o futuro, delineiam uma interpretação singular da modernidade cultural brasileira.

22) Rosana Ribeiro Patricio
Impregnações na floresta: poemas amazônicos de Helena Parente Cunha
UEFS, Bahia, Brasil
A poeta Helena Parente Cunha (1930) apresenta a coletânea Impregnações na floresta: poemas amazônicos, dividido em duas partes: “impregnações no sentir” e “impregnações no olhar para ver”. A partir de dois poemas da parte I, “Barco no rio” e “Nosso navegar”, e dos poemas “Vitória-Régia” e “As Amazonas” da parte II, analisaremos as imagens líricas em poemas profundamente impregnados na atmosfera poética da paisagem amazônica. A partir dos poemas escolhidos, pretende-se demonstrar que a autora vale-se do recurso da viagem para, a partir de novas impressões e sensações, poetizar suas vivências e relações com os elementos da floresta. A poeta constitui nos poemas a memória de uma experiência místico-ecológica, que não se resume a uma versão poética de sua viagem à Amazônia. A viagem em si propõe uma renovação de ideias, uma saída da zona de conforto, uma quebra da rotina e, portanto, uma ruptura existencial. Assim, a palavra “Impregnações” que inicia o título da coletânea sugere uma infiltração do eu poético no corpo da floresta. Os poemas não são apenas uma descrição de elementos da floresta, mas constituem ritos de integração nos mistérios amazônicos, nas lendas, nas profundezas de suas águas e âmagos. Como afirma a autora na abertura do livro: a sua experiência lírica e existencial se concretiza “pelas inesquecíveis impregnações na floresta e vivências nas amplidões infinitas”.

23) Salete Rosa Pezzi dos Santos
Universo ficcional e representação: a ceia do desencontro
UCS/Rio Grande do Sul, Brasil
A escritora paulista Lygia Fagundes Telles constitui-se em uma escritora consagrada pela crítica e pelo público. Detentora de inúmeras premiações, também foi reconhecida pela Academia Brasileira de Letras, sendo a quarta ocupante da Cadeira número 16, eleita em 24 de outubro de 1985, na sucessão de Pedro Calmon. A narrativa de Lygia Fagundes Telles fixa o universo feminino e, sem deixar de configurar o mundo exterior, volta-se para o movimento psicológico das personagens, suas vivências e sentimentos mais profundos. Ana, Leontina, Beatriz, Catarina, Severina, Cordélia, Alice e tantas outras mulheres povoam as narrativas da ficcionista. Entretanto, é mister não se enganar: se, num primeiro momento, tem-se a impressão que a autora se preocupa somente com o universo feminino, logo se percebe que, a partir da personagem feminina, a escritora faculta ao leitor uma reflexão sobre a condição humana, pois a mulher não é representada como vítima ou carrasco
simplesmente, ela se configura como um ser humano que experiencia uma forma de viver, que faz suas escolhas com as quais acaba por defrontar-se. O conto “A ceia”, que compõe o livro Antes do baile verde (1986), é um belo exemplo de uma situação limite vivida pelas personagens, em especial, pelo sujeito feminino. A narrativa inicia com a chegada de Alice e Eduardo a um modesto restaurante, pouco frequentado. Aquilo que, inicialmente, se configura como um encontro entre amantes, aos poucos, vai se delineando como um momento repleto de desencontros e sofrimento. Após o término de uma longa relação, era a primeira vez que se encontravam, e Alice ainda guarda a esperança de que possam reatar o relacionamento rompido. Assim, o estudo desse conto examina o espaço das representações do universo ficcional através das relações que se possam estabelecer entre gênero e representações do sujeito feminino, com base em aportes teóricos da Crítica Feminista.

24) Ulisses Infante
Formas de narrar em Sagarana como interpretação da realidade brasileira
UNESP-São José do Rio Preto/São Paulo, Brasil
Sagarana é um conjunto de narrativas que se podem também conceber como uma unidade. O próprio Guimarães Rosa parecia endossar essa visão ao explicar que uma possível leitura desse título era a que o interpretava como "à semelhança de uma saga", ou seja, o conjunto de nove textos comporiam uma saga única. Tal saga seria a da formação do Brasil, cujos caminhos e descaminhos se identificam com os percursos de personagens e as estratégias narrativas presentificados nos textos. O propósito deste trabalho é investigar como as vozes que narram nesses contos constituem muitas vezes uma instância interpretativa da realidade brasileira, um elemento fundante da mirada que se quer projetar sobre os fatores que se conjugaram e os modos como se conjugaram no amálgama complexo da realidade nacional. Desde que Roncari (2004) comprovou como Rosa estava empenhado em oferecer sua interpretação do Brasil num período em que obras desse jaez eram frequentemente lançadas, nova luz tem sido projetada sobre o trabalho rosiano. No caso específico deste trabalho, está-se investigando como os narradores rosianos colaboram na constituição desse projeto interpretativo do autor. As estratégias narrativas combinam aproximação e distanciamento, empatia e aversão, dissimulação e sinceridade, estabelecendo nexos e contrapontos com o conjunto anedótico e a matéria linguística. Dessa forma, os modos de narrar em Sagarana são parte inalienável do repertório de "interpretações da brasilidade" que a obra permite apontar e justificam um estudo pormenorizado.

25) Geografia do arbítrio e da destruição em Estive lá fora, de Ronaldo Correia de Brito
Carlos Augusto Magalhães
UNEB/Bahia, Brasil
A comunicação sobre Estive lá fora, narrativa de Ronaldo Correia de Brito, intenta esboçar e elaborar leituras dos universos nebulosos e labirínticos de medo e de apreensão que se vão desenhando na Recife do final dos anos 1960 e da década imediata. O clima de insegurança e de dúvida esvazia as possibilidades de permutas e de experiências de que brotariam sociabilidades congregantes, saudáveis e enriquecedoras. Ao contrário, a cidade torna-se terreno inóspito e intransitável no qual subsistem vivências e intercâmbios precários e destrutivos, mediados pelo pânico e pela desconfiança. Esse seria o mapa de opressão pelo qual transita Recife no auge dos difíceis anos da ditadura militar. O mundo de conflitos íntimos e de inquietações existenciais é capitaneado, sobretudo por Cirilo – questionador, insatisfeito e tumultuado estudante de Medicina. A família, residente no sul do Ceará, atribui-lhe a missão de tornar-se médico e acrescenta mais uma agora: localizar o irmão mais velho, Geraldo – graduando de Engenharia, líder estudantil clandestino, pois perseguido pelos órgãos da repressão militar. Faz certo tempo que a família, inclusive, Cirilo não têm notícias do seu paradeiro. A captura de Geraldo constitui-se uma obstinação inarredável de órgãos da ditadura militar.

26) Luiz Antônio de Carvalho Valverde
As relações entre pensamento, linguagem e literatura: uma leitura de Os da minha rua, de Ondjaki e O Canto de Alvorada, de Aleilton Fonseca
UNEB/Bahia, Brasil
Quando Alexandre conquistou a Pérsia, abriu linhas de comunicação pelas quais a jovem civilização grega foi contaminada pela apatia oriental. As ideias estoicas do mercador fenício Zenon iriam se contrapor ao hedonismo, que era o cerne da cultura minoica, matriz da cultura grega, da qual o Ocidente se tornou herdeiro. Essas duas tendências, na filosofia, irão marcar, desde então, os dois principais polos de filiação do pensamento ocidental, tendo de um lado os pensadores que se afinam com o epicurismo e, do outro, os que seguem a linha estoica. O eixo central, como espécie de fiel da balança, vai ficar por conta dos pensadores que retomam a linha iniciada pelos sofistas, passando por Sócrates, Platão e Aristóteles, e chegando a Descartes, Leibniz e Kant. Tendo como pano de fundo a polaridade hedonismo versus estoicismo iremos abordar as obras Os da minha rua, do escritor angolano Ondjaki e O Canto de Alvorada, do escritor baiano Aleilton Fonseca. São livros de contos, que ilustram, por parte de Ondjaki, um esforço e um chamado à sua gente, pelo renascer das cinzas da guerra civil angolana, indo buscar nas brincadeiras da infância a alegria de viver; e, por parte de Fonseca, a negatividade, como estigma que coloca o homem como ser finito, para a morte. Tomaremos como operadores as ideias de Heidegger, em Ser e Tempo, Giorgio Agamben, em A linguagem e a morte, Merleau-Ponty, em A prosa do mundo, entre outros pensadores, que abordam as questões inerentes à linguagem e negatividade, e, especificamente, à literatura e pensamento.

27) Desafios da escrita historiográfica: literatura, testemunhos, arquivos
Clóvis Frederico Ramaiana Moraes Oliveira
UNEB
Gabriel García Márquez afirmava: “não há uma única linha do que escrevo que não tenha como base a realidade”. Por diferentes veredas, o compositor delineava continuidades entre a sua escrita e os arquivos usados para montá-la, afirmava uma tessitura historiadora escondida sob a tessitura literária. Menos que montagem de ficções, Márquez indicava para sua obra efeitos de realidade, dispunham-na como uma escrita historiadora sobre fazeres do mundo contemporâneo. O texto – Cem anos de solidão – foi um construto que objetivava apreender os tempos nervosos da histeria modernizadora. Por variantes diversas, a tematização, a pesquisa e a posterior escrita foram tentativas de elaboração de percepções e de institucionalização de sentidos. Enquanto testemunho, o texto foi um empreendimento historiador que guardou registros de feitura. Enquanto produção literária é uma representação de conversas de arquivos, de perguntas/respostas escolhidas diante do acervo documental, de caminhos traçados em meio a complexa selva de dados e informações. O romance, obra final, é uma condensação de roteiros, como uma obra da construção civil apresenta uma fartura de materiais utilizados e sugere outros, perdidos em escondido canto, que foram descartados, atirados fora nos momentos da elevação. Pretendo sair do “produto final”, o romance, para debater os roteiros que Márquez colocou diante de si, as escolhas arquivísticas e ainda astuciar sobre os descartes. Navegando contra a corrente, buscando nexos do texto com as oficinas em que foi escrito, pretendo surpreender o trabalho de crítica historiadora, explorando as concepções de tempo e documento, tentando dar conta das escolhas teóricas do autor para apreender os movimentos velozes da modernização da América Latina.

28) Edil Silva Costa
Pérola Cunha Bastos
João Ubaldo, Deus e o Diabo na Terra do Sol
UNEB/Bahia, Brasil
“O Auto da Compadecida”, “Deus é brasileiro” e “O homem que desafiou o diabo” são filmes, sucessos de público e crítica, que partem de obras literárias com fortes conexões com a cultura popular: a peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna; o conto “O santo que não acreditava em Deus”, de João Ubaldo Ribeiro; e o romance As pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro. O estudo dessas obras se justifica por trazerem o mote para o tema proposto que é a questão da religiosidade popular e suas representações nas poéticas orais, na literatura escrita e no cinema. Objetiva-se analisar os processos de apropriação e recriação de textos populares pela literatura e as produções recentes do cinema nacional que enfocam a temática predominante da religiosidade popular e dos pactos fáusticos. Tomando como ponto de partida e convergência o conto “O santo que não acreditava em Deus”, de João Ubaldo Ribeiro, atualização/adaptação das
narrativas orais populares do tempo em que “Nosso Senhor andava pelo mundo com São Pedro”, é feito um estudo comparativo e de tradução intersemiótica das obras. Nos textos analisados, todos ambientados no universo nordestino, com suas dificuldades e desigualdades sociais, tanto a figura divina como o diabo são humanizados e convivem muito de perto com os mortais e pecadores. Procura-se mostrar as construções da religiosidade popular e suas representações – quase sempre atravessadas pelo humor mais mundano e pela dessacralização dos textos religiosos – e de que modo esse aspecto literário é conservado, atenuado ou ampliado nas obras audiovisuais. Assim, espera-se como resultado ampliar o debate sobre a temática, considerando-se o trato artístico da religiosidade.

29) Adriana Lins Precioso
Vozes poética de Mato Grosso: história, cultura e identidade
UNEMAT-Sinop/Mato Grosso, Brasil
O presente trabalho traz resultados parciais do projeto intitulado: “Transculturação e poéticas contemporâneas: traços identitários da cultura de Mato Grosso” . A pesquisa busca identificar, em obras de poesia contemporânea, possíveis traços formadores da identidade poética como resultante do processo migratório, da diversidade cultural e do multiculturalismo perpetuados pela arte desenvolvida nos três biomas diferentes do estado, sendo: o pantanal, a Amazônia meridional e o cerrado, tendo em vista o papel do artista enquanto sujeito transculturador. O estado de Mato Grosso é fruto de um efervescente processo de colonização que teve seu começo nos anos 70, com a venda de terras para os sulistas e paranaenses. Vale ressaltar, contudo, que ainda hoje essa “colonização” se faz presente e recebe pessoas de todo o território nacional tanto para a contribuição no avanço tecnológico quanto na mão de obra simplificada. Destarte, a história, a geografia, a cultura e as variantes linguísticas são observadas na produção de diferentes poetas, os quais potencializam a expressão artística local e contemporânea em diálogo com a cultura estabelecida pela tradição. Sendo assim, o trânsito e a troca entre culturas, as imagens e sons dos diferentes biomas e o ciclo sazonal são figurativizados nos poemas e ganham destaque nas produções atuais mato-grossenses. Para esta atividade serão selecionados poemas de Aclyse de Mattos, cuja experiência individual e lúdica mergulha nos ciclos sazonais; Pedro Casaldáliga, bispo católico e atuante da Teologia da Libertação, voz engajada em nome dos marginalizados; Marilza Ribeiro, evoca o corpo, a mulher e a natureza em seus poemas e Marli Walker, cuja sensualidade entra em confluência com as cores e os sabores da Amazônia Meridional. Essa seleção tem o intuito de apresentar um panorama da criação poética da atualidade desenvolvida em Mato Grosso.

30) Maria de Fatima do Nascimento
O lustre de Clarice Lispector: indícios de incesto
UFPA/Pará, Brasil
O romance O lustre (1946), de Clarice Lispector, obra pouco recepcionada pelos críticos literários, traz à baila as relações endogâmicas de cinco personagens, o pai, a mãe e três filhos, sendo que a primogênita chama-se Esmeralda; o segundo filho, Daniel, e a caçula, Virgínia, personagem principal do referido livro. Tal família reside em um casarão, do local denominado Granja Quieta, afastado do centro comercial do município de Brejo Alto e pertencente aos avós de Virgínia. Anteriormente luxuoso, no tempo da narrativa, o casarão encontra-se em ruínas, com muitos quartos vazios, janelas sem cortinas e poucos objetos, como um tapete de veludo púrpura e um lustre, remanescentes de uma riqueza passada. Os moradores do casarão são ensimesmados, com exceção da mãe, que, de certo modo, dialoga com Esmeralda, e os encontros entre eles ocorrem geralmente durante as refeições, quando o pai, agressivo, apresenta-se sempre ríspido. Diante dessa ambiência, o objetivo do trabalho ora proposto é detectar, entre os referidos irmãos Daniel e Virgínia, indícios de incesto, tema que remonta às tragédias antigas, como Édipo Rei (427 a.C), de Sófocles; a livros do Antigo Testamento da Bíblia (1445 e 450 a.C.), além de manifestar-se nos Oitocentos, em produções como o romance Os Maias (1888), de Eça de Queirós, e Hortência (1888), de Marques de Carvalho, e no vizinho século XX, em obras como Absalão, Absalão (1936), romance de William Faukner; e a peça Álbum de família (1945), de Nelson Rodrigues. Para a realização desse estudo, toma-se por referencial teórico a seguinte bibliografia: Totem e tabu (1913), de Sigmund Freud; As estruturas elementares de parentesco (1949), de Lévi-Strauss; e O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector, (1989), de Benedito Nunes.

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SIMPÓSIO 57 - PRÁTICAS INTERCULTURAIS DE ENSINO DE PORTUGUÊS

Coordenadores:
Tânia Ferreira Rezende – Universidade Federal de Goiás – taniaferreirarezende@gmail.com
Shirley Eliany Rocha Mattos – Universidade Estadual de Goiás – shirley.rmattos@gmail.com


RESUMOS APROVADOS

1.
TÍTULO: INTERCULTURALIDADE, LEITURA E PRODUÇÃO TEXTUAL NO ENSINO/APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA: AS HISTÓRIAS DA PERSONAGEM MAFALDA
AUTOR/AS: Rosane Salete SASSET/IFRO, rosane.sasset@ifro.edu.br
Salete BORINO/IFRO, salete.borino@ifro.edu.br
Moisés José Rosa SOUZA/IFRO, moisés.souza@ifro.edu.br
RESUMO: De acordo com a legislação que rege a educação básica, a estrutura curricular do ensino médio deve proporcionar ações que possibilitem a compreensão da ciência, das letras e das artes, bem como o processo de transformações da sociedade e da cultura. A Língua Portuguesa é um instrumento de acesso ao conhecimento e exercício da cidadania, na medida em que discute interculturalmente temas diversos. Dessa forma, novas práticas metodológicas são indispensáveis para que o ensino/aprendizagem da língua materna seja proposto e aceito por professores e estudantes ultrapassando obstáculos e preconceitos que possam existir. Assim, objetivou-se trabalhar o gênero textual Histórias em Quadrinhos, com alunos do segundo ano do curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio, a fim de promover a interculturalidade no ensino da Língua Portuguesa e suas implicações na leitura e na produção textual. No percurso metodológico, foram considerados os
aspectos característicos do gênero textual em questão e sua relação com o ensino da língua materna. Foi dada ênfase às tiras da personagem Mafalda, de Quino, sendo que a maioria das histórias analisadas apresenta uma visão bastante crítica da realidade e com um forte traço político que se mantém atual e possibilita a leitura de diversas temáticas pertinentes ao ensino/aprendizagem da língua portuguesa e da interculturalidade. Dessa forma, autores como Candau (2009), Marcuschi (2011), Dantas (2012), Mendes (2011), Vergueiro (2009) entre outros, serviram como aportes para a fundamentação teórica da temática pesquisada. Como resultados preliminares, evidenciou-se que as tiras das Histórias em Quadrinhos podem ser bastante relevantes para o ensino/aprendizagem da língua materna, considerando a leitura, a produção de textos e a interculturalidade, pois tanto na expressão verbal quanto não verbal da personagem Mafalda encontram-se recordações, costumes, forma
de pensar, sentir e agir em um contexto sociocultural, determinado que favorecem as práticas discursivas.
Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos. Leitura. Ensino/aprendizagem de Língua Portuguesa. Interculturalidade
Bibliografia básica:
CANDAU, V. M. Educação Escolar e Cultura(s): multiculturalismo, universalismo e currículo; In: CANDAU. V. M. (org) Didática: questões contemporâneas. Rio de Janeiro: Ed. Forma & Ação, 2009.
DANTAS, S. D. (org.). Diálogos Interculturais: Reflexões Interdisciplinares e Intervenções Psicossociais. São Paulo, Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 2012.
MARCUSCHI, L.A. Gêneros textuais: configurações, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, A.M.; GAYDECZKA, B.; BRITTO, K.S. (Orgs.). Gêneros textuais: reflexes e ensino. 4. ed. São Paulo: Parábola, 2011.
MENDES, E. Diálogos Interculturais: Ensino e Formação em Português Língua Estrangeira. Campinas, SP: Pontes Editores, 2011.
VERGUEIRO, W. O uso das HQs no ensino. In: RAMA, Â.; VERGUEIRO, W. (Orgs.). Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. 3.ed. São Paulo: Contexto, 2009.

2.
TÍTULO: O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA ESTRANGEIRA: AS DIFERENÇAS CULTURAIS COMO PROMOTORAS DA INTERAÇÃO E DA NEGOCIAÇÃO DE SIGNIFICADOS.
AUTORES: Pedro Henrique Andrade de Faria (Universidade Federal de Goiás -pedrohandradef@hotmail.com)
Francisco José Quaresma de Figueiredo (Universidade Federal de Goiás - fquaresma@terra.com.br)
RESUMO: As diferenças culturais no ensino de português como língua estrangeira (PLE) estão presentes desde as primeiras práticas de ensino dessa modalidade da língua aqui no Brasil. O ensino de PLE começou, no Brasil, com os padres jesuítas e suas missões de colonização e expansão do catolicismo, nesse momento a língua era ensinada aos índios e a alguns poucos escravos negros que eram trazidos de países africanos para cá. Hoje, o ensino de PLE, no Brasil, está relacionado a adultos que se encontram no país em situação de trabalho, estudo ou refúgio. Fora do Brasil, o ensino de PLE ganha destaque devido o crescimento econômico do país e a divulgação de sua cultura. Desse modo, atentos aos novos contextos de ensino de PLE, apresentaremos nesta comunicação parte dos resultados de um estudo de mestrado (FARIA, 2015) que trata das relações interculturais presentes em sala de aula de português como língua estrangeira, de adultos que se encontram no Brasil em
situação de intercâmbio estudantil. Através da teoria sociocultural proposta por Vygotsky e dos estudos sobre o ensino intercultural feitos por Risager (2010), desenvolvemos um estudo de caso em que verificamos como aspectos culturais de diferentes aprendizes auxiliam e promovem a interação e a aprendizagem nas aulas de PLE. Por meio de observação das aulas, notamos que aprendizes de diferentes culturas possuem elementos culturais semelhantes, mas, principalmente, elementos culturais distintos que auxiliam na negociação de significados da língua estrangeira que estão aprendendo, levando-os à troca de experiências culturais, em que explicam, compreendem e valorizam as diferenças culturais.

Palavras-chave: Português como língua estrangeira. Ensino intercultural. Interação.
Bibliografia básica:
LANTOF, J. P. The sociocultural approach to second language acquisition. In: ATKINSON, D. (Ed.). Alternative approaches to second language acquisition. London: Routledge, 2011.
MENDES, E. Ainda a identidade: algumas reflexões sobre o ensino de línguas em ambiente intercultural. In: MENDES, E; ALVAREZ, M. L. O. (ORG). Contextos brasileiros de pesquisa aplicada no âmbito da linguagem. Salvador: Quarteto, 2009. p. 757-765.
RISAGER, K. The Language Teacher Facing Transnationality. 2010. Disponível em: . Acesso em: 10 de janeiro de 2014.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
______. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

3.
TÍTULO: O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LE (PLE) NO PROJETO SÍ, YO PUEDO: UMA ANÁLISE DA INICIATIVA DE IMIGRANTES BOLIVIANOS EM SÃO PAULO.
AUTOR: Sidney de Souza Silva. sidney.silva@ifgoiano.edu.br, sidneysilvabrasil@hotmail.com
RESUMO: No Brasil, são exíguos os programas de ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE) que visem contemplar as necessidades específicas dos contextos de imigração, visto que, geralmente, esses grupos são invisibilizados pelos órgãos competentes. No entanto, sabe-se que para que o indivíduo imigrante seja integrado à sociedade abrangente, é necessário que o mesmo adquira e use em seu cotidiano a língua do país acolhedor. Nesse sentido, esta comunicação visa apresentar a forma particular como um grupo de imigrantes bolivianos, residentes na cidade de São Paulo – Brasil, na ausência de programas de ensino de português voltados aos imigrantes latino-americanos, tomou a iniciativa de desenvolver um projeto que envolve o ensino de Português como Língua Estrangeira para os seus compatriotas recém-chegados ao país. Assim, são abordadas questões pertinentes ao valor atribuído à língua portuguesa por esse grupo de imigrantes, as abordagens e os
materiais didáticos empregados para o desenvolvimento das aulas, o perfil dos professores que ministram as aulas no projeto, assim como refletir a respeito da relevância de mediações interculturais em contextos dessa natureza, bem como analisar os resultados alcançados.
Palavras-chave: Ensino de Português. Imigrantes. Estigma. Interculturalidade. Bilinguismo.
Bibliografia básica:
AZIBEIRO, N. NA. Educação intercultural e complexidade: desafios emergentes a partir das relações em comunidades populares. In. FLEURI, R. M. (org.). Educação intercultural: medicações necessárias. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. pp. 85-107.
BIZARRO, R.; BRAGA, F. Educação intercultural, competência plurilíngue e competência pluricultural: novos desafios para a formação de professores de LE. Disponivel em:. sd, p. 57-69
KRAMSCH, C. Third culture and language education. In: COOK, V.; WEI, LI. (Eds.) Contemporary Applied Linguistics. Vol.1 Vivian Cook, ed. Language Teaching and Learning. London: Continuum, 2009, p. 233-254.
KRAMSCH, C. Preview Article: The Multilingual Subject. International Journal of Applied Linguistics, v. 16, n. 1, p. 97 – 110, 2006.
MENDES, E. Por que ensinar língua como cultura? In: SANTOS, P.; ALVAREZ, M. L. O. (Orgs.). Língua e cultura no contexto de Português língua estrangeira. Campinas, S.P.: Pontes, 2010, p. 53 – 78.
MORGAN, C.; CAIN, A. The Theoretical Context. In: MORGAN, C.; CAIN, A. Foreign Language and Culture Learning from a Dialogic Perspective. Clevedon: Multilingual Matters, 2000, p. 4 – 31
RISAGER, K. Language and Culture in a Global Perspective. In: RISAGER, K. Language and Culture; Global Flows and Local Complexities. Clevedon: Multilingual Matters, 2006, p. 1- 18.
SILVA, G. F. Multiculturalismo e educação intercultural: vertentes históricas e repercussões atuais na educação. In. FLEURI, R. M. (org.). Educação intercultural: medicações necessárias. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. pp. 17-52.
SOUZA, M. I. P.; FLEURI, R. M. Entre limites e limiares de culturas: educação na perspectiva intercultural. In. FLEURI, R. M. (org.). Educação intercultural: medicações necessárias. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. pp. 53-84.

4.
TÍTULO: SER BRASILEIRO EM PORTUGAL: RELATOS DE EXPERIÊNCIAS DE APRENDIZAGEM DOS PARTICIPANTES DO PROGRAMA DE LICENCIATURA INTERNACIONAL (PLI)
AUTOR: Francisco José Quaresma de Figueiredo - Universidade Federal de Goiás - fquaresma@terra.com.br
RESUMO: Esta pesquisa, ainda em andamento, se filia à linha de pesquisa em Linguística Aplicada e tem por objetivo compreender o processo de aprendizagem em experiências de intercâmbio (BYRAM, 1997; BYRAM; FLEMING, 1998), bem como a questão da interculturalidade, questões identitárias e possíveis quebras de estereótipos (ARCHER, 2001; KRAMSCH, 1998; ROBERTS et al., 2001), a partir de relatos de alunos brasileiros da Universidade Federal de Goiás (UFG) que participaram do programa de intercâmbio PLI, na Universidade de Coimbra, de 2012 a 2014. O estudo se justifica devido ao fato de ser a primeira vez que o curso de Letras da Universidade Federal de Goiás participa do Programa de Licenciatura internacional (PLI) e pretendemos compreender as possíveis dificuldades encontradas pelos alunos na adaptação ao novo país, à nova cultura, ao sotaque diferente da língua portuguesa. Para tanto, os participantes foram entrevistados sobre suas experiências de aprendizagem
durante o programa de intercâmbio em Portugal. Pretende-se com a pesquisa obter informações dos participantes no sentido de que sejam propostas reflexões sobre como otimizar a participação de estudantes brasileiros em programas de intercâmbio realizados em Portugal.

Palavras-chave: Aprendizagem em situações de intercâmbio. Questões identitárias. Quebra de estereótipos. Interculturalidade.
Bibliografia básica:
ARCHER, C. M. Culture bump and beyond. In: VALDES, J. M. (Ed.). Culture bound: bridging the cultural gap in language teaching. Cambridge: Cambridge University Press,
2001. p. 170-178.
BYRAM, M. Teaching and Assessing Intercultural Communicative Competence. Clevedon: Multilingual Matters, 1997.
BYRAM, M.; FLEMING, M. (Ed.). Language learning in intercultural perspectives: approaches through drama and ethnography. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. Introduction, p. 1-15.
KRAMSCH, C. Language and culture. Hong Kong: Oxford University Press, 1998.
ROBERTS, C. et al. Language learners as ethnographers. Clevedon: Multilingual Matters, 2001.

5.
TÍTULO: CONCEPÇÕES DE LER E ESCREVER NA COMUNIDADE TAPUIA DO CARRETÃO
AUTORAS: MACHADO, Ana Elizabete Barreira. Universidade Federal de Goiás. anabarreiramachado@gmail.com
REZENDE, Tania Ferreira. Universidade Federal de Goiás. taniaferreirarezende@gmail.com
RESUMO: As concepções de escrita e leitura refletidas nas práticas sociais e discursivas da comunidade indígena Tapuia estão envolvidas no conflito linguístico: Português Brasileiro e Português Tapuia. O Povo Tapuia é remanescente do Aldeamento de Pedro III, construído para “abrigar” o Xavante, e depois Kayapó, Karajá, Javaé e Xerente; foram também aldeados negros escravizados fugidos das fazendas da região. Com administradores brancos, conclui-se: os Tapuia descendem de diferentes etnias indígenas, de negros e de brancos. Nesse contexto, sociolinguisticamente complexo (PEREIRA, 2002), a normatização da língua, pela imposição da língua portuguesa, esteve presente de maneira violenta, enquanto vigorou o aldeamento (até meados do século XIX). Esta normatização permanece, mas a violência é simbólica, por meio da escola, nas práticas de escrita e de leitura. Entretanto, a diversidade etnicolinguística não foi apagada, está na constituição do povo
Tapuia, desde uma memória da diversidade linguística até conflitos atuais relacionados à negação do Português Tapuia como língua indígena, constituindo-se espaço político de luta. A escrita aqui é entendida como ato político, porque colabora na constituição da comunidade (RANCIÈRE, 1995). Propomos discutir concepções e práticas de ler e escrever dos Tapuia, problematizando as epistemologias subjacentes a estas. Com pesquisa participante, de base etnográfica, observamos as práticas dos Tapuia, que nos possibilitaram a geração de dados para a interpretação da questão sob análise. Além da pesquisa etnográfica, utilizamos o TCC em Educação Intercultural da UFG, do professor Tapuia Luís Antônio Vieira (2011), Práticas escritas interculturais na comunidade Tapuia do Carretão – GO. A interpretação dos dados possibilitam hipotetizar que a concepção de organização social do Povo Tapuia fundamenta a concepção de ler e escrever desta comunidade.
Sustentam a argumentação em favor da nossa hipótese as teorias da Prática (BOURDIEU, 2007), Culturalista (BHABHA, 1998), o Paradigma da Complexidade (MORIN, 2010) e as Epistemologias do Sul, (SANTOS; MENESES, 2009).
Palavras-chave: Práticas interculturais de ensino. Contextos de interculturalidade. Concepções de leitura e escrita. Letramento. Tapuia.
Bibliografia básica:
BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2007.
RANCIÈRE, J. Políticas da escrita. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. (Orgs). Epistemologias do Sul. Coimbra-PT: Almedina, 2009.
BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
MORIN, E. A religação dos saberes – o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

6.
TÍTULO: ENSINO BILÍNGUE E INTERCULTURAL: UM BREVE OLHAR AOS ALUNOS INDÍGENAS DA ETNIA XAVANTE EM ESCOLAS PÚBLICAS URBANAS- BARRA DO GARÇAS/MT
AUTOR/A: Profª Drª. Marly Augusta Lopes de Magalhães Universidade Federal de Mato Grosso professoramarlyaugusta@gmail.com
Prof. Dr. Maxwell Miranda Universidade Federal de Mato Grosso maxwell_gm@hotmail.com
RESUMO: O objetivo deste trabalho é discutir metodologias participativas nos processos de ensino/ aprendizagem da língua portuguesa aos alunos indígenas da etnia xavante, em escolas públicas urbanas, em uma perspectiva voltada para a educação intercultural.O processo intercultural possibilita a aprendizagem com a experiência do outro e gera novos diálogos, pois abrem múltiplos caminhos de interação com diferentes culturas e, dessa forma, contribui na ampliação da competência linguística desses alunos. Antes de chegar às escolas públicas urbanas, os alunos indígenas já adquiriram as mais variadas formas de comunicar-se junto à comunidade na qual estão inseridos. A presença dos alunos indígenas em escolas públicas urbanas é um fato concreto que vem chamando a atenção dos educadores no que se refere à inclusão desses alunos como um todo e, particularmente, quanto ao ensino da Língua Portuguesa como segunda língua. O ensino da língua portuguesa faz parte
do currículo escolar e seu uso é comum entre determinados grupos sociais, inclusive, pelos alunos indígenas matriculados em escolas urbanas. Mais do que o aprendizado da língua portuguesa, como segunda língua, os alunos indígenas matriculados em escolas públicas urbanas precisam de ambientes educacionais que os estimulem não só na compreensão de fatos de linguagens, mas, sobretudo, que os respeitem em suas individualidades. Nota-se que as escolas precisam se renovar no sentido de se adaptarem às mudanças ocorridas nas últimas décadas, quanto à formação inicial e continuada dos professores para atender à crescente demanda de alunos indígenas. Não se trata de saber mais, mas de saber trabalhar com o diferente, compreendendo as características específicas da interculturalidade num trabalho coletivo e solidário. E, assim, encontrar caminhos fomentadores de aprendizagens multiculturais e facilitar o desenvolvimento das competências linguísticas dos alunos
indígenas em escolas públicas urbanas na cidade de Barra do Garças/MT.
Palavras-chave: alunos indígenas; escolas públicas; interculturalidade; ensino/aprendizagem.
Bibliografia básica:
CASSEB-GALVÃO, V. C. A gramática a serviço dos gêneros. Anais do Simpósio Internacional de Ensino de Língua Portuguesa – SIELP. Uberlândia: UFU, 2011.
GALVÃO, Vânia Cristina (Orgs.). Introdução à Gramaticalização: princípios teóricos e aplicação. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
NEVES, Maria Helena de Moura. A Gramática passada a limpo: conceitos, análises e parâmetros. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.
PIMENTEL DA SILVA, M. S.; BORGES, M. V. (Org.). Cidadania, interculturalidade e formação de docentes indígenas. Goiânia: UCG, 2010. v. 1. 170.
PIMENTEL DA SILVA, M. S; ROCHA, Leandro M. Educação bilíngüe intercultural entre povos indígenas brasileiros. Extensão e Cultura (UFG), v. n2, p. 7-182, 2006.

7
TÍTULO: EDUCAÇÃO BILINGUE INTERCULTURAL E A PRODUÇÃO DE TEXTOS EM LÍNGUA PORTUGUESA DOS ALUNOS KARAJÁ NO TEMA CONTEXTUAL ESPORTE E LAZER/2007
AUTOR/A: Edna Marisa Ribeiro (UFG/ NTFSI) ednamarisaribeiro@gmail.com
Wilson Luiz Lino de Sousa (UFG/FEFD) wilson_lino@uol.com.br
RESUMO: Neste apresenta-se resultados parciais de uma pesquisa em andamento que busca-se identificar e analisar as transformações ocorridas sobre o ensino bilíngue no curso de formação de professores indígenas a partir de práticas interculturais desenvolvida no curso de formação inicial e articulada ao estudo de egressos da Licenciatura Intercultural da UFG. Para tanto, analisou-se os textos produzidos por 8 alunos Karajá quando da realização do tema contextual esporte e lazer o ano de 2007. Há muita dificuldade em escrever em português, há diferença entre a oralidade e escrita, ortografia, pontuação, acentuação, concordância e regência verbal e nominal. A pedagogia da contextualização é uma forma de aprender e apreender o conhecimento de forma transdisciplinar e interdisciplinar. A necessidade da escrita assemelha-se a complexidade das culturas humanas. Em algumas culturas, é possível preservar o conhecimento do grupo transmitindo-se oralmente de
geração para geração, toda a substância essencial da memória, não há necessidade da escrita, mas em nossa cultura, heterogênea, escrever os fatos é essencial para preservação de nossa cultura. A prática da escrita em português nasce de uma demanda dos indígenas, para eliminar uma desigualdade histórica, afirmar a igualdade e tratamento; indenizar as perdas provocadas pela discriminação e marginalização, por vários motivos, étnicos, religiosos, raciais, gênero e outros; promover a valorização historicamente e culturalmente dos diferentes povos que existem no Brasil. Observou-se ainda que os conceitos de esporte e lazer tratados pela literatura acadêmico científica são compreendidos de modo diverso e contrário pelos representantes da etnia Karajá. Essas reflexões destacam a urgência que indígenas tem de aprender o português, é uma garantia de terras e culturas.
Palavras-chave: formação de professores; português como segunda língua; interculturalidade; esporte; lazer.
Bibliografia básica:
CUSTÓDIO, Mariana L.; LINO, Wilson; Mascarenhas, Fernando; HÚNGARO, Edson Marcelo . O LAZER E O REINO DA LIBERDADE: reflexões a partir da ontologia do ser social.. Licere (Centro de Estudos de Lazer e Recreação. Online), v. 12, p. 1-21, 2009.
BORGES, Mônica Veloso, ROCHA, Leandro Mendes, PIMENTEL DA SILVA, M. S. Cidadania, Interculturalidade e Formação de Docentes Indígenas. Goiânia: Ed. da PUC, Goiás, 2010.
______________.Educação Intercultural: experiências e desafios políticos pedagógicos. Goiânia: Ed. da UFG, Goiás, 2013.
HÚNGARO, Edson Marcelo (Org.) ; LINO, Wilson (Org.) . CULTURA, EDUCAÇÃO, LAZER E ESPORTE: fundamentos, balanços e anotações críticas.. 1a.. ed. Santo André: Alfarrabio, 2008. v. 1. 158p
PIMENTEL DA SILVA, M. S. Letramento Bilíngue em contextos de tradição oral. Ed. da UFG/GO, 2012.

8
TÍTULO: FORMAÇÃO INTERCULTURAL NO ENSINO DE PLE: ESTRANHAMENTOS E SIGNIFICAÇÕES DE ESTUDANTES ESTRANGEIROS / INTERCAMBISTAS NO BRASIL
AUTORAS: WALKIRIA FRANÇA VIEIRA E TEIXEIRA (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”- UNESP) walkiriateixeira@gmail.com
MÍRIAM LÚCIA DOS SANTOS JORGE (Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG) miriamjorge@gmail.com
RESUMO: O objetivo do trabalho é a formação de estudantes estrangeiros/intercambistas no Brasil, por meio do desenvolvimento da competência linguístico-comunicativa e cultural dos alunos. O projeto utiliza a etnografia como ferramenta para a exploração das percepções dos alunos sobre a cultura brasileira. A formação dos intercambistas é compreendida como oportunidade de levar o aluno-aprendiz da língua/cultura estrangeira a vivenciar outra cultura buscando levantar os “estranhamentos culturais” (Roberts, 2000) a partir da experiência de confrontação com a sua cultura natal (NIEDERAUER, 2010). De acordo com Tsvetkova e Karastateva (2001), a etnografia é usada como uma abordagem que permite ao aluno atuar como observador-analista de seu aprendizado (Busnardo, 2010), atribuir sentidos àquilo que pode estar “invisível” aos próprios brasileiros, promover a competência intercultural (JORDAN, 2001) e apresentar a oportunidade para que os alunos desenvolvam uma “sensibilidade antropológica” (POCOCK, 1975). Na compreensão da cultura estrangeira, a etnografia coloca o aluno como analista-observador das práticas sociais cotidianas, confrontando-as com sua realidade, em vez da aprendizagem fechada na sala de aula (BUSNARDO, 2010). Consideramos nossos alunos como aprendizes-etnógrafos, solicitando-os a, diariamente, refletir sobre os eventos de seu cotidiano, a partir de possíveis estranhamentos e da atribuição de sentidos a esses estranhamentos. Os resultados das análises indicam como os cursos de língua portuguesa como segunda língua, língua estrangeira ou adicional podem criar, tanto para os alunos quanto para os professores, oportunidades para reflexão e compreensão da outra cultura sem “julgamentos e comparações etnocêntricas, além da oportunidade de pensar sua própria cultura por meio de outra” (NIEDERAUER, 2010). Discutimos também como formar professores que possam mediar as percepções que os estudantes têm das culturas locais, por meio do contraste crítico e da construção de conhecimentos históricos, culturais e sociais que podem mediar a compreensão das leituras do mundo (FREIRE, 1970) por aqueles externos a um contexto socio-histórico-cultural especifico.
Palavras-chave: Português para Estrangeiros, etnografia, formação intercultural
Bibliografia básica:
BUSNARDO, J. Contextos Pedagógicos e Conceitos de Cultura no Ensino de Línguas Estrangeiras. In: SANTOS, P. ALVAREZ, M. L. O. (Orgs). Língua e Cultura no contexto de Português Língua Estrangeira. Campinas, SP: Pontes, 2010.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, SP, 1970.
JORDAN, S. Writing the Other, Writing the Self: Transforming Consciousness through Ethnographic Writing. Language and Intercultural Communication 1, 2001, p. 40-57.
NIEDERAUER, M. E. F. Estranhamentos Culturais em sala de aula de Português para Estrangeiros. In: SANTOS, P. ALVAREZ, M. L. O. (Orgs). Língua e Cultura no contexto de Português Língua Estrangeira. Campinas, SP: Pontes, 2010.
POCOCK, D. Understanding Social Anthopology, London, Hodder and Stoughton, 1975.
ROBERTS, C. Introduction to Ethnography for Language Learners, In: LARA: Learning and Residence Abroad. Oxford and London, Oxford University Press and Thomas Valley University/ King’s College London, 2000.
TSVETKOVA, N.; KARASTATEVA, V. Ethnography? (What) Does it have to do with Language Education? BETA IATEFL Bulgarian English Teachers’ Association, 2001.

9
TÍTULO: LEITURA LITERÁRIA E TEATRO NA SALA DE AULA
AUTORA: Rosemari Bendlin Calzavara - UNOPAR (Universidade Norte do Paraná)
e-mail: rosecalzavara@hotmail.com
Resumo: O estudo do texto literário aliado à experiência teatral, através do jogo, é um procedimento que visa a elucidar a compreensão profunda e significativa da obra por meio dos processos de identificação e estranhamento. Seu caráter se define por ser método de aprendizagem. As artes em geral e consequentemente o teatro, fazem parte da cultura e da linguagem de um povo e são peças essenciais para o conhecimento e compreensão de sua história. O fazer teatral desperta os alunos para a observação dos outros e de si mesmo, propicia-lhes o despertar da curiosidade de se conhecer e se reconhecer como parte de um contexto histórico e social. Desperta o espírito colaborativo e de respeito ao outro, incentivando-o a manifestar e expressar sentimentos de forma positiva. O presente estudo tem como objetivo principal colaborar com a formação do jovem leitor das literaturas de Língua Portuguesa, que muitas vezes distancia-se da leitura por não compreender o universo
composicional cultural de uma obra literária. A metodologia dessa proposta baseia-se em atividades de leitura e estudo crítico-reflexivo dos textos literários, nos seus mais variados gêneros, na interação com o mundo do adolescente e na transposição para uma montagem e representação cênica do texto lido. Dessa forma, desenvolver a análise e estudo da forma dramática como uma expressão de comunicação e linguagem dentro dos gêneros literários na sala de aula é extremamente pertinente tendo em vista os estudos mais recentes da teoria das letras e mais particularmente as propostas didático-pedagógicas para o ensino da literatura.
Palavras-chave: Letramento Literário; Teatro; Ensino
Bibliografia básica:
DALVI, Maria Amélia, REZENDE, Neide Luzia de, JOVER-FALEIROS, Rita. (org). Leitura de Literatura na Escola. São Paulo: Parábola, 2013.
GRANERO, Vic Vieira . Como usar o teatro na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2011.
GRAZIOLI, Fabiano Tadeu. As abordagens dramáticas e a presença do teatro nas escolas brasileiras: Reflexões sobre uma realidade. In. Vivências. Vol.6, N.9: p.58-66, Maio/2010
JOUVE, Vincent. Por que estudar Literatura? São Paulo: Parábola, 2012.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva, 1979.

10.
Título do trabalho: Literatura dramática na sala de aula: a descoberta do texto dramático como objeto literário
Autor(es): Kelly Sheila Inocêncio C. Aires (IFPB - kellysheilacosta@yahoo.com.br)
Resumo: Uma das dificuldades de se trabalhar a literatura dramática na escola é que esta, em geral, não considera os textos dramáticos como literatura, de modo que possam ser simplesmente lidos em sala de aula. Diante dessa realidade, durante o nosso doutoramento, pensamos em trabalhar com o gênero dramático e a formação docente. No presente artigo, analisaremos relatos de professores da educação básica (5º ao 9º ano) sobre a experiência com o texto dramático em sala de aula como objeto literário; e apresentaremos algumas sugestões metodológicas como alternativas às dificuldades encontradas por estes e outros docentes que, muitas vezes, ignoram esse gênero por não considerá-lo literário e/ou por falta de formação que lhes ofereça suporte metodológico para levá-lo para a sala de aula. Esses relatos foram fornecidos durante um curso de formação de professores, que foi realizado durante dois meses na cidade de Areial, no estado da Paraíba. O curso foi
estruturado em quatro etapas. Na primeira, lemos e analisamos textos dramáticos, especialmente, da dramaturga Maria Clara Machado. Depois, ouvimos os relatos de experiências dos professores com o gênero dramático. Em seguida, estudamos alguns textos críticos que tratavam do texto dramático como gênero literário e na sala de aula. Por fim, elaboramos propostas metodológicas para trabalhar este gênero como texto literário sem, obrigatoriamente, ser encenado, por meio da descoberta da sua poeticidade e de atividades, como os quadros de leitura de Cristina Melo (1998).
Email: kellysheilacosta@yahoo.com.br
Palavras-chave: Literatura dramática na sala de aula, formação de professores, educação básica, sugestões metodológicas.
Bibliografia básica:
AGUIAR, Vera Teixeira de (Coord.). Era uma vez... na escola: formando educadores para formar leitores. Belo Horizonte: Formato, 2001.
CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: Teoria da Literatura – formalistas russos. Rio Grande do Sul: Globo, 1976.
MELLO, Cristina. O ensino da literatura e a problemática dos gêneros literários. Coimbra: Almedina, 1998.
SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de; FONSECA, José Luis Jobim de Salles. Literatura e encenação. In: Teoria Literária: ensaios. Rio de Janeiro: Cronos: 1980.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 8. ed. Rio de janeiro: Vozes, 2007.

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↑ índice

SIMPÓSIO 58 - O ENSINO DA LEITURA E DA (RE)ESCRITA EM LÍNGUA PORTUGUESA

Coordenadores:
Eliane Marquez da Fonseca Fernandes - Universidade Federal de Goiás - elianemarquez@uol.com.br
Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago - Universidade Federal de Goiás - lurdinhapaniago@terra.com.br
Maria da Graca Lisboa Castro Pinto - Universidade do Porto - mgraca@letras.up.pt


RESUMOS APROVADOS

01 MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA E ENSINO DA LEITURA/ INTERPRETAÇÃO
Autoras: Eliane Marquez da Fonseca FERNANDES - Universidade Federal de Goiás - Brasil
elianemarquez@uol.com.br
Maria de Lourdes Faria dos Santos PANIAGO - Universidade Federal de Goiás - Brasil
lurdinhapaniago@gmail.com
Resumo: O objetivo desta comunicação é apresentar resultados de pesquisa da linha "Texto, Discurso e Ensino" acerca do processamento da leitura junto a alunos de redes sociais de falantes de variedades de pouco prestígio social. O público alvo são alunos do Ensino Médio que receberam uma atenção específica por parte de professores em formação do curso de Letras da Universidade Federal de Goiás. A metodologia aplicada volta-se para a pesquisa-ação, o que contribuiu para uma observação acurada dos resultados. Os fatores observados nessa relação de mediação pedagógica são a trajetória escolar e o desenvolvimento da capacidade leitora a partir dos conhecimentos de mundo e conhecimentos linguísticos. Sabemos que a vivência de práticas da cultura letrada contribuem para que todo ser humano seja capaz de mobilizar o entendimento de texto ou habilitar a capacidade de produção textual. Entretanto, queríamos verificar como as exigências do nível escolar podem estar distantes da capacidade adquirida pelo estudante e, também, observar como uma atuação de interação próxima pode contribuir para uma aceleração da aprendizagem da leitura e interpretação de textos. O projeto "Leitura e escrita: ações de mediação pedagógica", financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa em Goiás (FAPEG) encerrou-se em 2014 e estamos divulgando resultados relevantes obtidos junto aos alunos do Ensino Médio, bem como junto aos professores em formação. Pudemos verificar em relação ao estudante como em relação ao professor em formação um estímulo à leitura e, ainda, uma acuidade maior na interpretação de textos de gêneros variados. Tomamos por base as teorias da interação junto a Vygotsky (1993) e Bakhtin/ Volochinov (1995); apoiamo-nos no sociointeracionismo educacional de Bortoni-Ricardo (2005); buscamos conhecimentos sobre leitura em Dell’Isola (1988) e sobre texto em Orlandi (2001).
Palavras-chave: mediação pedagógica; leitura; ensino médio; professor em formação.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. ; VOLOCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Traduzido por Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 12. ed. São Paulo: Hucitec, 1995.
BORTONI-RICARDO, S. M. Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolinguística e Educação. São Paulo: Parábola, 2005.
DELL'ISOLA, Regina Lúcia Péret. Leitura: inferências e contexto sócio-cultural. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 1988.
ORLANDI, Eni. Discurso e Texto: formação e circulação dos sentidos. Campinas (SP): Pontes, 2001.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Trad: José Cipolla Neto et al. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

02 REPRESENTAÇÕES COMO ELEMENTO CONSTITUTIVO DE COMPETÊNCIAS DE LEITURA: ABORDAGEM PARA O ENSINO E A PESQUISA
Autor: Adilson Ribeiro de OLIVEIRA - Instituto Federal Minas Gerais - Campus Ouro Preto - Brasil
adilson.ribeiro@ifmg.edu.br
Resumo: Amparado em uma perspectiva sócio-cognitivo-interacionista, proponho, nesta comunicação, algumas reflexões inscritas no escopo da Linguística Aplicada relativamente ao papel que a emergência de representações sociais (tais como entendidas pela Teoria das Representações Sociais) exerce sobre a produção de sentido em leitura. Tendo em vista o caráter essencialmente referencial da linguagem e o caráter das representações sociais como modalidades de conhecimento prático, vale a pena investigar o papel fundamental que elas exercem nos processos de referenciação. Nesse quadro, em estudo resultante de uma atividade de leitura com alunos de ensino médio de uma escola pública, uma questão que sobressai nos dados – registros orais de leitura que indiciam percursos interpretativos – diz respeito às ações mobilizadas pelos leitores, na busca pela construção do sentido, apoiadas em determinadas representações. Nessa busca, pelo que sinalizam as escolhas referenciais evidenciadas nos dados, os leitores-informantes, ao lidarem com objetos discursivos nos processos de referenciação, acionam estratégias (mobilizam ações) que refletem (e são reflexo de) determinadas representações emergentes no processo interacional que lhes permitem propostas de sentido possíveis/ pertinentes. Utilizando uma metodologia de caráter qualitativo-interpretativista, este estudo demonstra ser possível flagrar, nos percursos de leitura dos leitores informantes, estratégias que podem ser denominadas, inicialmente para efeitos exploratórios, como: antecipação, inferência, verificação, generalização, abstração e relação. Assim considerando, trata-se de relevante expediente metodológico – tanto do ponto de vista didático quanto investigativo – entender as representações sociais como desempenhando importante papel no desenvolvimento de competências de leitura. Se, de um lado, essa questão pode ser importante no plano teórico para linguistas e psicólogos sociais, de outro, para professores de língua portuguesa, em termos práticos, especialmente, ela é crucial.
Palavras-chave: Leitura; Referenciação; Representações Sociais; Sentido
Bibliografia básica:
BARRÉ-DE MINIAC, Christine. Savoir lire et écrire dans une société donnée. Publications Linguistiques. Revue Française de Linguistique Appliquée, 2003/1 - Volume VIII, ISSN 1386-1204, p. 107-120.
DABÈNE, Michel. Iletrismo, práticas e representações da escrita. Revista Scripta. V. 6 (11). Belo Horizonte: PUCMINAS, 2002, p. 13-22.
DIJK, Teun Adrianus van. Discourse and context: a sociocognitive approach. Cambridge (USA): Cambridge University Press, 2008.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006.
MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Tradução do inglês: Pedrinho A. Guareschi. 5ª ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 2007 [2003].

03 A PRÁTICA DA REESCRITA E A FORMAÇÃO DO ALUNO LEITOR E ESCRITOR
Autora: Elis Uchôa de LIMA - Universidade de Brasília - Brasil
elis_uchoa@hotmail.com
Resumo: O papel do professor vai muito além de passar o seu conteúdo, passando também sobre a funcionalidade de formar indivíduos conscientes de seu papel, críticos e completos, com um conhecimento amplo, que vai muito além do que lhes é ensinado em sala de aula, cientes de que esse conhecimento pode sempre ser renovado. Com isso, este trabalho tem a intenção de apresentar o que é desenvolvido pelo Projeto Ipê, assim como os seus resultados gratificantes, que contempla 280 jovens (entre 14 e 18 anos) que cursam o primeiro ano do Ensino Médio no Centro de Ensino Médio Ave Branca- Taguatinga–DF, uma escola pública. O trabalho tem o objetivo de incentivar à prática da leitura e da escrita mantendo o aluno sempre em contato com temas atuais e cotidianos com a proposta da elaboração gradativa de produções textuais. Para contemplar esta proposta, o grupo trabalha com o Jornal Escolar e para completá-la, a reescrita. O aluno tem total liberdade para escolha do tema e vai sempre escrevendo e reescrevendo sua produção com orientação do professor, como aconselha Fiad (2009) quando diz a reescrita são “as sequências recuperáveis visando um texto terminal”, assim essa prática pode levar os alunos a se descobrirem nas possibilidades da língua quando assumem um papel de sujeito-escritor e sujeito-leitor, alternando sempre esses papéis para que passe a se preocupar mais em como o leitor verá seu texto como diz Menegolo e Menegolo (2005). Após o processo, tem-se o produto final, que é a produção do jornal, o qual teve um primeiro momento resultando no formato de jornal mural e no final do ano letivo a forma impressa. Esses foram os meios encontrados para a construção da escrita e da reflexão formando um aluno leitor, escritor e crítico de suas práticas e do mundo que o cerca.
Palavras-chave: Reescrita. escrita. prática; Jornal Escolar.
Bibliografia básica:
FIAD, Raquel Saleck. Reescrita de textos: uma prática social e escolar. Organon, Porto Alegre, nº46, janeiro – junho, 2009, p.147.159.
GALDINO, Monique Cezar Merêncio. Reescrevendo práicas: O lugar da reescrita em sala de aula. Disponível em:
http://www.cchla.ufpb.br/ccl/images/Documentos/TCCs/TCC%20Monique.pdf Acesso em: 14/11/2014
MENEGASSI, Renilson José. Da revisão a reescrita: operações linguísticas sugeridas e atendidas na construção do texto. Mimesis, Bauru, v. 22, n. 1, p. 49-68, 2001.
MENEGOLO e MENEGOLO. O significado da reescrita de textos: a (re)construção do sujeito autor. Ciências & Cognição,Vol. 04, 31 de março de 2005, p. 73.79.
PAIVA, V. L. M . O. A formação do professor para uso da tecnologia. Campinas, SP: Pontes, 2013. pg. 209-230.

04 OS DESAFIOS DA LEITURA E DA ESCRITA
Autora: Sabrina Alvernaz Silva CABRAL - Colégio Pedro II - Brasil
proen@cp2.g12.br
Resumo: Este trabalho surge da experiência nascida em uma escola pública federal na cidade do Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II. Objetivamos discutir o processo de leitura e escrita de alunos da 1ª série do Ensino Médio a partir do livro “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector. Interessou-nos questionar: em que medida essa leitura provoca o amadurecimento da capacidade discursiva de alunos provenientes de práticas culturais de leitura tão distintas entre si? Quais são as estratégias de construção de sentido utilizadas por esses alunos? Como os saberes linguísticos e os conhecimentos de mundo são organizados para estabelecerem modos de interpretação? Como os alunos resignificam a obra, produzindo um texto inspirado em conto clariceano? O quanto a reescrita é expressiva? Fazem parte dos procedimentos metodológicos: promover a leitura e a discussão por adolescentes de uma escritora que impacta inegavelmente o século XX e XXI; instaurar momentos de (re)escrita de contos a partir da compreensão dos gêneros e tipos textuais e de algumas peculiaridades literárias cultivadas por Clarice Lispector e, por fim, analisar os impactos da reescrita. Partimos das concepções bakhtinianas de gêneros do discurso em que é impossível ao indivíduo produzir linguagem sem lançar mão da estrutura composicional, da temática e do estilo de cada gênero, mesmo que esse interlocutor caminhe, em alguma medida, para as desconstruções provocadas por suas forças centrífugas. As distinções cunhadas por Marcuschi entre gênero e tipo textual aqui também são frutíferas, na medida em que auxiliam o aluno na compreensão das características da narração e da descrição em contos. Tal trabalho se justifica pela importância dada aos mecanismos de leitura e escrita no ambiente escolar e fora dele e também pelo valor da mediação pedagógica num processo que, muitas das vezes, é tortuoso para o aluno que chega ao Ensino Médio com diferentes competências linguísticas. Com relação aos resultados preliminares desta pesquisa, destacamos o quanto a reescrita excita a reflexão do aluno diante de sua produção e, ainda, o quanto a ocasião de se estimular a escrita de contos influenciados pela obra da Clarice Lispector abre diversos caminhos criativos e interpretativos.
Palavras-chave: leitura e escrita; aprendizagem; Língua Portuguesa; gêneros do discurso
Bibliografia básica:
AMORIM, Marília. O pesquisador e seu outro: Bakhtin nas ciências humanas. São Paulo: Musa, 2004.
BAGNO, Marcos. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.
BAKHTIN, Mikhail M. Estética da criação verbal. (Introdução e tradução do russo por Paulo Bezerra) São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1979].
ECO, Humberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo:

05 DESDOBRAMENTOS METODOLÓGICOS DA REVISÃO TEXTUAL-INTERATIVA: APONTAMENTOS, COMENTÁRIOS E QUESTIONAMENTOS
Autor: Renilson José MENEGASSI - Universidade Estadual de Maringá
renilson@wnet.com.br
Resumo: As práticas de revisão de textos, em situação de ensino de escrita, estabelecidas pela literatura em Linguística Aplicada, especificamente relacionadas à linha de pesquisa “Ensino e aprendizagem de línguas”, determinam a existência de quatro formas de correção: indicativa, resolutiva, classificatória (SERAFINI, 2004) e textual-interativa (RUIZ, 2010). A partir da teoria dialógica de linguagem advinda do Círculo de Bakhtin (BAKHTIN, 2009; 2010; BRAIT, 2012), da concepção de escrita como trabalho (SERCUNDES, 2011; FIAD, 1991; MENEGASSI, 2010) e de estudos sobre a prática docente de revisão de textos (RUIZ, 2010, MENEGASSI, 2011), a comunicação discute os desdobramentos metodológicos da correção textual-interativa e as possibilidades de abordagens pelo professor de língua portuguesa, no sentido de melhorar seu nível de interação com o aluno, via revisão, proporcionando prática efetiva, reflexão e aprimoramento do discurso escrito do aluno e do próprio professor. Tomando o conceito de revisão textual-interativa posto por Ruiz (2010), tendo em vista sua abrangência em pesquisas no Brasil, observam-se maneiras diversas de essa correção se efetivar, em forma de apontamentos, comentários e questionamentos, como possibilidades metodológicas específicas desse modo de revisão. Os materiais utilizados para elucidar esses desdobramentos metodológicos foram coletados por pesquisa desenvolvida com professor e alunos de 4º e 5º anos do Ensino Fundamental no Brasil, com orientação epistemológica de pesquisa colaborativa participante. Os resultados das análises demonstram a necessidade de reflexão e ampliação de aspectos teórico-metodológicos acerca da prática docente de revisão de textos diretamente em sala de aula, haja vista as peculiaridades que envolvem a escrita em situação de ensino, como a idade escolar dos alunos, o gênero produzido e as habilidades e demandas de cada aluno.
Palavras-chave: Revisão textual-interativa; prática docente; apontamentos; comentários; questionamentos.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4.ed., São Paulo, Martins Fontes, 2009.
FIAD, R. S.; MAYRINK-SABINSON, M. L. T. A escrita como trabalho. In: MARTINS,. M. H. (org.). Questões da Linguagem. São Paulo: Contexto, 1991. p. 54-63.
MENEGASSI, R. J. O processo de produção textual. In: SANTOS, A. R.; GREGO, E. A.; GUIMARÃES, T. B. (Org.). A produção textual e o ensino. Maringá, PR: Eduem, 2010, p. 75-102.
RUIZ, E. D. Como corrigir redações na escola. São Paulo, Contexto, 2012.
SERAFINI, M. T. Como escrever textos. Trad. Maria Augusta de Matos; Adap. Ana Maria Marcondes Garcia. 12. ed., São Paulo, Globo, 2004.

06 A LEITURA DE TEXTOS MULTIMODAIS EM UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO TÉCNICO E TECNOLÓGICO: UMA COMPARAÇÃO ENTRE AS PRÁTICAS E O DITO POR DIVERSAS VOZES
Autora: Aline Rezende Belo ALVES - Instituto Federal – Goiás – Brasil
alinebelo3@gmail.com
Resumo: O objetivo desta pesquisa é analisar as práticas discursivas referentes à leitura de textos multimodais no Instituto Federal de Goiás. Nela é feito um Estudo de Caso com alunos do Ensino Médio do IFG-Inhumas iniciando com uma revisão bibliográfica, passado pela análise documental dos PCNs e coleta de dados no ambiente estudado por meio de questionários aplicados aos alunos e aos professores do IFG- Inhumas. Em seguida desenvolvo a Análise do Discursiva do corpus. A linha de pesquisa Linguística de Textos e a bibliografia básica é composta por autores de diversas áreas com concepções distintas que de certa forma dialogam por meio de enunciados que se entrecruzam. Eco (2008) aponta um leitor ativo na produção de sentido, Bakhtin (1999, 2000) considera que considera a dialogia das linguagens e o signo semiótico e ideológico. Kress e van Leeuwen (1996) com a sugestão da escolarização da leitura multimodal com intuito de diminuir o controle dos impérios tecnológicos ou da cultura de massa, De Certeau (1999) que percebe a leitura como um ato de caça exploratória em terras alheias além de Pêcheux (1990, 2006) que considera o discurso como um acontecimento sócio historicamente situado que produz efeitos de sentido, independentemente dos códigos semiológicos utilizados em sua materialização. Pela experiência com alunos-leitores expostos a processos de aculturação que envolvem recursos audiovisuais percebo um letramento multimodal por exposição social, mas relacionado fundamentalmente com suas condições sociais, culturais e econômicas. Assim, afirmo que a escola não pode se eximir da responsabilidade de assegurar que todo estudante tenha acesso a ferramentas que lhes permitam constituir sentido dos textos multimodais. Os dados dessa pesquisa, apontam a presença da multimodalidade no IFG- Inhumas, mas com a necessidade de um trabalho de conscientização e letramento multimodal do estudante-leitor que o capacite enquanto como leitor ativo, responsivo e crítico no processo dialógico da leitura de textos multimodais.
Palavras-chave: Leitura. Texto. Multimodalidade. Ensino Médio. Análise do Discurso
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem: Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Trad. de Michel Lahud e Yara F. Vieira. 9. ed. São Paulo: Huitec, 1999.
KRESS, G. Van LEEWEN. Reading Images: the grammar of visual design. 2 . ed. New York: Routgledge: 2006.
ORLANDI, E. Discurso e leitura. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2012.
PÊCHEUX, M. O Discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. de Eni P. Orlandi. 4. ed. Campinas: Pontes, 2006.
TFOUNI, L. V. Letramento e Alfabetização. 3.ed São Paulo, Cortez, 2000.

07 CADEIAS REFERENCIAIS EM TEXTOS DO GÊNERO CARTA ABERTA - UM PROJETO DIDÁTICO PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
Autora: Ana Maria de Carvalho LEITE - Universidade Federal de Minas Gerais – Brasil
anadecarvalholeite@gmail.com
Resumo: Apresentamos os resultados da aplicação de um Projeto Didático, baseado na noção de Sequência Didática (DOLZ, NOVERRAZ E SCHNEUWLY, 2004), com o objetivo de verificar até que ponto um trabalho sistemático e sequenciado com um gênero textual pode contribuir para o processo de produção escrita dos alunos, mais especificamente no que diz respeito à construção de Cadeias Referenciais. Participaram como sujeitos de pesquisa dezessete alunos, de uma turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA), nível médio, observados enquanto executavam atividades de um Projeto Didático, para produção de textos do gênero Carta Aberta. Os textos dos alunos foram analisados conforme as noções de plano global e o plano pontual do texto (ANTUNES, 2010), e a noção de Cadeias Referenciais (RONCARATI, 2010). A sequência de atividades do Projeto Didático previa uma primeira produção de textos, realizada sem qualquer intervenção do professor e uma versão final, produzida após atividades sistematizadas de ensino pelo professor. Nas produções iniciais foram analisados os aspectos globais e pontuais do texto, com foco no emprego de estratégias de referenciação na construção de Cadeias Referenciais, por meio do qual levantamos as capacidades dos alunos. A partir desse diagnóstico, procedeu-se à (re) elaboração das oficinas do PD. Ao final da aplicação, foram analisados os mesmos aspectos nas produções finais, cujos resultados apontaram alterações que interpretamos como desenvolvimentos das referidas capacidades. Em relação aos aspectos globais, verificamos nas produções iniciais que os alunos foram, em maior ou menor grau, capazes de contextualizar adequadamente seus textos à proposta de escrita do gênero Carta Aberta, com alguns avanços nas produções finais. Quanto aos aspectos pontuais, percebemos que os alunos formaram Cadeias Referenciais em seus textos iniciais e finais, bem como obtiveram algumas melhorias nestes últimos; verificamos ainda que o emprego desses recursos concorreu para delinear a proposta global dos textos dos alunos.
Palavras-chave: Projeto Didático; Cadeias Referenciais; Ensino; Educação de Jovens e Adultos
Bibliografia básica:
ANTUNES, I. Análise de Textos – fundamentos e práticas. São Paulo: Parábola, 2010.
BACKTHIN, M. Os gêneros do discurso. In:BACKTHIN,M. Estética da criação
verbal. São Paulo, Martins Fontes, 1997, pp. 277-326.
BRONCKART, J.P. Atividade de linguagem, textos e discursos – por um interacionismo sociodiscursivo. São Paulo: EDUC, 1999.
DOLZ, J.; NOVERRAZ, M.; SCHNEUWLY, B. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: SCHNEUWLY, B.; DOLZ, Joaquim. Gêneros orais e escritos na escola. Tradução de Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2004, p. 95-128.
RONCARATI, C. Cadeias do Texto: construindo sentidos. São Paulo: Parábola Editorial, 2010 (Estratégias de ensino; 19).

08 O LIVRO DIDÁTICO NO ENSINO DE LÍNGUA MATERNA: RECURSO DIDÁTICO OU DISPOSITIVO DE CONTROLE?
Autor: Paulo Cezar RODRIGUES - Universidade Federal do Tocantins/Universidade Federal de Goiás - Brasil
paulo.cezarrodrigues@uft.edu.br
Resumo: A comunicação apresenta os resultados de uma pesquisa vinculada ao grupo de pesquisa DiscEns: Grupo de Estudo sobre Discurso e Ensino (UFG/CNPq). Nesta pesquisa analisamos o papel que o Livro Didático (LD) de Língua Portuguesa (LP), do Ensino Médio (EM), tem desempenhado no ensino e aprendizagem de língua materna. De modo mais específico, buscamos verificar se o LD, além de constituir-se como um importante recurso didático, a serviço do professor e alunos, poderia se constituir, também, como um dispositivo de poder/controle para subjetivar os indivíduos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem, em contexto de ensino. Para a sua realização, esta pesquisa buscou subsídios teóricos em Foucault (1987); Bakhtin (1992, 2003), e em Koch (2008). Como corpus, optamos pelo LD de LP mais utilizado pelos alunos de escolas públicas de Porto Nacional – TO, a saber, o livro Português linguagens, volume 3, de Willian Roberto Cereja e Thereza C. Magalhães (2010). Consideramos importante ressaltar que esta coleção didática apresenta o ‘selo’ de aceitação do Programa Nacional do Livro Didático – PNLD, 2012, 2013 e 2014 – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE/Ministério da Educação – MEC. Portanto, em conformidade com a legislação atual que trata sobre este tema. Além disso, trata-se de uma coleção didática adotada pelo maior colégio público do município, o Centro de Ensino Médio (CEM) Florêncio Aires. Os resultados demonstraram que o LD de LP, em virtude das características identificadas (no Manual do Professor e no interior de suas unidades) e analisadas, pode sim constituir-se como um dispositivo de controle/poder a serviço do Estado, para influenciar ou interferir na práxis docente. Além disso, os resultados também ressaltam que, não obstante à força política-ideológica deste material didático, cabe única e exclusivamente ao professor a tarefa de estabelecer os limites, bem como o papel que o LD exercerá em sua sala de aula.
Palavras-chave: livro didático, ensino, língua materna, dispositivo, subjetivação.
Bibliografia básica:
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.
CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Português linguagens: volume 3. 7. ed. Reform. São Paulo: Saraiva, 2012.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 32. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.
FOUCAULT, Michel. Aula de 25 de fevereiro de 1976. In: FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France. Tradução: M. E. Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GALLO, Sílvio. Cuidar de si e cuidar do outro: implicações éticas para a educação dos últimos escritos de Foucault. In: KOHAN, Walter Omar; GONDRA, José (org.). Foucault 80 anos. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. P. 177 – 189.

09 DA “MANTA DE RETALHOS” AO “TAPETE DE ARRAIOLOS”: TRANSFORMAÇÃO DE TECEDURA TAMBÉM APLICÁVEL À ESCRITA ACADÉMICA
Autora: Maria da Graça L. CASTRO PINTO - Universidade do Porto
mgraca@letras.up.pt
Resumo: Faz todo o sentido iniciar este resumo com a pergunta formulada por N. Murray (2012:7) no início do capítulo 1 de "Writing essays…": “Writing at school and writing at university: are they really so different?” Embora a escrita académica obedeça aos mesmos princípios em qualquer nível de ensino, na universidade espera-se dos estudantes um desempenho com estilo e qualidade compatíveis com a etapa em que se situam. Ora os nossos estudantes de graduação (e até de pós-graduação), menos habituados à avaliação através de “papers”, nem sempre redigem os trabalhos académicos adequadamente. Deparamos assim frequentemente com estudantes incapazes, por exemplo, de expressar a sua voz crítica após a consulta das fontes imprescindíveis. Dito diferentemente, ora se limitam a justapor citações bem localizadas ou não, ora “parafraseiam” parágrafos seguidos a que acrescentam após cada um o nome do autor. Importa pois que os estudantes aprendam a: 1) passar da reprodução à transformação assente numa base crítica do material compulsado (N. Murray, 2012); 2) pesquisar o necessário para poderem conhecer bem o tópico e fundamentá-lo recorrendo a autoridades conhecedoras do assunto em questão (D. Murray, 2013); 3) analisar as leituras feitas para aprofundarem as suas argumentações (Irvin, 2010); 4) apresentar ideias com provas que as sustentem (N. Murray, 2012, D. Murray, 2013); 5) ser concisos, claros e lógicos na sua escrita mostrando assim que têm sempre presente a audiência a que se destina o texto que estão a escrever (Lanham, 2006, N. Murray, 2012, D. Murray, 2013); 6) ter em atenção a dimensão das frases e a sua complexidade sintatica (Lanham, 2006); 7) conferir os significados das palavras utilizadas a fim de que as frases façam sentido; 8) verificar se os autores usados no texto se encontram nas referências finais e se estas correspondem às fontes constantes
no texto (Libra, 2001).
Palavras-chave: Escrita académica; Argumentação; Análise; Provas; Voz
Bibliografia básica:
IRVIN, L. Lennie. 2010. What is “academic” writing? In: Charles Lowe; Pavel Zemliansky (eds.). Writing spaces: readings on writing. Vol.1. Anderson SC: Parlor Press, p. 3-17. Available from:http://writingspaces.org/essays.
LANHAM, Richard A. 2006. Revising Prose. Fifth Edition. New York: Pearson Longman.
LIBRA, Judy A. 2001. How to Write a Paper. Introduction to Scientific Work Seminar, Module 6. International Study Course Environmental and Resource Management, Brandenburg Technical University Cottbus, Germany.
MURRAY, Donald M. 2013. The craft of revision. Fifth Anniversary Edition. Boston: Wadsworth. Cengage Learning.
MURRAY, Neil. 2012. Writing essays in English language and linguistics. Principles, tips and strategies for undergraduates. Cambridge: Cambridge University Press.

10 ENSINO DE LEITURA: CONTRIBUIÇÕES METODOLÓGICAS DA INTERFACE ENTRE ANÁLISE DO DISCURSO E HISTÓRIA CULTURAL
Autora: Luzmara Curcino FERREIRA - Universidade Federal de São Carlos – Brasil
luzcf@hotmail.com
Resumo: A leitura é ao mesmo tempo um gesto interpretativo individual regido por diferentes formas de injunção sociocultural. Textos diversos, gestos de leitores específicos e objetos culturais variados podem ser analisados, relacionados e explorados segundo crivos teóricos distintos por estudiosos da leitura oriundos de diferentes campos de saber. Abordamos, neste trabalho, o modo como a Análise do discurso e a História cultural da leitura descrevem e sistematizam uma perspectiva de estudo dessa prática que, por si só, não deixa marcas tangíveis de sua realização que possam atestar seja uma homogeneidade em seu exercício, seja uma singularidade irredutível quanto aos sentidos produzidos na apropriação dos textos. Considerando as aproximações e as especificidades dessas duas perspectivas teóricas, pretendemos apresentar em linhas gerais a abordagem teórico-metodológica acerca da prática de leitura assumida por esses dois campos e analisar alguns tipos de textos produzidos na atualidade e voltados para o público leitor jovem, em fase escolar, discutindo suas formas de produção e circulação e as condições socioculturais e históricas de produção da leitura, bem como suas implicações no modo como lemos e como concebemos essa prática e seus sujeitos hoje. Por meio da análise de estratégias de escrita empregadas na construção de algumas condensações de obras literárias, amplamente adotadas em escolas públicas de Ensino básico, buscamos levantar os indícios de práticas de leitura desse público leitor a que se destinam, pressupostas por aqueles que participam da cadeia produtiva dos objetos de leitura (autores, editores, adaptadores, ilustradores etc.,). Apoiados na Análise do Discurso, no que concerne à compreensão dos efeitos de sentido produzidos pelo emprego de certas estratégias de escrita (escolhas lexicais, enxugamento de descrições, inserção de imagens etc.), e em alguns princípios da História Cultural, pretendemos com nossa análise discutir aspectos do ensino da leitura em âmbito escolar.
Palavras-chave: Práticas de leitura; clássicos brasileiros; Análise do discurso; História da leitura.
Bibliografia básica:
FOUCAULT, Michel [1971]. A ordem do discurso – Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
POSSENTI, Sírio. Sobre a leitura: o que diz a Análise do Discurso?. In: MARINHO, Marildes (Org.). Ler e Navegar: espaços e percursos da leitura. Campinas: Mercado de letras; ALB, 2001. p. 19-30.
ABREU, Márcia; SCHAPOCHNIK, Nelson. Cultura Letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas: Mercado de Letras; ALB, 2005.
CHARTIER, Roger. Do livro à leitura. In: CHARTIER, R. (org.). Práticas da Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. (p. 77-105)

11 A AUTOFORMAÇÃO DE LEITORES NO PROGRAMA BIBLIOTECA AMBULANTE E LITERATURA NAS ESCOLAS (BALE)
Autoras: Maria Lúcia Pessoa SAMPAIO
malupsampaio@hotmail.com
Maria Gorete Paulo TORRES
goretetorres@hotmail.com
Míria Helen Ferreira de SOUZA
miriahelen@hotmail.com
BALE/Grupo GEPPE/Univesidade do Estado Rio Grande do Norte –Brasil
Resumo: A leitura literária se constitui aspecto fundante na formação humana, sendo esta na prática um desafio, dada as inúmeras vertentes teóricas que acercam essa temática. O presente trabalho, pauta-se, portanto, na pluralidade das práticas leitoras que ocorrem no Programa Biblioteca Ambulante e Literatura nas Escolas (BALE). Baseando-se na leitura como prática social dialógica (mediada pela palavra) e pedagógica (mediada pelo o outro) pretende-se, com este trabalho, responder a seguinte pergunta: de que forma o Programa BALE contribui para o processo de autoformação da equipe de mediadores? Objetiva-se, aqui, analisar o papel do BALE e a sua repercussão, por meio de pesquisa qualitativa (BOGDAN e BIKLEN, 1994), de cunho bibliográfica e analítica (SAMPAIO e MASCARENHAS, 2007; BAKHTIN, 1989 e FREIRE, 1989). Ancoram-se nas discussões acerca da autoformação (GALVANI, 2002), em consonância com o entendimento do papel do outro como elemento constitutivo de processo de transformação. A análise de corpus constituído por narrativas de experiências de vida (JOSSO, 2010) relatadas no Grupo Escritas de Si, criado na rede social facebook, tem demonstrado que ao encantarem-se, os envolvidos se autoformam e formam seus pares por meio dos Canteiros do BALE, a saber: Contação, Encenação, Informação, Formação e Ficção, os quais vêm alcançando êxito da primeira até a oitava edição do Programa.
Palavras-chave: BALE; Leitura; Autoformação; Transformação.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M. Metodologia das ciências humanas. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Tradução do russo Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 393-410.
BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto-PT: Porto, 1994.
FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2008. (coleção questões da nossa época, 13).
GALVANI, Pascal. A autoformação, uma perspectiva transpessoal, transdisciplinar e transcultural. In: SOMMERMAN, Américo; MELLO, Maria F. de; BARROS, Vitória M. de. Educação e transdisciplinaridade II. São Paulo: TRION, 2002, p. 93-121.
JOSSO, Marie-Cristina. Experiências de vida e formação. Trad. Jose Claudio Júlia Ferreira. Sao Paulo: Paulus, 2010.
SAMPAIO, M. L. P.; MASCARENHAS, R. O. BALE – Biblioteca Ambulante e Literatura nas Escolas: ação conjunta entre o BNB, o GEPPE e a comunidade pauferrense. Pau dos Ferros: Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, 2007.

12 LEITURA E ESCRITA EM SALA DE AULA: ENTRE TEORIA, PRÁTICAS E FORMAÇÃO DOCENTE
Autoras: Alice Atsuko MATSUDA - Universidade Tecnológica Federal do Paraná
alicem@utfpr.edu.br
Maria de Lourdes Rossi REMENCHE - Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Brasil
mremenche@utfpr.edu.br
Resumo: Na prática da leitura, os sentidos do texto são construídos na interação sujeitos-textos e a leitura constitui-se em uma atividade interativa complexa de produção de sentido, que envolve aspectos cognitivos e sócio-discursivos. Partindo dessa concepção, neste trabalho discutiremos como se dá o processo de ensino-aprendizagem de leitura e produção de texto na aula de Língua Portuguesa. Para isso, buscamos investigar as concepções dos professores e as práticas mediadoras de leitura e de escrita em sala de aula. A discussão inicia-se com uma reflexão sobre as práticas de leitura e escrita e a importância para a formação da criança como um ser dialógico, tendo como base os estudos de Bakhtin (2004), Kleiman (1989; 2012), Koch e Elias (2006), Rojo (2010), entre outros. A análise se dá a partir de material coletado junto aos professores investigados e estabelece relações entre o discurso do próprio professor sobre sua prática, as orientações contidas nas diretrizes estaduais e um conjunto de observações realizadas da prática docente. Esta pesquisa insere-se no Grupo de Pesquisa em Linguística Aplicada/GRUPLA, da UTFPR-Curitiba, que vem investigando o letramento de professores e de estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública de Curitiba-PR, no que diz respeito às concepções teórico-metodológicas que norteiam o processo de ensino-aprendizagem de leitura e de produção de textos em diferentes contextos socioculturais a fim de levantar as dificuldades encontradas por alunos e professores. As pesquisas realizadas não só evidenciam lacunas do letramento escolar, mas também indicam possíveis percursos para qualificar a prática de leitura e de escrita.
Palavras-chave: Leitura e escrita; Metodologias de ensino; Práticas de leitura e escrita.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec. 2004.
KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura - teoria e prática. 14ª ed. Campinas: Pontes, 2012.
KOCH, Ingedore V.; ELIAS, Vanda. 2006. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006.
PARANÁ. Governo do Paraná. Secretaria do Estado da Educação do Paraná Departamento de Educação Básica. Diretrizes Curriculares da Educação Básica Língua Portuguesa. Curitiba: SEED, 2008. 102p.
ROJO, Roxane Helena R. Falando ao pé da letra: a constituição da narrativa e do letramento. São Paulo: Parábola, 2010. 245p.

13 O ENSINO E APRENDIZAGEM DA LEITURA E DA (RE)ESCRITA EM LÍNGUA PORTUGUESA NO CURSO DE LETRAS DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS DE GUARANTÃ DO NORTE

Autora: Arlete Tavares BUCHARDT - Faculdade de Ciências Sociais de Guarantã do Norte – Mato Grosso
atbuchardt@gmail.com
Resumo: Neste texto socializamos dados coletados e algumas constatações advindas de uma pesquisa sobre o ensino e aprendizagem da leitura e análise da produção textual de alunos advindos da rede pública de ensino a nível médio, atualmente cursando Letras na UNIFLOR, instituição de ensino universitário particular, devido às distâncias em que residem e à necessidade de prover a manutenção familiar impossibilitar o acesso às instituições públicas universitárias de ensino. Analisamos nessa pesquisa o processo evolutivo na construção das capacidades linguísticas necessárias para atuar numa sociedade globalizada e multiletrada a partir de orientações pedagógicas e didáticas disponibilizadas aos discentes pelo professor da disciplina de Leitura e Produção Textual. Participam dessa pesquisa alunos do curso de Letras da FCSGN (Faculdade de Ciências Sociais de Guarantã do Norte) do município de Guarantã do Norte, localizada no norte do Estado de Mato Grosso, na Amazônia Legal – Brasil. Procuramos observar se os alunos e alunas, mediante orientações disponibilizadas pelo professor conseguem desenvolver as capacidades linguísticas de leitura e produção de textos indispensáveis para a interação na sociedade globalizada contemporânea. A metodologia adotada para este trabalho foi o Estudo de Caso com a utilização de entrevistas semiestruturadas e análise de produções textuais e documentos, buscando aporte teórico em Rojo, 2012, Passarelli, 2012, Marinho e Carvalho, 2010, Rojo e Cordeiro, 2004, Silva e Moraes, 2001 e Abaurre, 2012, para citar alguns. Até o momento o ponto mais relevante que pudemos constatar é que mediante uma metodologia de trabalho bem estruturada é possível aos alunos e alunas ampliar seus conhecimentos e aperfeiçoar seu processo de construção de capacidades e competências linguísticas e que estes são capazes de fazer uso da linguagem de acordo com cada contexto de comunicação, aperfeiçoando sua interação social ao fazer uso de múltiplas linguagens de acordo com o gênero textual em uso no momento comunicativo.
Palavras-chave: letramento; escrita; gêneros textuais; ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa.
Bibliografia básica:
Entre Leitores: Alunos e Professores/Lilian Lopes Martins da Silva (Org.); Ana Alcídia de Araújo Moraes et al. Campinas, SP: Komedi: Arte Escrita, 2001.
ABAURRE, Maria Luiza M. Um olhar objetivo para produções escritas: analisar, avaliar, comentar. 1ª ed. São Paulo: Moderna, 2012.
PASSARELLI, Lilian Ghiuro. Ensino e Correção na produção de textos escolares. 1ª ed. São àulo: Telos, 2012.
Gêneros Orais e escritos na Escola/tradução e organização Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2004.
Cultura Escrita e Letramento/Marildes Marinho, Gilcinei Teodoro Carvalho, organizadores. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

14 A PRODUÇÃO DO GÊNERO MONOGRAFIA EM DISCURSOS DE PROFESSORES E ALUNOS DO CURSO DE LETRAS
Autora: Crígina Cibelle PEREIRA - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte
criginacibelle@yahoo.com.br
Resumo: Este trabalho apresenta resultados de nossa tese de doutorado que objetivou analisar discursos de professores e de alunos sobre o processo de produção da monografia no Curso de Letras, considerando a orientação, a escritura e as especificidades deste gênero. Tomamos por fundamentação teórica os estudos bakhtinianos em interface com a Linguística da Enunciação, com os fundamentos da Análise Textual dos Discursos de Adam e, por fim, com os estudos sobre a produção textual no ensino superior. A pesquisa pauta-se em uma abordagem qualitativa, com base em procedimentos etnográficos de geração de dados, a saber: observações in loco e aplicação de questionários para 10 (dez) alunos e 06 (seis) professores do Curso de Letras. A análise dos discursos de professores e alunos revela que: (i) a produção e a orientação da monografia são formas de ação pela linguagem que precisam considerar, quando de sua execução, a liberdade de escolha do aluno como princípio da produção da monografia, bem como o maior envolvimento de orientador-orientando com vista a melhorar a qualidade da produção; (ii) há a necessidade de uma articulação entre o projeto de pesquisa e a monografia, que considere o trabalho de orientação e o projeto de pesquisa; (iii) há uma diversidade de papeis atribuídos em discursos de professores e alunos para as funções de orientador e de orientando, de maneira que ambos veem atribuições distintas para tais funções; (iv) há uma predominância das vozes dos manuais de metodologia e das normas institucionais, enquanto que, a funcionalidade e a especificidade do gênero não se revela tão presente no processo de produção da monografia. Portanto, evidenciamos a necessidade de um redimensionamento no processo de ensino de produção textual na universidade, especialmente, na monografia de final de curso e do processo de orientação de trabalho na academia.
Palavras-chave: Produção da monografia; discursos de professores e estudantes; gênero monografia; orientação; Curso de Letras.
Bibliografia básica:
ADAM, J. M. A linguística textual: uma introdução à análise textual dos discursos. Tradução de Maria das Graças Soares Rodrigues, Luís Passeggi, João Gomes da Silva Neto. Eulália Vera Lúcia Leurquin. Revisão técnica: Luis Passeggi e João Gomes da Silva Neto. São Paulo: Cortez, 2008.
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 13. ed. São Paulo: Hucitec, 2009.
BIANCHETTI, L. MACHADO, A. M. N. A bússola do escrever. Florianópolis: Ed. Da UFSC; São Paulo: Cortez, 2006.
GAGNON, R; DECÂNDIO, F. Produção escrita e dificuldade de aprendizagem. Tradução Fabrício Decândio e Anna Raquel DOLZ,J. Machado. São Paulo: Mercado de Letras, 2010.
GUENTCHEVA, Z. Manifestations de la catégorie du médiatif dans temps du français. Langue française. n. 102, 1994, p. 8-23.

15 ANÁLISE DA EVOLUÇÃO TEXTUAL NO CONTEXTO DOS ALUNOS DE ESCOLA PÚBLICA CONTEMPLADOS PELO PIBID
Autor: Lucas Tomaz de Jesus dos SANTOS - Universidade de Brasília - UNB
lucastomazdf@hotmail.com
Resumo: Tendo como base a Linguística Textual, esse trabalho se propõe a analisar o processo de evolução da escrita dos alunos de escola pública que possuem professores bolsistas do programa institucional de incentivo à docência, da Capes– PIBID . A evolução é tomada em três níveis distintos: A) o nível da elaboração do pensamento através da fala. B) O nível da construção crítica através da transposição das ideias para a escrita formal. C) O nível da reescrita. Obtém-se um resultado parcial a partir da análise dos resultados mediante, necessariamente, estas três etapas. Beaugrande e Dressler (1981) apontam duas grandes áreas dentro da intertextualidade que devem ser seguidas para a construção de um texto bem estruturado: A coesão e a coerência. Nesse sentido, esses dois processos foram priorizados na avaliação da produção textual dos alunos. Os alunos analisados são estudantes do primeiro ano do ensino médio do Centro de Ensino Paulo Freire, localizado em Brasília. Os professores bolsistas (chamados de “pibidianos”) são estudantes da Universidade de Brasília e compõe um grupo chamado “Olhares que se cruzam”. Constata-se que os alunos, quando submetidos a processos de leitura e reescrita, tendem a melhorar a forma de escreverem e de criticarem os fatores sociais que o cercam, tais como política e religião. Nesse sentido, é de suma importância entender os fenômenos envolvidos na evolução da escrita para que possamos, também, saber como ajudar os alunos a melhorarem, constantemente, a sua escrita enquanto espaço cultural para posicionamento ideológico e individual. Tendo em vista esse contexto de produção favorável ao desenvolvimento cognitivo dos alunos, faz-se necessária a sistematização dos processos de evolução textual.
Palavras-chave: PIBID; texto; reescrita; evolução.
Bibliografia básica:
BEAUGRANDE, R.; DRESSLER, W. Introduction To text linguistics. London: Longman, 1981
KOCH, Ingedore G. Villaça. A coesão textual. 20 ed. São Paulo: Contexto, 2005
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção Textual, Análise de gêneros e Compreensão. São Paulo: Parábola, 2008.

16 UMA ANÁLISE SOBRE O USO DE OPERAÇÕES LINGUÍSTICO-DISCURSIVAS EM ATIVIDADES DE REESCRITA NO ENSINO SUPERIOR
Autora: Lidiane de Morais Diógenes BEZERRA - Universidade Estadual do Rio Grande do Norte
lidmorais@yahoo.com.br
Resumo: Enquanto professora de um curso de Licenciatura em Letras, tivemos a oportunidade de encaminhar diversas atividades de produção de texto, bem como orientar atividades de reescrita e, assim, despertamos para a necessidade de refletir sobre a produção de texto no ensino superior. Pretendemos investigar, nesta pesquisa, o trabalho com a reescrita, no que se refere às operações utilizadas para a realização dessa atividade, bem como aos sentidos produzidos a partir das alterações executadas nos textos. Nossa discussão teórica está fundamentada em uma concepção de produção de texto enquanto “atividade verbal”, o que revela uma visão sociointeracional da linguagem (MARCUSCHI, 2008; SAUTCHUK, 2003). Ainda no que diz respeito aos conceitos teóricos abordados nesta pesquisa, recorremos aos conceitos advindos da Crítica Genética, que se ocupa da relação entre texto e gênese, tomando por objeto os documentos que trazem o traço do texto em progresso (HAY,
[1975]2002; DE BIASI, [2000]2010; GRÉSILLON, 1989; [1990]2008; [1992]2002; SALLES, 2008a). Os dados serão analisados a partir das operações linguísticas identificadas pela gramática gerativa e retomadas por Lebrave e Grésillon (2009). A metodologia desta pesquisa é de natureza etnográfica. Fizemos uso de diferentes procedimentos de coleta de dados, tais como: observação, anotações de campo e análise de documentos. A partir da análise, podemos confirmar que a escrita é um processo, e a reescrita vem mostrar-se como uma atividade de extrema importância para esse processo. Ainda em decorrência da análise, observamos que a substituição foi a operação mais utilizada pelos autores dos textos. Acreditamos que esse resultado justifica-se pelo fato de a substituição, de acordo com o que propõe a Crítica Genética, constituir a origem de toda rasura, a partir da qual se pode facilmente efetuar uma mudança na escrita. Com isso, esperamos contribuir para a reflexão sobre o ensino da (re)escrita em Língua Portuguesa.
Palavras-chave: Produção de Texto; Reescrita; Crítica Genética; Operações linguístico-discursivas; Ensino Superior.
Bibliografia básica:
GRÉSILLON, A. Fonctions du langage et genèse du text. In: HAY, L. La naissance du text. Paris: José Corti, 1989.
HAY, L. “O texto não existe” – Reflexões sobre a crítica genética. Tradução: Carlos Eduardo Galvão Braga, Jacira do Nascimento Silva e Wylka Carlos Lima Vidal. In: ZULAR, R. (org.) Criação em processo – ensaios de crítica genética. São Paulo: Editora Iluminuras, 2002. p. 29-44.
LEBRAVE, J. L.; GRÉSILLON, A. Linguistique et génétique des textes: um décalogue. Paris, 2009. Disponível em: http://www.item.ens.fr/index.php?id=434571. Acesso em: 18 de outubro de 2012.
MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola, 2008.
SAUTCHUK, I. A produção dialógica do texto escrito – um diálogo entre escritor e leitor interno. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Texto e linguagem).

17 LEITURA E ESCRITA NA UNIVERSIDADE: REFLETINDO SOBRE LETRAMENTO ACADÊMICO
Autora: Lúcia de Fátima SANTOS - Universidade Federal de Alagoas - Brasil
LFSMAR@HOTMAIL.COM
Resumo: Nesta comunicação, tem-se como objetivo analisar como alunos do curso de Letras expressam a compreensão de textos em atividades de leitura e de (re)escrita desenvolvidas na disciplina Leitura e produção de textos, ministrada no curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas. O interesse para investigar essa questão justifica-se pela necessidade de contribuir para diminuir as dificuldades de leitura e escrita apresentadas pelos alunos universitários, principalmente aqueles provenientes de escolas públicas. Esta comunicação é parte de uma pesquisa mais ampla, situada na área de Linguística Aplicada, na qual é adotada uma perspectiva de cunho etnográfico e tem-se como objetivo geral compreender a constituição de alunos de Letras como leitores e produtores de textos escritos em português língua materna, visando a atitudes ativas e táticas, de acordo com as reflexões de Bakhtin (1992 e 2003) e De Certeau (2002), conjugadas com as abordagens dos Novos Estudos dos Letramentos (STREET, 1984; BARTON, 1994; GEE, 1996). Além das atividades de escrita e (re)escrita de textos, o corpus também é formado por dados de entrevistas, questionários e notas de campo, obtidos em contexto de intervenção, no qual a professora assume também o lugar de pesquisadora. De acordo com os resultados até então obtidos, observa-se que, principalmente nos momentos iniciais da disciplina, os alunos apresentam poucas evidências de atitudes ativas e táticas no processo de leitura e de escrita, porém começam a demonstrar algumas mudanças, a partir das intervenções do professor nos diálogos constituídos através da reescrita dos textos.
Palavras-chave: Compreensão; Leitura; (Re)Escrita; Universitários
Bibliografia básica:
BAKHTIN, M.. Marxismo e filosofia da linguagem. 6ª ed. Traduzido por Michel Lahud e Yara F. Vieira. São Paulo: Hucitec, 1992.
BARTON, D. Literacy: an introduction to the ecology of written language. London. Blackwell, 1994.
DE CERTEAU, M.. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 7a ed. Traduzido por Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 2002.
GEE, J. P. Social linguistics and literacies: ideology in discourses. 2ed. London/ Philadelphia. The Farmer Press, 1996.
STREET, B. Literacy in theory and practice. London. Cambridge University Press, 1984.

18 LEITURA E (RE)ESCRITA: DA INTERRELAÇÃO ENTRE ENSINO SUPERIOR E MÉDIO
Autoras: Luciana Pereira da SILVA - Universidade Tecnológica Federal do Paraná
lucianasilva@utfpr.edu.br
Andreia de Fátima Rutiquewiski GOMES - Universidade Tecnológica Federal do Paraná
andreiaruti@gmail.com
Resumo: Este trabalho se insere no Grupo de Pesquisa em Linguística Aplicada (GRUPLA) que desenvolve pesquisa e projetos de extensão universitária na área de Linguística Aplicada. O objetivo principal desta proposta é investigar a reverberação dos estudos teóricos e das práticas desenvolvidas em disciplinas do curso de Letras e nas discussões do grupo do Programa Institucional de Iniciação à Docência (PIBID) – constituído por um coordenador de área, um supervisor docente da escola pública e discentes da licenciatura - sobre as práticas de leitura e (re)escrita desenvolvidas pelos pibidianos junto aos alunos do ensino médio de escolas públicas de Curitiba. Esse trabalho justifica-se tendo em vista a abrangência do projeto PIBID e a possibilidade das ações desenvolvidas tanto no âmbito da formação inicial (licenciatura em letras) quanto na do PIBID poderem ser testadas\implantadas\verificadas junto a um grande número de alunos. Para tanto pretendemos trabalhar com um conjunto de dados junto a dois grupos: discentes da graduação participantes do PIBID e alunos do ensino médio. Esses dados foram coletados por meio de observações de campo e textos produzidos/corrigidos/reescritos pelos pibidianos e pelos alunos sob a observância desses últimos e procuraram mapear as práticas de leitura e (re)escrita desenvolvidas nesses contextos; bem como tentar dimensionar o efeito da mediação realizada junto aos discentes/alunos do ensino médio para a ampliação das habilidades de leitura e (re)escrita. Teoricamente partimos de uma concepção dialógica de linguagem do Círculo de Bakhtin (1979) e de pressupostos da Linguística Sociointerativa (Marcuschi, 2008) e da Linguística Aplicada (Street, 1984; Gee, 1999) quando esses discutem os pressupostos sociointeracionais que subjazem a concepção de linguagem que adotamos como norte para formação de docentes de língua materna e os novos estudos do letramento, respectivamente. Assim, acreditamos ser possível identificar, inicialmente, as práticas de leitura e (re)escrita prescritas, as efetivamente realizadas e , na sequência, propor outros modelos de práticas alicerçadas nos princípios teórico-metodológicos que defendemos.
Palavras-chave: leitura; (re)escrita; formação de docentes; PIBID; ensino médio
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail M. Estética da criação verbal. Tradução do russo por Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003[1979].
GEE, James Paul. Social linguistics and literacies. Ideology in Discourses. 2. ed. London/Philadelphia: The Farmer Press, 1999.
MARCUSCHI, L.A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo; Parábola, 2008.
STREET, Brian. Literacy in theory and practice. Cambridge: CUP, 1984.

19 A PRÁTICA DE PRODUÇÃO DE TEXTO NO ENSINO SUPERIOR
Autora: Maria Eliete de QUEIROZ - Universidade Estadual Rio Grande do Norte - Brasil
eliete_queiroz@yahoo.com.br
Resumo: Como parte do projeto institucional “O ensino e a produção de textos acadêmico-científicos de professores e alunos dos Cursos de Letras e de Pedagogia”, o nosso trabalho contribui diretamente para o fortalecimento do Grupo de Pesquisa em Produção e Ensino de Texto (GPET), por meio da linha de pesquisa “Estudo da produção, organização e funcionalidade do texto”. O nosso trabalho tem como objetivo investigar a prática de produção de texto no ensino superior, por meio de discursos recortados de depoimentos de professores do Curso de Letras. Como aporte teórico, o trabalho adota a concepção sociointeracionista da linguagem, advinda dos estudos de Bakhtin (2003) e as reflexões acerca do ensino de língua materna e de estudos sobre conteúdos e metodologias necessários à formação do professor de Língua Portuguesa (ANTUNES, 2003; GERALDI, 2004; BARZOTTO, 2008a, 2008b; BUZEN et all, 2006), entre outros. A pesquisa assume um caráter descritivo e
interpretativo, de base qualitativa. O universo de estudo é constituído por professores do Curso de Letras do CAMEAM/UERN. Para a coleta dos dados, aplicamos a técnica do depoimento, por meio da qual organizamos os discursos sobre o ensino da produção de texto que constituem nosso objeto de investigação, buscando compreendê-los como prática social e institucional. Nesses termos, observamos que o ensino do texto acadêmico-científico na universidade atende às especificidades dos gêneros a serem ensinados e produzidos, por exemplo, relatórios e monografias, considera a escrita como processo e a especificidade inerente a cada disciplina, possibilitando situações de interação comunicativa.
Palavras-chave: Ensino; Produção de texto; Discursos de professores
Bibliografia básica:
ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética. Tradução de Aurora F. Bernadini et al. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BUZEN, C.; MENDONÇA, M.; KLEIMAN, A. B. [et. Al.]. Português no ensino médio e formação do professor. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

20 A ESCRITA NA UNIVERSIDADE: UMA REFLEXÃO A PARTIR DO QUE OS ALUNOS DIZEM EM SEUS TEXTOS
Autor(es): Maristela JUCHUM - Universidade Federal do Rio Grande do Sul
maristela-j@hotmail.com
Resumo: O Ensino Superior tem se constituído como um dos lugares privilegiados para o estudo de textos que servem para o estudante adquirir e produzir conhecimento. Este trabalho situa-se na discussão sobre escrita na universidade e tem como objetivo principal observar, com base em discussões recentes sobre o letramento acadêmico feitas por estudiosos dos Novos Estudos de Letramento (LILLIS, 2003; LEA, 2004), o que alunos universitários revelam em seus textos sobre suas escritas antes do ingresso na universidade e sobre o que é esperado deles no contexto acadêmico. Os textos que integram o corpus do trabalho foram produzidos por uma turma composta por 45 alunos da disciplina de Leitura e Produção de Texto I, matriculados em um Centro Universitário situado na cidade de Lajeado/RS. Ao ler os textos escritos pelos alunos, percebi, nas escritas, remissões a reflexões feitas sobre a própria escrita, destacando-se reflexões sobre dois momentos: a escrita antes de entrar na universidade que, segundo os alunos, representava um jeito de escrever e o ideal de escrita a ser atingido após o ingresso no meio acadêmico que, para muitos, significa aprender a escrever de outro jeito. Esses dois momentos trazem à tona, em uma análise à luz do letramento acadêmico, os conflitos existentes entre a escrita que produziam e a que é esperada pela universidade. Neste trabalho, analiso aspectos que se repetem nos textos dos alunos para verificar o que esses textos revelam sobre esse conflito. Os resultados apontam para a necessidade de o professor levar em conta no seu planejamento o letramento que os alunos já possuem antes de ingressarem na universidade, rompendo com o discurso do déficit. Uma das possibilidades apontadas neste trabalho é o planejamento pedagógico que toma os projetos como fio condutor para a escrita e a leitura na universidade.
Palavras-chave: letramento acadêmico; escrita na universidade; planejamento pedagógico.
Bibliografia básica:
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de LAHUD, M e VIEIRA, Y.F. São Paulo: HUCITEC, 1992.
KLEIMAN, A. (Org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 2005.
SOARES, M. Concepções de linguagem e o ensino da língua portuguesa. In: Língua Portuguesa; história, perspectivas, ensino. São Paulo: EDUC, 1998, p. 53-71.
STREET, B. e LEA, M.R. The “Academic Literacies Model”: Theory and applications. Theory into Practice. College of Education and Human Ecology, The Ohio State University, 2004.
SOARES, M. Concepções de linguagem e o ensino da língua portuguesa. In: Língua Portuguesa; história, perspectivas, ensino. São Paulo: EDUC, 1998, p. 53-71.
LILLIS, T. Whose ‘Common Sense’? Essayist literacy and the institutional practice of mystery. In: JONES, C.; TURNER, J.; STREET, B. (orgs). Students writing in the university: cultural and epistemological issues. Amsterdam. John Benjamins, 2003.

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SIMPÓSIO 59 – POLÍTICAS MULTILATERAIS PARA A PROMOÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA: ENSINO E PESQUISA NO PPPLE

Coordenadores:
Edleise Mendes - Universidade Federal da Bahia/Sociedade Internacional de Português Língua Estrangeira (SIPLE) - edleise.mendes@gmail.com
Gilvan Müller de Oliveira - Universidade Federal de Santa Catarina / Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL) - gimioliz@gmail.com


RESUMOS APROVADOS

1.
Arthur Moura Vargens - PPPGLinc / Universidade Federal da Bahia
arthurvargens@hotmail.com
Daniela Ressurreição Mascarenhas - PPGLinc / Universidade Federal da Bahia
danielamascarenhas@hotmail.com

Portal do Professor de Português Língua Estrangeira / Língua Não Materna (PPPLE) e o exame Celpe-Bras: correlações teóricas e práticas, explícitas e implícitas
Resumo: O objetivo deste trabalho é identificar e analisar relações entre o Exame Celpe-Bras e unidades didáticas disponíveis no Portal do Professor de Português Língua Estrangeira / Língua Não Materna (PPPLE). O portal, além de explicitar o Celpe-Bras como uma das referências para a delimitação dos níveis, apresenta correlações teóricas com o exame, como a indissociabilidade entre língua e cultura e o trabalho com materiais que circulam nos espaços reais de uso da língua. Tanto o PPPLE quanto o Celpe-Bras estruturam suas atividades de maneira padronizada. As unidades do PPPLE se dividem em: a) atividades de preparação; b) blocos de atividades, que trabalham as quatro habilidades de aprendizagem da língua (compreensão escrita, compreensão oral, produção escrita e produção oral); c) extensão da unidade; e d) atividades de avaliação. O Celpe-Bras é composto por: a) um exame escrito com tarefas a serem realizadas a partir de informações em dois textos escritos, em um áudio e em um vídeo e b) um exame oral, que consiste numa interação face a face entre o examinando e o avaliador, a partir de elementos provocadores em lâminas de textos escritos ou multimodais. Neste trabalho, comparamos as unidades didáticas do PPPLE com as tarefas do exame escrito e os elementos provocadores da interação face a face do Celpe-Bras, demonstrando suas correspondências, bem como suas diferenças e distinções. Observamos que tanto o Celpe-Bras quanto o PPPLE convergem em direção à construção de um ensino de português para estrangeiros de base comunicativa (ALMEIDA FILHO, 1993) e intercultural (MENDES, 2011), que visa não apenas o conhecimento linguístico strictu senso, mas, principalmente, o uso da língua como lugar de interação (VAN LIER, 1996) em situações reais do cotidiano.

2.
Edleise Mendes -Universidade Federal da Bahia – UFBA / Sociedade Internacional de Português Língua Estrangeira – SIPLE
edleise.mendes@gmail.com
Em busca da construção de um ensino intercultural na produção de materiais e recursos didáticos para o PPPLE
Resumo: A partir dos princípios gerais que sustentam a organização política, teórica e metodológica do Portal do Professor de Português Língua Estrangeira / Língua Não Materna (PPPLE), nesta apresentação eu vou refletir sobre a relação entre língua e cultura e o seu entendimento como instância fundamental para o desenvolvimento de um processo intercultural de ensino/aprendizagem de línguas, notadamente o português como língua estrangeira / língua não materna. Com esse pano de fundo, discutirei o processo de planejamento e a elaboração de materiais e recursos didáticos que alimentam o PPPLE, e de que modo, através das experiências de uso da língua, em diferentes variedades do português, é possível (ou não) a construção de ambientes interculturais de aprendizagem, nos quais ensinar e aprender constrói-se no diálogo e na produção partilhada de conhecimentos. Ou seja, aqui serão analisados os avanços e também as dificuldades e desafios enfrentados nesse processo, de modo a atender a um dos principais objetivos do PPPLE, o de promover um ensino multilateral e integrador da língua portuguesa.

3.
Everton Luiz Franken - Mestrado em Estudos de Linguagens / Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais CEFET/MG
evertonfranken@yahoo.com.br
Jerônimo Coura Sobrinho - Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais CEFET/MG
jeronimocoura@gmail.com
A abordagem lexical em unidades didáticas do nível de proficiência 1 do PPPLE
Resumo: Este trabalho apresenta como objeto de estudo o desenvolvimento da competência lexical em Português como Língua Estrangeira (PLE), tendo como objetivo principal analisar a apresentação de propostas didático-pedagógicas que promovam a proficiência lexical, disponíveis em unidades didáticas (UD) do Portal do Professor de Português Língua Estrangeira / Língua Não Materna (PPPLE). Toma-se como base para essa análise a abordagem cognitivo-lexicultural, inserida na Abordagem Comunicativa (AC) do ensino de língua estrangeira (LE). Buscou-se observar o espaço ocupado pelas atividades de vocabulário no ensino-aprendizagem de PLE, sobretudo em níveis de iniciação; verificando a integração da dimensão sócio-cultural da língua na abordagem lexical, bem como as habilidades comunicativas com as quais o léxico está mais comumente associado. Considerou-se, também, a relevância do contexto na escolha dos itens lexicais a serem explorados e as variações linguísticas provenientes das situações de uso apresentadas em cada unidade. Definiu-se como escopo a análise de 19 unidades didáticas de nível 1, produzidas por colaboradores brasileiros, disponíveis no PPPLE (www.ppple.org), publicadas até o dia 30 de maio de 2014. Este trabalho fundamenta-se nos estudos e contribuições de diversos pesquisadores na área como Lewis (1993), Nation & Newton (1997), Leffa (2000), Hulstijn (2001) e Scaramucci (1995). O estudo mostrou que a leitura desponta como a habilidade mais utilizada para a apresentação, desenvolvimento e expansão lexical. A escrita surge como a segunda habilidade mais comum para a expansão do léxico, e como a habilidade mais sugerida para a fixação do vocabulário apresentado nas unidades. A compreensão auditiva é a habilidade menos explorada tanto para apresentação quanto na fixação de vocabulário. Além disso, observou-se que
contextualização das unidades, a partir de situações de uso, possibilita a exploração de diferentes variações linguísticas, o que contribui significativamente para o enriquecimento cultural, linguístico e, sobretudo, lexical das unidades do Portal.

4.
Gilvan Müller de Oliveira - Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC / Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística – IPOL
gimioliz@gmail.com
Perspectivas político-linguísticas para o ensino de PLE em tempos de globalização: o exemplo do Portal do Professor de Português Língua Estrangeira / Língua Não Materna (PPPLE)
Resumo: Este trabalho procura caracterizar o crescimento da inserção dos países de língua portuguesa nas relações internacionais e as demandas que estas inserções produzem sobre a procura pelo aprendizado do português como língua estrangeira, e coloca em foco as potencialidades e dificuldades de um instrumento como o PPPLE na encruzilhada entre o âmbito das negociações do soft power diplomático e o âmbito das práticas dos docentes de PLE.

5.
Gustavo Txai Torres de FARIA - Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET-MG/INFORTEC
gustavotxai@gmail.com
Everton Luiz Franken - Mestrado em Estudos de Linguagens / Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais CEFET/MG
evertonfranken@yahoo.com.br
As potencialidades da utilização da linguagem audiovisual como ferramenta no aprendizado de PLE no PPPLE
Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar de que forma a linguagem audiovisual vem sendo utilizada nas Unidades Didáticas (UDs) brasileiras dos três níveis de proficiência, no Portal do Professor de Português Língua Estrangeira/Língua Não Materna (PPPLE – www.ppple.org), bem como incentivar a potencialização do uso do audiovisual, por meio de atividades complementares. Com base em mapeamento dos conteúdos postados no Portal até 10/10/2014, buscamos compreender se há um aproveitamento compatível com as possibilidades apontadas por diversos estudiosos (MORIN, 2001-2002; MANGUEL, 2000), da linguagem audiovisual, a qual é composta por vários aspectos, dentre os quais o gênero aplicado, a presença ou ausência de fala/som, a cor, o estilo da edição, a forma de apresentação das personagens, os elementos na cena e tantos outros. Nesse sentido, buscamos verificar se os aspectos da linguagem audiovisual são explorados de forma a promover a compreensão linguística, a competência lexical e mesmo a competência cultural do aprendiz. A importância deste último aspecto não se restringe à sua relação com a língua, mas com a forma como a cultura brasileira é apresentada, estereotipada (ou não), contribuindo, assim, para a constituição da imagem do Brasil e dos brasileiros. Devido à falta de conhecimento aprofundado destas potencialidades da linguagem audiovisual, os elaboradores das UDs não as têm explorado de maneira mais intensa, no âmbito do ensino da língua-cultura, conforme compreendido por Mendes (2008, 2011). Percebemos que, quanto mais essa linguagem é trabalhada nas atividades que compõem as UDs, mais podem ser ampliadas as possibilidades de ensino/aprendizagem, facilitando tanto a ação dos professores, quanto a dos alunos. A partir dessas reflexões, e com base nesses estudos, propomos, neste artigo, alguns modelos de atividades complementares, por nível de proficiência, perpassando-se os três, para potencializar o melhor aproveitamento da linguagem audiovisual no ensino de português para estrangeiros.

6.
Luana Moreira Reis - Universidade Federal da Bahia (PPGLinc / UFBA)
luanamreis@yahoo.com.br
A relevância do PPPLE para a promoção de uma gestão multilateral e pluricêntrica para o português e para a formação crítica e intercultural de professores de línguas
Resumo: Ao passo que reconhecemos a indissociabilidade entre língua e cultura não podemos pensar a língua-cultura portuguesa como uma entidade homogênea ou um bloco monolítico. As diversidades históricas, culturais, nacionais e regionais precisam ser incluídas em nossa prática diária de ensino-aprendizagem de PLE-PL2. Ainda persiste, contudo, a crença de que determinada variedade é mais correta do que outras, ou ainda, mais bonita do que outras, o que serve como um obstáculo aos estudantes no percurso para uma comunicação efetiva com a comunidade linguístico-cultural de língua portuguesa. A língua portuguesa está em constante movimento, com suas especificidades, memórias e historicidades. Dessa maneira, pretende-se contribuir para a promoção de uma perspectiva de ensino de línguas que não esteja separada de uma análise crítica do funcionamento da sociedade. Nesse contexto, nosso objetivo centra-se em compreender como se desencadeiam os processos de promoção de uma abordagem de ensino da língua portuguesa sob uma perspectiva intercultural e pluricêntrica no desenvolvimento das atividades propostas no Portal do Professor de Português Língua Estrangeira/ Língua Não Materna (PPPLE). Esse trabalho pode nos apontar caminhos para o desenvolvimento de uma prática pedagógica de ensino-aprendizagem de PLE-PL2 que contribua não apenas para a promoção, difusão e projeção da língua portuguesa no contexto mundial, mas também para um melhor entendimento dos variados contextos em que a língua portuguesa é um espaço de (re)construção de identidades culturais. Dessa forma, buscamos discutir e propor ideias que contribuam para a promoção de ações na área do ensino e da formação de professores de PLE-PL2 que reconheçam a língua portuguesa em sua complexidade e diversidade cultural.

7.
Márcia Valéria Bianchetti - Centro Federal de Ensino Tecnológico de Minas Gerais - CEFET/ MG
posling@dppg.cefetmg.br
Um estudo sobre as atividades de compreensão textual propostas pelo Portal do Professor de Português Língua Estrangeira
Resumo: A competência de fazer perguntas dirigidas a textos é uma atividade comum aos professores de língua, materna ou estrangeira, que buscam, com essa prática, levar os aprendizes a uma compreensão aprofundada da leitura proposta, bem como a reconhecer os mecanismos de construção da língua em questão. A partir desse pressuposto, consideramos importante realizar um estudo sobre a de compreensão de texto elaborada pelos integrantes do Portal do Professor de Português Língua Estrangeira (PPPLE), observando a incidência de determinados tipos de perguntas oferecidos nesse Portal, em seus três níveis de proficiência. Desse modo, o enfoque incidiu principalmente na especificidade das estratégias discursivas desenvolvidas nas questões, ou seja, tentamos analisar as prioridades e objetivos vinculados às perguntas, como por exemplo, a repetição dos aspectos formais, as inferências e as extrapolações. Para isso, utilizamos a tipologia de perguntas proposta por Marcuschi (2008), a partir de um estudo desenvolvido por ele, em livros didáticos do ensino fundamental, no qual ele aponta a existência de cinco aspectos que envolvem a compreensão de texto: o da repetição e cópia do texto, o da leitura parafrástica, o das atividades inferenciais, além de outras duas que se situam em campos mais problemáticos, o da extrapolação do texto e o da leitura errada. Assim, neste trabalho, foram utilizadas e classificadas um total de 542 perguntas dos três níveis de proficiência do Portal, seguindo os aspectos descritos por Marscuschi (2008). Para visualizar os principais resultados da pesquisa, foi utilizado um gráfico comparativo no qual observou-se o comportamento ou a tendência das perguntas que se encontram no Portal e, a partir daí, chegar a algumas conclusões. É importante ressaltar que esse estudo está voltado para a prática do professor, para o seu fazer criativo (confecção de questões) e não para o resultado de proficiência alcançado pelo aprendiz.

8.
Rafaela Pascoal Coelho - Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET-MG/INFORTEC/GPMRD
pascoal.rafaela@gmail.com
Elaboração de UDs em curso de capacitação de professores de PLE: saberes e caminhos.
Resumo: Tendo em vista a crescente demanda por profissionais para atuar como professores de Português como Língua Estrangeira (PLE) e a notável contribuição do Portal do Professor de Português Língua Estrangeira/Língua Não Materna (PPPLE – www.ppple.org) na disponibilização de Unidades Didáticas (UDs) para o ensino de PLE, este trabalho tem como objetivo analisar propostas de UDs elaboradas por participantes de um curso de capacitação de professores para o ensino de PLE ministrado no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET-MG/Brasil. Além das diretrizes propostas no Manual de Orientação para o desenvolvimento dos materiais didáticos do PPPLE (2012), as produções dos capacitandos tiveram como base reflexões sobre a definição e a organização de sequências didáticas propostas por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) e Cristóvão (2009). A elaboração das propostas de UDs ocorreu em uma oficina proposta em um dos encontros do
curso, possibilitando aos professores em formação compartilhar saberes de sua prática docente e caminhos percorridos durante a elaboração de materiais didáticos que atendam às necessidades pedagógicas de situações de ensino/aprendizagem, em consonância com o que é previsto na composição das citadas UDs que são disponibilizadas no PPPLE. Este trabalho pretende mostrar como se deu esse caminho e como foram partilhados os saberes dos capacitandos, ao longo do curso afim.

9.
Rita de Cássia Damasceno Carvalho - Mestranda em Didática de Línguas Estrangeiras - Université Sorbonne Nouvelle (Paris III)
contact@falabrasil.fr
A Literatura Brasileira no ensino de PLE
Resumo: Este artigo tem como objetivo descrever e analisar qual é a abordagem que os livros de Português Língua Estrangeira utilizam para trabalhar a Literatura Brasileira. Analisaremos os seguintes métodos: Falar, Ler e Escrever (1999), Diálogo Brasil (2003), Bem-Vindo (2004), Muito Prazer (2008) e Novo Avenida Brasil (2008/2010). Um texto literário deve ser utilizado em curso de língua para que o aluno possa desenvolver muitas capacidades principalmente a de entender para que servia o texto no momento no qual ele foi escrito. A utilização do texto não pode se limitar aos aspectos gramaticais e lexicais, mas também ajudar o aluno a conhecer e entender aspectos culturais e históricos sobre a língua e o país que estuda. Sendo assim, pretende-se compor um roteiro de ajuda aos professores de PLE que desejam utilizar textos literários em curso, assim como compor propostas/unidades didáticas para publicação no PPPLE para trabalhar a Literatura Brasileira em classe de língua estrangeira.

10.
Valeria Paola Suárez Galicia - Centro Cultural Brasil-México
academico.ccbm@gmail.com
Criação de roteiros didáticos para o ensino de português como língua pluricêntrica no Centro Cultural Brasil-México
Resumo: Como resultado do projeto de atualização curricular desenvolvido desde novembro de 2014, o Centro Cultural Brasil-México (CCBM) decidiu articular seu plano de estudos com os recursos disponibilizados pelo Portal do Professor de Português Língua Estrangeira (PPPLE) como parte de suas estratégias de planificação da aquisição, encaminhadas a integrar os níveis macro (CPLP, IILP), meso (DPLP) e micro (alunos e professores do CCBM) presentes no ensino de PLE no México. A presente comunicação tem como objetivos: a) narrar o trabalho de articulação, a nível teórico e metodológico, entre o desenho curricular do CCBM e as unidades didáticas do PPPLE e b) apresentar o roteiro didático traçado de acordo com as necessidades dos alunos do nosso centro, como exemplo de uso das ferramentas didáticas oferecidas pelo PPPLE. A partir da abordagem comunicativa intercultural (ACIN) proposta por Santos (2004), do modelo de competência comunicativa intercultural articulado por Balboni (2010) e também apoiados nas perspectivas globais planteadas por Kumaravadivelu (2012), desenhamos um plano de estudos para o ensino de PLE que considera o evento comunicativo (reunião de negócios, jantar com amigos, redação de currículo, etc.) a unidade mínima de aprendizagem, onde o objetivo final é que o aluno seja capaz de interagir em situações comunicativas a partir do conhecimento dos códigos verbais, dos códigos não verbais e dos valores culturais implícitos numa interação específica.

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SIMPÓSIO 60 – O PASSADO-PRESENTE: AS CANTIGAS MEDIEVAIS E A CONTEMPORANEIDADE

Coordenadores:
Maria Fernanda Garbero de Aragão – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – nandagarbero@gmail.com
Xoán Carlos Lagares Diez – Universidade Federal Fluminense - xlagares@id.uff.br


RESUMOS APROVADOS

1) As Cantigas de Santa Maria: aspectos literários e linguísticos
Autor(es): Ana Carolina Cangemi ( Universidade Estadual Paulista,carolcangemi@gmail.com)
Resumo: Um texto literário explora todas as possibilidades da língua, analisa e explica as riquezas expressivas, que pouco a pouco penetram no leitor, preparando-o para, mais tarde, realizar outros exercícios que não só o de leitura. É por meio dessa concepção que trabalhamos com as Cantigas de Santa Maria (CSM) e que pretendemos discutir de que forma a literatura e a linguística histórica podem auxiliar no entendimento de questões contemporâneas. As CSM, compiladas no século XIII por Afonso X, o Rei Sábio são uma coleção de 420 poemas que recontam milagres das intercessões da Virgem Maria, datados do final do século XIII. Muitas vezes os poemas, escritos na língua medieval galego-português – língua preferida pelos poetas líricos daquela época –, são iluminados em miniaturas de página inteira. A importância do estudo de um corpus poético, do português medieval consiste em revelar os momentos de claridade, de intenso brilho, presentes na literatura
e na língua da época da história humana que teve momentos de obscuridade tão proclamados.
Email: carolcangemi@gmail.com
Palavras-chave: Cantigas de Santa Maria; Português Arcaico; Literatura Medieval; Linguística Histórica
Bibliografia básica:
AFONSO X O SABIO. Cantigas de Santa María: edición facsímile do Códice de Toledo (To). Biblioteca Nacional de Madrid (Ms. 10.069). Vigo: Consello da Cultura Galega, Galáxia, 2003.
CASTILHO, A . Tratado de metrificação portuguesa. 5ª edição. Lisboa: Empreza da Historia de Portugal/Livraria Moderna Typographia, 1908[1850].
CASTRO, B. As Cantigas de Santa Maria: um estilo gótico na lírica ibérica medieval. Niterói: Universidade Federal Fluminese, 2006.
CUNHA, C. Estudos de Poética Trovadoresca: versificação e ecdótica. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1961.
MASSINI-CAGLIARI, G. A música da fala dos trovadores: estudos de prosódia do português arcaico, a partir das cantigas profanas e religiosas. Tese (Livre docência em Linguística). Faculdade de Ciências e Letras-UNESP, Araraquara, 2005.

2) Transcriação e performance como procedimentos de atualização da lírica medieval
Autor(es): Marco Catalão (UNICAMP) marcatalao@yahoo.com.br
Resumo: Partindo da constatação de que as cantigas medievais têm sido abordadas tradicionalmente como documentos (especialmente nos livros didáticos brasileiros destinados ao ensino de literatura), propomos uma nova abordagem que lhes restitua o caráter artístico. Para tanto, apresentamos dois procedimentos fundamentais: a transcriação poética para o português contemporâneo, com valorização do aspecto sensorial do verso, e a ênfase no aspecto performativo das cantigas, quase sempre ignorado. Como complemento à nossa análise teórica, apresentamos os resultados de uma intervenção realizada em escolas públicas brasileiras com o intuito de aproximar os leitores contemporâneos da lírica medieval.
Email: marcatalao@yahoo.com.br
Palavras-chave: lírica medieval; ensino de literatura; releituras; transcriação; performance
Bibliografia básica:
CAMPOS, Haroldo de. Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. Semiótica da literatura. São Paulo: educ, p. 53-74, 1987.
COHEN, Rip. 500 Cantigas d’Amigo: Edição Crítica/Critical Edition. Porto: Campo das Letras, 2003.
MONGELLI, Lênia Márcia. Fremosos cantos : reflexões metodológicas sobre a lírica galego-portuguesa, Bulletin du centre d’études médiévales d’Auxerre | BUCEMA [En ligne], Hors-série n° 2 | 2008, mis en ligne le 24 janvier 2008, consulté le 08 novembre 2014. URL : http://cem.revues.org/9112 ; DOI : 10.4000/cem.9112.
OLIVEIRA, Antonio Resende de. O trovador galego-português e o seu mundo. Lisboa: Notícias, 2001.
RECKERT, Stephen; MACEDO, Helder. Do cancioneiro de amigo. Lisboa : Assírio & Alvim, 1996.

3) Fantasia Leiga para um rio seco: oralidade e memória na experiência de um sertão
Autor(es): Ana Cristina Moreira Pessôa
Claudete Daflon dos Santos
Resumo: Elomar Figueira de Mello, compositor, poeta e cancionista, uniu em suas composições a temática ficcional de cavaleiros medievais e o cotidiano do homem comum do sertão. O autor transita entre a linguagem ordinária e a poética, entre a música popular e a erudita, numa obra que é corpo, voz e encontro entre o artista, o leitor e o sertão dramatizado.
O presente trabalho tem como objetivo o estudo do álbum "Fantasia Leiga para um Rio Seco", de 1981. Marcado pela temática da seca e do sofrimento sertanejo, associados à oralidade regional e à orquestra de presença dramática. Composta ora por um violão, flauta ou violino solitários, ora por um forte côro de sopro, a construção instrumental remete à visão trágica do silêncio e ao estremecimento da orquestra ante os gemidos da terra.
Elomar utiliza o arcaico como forma de dialogar com o presente e constrói uma obra cuja contemporaneidade é fundada na relativização das categorias de tradicional e contemporâneo, poético e prosaico. Entrelaça as tradições poética e popular, retoma aspectos do passado para em seguida renová-los no cenário de um sertão fictício, o qual se torna contemporâneo no momento de fruição da obra.
O artista costura passado e presente ao harmonizar tradições, movimento a partir do qual constrói seu projeto artístico. Construiu, assim, sua própria contemporaneidade, ao assumir a presença do passado no presente de sua escrita e, dessa forma, conseguir lançar um olhar crítico para seu próprio presente.
Dessa forma, analisando-se oralidade e estética sob a perspectiva proposta por Paul Zumthor, pretende-se compreender o objeto artístico como um dispositivo de memória e imaginação sensitivas, o qual utiliza a mistura das influências para chamar o leitor a criar, através da experiência estética, uma percepção de sertão.
Email: ana.cristinampessoa@gmail.com
Palavras-chave: Elomar Figueira de Mello; tradição; canção; oralidade; experiência
Bibliografia básica:
BENJAMIN, Walter. Experiência e Pobreza. Obras escolhidas, I. Magia e técnica. Arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BONDÍA, Jorge Larrossa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação. Nº 19, 2002.
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2010.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção e leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. 1 ed. São Paulo: Companhia das letras, 1993.

4) Diálogos poéticos: leitura, reescrita e permanência da poesia provençal e trovadoresca
Autor(es): Carla Cristina Fernandes Souto - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo IFSP
carla.souto@gmail.com
Resumo: Pensando nas ideias do teórico Antoine Compagnon, que discute as relações entre literatura e autor, leitor, realidade e linguagem em sua obra O demônio da teoria, buscamos investigar como compreendemos a tradição literária, tanto no seu aspecto dinâmico (histórico) quanto no seu aspecto estático (valor). Para realizar semelhante estudo, partimos do trabalho com poesia provençal e poesia trovadoresca nas disciplinas de Literatura Ocidental e Literatura Portuguesa, calcado tanto na leitura, análise, interpretação e recriação de poemas empreendida pelos os alunos do curso de Letras, quanto nos debates e pesquisas sobre obras contemporâneas que resgatem a temática e as formas poéticas deste período. O presente trabalho se propõe também a investigar a permanência de tais poéticas na cultura brasileira, além da recepção que elas recebem dos leitores contemporâneos. Para levar adiante a tarefa, dialogaremos com o material produzido pelos discentes, que
buscam escrever textos que promovam a interlocução com as suas leituras e que reconheçam, retomem, subvertam e atualizem os textos provençais e trovadorescos. Acompanha-nos ainda, em semelhante viagem pelo universo poético, o livro de Geraldo Holanda Cavalcanti, A herança de Apolo, uma verdadeira cartografia sobre poesia, poeta e poema.
Email: carla.souto@gmail.com
Palavras-chave: Tradição literária, recriação poética, trovadorismo, poesia provençal, permanência estética.
Bibliografia básica:
CAMPOS, Augusto de. Verso reverso controverso. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1988.
CAVALCANTI, Geraldo Holanda. A herança de Apolo - poesia poeta poema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria - Literatura e senso comum. 2.ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012.
MONGELLI, L. M. Fremosos Cantares - Antologia da Lírica Medieval Galego-Portuguesa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
SPINA, Segismundo. A lírica trovadoresca. 3.ed. São Paulo: Edusp, 1991. (Col. Texto e arte)

5) FABIÃO DAS QUEIMADAS: A IMPORTÂNCIA SOCIAL DE UM TROVADOR QUE MODOU SUA CONDIÇÃO DE ESCRAVO ATRAVÉS DA MÚSICA E DA LITERATURA
Autor(es): GILVAN DE OLIVEIRA - INSTITUTO FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE + GILVAN.OLIVEIRA@IFRN.EDU.BR
Resumo: Este trabalho pretende fazer uma ponte entre a literatura medieval e a literatura popular nordestina. O estudo faz um recorte histórico das primeiras manifestações literárias no interior do Rio Grande do Norte, entre o final século XIX e a primeira metade do século XX e discute a importância do poeta Fabião das Queimadas para popularização do gênero “canção”, uma das principais manifestações literárias da Idade Média. Para esta análise, foram selecionados poemas do Romanceiro Potiguar e também contribuições de autores que procuram discutir o papel social do trovador nesses dois períodos distintos. Como resultado é possível destacar pelo menos três motivos que favorecem a ascensão desse artista, tanto no Nordeste como na Europa: ruralização através da qual o afastamento dos centros urbanos gera a necessidade de uma figura capaz de agradar tanto a elite como também os moradores dos vilarejos e cidades pequenas; a forte religiosidade
influenciada pelo pensamento católico, seguida de uma sociedade pouco letrada e atrasada em relação ao conhecimento científico. A pesquisa avalia também que o papel do trovador foi diminuindo em ambos períodos à medida que as pessoas foram tendo mais acesso às novas tecnologias e às grandes fontes de informação. Na Idade Média, isso ocorre com fortalecimento das cidades, o advento do comércio e a criação das universidades. No Nordeste brasileiro, isso acontece com o advento de novas mídias como o rádio na primeira metade do século XX e posteriormente a televisão.
Email: gilvansbt@yahoo.com.br
Palavras-chave: TROVADOR, CULTURA POPULAR, LITERATURA POTIGUAR
Bibliografia básica:
GURGEL, Deífilo. Romanceiro Potiguar. Natal, Secultrn/FJA, 2012.
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular Na Idade Média E No Renascimento: O Contexto de François Rabelais. Tradução: VIEIRA, Yara Frateschi. São Paulo: Editora Hucitec, UnB, 2008.
GALVÃO, Hélio. Romanceiro Pesquisa e estudo. Natal: UFRN – Fundação Cultural Hélio Galvão/Fundação Sócio Cultural Santa Maria, 1993
ROMERO, Sílvio. Cantos Populares do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1954
O romanceiro tradicional no Nordeste do Brasil: uma abordagem semiótica. Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós-graduação em Lingüística da USP. Tomos I e II. São Paulo: 1999
RESENDE, Viviane. Literatura de cordel: uma aproximação etnográfica ao gênero. 2007. Anais eletrônicos. Disponível em:
. Acesso em 29 set. 2011.

6) O “IMBOLÁ” DO TROVADOR CONTEMPORÂNEO ZECA BALEIRO: PERMANÊNCIAS DA LÍRICA MEDIEVAL
Autor(es): Carla de Quadros - Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Loteamento Morada da Bela Vista, 368, Cep: 44574520 Santo Antonio de Jesus Bahia – Brasil. E-mail: quadros.carla@yahoo.com.br
Resumo: O artigo em tela assenta-se numa discussão já posta: a relação existente entre a herança trovadoresca no nosso cancioneiro popular. Reconhecemos, no entanto, que tal proposta requer reflexões passíveis de sinalizar as marcas das cantigas medievais inscritas de maneira redimensionada na canção popular brasileira, pois, como nos adverte Mario de Andrade (1980), falta uma história sobre a música popular brasileira que descreva de forma substancial os três séculos do Brasil Colônia. O autor, no entanto, reconhece que um povo miscigenado, como o brasileiro, e sob a forte influência da colonização lusitana, carrega consigo referências claras à lírica trovadoresca. O tema complexo se caracteriza através de um estudo pautado em reconhecer a permanência, assim como o resgate e posteriores releituras da lírica medieval num diálogo, que por sua natureza, nasce híbrido. O nosso córpus constitui-se na análise da produção musical de um cantor/trovador
contemporâneo, José de Ribamar Coelho Santos, mais tarde legitimado Zeca Baleiro, hoje considerado um dos mais importantes compositores da Música Popular Brasileira, agregando a ela a constância do amor medieval e evidenciando marcas indubitáveis das cantigas de amor, como também de escárnio e maldizer, amplia o debate sobre a permanência do passado no presente mediante o incisivo registro da herança medieval incorporada à cultura brasileira. Entendemos ser a nossa pesquisa de caráter analítico-reflexivo e que a mesma não prescinde do reconhecimento de que, ao optarmos por esse recorte analítico, asseguramos que letra e música são vertentes de uma mesma moeda, isto é, melodia e harmonia são indissociáveis.
Email: quadros.carla@yahoo.com.br
Palavras-chave: lírica medieval; Zeca Baleiro; canção; contemporâneo; hibridismo
Bibliografia básica:
AGUIAR, Joaquim. A poesia da canção. São Paulo, Scipione, 1996.
ANDRADE, Mário de. O Ensaio sobre a música brasileira. São Paulo. Martins Editora, 1980.
BERARDINELLI, Cleonice. Cantigas de trovadores medievais em português moderno. Rio, Simões, 1953.
FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da Memória e outros Ensaios. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
SPINA, Segismundo. A Lírica Trovadoresca. São Paulo: USP, 1996.

7) O que cantar?: Gêneros, formas e temas do cancioneiro trovadoresco na contemporaneidade poética brasileira.
Autor(es): Márcio Ricardo Coelho Muniz - Universidade Federal da Bahia
marciomuniz@uol.com.br
Resumo: Nos 'corpora' poéticos de autores brasileiros que nos séculos XX e XXI revelam diálogo com a tradição da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa (Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Guilherme de Almeida, Hilda Hilst, Stella Leonardos, Francisca Nóbrega, Marly Vasconcelos, José Rodriges Paiva etc.) são perceptíveis algumas estratégias na construção poética a revelar e a embasar o diálogo: referência explícita aos gêneros poéticos (cantiga de amor, cantiga de amigo, cantiga de maldizer, bailada, bailia, barcarola etc.); recorrência a formas próprias daquela tradição (uso do dístico seguido de refrão, uso dos versos redondilhos, combinações rímicas comuns ao trovadorismo galego-português etc.); referências a poetas, personagens, lugares ou elementos daquela tradição (D. Dinis, Joan Zorro, Leonoreta, Lisboa, Avelaneira, Fremosinha etc); uso de versos ou estrofes, em modo de mote, de poemas trovadorescos glosados no poema contemporâneo, entre outras
práticas poéticas. Constatas essas estratégias, nossa comunicação pretende detalhar, sistematizar e interpretar essas ocorrências, buscando revelar-lhes as permanências, as recriações e as ressignificações propostas pela poética contemporânea brasileira.
Email: marciomuniz@uol.com.br
Palavras-chave: Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa; Poesia Contemporânea Brasileira; Gêneros Poéticos.
Bibliografia básica:
BREA, Mercedes (Coord.). Lírica profana galego-portuguesa. Santiago de Compostela: CILL Ramón Piñeiro, 1992. 2 vols.
MALEVAL, Maria do Amparo Tavares. Poesia medieval no Brasil. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha, 2002.
MONGELLI, Lênia Márcia (Org.). Fremosos cantares: antologia da lírica medieval galego-portuguesa. São Paulo: Martim Fontes, 2009.
OLIVEIRA, António Resende de. Depois do espetáculo trovadoresco: a estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV. Lisboa: Colibri, 1994.
TAVANI, Giuseppe. A poesia lírica galego-portuguesa. Lisboa: Comunicação, 1990.

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↑ índice

SIMPÓSIO 61 – TRAVESSIAS E DIÁLOGOS LITERÁRIOS

Coordenadores:
João Vianney Cavalcanti Nuto - Universidade de Brasília / Departamento de Teoria Literária e Literaturas – litcult.unb@gmail.com
Mônica Horta Azeredo – Secretaria de Educação do Distrito Federal monicahortaazeredo@gmail.com

1) “A EXPERIÊNCIA INACABADA DA MORTE NO ROMANCE GRÁFICO BERÇO DE CORVOS, DE MARÍA ZARAGOZA E DÍDAC PLÀ
Maria Aline de Andrade Correia
Berço de corvos é um romance gráfico escrito por María Zaragoza e desenhado por Dídac Plà, texto no qual se focaliza a figura feminina de uma personagem sem nome, apenas denominada como “prostituta”. Neste, a protagonista demonstra que a contemplação dela mesma diante do espelho apresenta-se na imagem de um outro espelhado, configurando-se numa alteridade especular transmutada na presença da morte nesse objeto. O romance gráfico é construído a partir de um universo claustrofóbico adaptado diretamente do conto homônimo de María Zaragoza (Cuna de cuervos), em que o ato da personagem em mirar-se pelo espelho configura-se, do outro lado, em um vislumbrar apenas a imagem da morte, com quem trava diálogos ao longo da história. Nessa pesquisa, é provável que se possa demonstrar que a questão da alteridade pode não ser apenas verbal, mas também imagética.
Para Berço de corvos, então, há uma complexidade imagética no trato da alteridade, ou, em outras palavras, a forma visual como as personagens são desenhadas estão interligadas dialogicamente com o resultado de sua psique. Isso quer dizer que a questão do espelhamento nesse texto não está ligada apenas a uma ilusão especular criada por um espelho, mas principalmente como resultado do olhar do outro que foi posto na vida da protagonista, toda repleta de uma história de violência física, sexual e psicológica. Dessa maneira, graficamente os corpos das personagens foram dispostos em uma assimetria disfuncional, tomando emprestadas as formas geométricas e estas empregadas de maneira irregular, em desalinho, quase deformadas, assim como os quadros de organização do espaço visual do romance gráfico.
Assim, a morte na própria imagem da prostituta torna-se um vaticínio para o seu fim, uma experiência limiar e inacabada entre a vida e a morte: a sua loucura. Em se tratando do tema da loucura, há de se lembrar de Lima Barreto, escritor brasileiro do século passado, que intitula o seu relato das várias passagens que teve no hospício Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro: “Cemitério dos vivos”. Compreendendo, então, o local dos mortos como um cemitério, ainda há a vivacidade de um ser humano na loucura: os loucos não estão em si mortos, mas vivem numa suspensão da vida exatamente plena. Dessa maneira, esse estudo tenta demonstrar como a imagem da morte em Berço de corvos, nesse contexto, torna-se uma experiência de inacabamento para a personagem: ainda viva, a prostituta experimenta um acontecimento de pós-vida, a imagem da morte no espelho.
Palavras-chave: Romance gráfico – Morte – Inacabamento – corpos assimétricos – Berço de corvos

BIBLIOGRAFIA INICIAL
BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
BAKHTIN, Mikhail M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, Mikhail M. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.
BAKHTIN, Mikhail M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Unesp, 2010².
BECKER, Ernest. A negação da morte. Trad. Luiz Carlos do Nascimento. Rio de Janeiro: Record, 2007.
BRAIT, Beth. (org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Ed. Unicamp, 1997. BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 2004.
DOLTO, Françoise. A imagem inconsciente do corpo. Trad. Noemi Moritz e Marise Levy. São Paulo: Perspectiva, 2010.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O duplo. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Ed. 34, 2011.
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Trad. Beatriz Borges. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
EISNER, Will. Narrativas gráficas. Trad. Leandro Luigi Del Manto. São Paulo: Devir, 2008.
EISNER, Will. Quadrinhos e Arte sequencial. São Paulo: WMF; Martins Fontes, 2010.

2) A carnavalização em Mar Morto: diálogos entre Bakthin e Jorge Amado
Denise Dias (Instituto Federal do Amazonas-IFAm (Brasil) e Universidade de Brasília – UnB (Brasil)
denise9345@hotmail.com
Resumo:
O presente trabalho investiga como o romance de Jorge Amado, Mar Morto, condensa o universo carnavalizado e como se dá o princípio deste mundo às avessas na narrativa. O embasamento teórico, trabalharemos com a Teoria da carnavalização na literatura, do teórico Russo Mikhail Bakthin (1999), que aclara a maneira pela qual o carnaval pode ser transposto à linguagem literária, estuda o processo de carnavalização como manifestação da cultura popular e também de subversão do poder. As festividades são formas primordiais marcantes da civilização humana, contudo, para serem consideradas verdadeiras devem emanar não do mundo material, mas sim do mundo das ideias. A obra analisada tida pelos críticos literários como sendo de grande representação lírica, traz traços de carnavalização, pois apresenta uma linguagem carregada de símbolos e alegoria, apontando a divergência entre o oficial e não-oficial, provocando a ruptura do que é institucionalizado. Revelando o grande acervo sobre a cultura popular baiana presente também na cultura brasileira em geral. A obra conta a história de amor entre Guma e Lívia sendo publicada em 1936, insere fragmentos desse período histórico, a fase política de 1930, era Vargas. Metodologia de natureza qualitativa apoia-se no raciocínio por dedução.
Palavras-chave:
Carnavalização. Bakhtin. Jorge Amado.
Bibliografia básica:
AMADO, Jorge. Mar morto. ed. 67ª . Rio de Janeiro. Record, 1994.
DUARTE, E. A. Jorge Amado: romance em tempo de utopia. Rio de Janeiro: Record; Natal: UFRN, 1996.
BAKHTIN, Mikail Mikhailovitch. Problemas da poética de Dostoiévisk; 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,1981.
__________Estética da criação verbal; trad. feita a partir do francês por Maria Eumantina Galvão; revisão da trad. Marina Appeneller, 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
__________ A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais; trad. Yara F. Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Ed. da Universidade de Brasília, 1999.
BRAIT, B. Ironia em perspectiva polifônica. Campinas: Ed. da Unicamp, 1996.
BURKE, Peter. Cultura Popular a Idade Moderna. Europa, 1500-1800. Trad. Denise Bottmann, 1ª reimp São Paulo:Companhia das Letras, 2010.

3) A ficcionalização do mundo: uma viagem no informe
Elizabeth de Andrade Lima Hazin (Universidade de Brasília - Brasil) ehazin555@gmail.com
RESUMO:
No romance Avalovara (1973), de Osman Lins (1924-1978), lê-se que um mapa para ser exato deveria ter as dimensões do país representado e então já não serviria para nada. Na medida em que Avalovara constitui alegoria do ato de escrever um romance, mapa assume aqui caráter muito particular. Um mapa (como um romance) de modo algum é idêntico ao que representa, motivo pelo qual se utiliza de sistema semiótico complexo. Zumthor afirma que a carta – instrumento de referência e de mensagem – possui uma lógica própria e implica técnicas de criação que trazem a marca da personalidade do autor. Além disso, passa por procedimento de esquematização e de simbolização que atesta, por um lado, seu aspecto informativo e, por outro, a torna – em certo sentido – uma obra ficcional, pois ainda que não venha a ser lida como uma página escrita o é, termina por exigir de quem a examina um tipo particular de leitura e de interpretação. O narrador do romance nos lembra que só existem cidades sonhadas porque existem cidades verdadeiras, sendo estas que dão consistência às que só existem no nome e no desenho. As cidades ficcionalizadas ou ligadas a um espaço irreal não apresentam, segundo ele, a consistência da prancheta nem do nanquim com que trabalha o cartógrafo: nascem precisamente com o desenho e assumem realidade na folha em branco. “Elaborar um mapa de cidades ou de continentes imaginários, com seu relevo e seu contorno, assemelha-se, portanto, a uma viagem no informe”. Suas palavras referem-se à escrita, naturalmente. Assim, levando em conta aspectos da construção desse romance, bem como leituras teóricas sobre os conceitos de espaço e de ficcionalidade, este trabalho pretende refletir sobre uma das ideias que regem Avalovara: a de que a fatura de um romance se assemelha ao trabalho de um cartógrafo.
Palavras-chave: Avalovara, Osman Lins, Ficcionalidade, Representação, Espaço Literário.
Bibliografia básica:
LINS, Osman. Avalovara. São Paulo: Melhoramentos, 1973.
__________. Evangelho na Taba. São Paulo: Summus Editorial, 1979.
SANTOS, Douglas. A reinvenção do espaço. São Paulo: UNESP, 2002.
STEINER, G. Gramáticas da criação. Lisboa: Relógio d’água Editores, 2002.
ZUMTHOR, Paul. La mesure du monde. Paris: Seuil, 1993.

4) O PROBLEMA DA ALTERIDADE EM MARINHEIRO DE PRIMEIRA VIAGEM E AVALOVARA, DE OSMAN LINS
João Vianney Cavalcanti Nuto - Universidade de Brasília / Departamento de Teoria Literária e Literaturas – litcult.unb@gmail.com
Marinheiro de primeira viagem (1963) e Avalovara (1973) são duas obras que trazem marcas da vivência de Osman Lins em diversos países da Europa durante em morou em Paris. Mais que um simples relato de viagem, Marinheiros de primeira viagem é um texto em que , valendo-se alternância de foco narrativo, o autor faz observações e reflexões agudas – muitas vezes irônicas – sobre fatos relacionados com a experiência da alteridade e também sobre a literatura, prenunciando o uso da metalinguagem que caracterizaria seus futuros romances. Destacam-se, entre essas reflexões sobre a alteridade, os comentários irônicos que faz sobre os turistas.
Publicado dez anos após Marinheiro de primeira viagem, Avalovara explora de maneira mais profunda a aprendizagem existencial e cultural da temporada de Osman Lins na Europa. Na linha temática “Roos e as cidades”, o narrador conta os desencontros entre o aspirante a escritor brasileiro Abel e a alemã Anneliese Roos. Apesar da língua falada comum, o francês, os desencontros culturais e existenciais são inevitáveis, o que é expresso alegoricamente pela imagem do Castelo de Chambord, com suas duas escadas em espiral: dois visitantes que subam por essas escadas se veem, se cruzam, mas não se encontram, pois cada escada leva a um cômodo diferente.
Baseado em aspectos das duas narrativas e também no conceito de dialogismo, de Mikhail Bakhtin, além de outras teorias relacionadas com o problema, este trabalho – que se vincula à linha de pesquisa de Estudos Literários Comparados, eixo temático “Criação e intertextualidade em Osman Lins” – pretende demonstrar como os meios da globalização, tais como facilidade de transportes, comunicação e o emprego de uma língua franca são insuficientes para uma verdadeira compreensão do outro se não houver uma verdadeira abertura para a alteridade.
Palavras-chave: Narrativa brasileira do século XX, Osman Lins, Marinheiro de primeira viagem, Avalovara

BIBLIOGRAFIA INICIAL
ANDRADE, A. L. Osman Lins: crítica e criação. Curitiba: Editora Appris, 2014.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Tr. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Tr. Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010.
BAUMAN, Z. Globalização: as conseqüências humanas. Tr. Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. (Tr. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. São Paulo: DP&A, 1999).
IORIS, R. R. Culturas em choque: a globalização e os desafios para a convivência multicultural. (Rio de Janeiro: Annablume, 2007).
LINS, O. Avalovara. São Paulo: Melhoramentos, 1973.
LINS, O. Marinheiro de primeira viagem. São Paulo: Summus, 1980.
NITRINI, S. Poéticas em confronto: Nove, novena e o Novo Romance. São Paulo: Hucitec; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1987.

5) A magia poética da Alegria e do Amor, em Primeiras estórias de Guimarães Rosa
Juliana Estanislau de Ataíde Mantovani - Universidade de Brasília/UnB
julianamantovani@gmail.com
RESUMO:
O projeto poético do autor brasileiro João Guimarães Rosa, amplamente analisado nos pormenores de sua linguagem inovadora ou de sua prosa ritmada e musical, pode ser estendido ao seu trabalho arquitetônico presente em todas as suas obras. Se a literatura brasileira ganhou muito pelas inovações linguísticas de Guimarães Rosa, a língua portuguesa renova-se a partir de sua leitura. Ademais, o projeto ético e filosófico de um novo homem, a partir da figura do homem brasileiro, o rude sertanejo, ou dos seres ilógicos e das crianças, faz de Guimarães Rosa um grande pensador do espaço, da cultura e da identidade brasileira.
O que se propõe analisar neste trabalho é a busca constante da transmutação do modo de ver o mundo, que faz da obra de Rosa uma grande paideia, que incita o jogo do devir, o jogo de atravessar, o jogo das metamorfoses contínuas e comuns de toda forma de vida.
O narrador rosiano põe o leitor em constantes rupturas da lógica, dos limites, dos pragmatismos humanos, a fim de descontruir a automatização dos homens e do mundo, gestando o aprendizado de uma nova leitura do mundo, que destrói os determinismos e lógicas da subordinação, decretando o fim da lógica do senhor e do escravo. Essa nova visão mito-poética faz o homem comum religar-se ao mundo, não como superior, mas como parte integrante que deve aprender o movimento dialético da vida: o nascer e morrer constantes, o transformar-se para perpetuar-se, o ir e vir contínuos e perpétuos.
Assim, neste trabalho, o que se objetiva estudar é a representação das personagens rosianas em busca de sua construção como indivíduos, especialmente no que tange à sua compreensão do amor e da alegria, o que se pode verificar em contos da obra Primeiras estórias, e que em última análise pode ser visto como uma nova proposta de construção interior para o homem brasileiro, diante de sua realidade.
Palavras-chave: Guimarães Rosa. Primeiras estórias. Amor. Alegria. Aprendizagem.

Referências bibliográficas
FARIA, Maria Lúcia Guimarães de. Aletria e Hermenêutica. Tese (Doutorado em Ciência da Literatura – Poética). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Faculdade de Letras, 2005, Primeira Parte, Capítulo I, p. 17-31.
NUNES, Benedito. “O amor na obra de Guimarães Rosa”. In.: O Dorso do Tigre. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1976.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. 1ª edição especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
SOUZA, Ronaldes de Melo. A saga rosiana do sertão. Rio de Janeiro. EdUERJ, 2008.
VERLANGIERI, Iná Valéria. J. Guimarães Rosa: correspondência inédita com a tradutora norte-americana Harriet de Onís. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) Araraquara: Universidade Estadual Paulista – UNESP, Faculdade de Ciências e Letras, 1993.

6) No limiar entre o Eu e o Outro: leitura interartes do conto A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa
Kelly Fabíola Viana dos Santos (Universidade de Brasília) kvyanna@gmail.com
Resumo:
O conto A terceira margem do rio, integrante da obra Primeiras estórias, de João Guimarães Rosa, relata um acontecimento extraordinário: um homem decide abandonar a família e o convívio social para ir viver indefinidamente dentro de uma canoa, no rio. Em sua trajetória pública, este conto influenciou a produção de diversas obras, como canção, cinema e instalação artística. Pretende-se, com este estudo interartes, verificar como os recursos estéticos verbais e não verbais enriquecem as produções artísticas e ampliam a forma de se comunicar sentidos e alteridades. Na análise dos intertextos e das transposições de obras de linguagem verbal em obras de linguagem não verbal, pretende-se verificar como se realizam as acomodações aos recursos estéticos próprios de cada linguagem, sem se desfazer os vínculos com a obra original. As diferentes expressões de alteridade na literatura e nas artes visuais, bem como os limites impostos à linguagem visual em confronto com os limites da linguagem escrita para expressar sentidos e significados, serão analisados a partir da transposição do conto de Guimarães Rosa para a canção de Caetano Veloso e, desta, para a instalação artística de Guto Lacaz. As três obras são homônimas, o que denuncia de imediato a ocorrência do intertexto. As questões de alteridade suscitadas pelas obras serão averiguadas à luz dos estudos de Emmanuel Levinas, Paul Ricoeur, Jacques Derrida e Mikhail Bakhtin.
Palavras-chave: Literatura e outras artes. Alteridade. João Guimarães Rosa. Caetano Veloso. Guto Lacaz.

Referências básicas
ACHER, Michael. Arte Contemporânea: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
AUMONT, Jacques. A imagem. Papirus: São Paulo, 2004.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. Martins Fontes: São Paulo, 1997.
BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: Difel, 2009.
BETTON, Gérard. Estética do cinema. Tradução de Marina Sppenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
DERRIDA. Jacques. O animal que logo sou (a seguir). Tradução de Fábio Landa. São Paulo: Unesp, 2002.
LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós – Ensaios sobre alteridade. Rio de Janeiro, Vozes, 2004.
______. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa, Edições 70, 1980.
RICOEUR, Paul. A metáfora viva. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
______. O si mesmo como um outro. Campinas: Papirus, 1991.
______.Tempo e narrativa – Tomo I. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1985.

7) Nas redes da leitura: um anacrônico paralelismo entre história e ficção
Leny da Silva Gomes (UniRitter)
RESUMO
O autor pernambucano, Osman Lins (1924-1978), exerceu seu ofício de escritor de forma intensa, realizando uma obra ficcional e ensaística, merecedora de renovadas reflexões e estudos críticos. Para o que se pretende discutir neste Simpósio, destacam-se os romances Avalovara (1973), A rainha dos cárceres da Grécia (1976) e Marinheiro de primeira viagem (1963). Cada um a seu modo contribuirá para o estabelecimento de relações que, pretende-se, darão forma a uma leitura/releitura, cujo leitmotiv é o ir e vir, anunciado pelo personagem Abel de Avalovara. Em 1961, Osman Lins viajou à França como bolsista da Aliança Francesa e lá permaneceu durante seis meses. Sua estada na Europa é planejada, tendo como objetivo o conhecimento da língua, dos lugares, cidades, da arquitetura, das artes. Dessa experiência, resultou o livro Marinheiro de primeira viagem, situado entre os gêneros viagem e romance. Em Avalovara, o personagem Abel, um aspirante a escritor, realiza viagem semelhante. Nas idas e vindas por cidades europeias, entra em contato com diferentes elementos culturais, hibridamente representados em visões surpreendentes. Uma delas acontece em Amsterdam e evoca a Invasão Holandesa, mediante uma pintura de Rembrandt. O episódio histórico que deixou marcas culturais, principalmente em Pernambuco, será reiterado no romance A rainha dos cárceres da Grécia. Objetiva-se tratar o tema viagem sob o enfoque de lugares outros, experienciados por esse personagem que realiza um percurso inverso ao dos conquistadores holandeses. Esses confronto/encontro entre o ontem e o hoje histórico-culturais, entre o centro e a periferia de um cenário assimétrico põem em questão a dependência, a opressão e a conquista do lugar próprio. O conceito de lugar virá inicialmente de Heiddeger (Construir, habitar, pensar), também o de cultura, a ele ligado: colo-is, colere, cultum (habitar, cultivar, proteger, cultuar), estendendo-se aos de Marc Augé, Não lugares (1994); O antropólogo e o mundo global (2014).
Palavras-chave: Osman Lins, viagem, lugar, Invasão Holandesa.

REFERÊNCIAS
AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994.
AUGÉ, Marc. O antropólogo e o mundo global. Petrópolis: vozes, 2014.
HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão. 6ª ed. Petrópolis: vozes, 2010.
LINS, Osman. Avalovara. Apres. Antonio Candido. São Paulo: Melhoramentos, l973.
LINS, Osman. A rainha dos cárceres da Grécia. 2ª. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1977.
LINS, Osman. Marinheiro de primeira viagem. 2ª. ed. São Paulo: Summus, 1980.

8) Tradução de literatura peruana ao português: uma experiência em sala de aula
Lucie de Lannoy - Universidade de Brasília
lulannoy@gmail.com
A disciplina Leitura Crítica de Textos para Tradução, do Curso de Tradução-Espanhol, na Universidade de Brasília, ministrada no 2º semestre de 2013, propiciou uma atividade de tradução cujo objetivo foi sensibilizar os alunos para a percepção de diferentes projetos tradutórios, ou até mesmo para a falta de um projeto tradutório, na tradução do texto literário Contra el secreto profesional, do autor peruano César Vallejo para o português. Os critérios que foram adotados para a análise das traduções feitas pelos próprios alunos contaram com textos de Berman (2007), como a Tradução e a letra ou o albergue do longuínquo, que trata, entre outros, das tendências deformadoras do tradutor, e A tradução e seus discursos (2009), do mesmo autor. O trabalho mostrou vários aspectos culturais e linguísticos próprios de tradutores em formação de língua portuguesa, os quais são apresentados e analisados neste artigo.
Palavras-chave: Tradução. Literatura peruana. Ensino. Língua portuguesa.
Bibliografia
BERMAN, A. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Trad. Marie-Hélène C. Torres, Mauri Furlan, Andreia Guerini. Rio de Janeiro, 7Letras, 2008.
________. A tradução e seus discursos. Alea, vol. 11, No. 2, Rio de Janeiro, dec. 2009.
VALLEJO, C. Contra el secreto professional. Lima: Mosca Azul, 1973.

9) Sonhos roubados de umas meninas da esquina: traduções intersemióticas ou dialogismo intertextual entre literatura e cinema brasileiros
Gislene Maria Barral Lima Felipe da Silva (UnB) e
Mônica Horta Azeredo (Secretaria de Educação do Distrito Federal)
Resumo:
O livro As meninas da esquina: diários dos sonhos, dores e aventuras de seis meninas do Brasil, de Eliane Trindade, traz o relato de seis adolescentes que vivem da prostituição, e inspirou o filme Sonhos roubados, dirigido por Sandra Werneck. A partir desses produtos culturais, propõe-se analisar como a linguagem e o discurso dessas jovens brasileiras participam da construção de suas identidades, bem como compreender as estratégias do processo tradutório de uma obra verbal para uma audiovisual e suas ressignificações. Busca-se traçar um panorama dialógico apontando as aproximações e distanciamentos na representação desse grupo de adolescentes nos dois diferentes gêneros e suportes. Com base em categorias teóricas desenvolvidas por Mikhail Bakhtin, especialmente noções como polifonia, dialogismo, intertextualidade e gêneros, entre outras, pretende-se explicitar o processo de construção identitária iniciada com o "diário de encomenda", culminando com a ficcionalização do que, a priori, aparece deguisé como "real".
Palavras-chave: Literatura. Cinema. Representação. Gêneros Discursivos. Juventude.
Bibliografia básica:
TRINDADE, Eliane. As meninas da esquina. Riod e Janeiro: Record, 2010.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. 5. ed. Trad. de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. [1963]
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
BRAIT, B. Bakhtin. Dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009.

10) TRAVESSIAS E DESLOCAMENTOS EM A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA
Roberto Medina (UnB)
Ana Maria Agra Guimarães (UnB)
Os lugares de trânsito em A Rainha dos Cárceres da Grécia são múltiplos e convergentes. Neles, transitam tanto a personagem Maria de França como a escritora que a concebe via o narrador-diarista-ensaísta. Assim é que vinda do interior Maria de França aporta na cidade grande: Recife. A partir de sua chegada, deambula pelas ruas recifenses e pela escritura. Maria de França protagoniza o romance quase indédito de Julia Marquezin Enone, que por sua vez é também uma estrangeira advinda de uma pequena cidade nordestina, migrando para São Paulo, onde se reconstrói por meio da escritura. Cria sua personagem com fortes traços identitários que refletem e refratam a sensação de estrangeirice. A personagem do romance de Julia Marquezim Enone erra pela cidade como transeunte da angústia gerada pela opressão da burocracia, pelos fracassos nos empregos e pela situação ditatorial no Brasil da década de 70. É nesse espaço às avessas que o romancista Osman Lins irmana criador e criatura – Julia Marquezim Enone e Maria de França. Tal espaço é configurador da subjetividade, onde se encena a experiência vital dos indivíduos que tentam se inscrever no mundo. Essa trajetória errante promove via escritura a construção de uma almejada pátria pessoal como possibilidade de pertencimento, o que vem a sucumbir na malha textual. Enquanto isso, surge no romance “en abîme” a figura lendária de Ana, habitante da Grécia, denominada por seus contemporâneos de “a rainha dos cárceres”. Trata-se, especularmente, de uma personagem em movimento e deslocada no microcosmo da urbe grega. O presente estudo prioriza o espaço como palco onde se desenrola o drama da loucura e da segregação das personagens que vivem em cidades adversas, causadoras de dispersão e de isolamento. Nessa investigação, são utilizadas, como aporte teórico, a noção de carnavalização de Mikhail Bakhtin, a de loucura de Michel Foucault e a de fora do lugar de Edward Said para analisar o percurso da viagem empreendida pelos seres ficcionais tomados como estrangeiros na casa do outro, ao procurarem uma saída mediante a inscrição da existência na urdidura romanesca.
Palavras-chave: Espaço; Cidade; Estrangeiro; Fronteira; Osman Lins.
Referências:
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2010.
LINS, Osman. Evangelho na taba − outros problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1979.
LINS, Osman. A Rainha dos Cárceres da Grécia. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
LINS, Osman. Guerra sem testemunhas (o escritor, sua condição e a realidade social). 2. ed. São Paulo: Ática, 1974.
LINS, Osman. Do Ideal e da glória - Problemas inculturais brasileiros. 3. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1977.
SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

11) A EQUIPOLÊNCIA LINGUÍSTICA EM MÁRIO DE ANDRADE E SEU HERÓI SEM CARÁTER
Sâmella Michelly Freitas Russo (UnB)
samellarusso@gmail.com
Resumo:
Escrito em 1928, no auge do movimento modernista, e precursor daquilo que Robert Stam chamou de “realismo mágico”, o romance Macunaíma de Mário de Andrade explora as idiossincrasias da língua portuguesa para fazer ressoar uma linguagem genuinamente nacional. A exemplo do que ocorreu com as vanguardas europeias, em Macunaíma deparamo-nos com o uso de elementos arcaicos da cultura indigenista brasileira na construção de um romance polifônico. O texto romanesco perpassa a dicotomia estabelecida entre o arcaico e o moderno, o primitivo e o civilizado, colocando em equipolência o erudito e a tradição popular. Ao recorrer a elementos primitivos e arcaicos da língua na construção de seu texto, Mário de Andrade faz ressoar as premissas modernistas de 1922, fundamentadas na recusa das convenções de um realismo mimético. A narrativa agrega o sincretismo linguístico emanado das lendas luso-brasileiras, amazonenses e africadas na constituição do espaço romanesco e reverbera o pensamento bakhtiniano em suas mais variadas instâncias: o mundo carnavalizado, a presença das múltiplas vozes e a polifonia cultural. Comparado à Odisseia brasileira, Macunaíma reveste-se de um primoroso trabalho linguístico, que permite o contato, o diálogo e a metamorfose de linguagens diametralmente opostas, aproximando-se da sátira menipeia. Os personagens são submetidos a transformações mágicas, convergindo no poder de renovação desse povo que habita o mundo andradiano. Pretende-se assim analisar de que forma a prosa-poesia polifônica e a miscelânea linguística de Macunaíma e seu herói sem caráter convergem na representação de uma literatura utópica, que almeja engendrar uma nacionalidade imaginária.
Referências bibliográficas:
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 32. ed., São Paulo: Villa Rica, 2004.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 1981.
CAMPOS, Haroldo de. Morfologia de Macunaíma. São Paulo: Perspetiva, 1973.
LOPEZ, Telê Porto Ancona. Macunaíma: a margem e o texto. São Paulo: Hucitec, Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, 1974.
STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Tradução de Marie-Anne Kremer e Gláucia Renata Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.